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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte IV

20 de Outubro de 2014

Continuando nossa saga pela Borgonha e relembrando o grande almoço no restaurante de Marc Meuneau, descrito no artigo anterior, ainda tínhamos um longo caminho a percorrer logo em seguida. Em vez de um descanso, fazendo uma espécie de detox, partimos para o jantar no hotel Bernard Loiseau, onde estávamos hospedados. E não foi um jantar só para tapiar. Menu de pratos completo com mais uma bateria de vinhos inesquecíveis. Portanto, vamos à luta!

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Chablis Raveneau: Mais incisivo, provocante

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Chablis Dauvissat: Mais textura, mais presença

O início do jantar não poderia ser melhor. Simplesmente, os dois melhores produtores de Chablis sem contestação. Raveneau Chablis Grand Cru Valmur, com uma acidez um pouco mais marcante, estimulante, enquanto Dauvissat Chablis Grand Cru Les Clos, mais opulento, mais textura e um grande final de boca. Os dois vinhedos Grand Cru (Valmur e Les Clos) de certa forma, enfatizaram os estilos distintos de cada produtor. Valmur costuma gerar vinhos mais introspectíveis. Já Les Clos, vinhos mais abertos e de maior textura em boca. Os dois maravilhosos.

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Aqui é Meursault de gente grande

Em seguida vieram alguns Meursauts na sequencia de brancos, mas nenhum foi páreo para o espetacular Coche-Dury Meursault-Perrières. O melhor vinhedo (Perrières) com o melhor produtor para muitos especialistas. Aromas e sabores em sintonia, plenos de riqueza e sofisticação. É praticamente um Grand Cru disfarçado.

Após este início de brancos arrebatadores, uma sequência de tintos não menos surpreendente. Uma mescla de grandes Borgonhas e grandes Rhônes (Norte e Sul), como veremos abaixo:

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Cuvée Cathelin: Lotes especiais de Jean Louis Chave

Só para começar, se não bastasse o produtor “Hors Concours” de Ermitage, Jean Louis Chave, temos o suprassumo de sua produção. O raro Cuvée Cathelin da grande safra de 1990 com somente 2300 garrafas produzidas. Esse vinho só é elaborado em grandes anos com lotes especiais que o domaine separa com extremo rigor técnico. Vinho de personalidade, muita estrutura de taninos. Fica difícil vislumbrar seu apogeu. O epítome da Syrah nesta apelação.

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La Turque: o mais viril da trilogia

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La Landonne: o mais profundo

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La Mouline: o mais feminino

Continuando o sacrifício, o norte do Rhône estava arrebatador. Agora entramos na trilogia de Guigal na apelação Côte-Rôtie. A face feminina da Syrah. É bem verdade, que há uma pitada de Viognier, a uva branca nobre do Rhône, exceto no La Landonne. Todos espetaculares, evoluídos, de safras nobres como 85 e 88. O la Mouline 1985 é o mais feminino. Ele tem uma porcentagem maior de Viognier, além de um solo mais calcário que fornece muita elegância ao vinho. Textura sedosa, aromas florais e de especiarias inebriantes. Já La Turque 1988 é mais viril, masculino, com persistência aromática expansiva. Um Côte-Rôtie de raça. Por último, o La Landonne 1988, 100% Syrah. Tinto profundo, intenso e taninos de rara textura. Vida longa, mas já extremamente prazeroso. Outra trilogia deste porte, só mesmo Angelo Gaia com seus três Barbarescos “franceses” (Sori Tildin, Sori San Lorenzo e Costa Russi).

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Clos de Tart: Estrutura fantástica

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Michel Gaunoux: Corton de estilo

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Hubert Lignier: especialista da apelação

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Belo produtor numa grande safra

Em resposta ao sublime grupo do Rhône, agora foi a vez dos Borgonhas tintos. Que tal começarmos com um Clos de Tart 1988? Vinho de estrutura singular, comparável aos melhores Grands Crus da Côte de  Nuits, sem exceções. A idade parece não ter chegado. Muito agradável tanto nos aromas, como em boca, mas ainda guarda vários segredos para os mais pacientes que conseguem  guarda-lo. Absolutamente único. Em seguida, Sérafin Père & Fils Charmes-Chambertin Grand Cru 1990. Charme é tudo que este vinho tem. Ao mesmo tempo delicado, ao mesmo tempo viril, profundo. Uma grande safra ainda em evolução, porém já muito prazeroso. Seguindo a sequência, a prova inconteste que os grandes Borgonhas podem evoluir por décadas. Um deles foi o Domaine Hubert Lignier Clos de La Roche 1978. Como todo Morey, um vinho misterioso, que não se revela por completo. Não denotava idade, com taninos presentes, aromas de evolução bem mesclado com toques frutados e bela expansão em boca. Absolutamente inteiro. Por fim, o deslumbrante Michel Gaunoux Corton Renardes 1959, novamente minha safra. Renardes é um dos Climats de Corton. Uma aula de evolução de um grande Borgonha. Sous-bois fino, elegante, envolvido em especiarias, toques florais e alcaçuz. Um lindo final!

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Evolução de um grande Sauternes

Final dos tintos, bem entendido. Vieram os queijos, as sobremesas e aí aparece um Sauternes de tirar o fôlego, Château Gilette Crème de Tête 1937. Este Château é muito particular na região de Sauternes. Proveniente da comuna de Preignac, durante todo o processo de vinificação e envelhecimento, o vinho não tem contato com madeira. Pelo contrário, ele passa cerca de dezoito anos em cubas de cimento para seu perfeito amadurecimento. Textura inigualável e aromas incríveis de mel, marron glacé, frutas confitadas e algo floral.

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 Arremate francês: Plateau de Fromage

No final de uma refeição francesa, a tábua de queijos acima é item obrigatório. Estrategicamente, funciona para terminar os vinhos à mesa e ao mesmo tempo, um preâmbulo para os vinhos doces de sobremesa. Além do Sauternes, outras bebidas foram servidas, tais como: Château-Chalon 1964 e um licor Chartreuse La Tarragone du Siècle que será assunto de um artigo específico. Ufá! por hoje é só. O artigo foi tão extenso quanto o jantar. À Bientôt!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte III

16 de Outubro de 2014

Após o primeiro dia em Dijon, fomos almoçar dia seguinte no restaurante Marc Meuneau em Vézelay, local um pouco afastado da cidade. Este duas estrelas no guia Michelin foi o ponto alto entre os restaurantes visitados. Ambiente requintado sem ser pedante, menu bem elaborado e bem executado. Aqui começamos em alto nível provando um Dom Pérignon OEnothèque 1964 com dégorgement (arrolhamento definitivo) em 1999, conforme foto abaixo:

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OEnotèque: lotes especiais para envelhecimento

A cuvée Dom Pérignon (top da Moët et Chandon) tem o dégorgement normalmente em torno de seu oitavo ano.  Algumas safras e lotes especiais podem ser guardados para um dégorgement mais tardio. É o caso deste exemplar Dom Périgon Enotèque 1964, em contato com as leveduras até 1999 quando em então, foi definitivamente arrolhado.  Praticamente um vinho branco, pois as borbulhas eram muito tênues, mas vivo, com bom fresco, e aromas de evolução com notas cítricas, brioche e toques empireumáticos lembrando café. Em seguida o embate de dois gigantes de Montrachet: DRC Montrachet e Domaine Leflaive.

20141003_145040Montrachet DRC: primeira garrafa devolvida

Duelo de gigantes. A primeira garrafa do Montrachet DRC 1988 estava evoluída demais para sua idade. Provavelmente algum problema no armazenamento. Em compensação, a segunda garrafa estava magnífica com o que se espera de um branco deste quilate. Notas de amêndoas tostadas, manteiga, mel, cera de abelha, toques resinosos e empireumáticos. Enfim, um autêntico Le Montrachet.

20141003_144853Montrachet Leflaive: Elegância e personalidade

Este mostrou-se um rival à altura. Embora não tenha a potência do DRC, sua personalidade e extrema elegância, sutileza, fazem deste exemplar, Montrachet Domaine Leflaive, um branco de rara beleza. É a força de boxeador em luvas de cetim. Bravíssimo!

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Aqui não tem vencedores

Como se não bastasse o trio de brancos descritos, uma nova briga de titãs prossegue. Agora entre os tintos, conforme foto acima. O grande La Romanée 1987 ganhou a dianteira pela prontidão de seus aromas e sabores. As notas de rosas, sous-bois, caça, entre outras, estavam presentes, confirmando a bela evolução de um grande Borgonha. Já o Clos de Tart 1996, embora muito agradável, tinha aromas e sabores a resolver. Seus taninos ainda muito presentes polimerizarão com certeza texturas fascinantes. Pode guardar na adega sem sustos. Mais um grande duelo.

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Domaine Huet: a delicadeza da Chenin Blanc

Para passar a régua, que tal um final com um dos brancos do Loire mais emblemáticos, o biodinâmico Domaine Huet. Evidentemente ainda uma criança, pois estes vinhos evoluem por décadas. Com açúcar residual comedido, esbanjou elegância com toques florais, cítricos delicados e uma ponta amendoada. Belo final.

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Esse Bas-Armagnac deixou saudades …

Este foi o final à mesa, mas nos jardins do restaurante, os digestivos entraram em ação. Charutos Cohiba safra 1966 e o ícone Behike acompanhado por cafés e um estonteante Bas-Armagnac safra 1950. Um veludo na boca. Enfim, sobrevivemos.

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II

13 de Outubro de 2014

Continuando o relato da França, após uma viagem de vários “sacrifícios”, chegamos à Borgonha, em Dijon. À noite, fomos jantar no restaurante William Frachot, duas estrelas no guia Michelin, do hotel Chapeau Rouge. Evidentemente, bons pratos, mas foi o menos emocionante de viagem. O serviço de sommellerie deficiente, bem abaixo para um padrão estrelado. Contudo, vamos ao que interessa, os vinhos degustados.

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Charme é tudo que esse vinho tem

Começamos com um Chablis sugerido pelo restaurante que não vale a pena comentar, sobretudo quando o seu vinho sucessor é o Domaine Comtes Lafon Meursault-Charmes Premier Cru 2011. Pessoalmente, meu produtor preferido desta apelação mostrando aromas extremamente elegantes e de uma textura singular em boca. Em seguida, o panorama ficou mais sério. Degustação de três Grands Crus de Vosne-Romanée e um super Premier Cru de Nuits Saint Georges.

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Um autêntico Nuits St Georges

Começando pelo Premier Cru acima, do produtor Prieuré-Roch, o monopólio Clos des Corvées 2008 é vinificado sem desengaço das uvas perfazendo somente três mil garrafas. Vinho de força, personalidade, mas surpreendentemente acessível neste momento. Textura de taninos excelente com bom potencial de guarda.

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Grand Cru ao lado de Vougeot e Musigny

Aqui entramos nos vinhos do Domaine mais famoso, DRC Grands Échézeaux 2002. Grande safra com grande potencial. Degustar vinhos DRC nesta tenra idade (12 anos) é como provar um assado ainda cru. Aromas ainda tímidos, boca fechada com taninos preguiçosos para uma devida polimerização. Sabemos que será grande, mas só o tempo irá comprovar. Quem o tiver na adega, não pense nele por pelo menos dez anos.

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Jardim com menos de um hectare

Este Grand Cru La Romanée Monopole 2006 tem vizinhos ilustres ao seu redor: Romanée-Conti e Richeburg. Para sua idade, safra 2006, apresentou-se surpreendentemente abordável. Aromas finos com toques florais e sous-bois, taninos de ótima textura e acidez refrescante. Evidentemente, vislumbra bons anos de adega. Minha grande dúvida é se sua longevidade é páreo para o próximo vinho, o enigmático e temperamental Romanée-Conti.

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Personalidade multifacetada

Toda vez que degusto este vinho me pergunto: Será que não tenho capacidade para entende-lo?. Os realmente espetaculares, fazendo jus a todo seu glamour foram as duas grandes safras com mais de vinte anos, 85 e 90. Este por exemplo, DRC Romanée-Conti 2006, é um completo infanticídio a tal ponto, que perdeu para seus dois concorrentes. Aroma fechado, boca extremamente equilibrada, taninos bem moldados, mas sem a expansão que faz dele um mito. Com certeza daqui a pelo menos quinze anos, estaremos falando de outro vinho. E assim, perpetua-se a lenda.

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O vinho botrytisado da Borgonha

Para encerrar a brincadeira, provamos o mais famoso e talvez único produtor da Borgonha a fazer um branco doce a partir da uva Chardonnay, Domaine Thévenet. Este vinho de apelação Mãcon Villages, Domaine de La Bongran Cuvée Botrytis 2001,  valeu pela curiosidade, mas não faz frente aos botryitsados clássicos franceses de Sauternes, Vale do Loire (Quart de Chaume e Bonnezeaux) e Alsace (Sélection des Grains Nobles).

Com isso, encerramos nosso primeiro jantar na Borgonha, após um dia cansativo. Amanhã tem mais. Almoço no Marc Meuneau. Ufá!

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte I

9 de Outubro de 2014

Depois de um hiato na rotina de nossas publicações, começa aqui o relato de algumas degustações de alto nível com amigos na França. O nome desta série tenta reproduzir as sensações e o glamour de alguns mitos da enologia, sobretudo francesa. A primeira degustação começa já no avião com toda a energia e expectativa do grupo, conforme relato abaixo.

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Neste primeiro grupo de vinhos degustados, podemos começar pelo Vieux Chateau Certan 1990, um dos tintos entre os melhores do seleto grupo de Pomerol, embora não haja ainda uma classificação oficial para esta apelação. Um vinho muito bem pontuado, mas que não estava em sua melhor forma. De qualquer modo, muito agradável, apesar de haver garrafas melhores. Aliás, um ditado que vai ser recorrente neste artigo é: ¨Em vinhos antigos, não existem grandes safras. Existem grandes garrafas¨.

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Em seguida, fomos para Pauillac com o belo Chateau Latour 1982. Um dos grandes desta safra e muita estrutura em boca. Nariz ainda um pouco fechado e taninos abundantes. Vai evoluir por algumas décadas e mesmo em seu apogeu, permanecerá por longo tempo.

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Os dois tintos foram precedidos pelo Champagne Cristal 2002 e pelo trio de ferro dos brancos de Beaune: Corton Charlemagne Coche-Dury, Ramonet Bienvenue Batart Montrachet e DomaineMichel Niellon Chevalier Montrachet, todos Grand Crus.

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Produtor excepcional

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Vinho raro do Ramonet

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Muita vida pela frente

O champagne Cristal dispensa comentários, sobretudo numa safra relevante como 2002. Bienvenue do Ramonet é um vinho raro e neste exemplar mostrou um toque cítrico sensacional. Já o Corton Coche Dury estava aberto e extremamente cativante enquanto o Chevalier de Michel Niellon mostrava-se introspectivo. Só após algum tempo, seus aromas e sabores desabrocharam.

Enfim, para um início de viagem, nada mal. No próximo artigo, chegada à Borgonha, Dijon, Côte de Nuits.

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