Benjamin Romeo: Contador

21 de Abril de 2015

A Espanha vem se modernizando há algum tempo como várias outras regiões vinícolas da Europa. Contudo, essa nova filosofia muitas vezes oferece novidades um tanto decepcionantes. Vinhos super extraídos, carga excessiva de madeira nova, cepas não condizentes com seu terroir, e por aí afora. Entretanto, não é o caso da bodega acima, Contador, de Benjamin Romeo. Antes de entrar no assunto especificamente, vamos recordar um pouco o terroir riojano.

As três Riojas: Alta, Alavesa e Baja

Na chamada Rioja Alavesa, os solos predominantes são argilo-calcários, gerando vinhos equilibrados, frescos e elegantes. Na Rioja Baja, os solos são argilo-ferruginosos. São solos pesados onde a Garnacha, e não a Tempranillo, se dá muito bem, gerando vinhos com muita fruta porém, encorpados e alcoólicos. É a sub-região menos prestigiada. Por fim, temos Rioja Alta, terroir de nosso artigo em questão, da bodega Contador. A localização de seus vinhedos é bastante estratégica, visto que seu posicionamento no mapa acima fica bem dentro daquele dente infiltrado entre as duas partes de Rioja Alavesa. A sede da bodega fica no vilarejo de San Vicente de la Sonsierra. Estas são as terras de maior altitude em Rioja Alta, proporcionando boa amplitude térmica, fator fundamental para uvas equilibradas. O outro fator importantíssimo é a mescla de solos nesta região, misturando em proporções diversas o calcário, a argila ferruginosa e solos de origem aluvial decorrente de outras eras geológicas do rio Ebro, principal rio da região separando fundamentalmente, Rioja Alavesa com Rioja Alta. No caso da bodega Contador, este dente específico é o único setor de Rioja Alta onde as vinhas localizam-se na margem norte do rio Ebro. Para completar, Benjamin Romeo escolhe a dedo seus vários vinhedos na região, procurando solos específicos e vinhas de idade avançada.

Agora sim, falando fundamentalmente da bodega Contador, trata-se de um projeto relativamente novo iniciado em 1995. De forma muito artesanal e com muita dificuldade, Benjamin Romeo inicia a elaboração de seus vinhos onde ao mesmo tempo, vai adquirindo novos terrenos. Numa escala de microvinificação, elabora seu vinho principal, ícone, chamado de Contador, onde Robert Parker pontua as safras de 2004 e 2005 seguidamente com 100 pontos. Começa aí o nascimento de mais um mito. Como sucesso chama sucesso, Benjamin Romeo expande sua vinícola com novas construções, aquisição de novos vinhedos, mas sem abrir mão de qualidade e detalhes fundamentais na elaboração de grandes vinhos. Seus vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica, o carvalho francês é pessoalmente monitorado, fruto das melhores partidas e inclusive as rolhas, selecionadas de corticeiros da mais alta confiabilidade. Nos vinhedos, trabalha com podas severas, buscando baixos rendimentos por parreira, rendimentos esses facilitados pela avançada idade das vinhas. As fermentações ocorrem em toneis de carvalho tipo tronco-cônicos, no intuito de integrar melhor a madeira na massa vínica e otimizar a extração de suas uvas de alta qualidade. As barricas novas continuam no processo, desde a fermentação malolática, até o longo amadurecimento antes do engarrafamento. Em seu pensamento, o vinho deve estar à altura de uma barrica nova. Portanto, vamos aos vinhos, degustados segundo a ordem de seu mentor.

O vinho de entrada da bodega

O que degustamos tratava-se da safra 2011. São vinhedos de várias procedência mesclando 91% Tempranillo e 9% Mazuelo (Cariñena nas demais regiões espanholas). A produção não passa de dois quilos por parreira. A fermentação dá-se em aço inox com posterior amadurecimento em barricas francesas usadas com um ano de idade. Boa concentração de frutas, toque florais e notas de fumo. A madeira está bem integrada ao conjunto, taninos ainda a resolver, e uma pontinha de álcool sobressalente. Para um vinho básico da bodega apresenta um nível muito bom. Produção de noventa mil garrafas nesta safra.

Aromas fascinantes

Aqui começamos a entrar nos grandes vinhos da bodega. Os aromas elegantes e complexos envolvem frutas maduras, baunilha, toques de fumo, cedro, ervas e defumado. Seu lado floral é encantador, lembrando lavanda, segundo o próprio Benjamin. Bom corpo, macio, taninos finos e belo equilíbrio. Expansivo em boca, suporta bem uns bons anos em adega. Este 100% Tempranillo parte de uma mescla de vinhedos com rendimentos de 1,2 quilos por parreira. Seu amadurecimento em barricas francesas novas leva dezoito meses. Tinto que alia concentração e elegância, sem percebermos traços de madeira excessivos. Produção de 10500 garrafas nesta safra.

Gran Reserva em estilo moderno

Este tinto com 24 meses em barricas, mais 36 meses em garrafas, mostra uma cor super conservada para um Gran Reserva, ainda com traços violáceos. Também partindo de uma mescla de vinhedos, seu blend engloba 82% Tempranillo, 10% Garnacha, 4% Graciano e 4% Mazuelo. Seu frescor é incrível, e sua estrutura tânica é marcante. Deve ser obrigatoriamente decantado. Seus aromas de frutas maduras, ervas, baunilha, fumo, cedro e outros defumados estão perfeitamente integrados com o madeira. Como são vinhas antigas, seu rendimento é de meio quilo por parreira. Grande persistência, expansão e equilíbrio notável. Vai longe em adega. Apenas quatro mil garrafas nesta safra.

Rioja de vinhedo único

Este sim é um vinho de Pago, vinhedo único chamado La Liende com redimentos de um quilo por parreira. 100% Tempranillo vinificado em madeira e posteriormente, amadurecido em barricas novas francesas por 18 meses. Este solo de origem calcário-aluvial, transmite elegância e mineralidade ao vinho. Grande concentração de cor, aromas de frutas escuras maduras, toques de café, florais, e balsâmicos. Estrutura e qualidade de taninos incríveis. Macio em boca, fresco, belo equilíbrio. Vinho de longa guarda em adega. Apenas 5500 garrafas nesta safra.

Rioja branco elegante

Este é o branco topo de gama da bodega com produção de cinco mil garrafas por ano. Parte de vários vinhedos mesclando 73% Garnacha Blanca, 15% Malvasia e 12% Viura. Os rendimentos não passam de um quilo por parreira. Sua fermentação dá-se em barricas francesas com posterior amadurecimento nas mesmas por oito meses. Há bâtonnage periódica durante o processo, buscando maior complexidade aromática, proteção da cor e textura mais sedosa. De fato, sua cor brilhante, pouco evoluída, confirma o processo acima. Aromas elegantes, mesclando frutas maduras, baunilha e tostados finos. Em nenhum momento, a madeira é invasiva. Belo frescor, apesar de seus 15° de álcool. Bom corpo, boa estrutura e de grande expansão em boca. Boa parceria para um Manchego (queijo) pouco afinado.

Esses vinhos são trazidos pela importadora Premium (www.premiumwines.com.br), a qual prima por uma seleção de produtores de alta qualidade. Parabéns aos proprietários Orlando e Rodrigo por mais esta conquista.

Vinhos do Jura: Parte III

15 de Abril de 2015

Neste último artigo, vamos nos fixar nas seis apelações da região, conforme mapa abaixo. Fora as quatro mencionadas no mapa, Crémant du Jura e Macvin são apelações  inseridas nas apelações Côtes du Jura, L´Etoile e Arbois.

Chateau-Chalon: AOC famosa

Côtes du Jura

É a apelação mais genérica, englobando as cinco cepas autorizadas, toda a área de vinhedos, e vários tipos de vinho: brancos, tintos, rosés, Vin Jaune (similar ao Chateau-Chalon), Crémant du Jura e Vin de Paille. Com toda essa generalização, climas e solos são muito variados, a importância do produtor é fundamental como balizamento e separação entre o joio e o trigo. São 640 hectares de vinhas em 105 comunas. O destaque vai para a produção de brancos e os espumantes Crémant du Jura.

Bom resumo dos vinhos

Arbois

Trata-se da apelação mais setentrional, portanto de relevos mais acidentados. É uma apelação de 843 hectares com predominância de vinhos tintos (70%) e (30%) de brancos. São elaborados também vinhos rosés, Vin Jaune e Vin de Paille.

L´Etoile

O nome L´Etoile está relacionado com a posição geográfica da apelação, ou seja, o village fica num vale rodeado por cinco colinas, lembrando as pontas de uma estrela. É um terroir fundamentalmente de brancos com predominância da Chardonnay, e em menor escala, a Savagnin. São vinhos delicados e elegantes. A uva tinta Poulsard é utilizada eventualmente para elaboração do Vin de Paille. Também é elaborado o Vin Jaune exclusivamente com a a uva Savagnin.

O véu de leveduras protege a oxidação

Château-Chalon

Aqui está a grande diferença do Vin Jaune, elaborado genericamente nas demais apelações e o Vin Jaune da apelação Chateau-Chalon. Por seu terroir diferenciado, Chateau-Chalon elabora exclusivamente Vin Jaune com a uva local Savagnin. Há um artigo exclusivo neste mesmo blog sobre a elaboração deste vinho. Em linhas gerais, após a vinificação, o vinho é colocado em tonéis de carvalho não totalmente preenchido, para que uma levedura semelhante aos vinhos de Jerez atue na superfície vínica, protegendo-a da oxidação. O vinho deve permanecer seis anos antes do engarrafamento com um mínimo de cinco anos nos tonéis. Neste tempo todo, a evaporação reduz o volume inicial numa proporção de um litro para 620 ml. Daí, o simbolismo da garrafa Clavelin de 62 cl ou 620 ml.

Macvin: graduação alcoólica de um fortificado

Macvin du Jura

Macvin não é propriamente um vinho, mas sim uma Mistela, ou seja, uma mistura de mosto de uvas não fermentado com uma aguardente, gerando uma bebida entre 16 e 22° de álcool. Na França é chamada de Vin de Liqueur ou Ratafia. As Ratafias de Champagne e da Borgonha são as mais reputadas. Pineau des Charentes em Cognac também tem sua fama. Voltando ao Macvin, é elaborado em várias apelações do Jura. É constituído de mosto de uvas não fermentado com o Marc da região respectiva, lembrando que Marc é uma aguardente obtida do bagaço das uvas. Seu amadurecimento dá-se por no mínimo doze meses em tonéis de carvalho. As cinco cepas oficiais podem fazer parte da sua elaboração, não necessariamente todas juntas. Por isso, podemos ter Macvin branco, tinto ou rosé. Os rosés e tintos com uvas tintas, e os brancos naturalmente com uvas brancas. Sua produção é diminuta, chegando somente a três por cento do total de vinhos jurassianos. O Marc utilizado em sua elaboração deve conter pelo menos 52° de álcool e deve amadurecer em tonéis de carvalho por no mínimo catorze meses.

Crémant du Jura

A apelação Crémant du Jura perfaz um total de 210 hectares do vinhedo jurassiano. É elaborado em praticamente todo o território de vinhas, sendo o Crémant Blanc amplamente dominante, cerca de 90% da produção. Para este tipo de vinho, a participação da Chardonnay é de no mínimo 50%, sendo o restante Savagnin. No caso do Crémant Rosé, a participação da Pinot Noir e Poulsard não deve ser menor que 50%, sendo o restante eventualmente de Trousseau. Curiosamente entre as uvas tintas, pode haver participação da Pinot Gris. Em sua elaboração, o contato sur lies (sobre as leveduras) não pode ser inferior a nove meses.

Comté: o grande queijo do Jura

Gastronomia

Os brancos de uma maneira geral dividem-se em Floral e Tradition, já comentados em artigo anterior. O estilo Floral, mais fresco e delicado, vai bem com peixes, carnes brancas e aperitivos. Já o Tradition, pode ir bem com peixes e carnes brancas com molho de cogumelos, pratos levemente defumados e queijos com certo tempo de afinamento.

Para os tintos, os elaborados com Pinot Noir ou Poulsard pedem pratos mais leves como quiches, aves, charcuterie (embutidos) e atum. Aqueles elaborados com a uva Trousseau podem escoltar carnes, queijos mais curados, e grelhados.

Os Crémants restringem-se aos aperitivos, por ser espumantes relativamente leves. Chateau-Chalon ou Vin Jaune mais genericamente, vão bem com o típico queijo Comtè, preferencialmente curado, frutas secas, e aves com molho de cogumelos e curry. Bacalhau em natas pode ser divino.

Macvin e Vin de Paille são os vinhos doces da região. Ambos com queijos curados e sobremesas são parceiros naturais. Os Vin de Paille, preferencialmente com sobremesas de frutas secas e também com as sobremesas de textura mais cremosa. Os Macvins tintos podem ir bem com chocolates e sobremesas com frutas vermelhas.

Finalizando os vinhos do Jura, atualmente encontramos boas ofertas em algumas importadoras, tais como: Delacroix, Decanter, Enoteca Saint-Vin-Saint e Franco Suissa.

http://www.delacroixvinhos.com.br

http://www.decanter.com.br

http://www.francosuissa.com.br

http://www.saintvinsaint.com.br

Produtores Notáveis

Domaine Baud Père et Fils, Domaine Rolet, Jacques Tissot, Domaine Berthet-Bondet e Jean Macle.

Assim finalizamos os vinhos do Jura, um dos tesouros franceses ainda por serem descobertos.

Vinhos do Jura: Parte II

13 de Abril de 2015

Dando prosseguimento ao vinhos do Jura, vamos falar um pouco de seu terroir, cepas e apelações de origem. As áreas cultivadas atualmente no Jura estão demonstradas no esquema abaixo, perfazendo um total de pouco mais de dois mil hectares. Esta área no final do século dezenove era dez vezes maior. Com a filoxera e duas guerras mundiais a queda foi inevitável. Como a Chardonnay é muito versátil em termos de clima e solos, seu plantio destacado é uma consequência deste fato.

cepage jura

Ampla vantagem da Chardonnay

Os solos e declividades no Jura são muito variados. Os esquemas abaixo tentam elucidar este emaranhado de calcário, vários tipos de argila e xisto. Em linhas gerais, podemos dividir o relevo da região em duas partes distintas: o platô jurássico (jurassien) de maior alitude (entre 350 e 450 metros), e a planície de Bresse (entre 250 e 350 metros) de menor declive.

Jura perfil geologicoOs esquemas acima (solos e cepas)

A versatilidade da Chardonnay é notável no esquema acima, indo bem em solos calcários, em diversos tipos de marga (mistura de argila e calcário) com presença de xisto e pedras calcárias. A Savagnin tem claramente preferência pelos solos de marga cinzas. No campo das tintas, o que vale para a Trousseau, vale para a Pinot Noir. Solos calcários e solos de marga com predominância de calcário são os preferidos. Por fim, a Poulsard, acompanhando as preferências de solo da Savagnin.

 

Esquema do relevo enfatizando a declividade

Falando sobre as apelações na região, Côtes du Jura é uma apelação genérica englobando praticamente toda a área cultivada. Já Arbois é a apelação mais setentrional, em áreas bem acidentadas. Chateau-Chalon fica mais a sul, quase no meio do caminho no relevo acima. L´Etoile situa-se a sudoeste de Chateau-Chalon, em distância relativamente curta (aproximadamente cinco quilômetros).

Macvin du Jura e Crémant du Jura cobrem toda a área cultivada. São caracterizadas mais pelo estilo de vinho do que por delimitações específicas de área. Macvin é definido mais por uma mistela e não propriamente um vinho fortificado. Já o Crémant por definição, trata-se de um espumante com tomada de espuma na própria garrafa (método tradicional ou método clássico). Falaremos de todas estas apelações no próximo artigo.

Vin de Paille

Trata-se do grande vinho doce do Jura, a partir de uvas desidratadas, processo conhecido na Itália como Appassimento. Este tipo de vinho pode ser elaborado dentro das apelações Côtes du Jura, Arbois e L´Etoile. As demais apelações são específicas para seus respectivos vinhos, não cabendo o tipo de vinho em questão. Os rendimentos para o Vin de Paille não ultrapassam 20 hectolitros por hectare. Daí, sua baixa produção em relação aos demais vinhos. Para se ter uma ideia desta raridade, são necessários 100 kg de uva para obter de 15 a 18 litros de mosto a fermentar. Trata-se de uma fermentação lenta devido ao alto grau sacário, podendo chegar entre 14,5 e 17° graus de álcool, sobrando naturalmente uma considerável taxa de açúcar residual. As uvas utilizadas naturalmente são as brancas Chardonnay e Savagnin, mas as tintas Trousseau e Poulsard são também permitidas. Os aromas e sabores remetem a frutas confitadas como marmelo, damasco, ameixas, figos, laranjas, além de caramelo e mel.

Vin de Paille: Uvas secadas literalmente em palha

Na gastronomia, acompanha muito bem uma torta de nozes ou outras com frutas secas como damasco, por exemplo, além de queijos azuis e o típico queijo regional Comté. Entretanto, precisa ser um Comté Vieux, ou seja, mais afinado e com aromas potentes.

Para finalizar, existem outros Vin de Paille franceses, tanto no Rhône, como na Córsega. As denominações são respectivamente: Vin de Paille Tain L´Hermitage (norte do Rhône), Vin Paillet Beaumont-du-Ventoux (sul do Rhône) e Vin Paillé du Cap Corse.

Vinhos do Jura: Parte I

8 de Abril de 2015

Voltando aos temas regionais sobre vinhos, vamos abordar a partir deste artigo os vinhos franceses do Jura. Terra de Louis Pasteur, do famoso Vin Jaune (vinho amarelo), onde o Château Chalon conquistou fama e glamour como um dos melhores vinhos franceses de toda a história. Aliás, Château Chalon já comentado neste blog, é o único tema mencionado sobre a região. Contudo, por sugestão de um amigo e percebendo uma maior oferta destes vinhos em nosso mercado, vale a pena uma análise mais profunda sobre o assunto.

Jura: Leste francês próximo à Suíça

Só para nos situarmos, Jura é uma região montanhosa localizada a leste da Borgonha, vizinha à região de Savóia e à Suíça. De clima continental, seu inverno é rigoroso e seus verões secos. As informações e comentários estão baseados no site oficial da região: http://www.jura-vins.com

Principais Uvas

Para começar, vamos às principais uvas da região. Começando pelas tintas, temos as seguintes uvas: Le Poulsard, Le Trousseau e a nossa conhecida Pinot Noir. A Poulsard gera vinhos de pouca pigmentação, tendendo ao rosé. Porém, apresenta taninos destacados, aromas de frutas vermelhas e escuras e uma tendência ao sous-bois, sobretudo no envelhecimento. Já a Trousseau, tem uma intensidade de cor destacada, aromas de frutas e especiarias. Em boca, costuma ser mais macia que sua concorrente acima. Por último, um Pinot Noir de clima frio. Em comparação com a Borgonha, costuma ter menos corpo, menor estrutura, lembrando de certo modo um bom Hautes Côtes de Nuits.

No campo das brancas, temos a familiar Chardonnay e a grande uva local Savagnin,  a qual dá origem ao típico Vin Jaune. A primeira adapta-se bem ao clima frio, a vários tipos de solo e sua maturação é precoce. Pode dar origem a vinhos varietais ou mesclados com a Savagnin, os quais são denominados “Tradition”, inclusive no rótulo das garrafas. Quanto à Savagnin, trata-se de uma cepa mais exigente, sobretudo aos solos, preferencialmente o marga (mistura de argila e calcário) cinzento. Outro complicador é sua maturação tardia, sujeita às condições de cada safra.

Aspectos Gerais

Apesar de pouco conhecida e pouco glamorosa, Jura é uma região antiquíssima e conhecida pelos seus vinhos desde o início da era cristã. Sua estrutura vinícola está formatada entre pequenos produtores (37% da produção), negociantes (39%) e cooperativas (24%). São dois mil hectares de qualidade superior divididos em seis apelações: Arbois, Côte du Jura, L´Étoile, Crémant du Jura, Macvin e o famoso Château-Chalon. Essas apelações veremos em detalhes nos artigos seguintes.

Em termos de solo, há uma diversidade imensa com presença de calcário e vários tipos de marga, conforme a origem e o período geológico de formação das argilas multicoloridas. Há terrenos de grande declividade e outros menos íngremes.

Abaixo, uma pequena ideia de produção dos vinhos do Jura, tanto em termos de tipo, como em termos de apelação. Os brancos e tintos de secos dominam a produção, seguidos  pelo Crémant (espumante elaborado pelo método tradicional, ou seja, espumatização em garrafa). O grande vinho do Jura, Château Chalon, não chega a três por cento da produção. Acompanhando o raciocínio, as apelações Arbois e Côtes du Jura dominam a cena na elaboração de brancos e tintos secos.vins jura

 A área cultivada não chega a dois mil hectares

No quesito exportação, dos oito mil hectolitros exportados, mais da metade refere-se ao Crémant. Os brancos e tintos secos sob as apelações Arbois e Côte du Jura chegam próximos ao Crémant, enquanto os Vin de Paille, Macvin, Château Chalon têm exportações ínfimas, devido sobretudo à baixa produção. As repartições quanto ao tipo de vinho acompanham o mesmo raciocínio.

Exportação JuraCrémant du Jura é o grande vinho de exportação

Como última curiosidade, os brancos secos do Jura podem ter a menção no rótulo com as expressões “Blanc Floral” e “Blanc Tradition”. O primeiro refere-se a vinhos jovens, delicados e com boa vivacidade. O segundo termo refere-se a brancos com certo grau de oxidação, de envelhecimento, apresentando um dourado intenso, ou mesmo um âmbar em sua cor. São mais macios, mais estruturados e mais gastronômicos.

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte II

2 de Abril de 2015

Após o belo almoço DRC do artigo passado, só o desejo de provar um Romanée-Conti poderia continuar a saga. Em Petit Comitê, seguimos à casa de outro confrade onde outras surpresas estavam reservadas. Logo que chegamos, o confrade responsável pela fera chegou com a garrafa do mito 1998. Como gentilezas não têm limites, ele trouxe também um Petrus 2001 para a adega do anfitrião.

Mais um pequeno infanticídio

A princípio, na minha opinião, um Romanée-Conti não deve ser tomado com menos de 20 anos de safra, e em alguns casos até mais. Contudo, não deixa de ser uma experiência interessante, nem que seja para tentar vislumbrar seu potencial de guarda. A cor predominantemente rubi, denota sua junventude. Os aromas apesar de extremamente elegantes, ainda são tímidos, tanto pelo vinho em si, como pela característica da safra. Em boca, um equilíbrio fantástico, taninos finíssimos a resolver, e final harmonioso. Estimo seu auge daqui uns dez anos.

Preços estratosféricos

Este é um dos americanos mais caros e mais badalados de Napa Valley. O terroir não poderia ser melhor, a sub-região  de Oakville, situada entre Rutherford e Stag´s Leap. O corte bordalês é baseado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon. A safra é relativamente nova de 2006 com 98 pontos Parker. Vinho potente, cor concentrada e aromas um tanto fechados. Em boca, muito macio, taninos ultra-finos e persistência longa. Um estilo moderno, mas muito bem delineado. Longos anos de adega pela frente. Essa é uma das provas que os americanos estão muito à frente em relação a outros países do Novo Mundo quando se trata de vinhos topo de gama.

Safra surpreendente: 94 pontos (RP)

Esta é uma bela compra para os bordaleses de margem esquerda da pouco badalada safra de 2006. Com 94 pontos de Parker, mostrou-se muito agradável para o momento com toda a tipicidade de um grande Saint-Esthèphe. Cor pouco evoluída, mas aromas relativamente abertos, com toques de frutas escuras (notadamente o cassis), toques de torrefação, especiarias e ervas finas. Em boca, muito receptivo, macio, e com um balanço de componentes digno de um Grand Cru Classé. Final agradável e extremamente elegante.

Potência e Elegância no mais alto nível

Como cantava Nara Leão, o barquinho vai, a tardinha cai …, e mais um tinto de tirar o fôlego. Simplesmente, Amarone Dal Forno Romano safra 2006. Um estilo moderno, superconcentrado, muito mais do que se espera de um Amarone. Para se ter uma ideia da concentração deste tinto, o vinhedo sofre um forte adensamento de vinhas, chegando a ultrapassar mais de 13000 pés por hectare. Como essas uvas são colhidas supermaduras e posteriormente, sofrem o processo de appassimento, os rendimentos são baixíssimos. De 100 kg de uvas faz-se apenas 15 litros de Amarone. Além disso, o proprietário não deixa por menos, utiliza 100% de barricas novas. Diz ele: se o vinho não aguentar a barrica, é porque ele não está à altura da mesma. E de fato, a madeira reina em plena harmonia. Cor quase impenetrável, aromas potentes de frutas em geleia, alcaçuz, especiarias, café, e um defumado inebriante. Em boca, extremamente macio, um veludo, taninos bem dóceis, e um bom suporte de acidez. Pode ser tomado com prazer, mas evolui por muitos anos de adega. Um de seus parceiros clássicos é o queijo Grana Padano, o qual foi provado e confirmado com esta garrafa.

Um Corton-Charlemagne de Exceção

O nosso confrade do Romanée-Conti não estava para brincadeiras. Como se não bastasse ter trazido a fera, não deixou por menos no branco. E que Branco! Um preciosíssimo Corton-Charlemagne 2009 de Madame Leroy de produção extremamente limitada. Um dos melhores brancos da Borgonha que provei, unindo potência e elegância como poucos. Frutas como pêssego, damasco, o famoso pão com manteiga na chapa, o tostado lembrando frutas secas secadas ao forno (amêndoas), toques florais, e vai por aí afora. Já era noite, mas este monumental branco levantou o ânimo e nos reavivou. Fantástico!

A costumeira elegância Dom Pérignon

Com a chegada da noite ninguém é de ferro, sobretudo com um Dom Pérignon Rosé 2003. Para uma bela harmonização, que tal comida japonesa de alta qualidade e esmero. Foi um sucesso, principalmente com os pratos que envolviam atum. A acidez, a elegância e frescor deste champagne são pontos-chaves para um casamento perfeito. Se um Dom Pérignon já é exclusivo, um Rosé de produção baixíssima nem se fala. Além do mais, a safra 2003, um tanto calorosa, foi ideal para o perfeito amadurecimento da Pinot Noir, uva importante neste estilo de vinho. E assim terminamos o dia, a noite, e os sonhos …

Uma das sensações da Borgonha

Só para encerrar o artigo, esqueci de comentar o Borgonha acima degustado no final do almoço, após os DRCs. Um Vosne-Romanée exclusivíssimo do Domaine Prieuré-Roch,  o qual seu proprietário, Henry-Frédéric Roch, assinou muitas safras de Romanée-Conti. Este exemplar denominado Le Clos Goillotte da safra 2006 parte de vinhas com mais de quarenta anos, situadas a cinquenta metros dos limites do vinhedo La Tâche. A produção não passa de duas mil garrafas/ano. Um vinho de estilo mais moderno e muito abordável na juventude. Aromas abertos, francos, frutas deliciosas, toques florais, defumados e de especiarias, muito bem integrado à madeira. Para quem não tem paciência de esperar anos em adega, é uma boa pedida.

Sem mais delongas, agradeço mais uma vez aos confrades que proporcionaram momentos inesquecíveis com boa conversa e belos vinhos. Se esqueci de algum outro detalhe, é porque o inevitável abuso do álcool não permitiu. Grande abraço, e até as próximas!

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte I

31 de Março de 2015

Mais um encontro descontraído entre amigos em torno dos míticos DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Um show do terroir Saint-Vivant frente às feras de Richebourg e La Tâche. A comida sob a batuta da grife Fasano estava deslumbrante. Os vinhos, já de certa idade, deram trabalho com suas  rolhas fragilizadas pelo tempo. Nem tudo são flores, mas o serviço compensou. A recepção dos convivas foram com frios e queijos acompanhados pelos DRCs: Échezeaux 87, Richebourg 98 e Richebourg 2007. Evidentemente, o mais abordável via de regra é o Échezeaux. Sem grandes segredos, se mostra sempre sedutor. Os Richebourgs, muito jovens, ainda tem um longo caminho a percorrer em adega.

O início em alto nível deu o tom do que vinha pela frente. O Montrachet DRC 2007 escoltou brilhantemente a Terrine de Foie Gras e Figos Assados. Branco potente, amplo, com todo o esplendor deste terroir sagrado. Evidentemente, com muita vida pela frente, mas delicioso com seu frescor da juventude.

Terrine impecável

Montrachet DRC: menos de 4000 garrafas

Seguindo em frente, veio a Polenta com Ragu de Linguiça de Javali e Porcini Fresco. Outra bela harmonização com vinhos envelhecidos da safra 1992, um Saint-Vivant e um La Tâche. Saint-Vivant em seu esplendor andou de mãos dadas com o prato. La Tâche, sempre grande, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Este ainda tem coisas a mostrar. Esperemos pelo menos mais cinco anos. Aí sim, ele vai confirmar porque é o segundo na hierarquia DRC.

Saint-Vivant: O Allegro Andante do DRC

Falando em Saint-Vivant, o 1982 gerou dúvidas quanto à sua evolução. Alguns acharam certos toques de oxidação. Pessoalmente, achei-o deliciosamente evoluído com notas de cacau, chocolate, ervas finas. Algo como um Lindt 70% Cacau. De fato, sua cor notadamente atijolada, chamou a atenção. Enfim, não entrou na brincadeira. O mesmo ocorreu com o Saint-Vivant 1974.

Um prato irretocável

Continuando o sacrifício, o terceiro prato foi um Raviolini de Cotecchino na Manteiga e Sálvia com Redução de Vinho e Mostarda de Cremona. A harmonia de sabores era incrível. Desta feita, um Saint-Vivant 86, e dois La Tâche, um 87 e um 2002. Novamente, Saint-Vivant surpreendendo. As safras 86 e 87 já se encontram num bom momento evolutivo, sendo 86 um pouco mais tânica. 2002 é muito boa para os tintos, mas para um La Tâche, precisamos um pouco mais de paciência.

Ribeye Kobe: Sabores em harmonia

No último ato, um Ribeye Kobe Cozido à Baixa Temperatura ao Molho Marsala com Mousseline de Mandioquinha e Mix de Brotos, muito bem executado. Para escolta-lo um belo pelotão DRC: Romanée-Saint Vivant 83 e 78, La Tâche 86 e 90, e Richebourg 70. Os velhinhos 70 e 90 com boa evolução em taça, taninos resolvidos e lindos aromas terciários, embora o La Tâche 90 posso ainda mostrar algo mais com o tempo. O Saint-Vivant 83 e La Tâche 86 um pouco abaixo, com vitória do Saint-Vivant, muito provavelmente pela superioridade da safra. Agora o Saint-Vivant 78 é um caso à parte, relatado abaixo.

 

Safra esplendorosa

No vinho acima, tudo o que você imaginar de aromas terciários da Pinot Noir no mais alto nível estavam aqui. Notas de adega úmida, sous-bois, minerais terrosos, as rosas, alcaçuz, e outros tantos inumeráveis. A cor evoluída, atijolada, e taninos perfeitamente resolvidos. Boca ampla, e persistência notável. Uma das grandes safras históricas da Borgonha e dos vinhos DRC. Se o preço não for problema, o prazer está garantido.

Assortimento de Queijos

Bem, agora para arrematar o almoço, um seleção de queijos. escoltado por um Porto Vintage. E que Porto, que safra! Um Taylor´s 1977, safra esta comparada a 63 e 94. A cor ainda com nítidas notas rubi, aroma com compota de frutas escuras, além dos esperados toques terciários, mesclando minerais, chocolate, especiarias, entre outros. Acompanhou muito bem tanto o clássico queijo Serra da Estrela, como o Gorgonzola Dolce.

Sobremesa de deixar nas nuvens

O Gran Finale nos foi brindado com um Zabaione Frio com frutas do Bosque Frescas. Para acompanhar, nada mais, nada menos, que um Yquem 2001, nota cem com louvor de qualquer crítico. Evidentemente, ainda jovem. Vai evoluir por décadas, sem um previsão precisa de seu apogeu. Contudo, seu frescor e sua untuosidade fez um belo par com o prato. Notas de Botrytis, favo de mel, cítricos, e um equilíbrio notável entre álcool e acidez. Persistência interminável.

Agora um mimo antes do café, um Bas-Armagac Francis Darroze safra 1952. Para quem não sabe, é bem mais fácil encontrar um Armagnac safrado do que um Cognac. Além disso, Bas-Armagnac é a melhor sub-região deste belo destilado do sudoeste francês. Equivale ao nobre terroir de “Grande-Champagne” em Cognac. Caloroso, maduro, persistente e belo equilíbrio  de álcool frente ao seu extrato. A tentação de um Puro é imediata.

Pensa que parou aqui a brincadeira? De jeito nenhum. Um dos confrades não queria terminar o dia sem um Romanée-Conti. Mas isso é conversa para o próximo artigo. Ufa, haja fígado!

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Montrose x Cos d´Estournel

23 de Março de 2015

A comuna de Saint-Estèphe tem dois astros de primeira grandeza: Château Montrose e Château Cos d´Estournel. Situada na margem esquerda do Gironde, é a última comuna na direção norte. Apesar de não haver nenhum Premier Grand Cru Classé, Saint-Estèphe fornece vinhos firmes na juventude com alto potencial de envelhecimento. Aqui, embora o cascalho seja importante, a presença de argila é mais evidente. Esse fator acaba deixando o vinho mais fechado, menos convidativo quando jovem e de uma acidez mais destacada. Seus taninos são firmes e presentes, pedindo muitos anos em adega.

Cerca de dois quilômetros separam os dois châteaux.

Mais do que a distância acima entre os châteaux, a diferença de altitude  e a distância de cada um do Gironde são aspectos mais importantes. Montrose está mais perto do Gironde e portanto, numa altitude mais baixa, na média doze metros acima do mar. Já Cos d´Estournel, mais longe do rio, encontra-se numa colina a cerca de vinte metros acima do mar. Aliás, Cos no dialeto Gascon quer dizer colina.

Safra clássica de um Montrose

As diferenças não param por aí. Montrose apresenta um solo com mais cascalho e maior proporção de areia em meio argiloso. O cascalho se dando bem no Médoc, pois a calor é refletivo nas uvas nos meses de maturação, além de contar com excelente drenagem, são fatores essenciais para o cultivo da Cabernet Sauvignon. A proporção de Cabernet no corte clássico de um Montrose é de dois terços para um terço de Merlot. Isso faz de Montrose um vinho firme, tânico e de alta acidez.

Montrose: Vinhas que olham o Gironde

Diversas são as  frases que definem o Médoc: “o solo do Médoc muda a cada passo”, “Médoc: um terroir forjado pelo homem”, e  “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. A primeira frase refere-se ao fator drenagem, extremamente irregular na região, importantíssimo num local cercado por águas. A segunda diz sobre um conjunto de fatores que permitem plantar vinhas de alta qualidade. A floresta de pinheiros a oeste evitando o avanço das dunas e ao mesmo tempo, impedindo a umidade e salinidade do Atlântico. O trabalho de engenheiros holandeses no século dezessete drenando toda a região com as famosas valas, muitas delas divisas de comunas famosas. E por último, a localização das melhores vinhas numa posição privilegiada vigiando o rio. Esta localização tem a ver com o movimento das marés ao longo de milhares de anos depositando e posicionando as camadas mais espessas de cascalhos, item fundamental para melhorar a eficiência de absorção de água no terreno.

Em Cos d´Estournel,  o solo também pedregoso mistura-se numa mescla de argila e calcário. A proporção de Merlot sempre que possível, é ligeiramente maior que Montrose. As fermentações procuram enaltecer a fruta, sem extrações excessivas de taninos. O tempo de amadurecimento em barricas de carvalho é um pouco maior em relação ao Montrose, além da porcentagem de barricas novas também ser prevalente. Na média, 80% de barricas novas em Cos d´Estournel e 60% em Montrose. Todos esses fatores fazem de Cos d ´Estournel um vinho mais macio, mais frutado, e mais aromático em sua juventude, embora possa envelhecer de forma brilhante ao longo dos anos. A safra de 1982 encontra-se em plena forma.

Duas safras memoráveis

Pela acidez e tanicidade dos tintos de Saint-Estèphe, se comparássemos aos vinhos de Barolo, Montrose seria um Serralunga d´Alba e Cos d´Estournel seria um La Morra.

Enfim, o Médoc tem seus mistérios como toda grande região vinícola. Alguns ainda por descobrir, outros parcialmente desvendados, tentado explicar as sutilezas desses caldos bordaleses que há séculos encantam apreciadores mundo afora.

Petrus e a Argila Azul

17 de Março de 2015

O assunto “Terroir” é recorrente neste blog, pois através dele tentamos entender e procurar razões coerentes para os grandes vinhos do planeta. Sem dúvida, Petrus apesar de sua origem humilde e recente, brilha entre os melhores tintos do mundo, muitas vezes incompreendido por sua proposta de longa guarda, além de preços estratosféricos.

Instalações modestas para uma Estrela

Petrus é apenas o nome de uma colina batizada pelos romanos que significa pedra. A propriedade de pouco mais de dez hectares só ganhou fama após a segunda guerra mundial. A então proprietária Madame Loubat, confiou a distribuição de seu vinho a Jean-Pierre Moueix, o qual buscou o mercado americano, chegando à cúpula do governo, a Casa Branca, onde o presidente John Kennedy se tornaria um de seus mais ilustres apreciadores. Daí para frente, Petrus tomou parte da elite dos melhores vinhos do planeta. Contudo, Petrus continuou modesto em seu status. Não é um château nos moldes bordaleses e nem tem esse nome no rótulo, apenas Petrus. Não possui nenhuma designação legislativa específica, fazendo parte simplesmente da apelação Pomerol. E nem precisa, seu nome já diz tudo.

Atualmente, seu mentor é o enólogo Olivier Berrouet, filho de Jean-Claude Berrouet, este, responsável por mais de quarenta safras do mítico tinto, desde 1964. Olivier além da genética, tem formação sólida e cresceu vendo este vinhedo. Em seus estágios, passou por terroirs como Cheval Blanc, Yquem, Margaux, Haut-Brion, capitando os segredos e a essência destes sítios privilegiados.

Após breve relato, vamos ao tema do artigo, a famosa argila azul. Aqui começa o mistério e a peculiaridade deste vinho. Este tipo de argila fazia parte da bacia da Aquitânia em outras eras geológicas, formando o fundo deste mar. É inexplicável como após milhões de anos esta argila foi parar na alto da colina Petrus. Após uma camada superficial não muito espessa (60 a 80 centímetros) de solo erodido e pedregoso, encontramos a tal argila azul, rica em ferro. O ferro proporciona muita cor ao vinho, tornando Petrus um dos vinhos mais escuros, sobretudo na juventude. A argila de boa compactação impede a penetração das raízes a grandes profundidades. Esta é uma particularidade única em Petrus. O sistema radicular desenvolve-se muito mais horizontalmente do que o habitual para vinhas bordalesas. Portanto, é inútil trabalharmos com alta densidade no vinhedo, pois as raízes iriam se entrelaçar. Sabemos que no solo do Médoc, por exemplo, a densidade de plantio chega a dez mil plantas por hectare, promovendo grande competição entre as raízes em busca de profundidade e sobrevivência. Já em Petrus, a densidade não passa de 6500 pés por hectare. Além disso, a declividade da colina elimina o excesso de água e ao mesmo tempo, a argila retêm o balança hídrico necessário para os períodos de estiagem. Portanto, um terroir perfeito para a casta Merlot. As vinhas em Petrus têm idade média de 40 anos, as mais antigas passam de 60 anos. Esta idade mais avançada permite expressar um vinho com mais fidelidade quanto ao terroir.

100 pontos ainda em evolução

Os cuidados no vinhedo são extremos quanto à poda, a brotos com imperfeições, e o momento exato da colheita. Daí para frente é um trabalho de cantina que será tanto mais fácil, à medida em que os erros no campo foram os menores possíveis. Outro fator importante na vinificação é o aporte mínimo de oxigênio para a casta Merlot, pois seus taninos são muito dóceis. Já no caso das Cabernets, a participação do oxigênio no processo fermentativo e de extração é bem-vindo, posto que seus taninos mais duros se beneficiam deste contato. Portanto, Petrus prefere vinificar em tanques de concreto onde a inércia térmica é bem maior. A preocupação com a extração na vinificação, ou seja, o tempo de contato com as cascas é também muito bem controlado e preocupante. Um vinho muito extraído é como um sachê de chá onde a temperatura e o tempo de contato com a água  não foram respeitados. Portanto, Petrus prefere muitas vezes abreviar este tempo de extração, mas obter um vinho perfeitamente equilibrado. Não adianta extrair mais do que a potência de uma determinada safra pode oferecer. Este tempo varias de 12 a 18 dias, conforme o millésime.

Elaborado o vinho é hora de educa-lo, pois sua trajetória em garrafas nas melhores adegas será longa, pelo menos algumas décadas. Petrus tem se preocupado cada vez mais com o aporte de madeira no vinho. Atualmente, não se pensa em amadurecê-lo num intervalo de tempo muito grande, digamos entre 14 e 18 meses, sendo que somente 50% em madeira nova. Olivier explica que a madeira tem a função tão somente de micro-oxigenar o vinho. Quando muito, alguns toques delicados que mesclam especiarias, tostados e balsâmicos. Neste raciocínio, a mineralidade aflora com mais liberdade.

Em suma, Petrus é a expressão de um grande terroir que deve ser respeitado, cuidado e por que não?, melhorado ao longo do tempo com muito critério, sensibilidade e parcimônia. Petrus não é um vinho para consumo imediato, ele não se mostra imediatamente. Como nos grandes terroirs, seus segredos vão sendo desvendados ano a ano, década à década. Portanto, não jogue seu dinheiro no impulso da ansiedade. Antes de ter dinheiro, é preciso paciência e bom senso. Na prática isso quer dizer: Não abra um Petrus antes de pelos menos 15 anos de safra, melhor 20 ou mais. Caso contrário, você nunca saberá o que é verdadeiramente um Petrus.

Chateau Montrose x Sassicaia

13 de Março de 2015

Quer mais uma degustação ousada? A proposta acima é instigante, França versus Itália. Sassicaia, o pioneiro dos Supertoscanos, sacudiu o mundo no início dos anos 70. Um sonho do Marquês Mario Incisa della Rocchetta, apaixonado pelos vinhos bordaleses e com amizades nobres como Barão Éric de Rothschild, proprietário do mítico Château Lafite. O Marquês acreditava piamente que a região de Bolgheri, próxima ao mar Tirreno, e com solo pedregoso (Sassicaia vem de um dialeto local relacionado a pedras), era extremamente propício às castas bordalesas. No início da saga, as primeiras mudas de Cabernet foram trazidas do nobre Château acima. Como todo início, não foi nada fácil. Vinhas novas, métodos de cultivo e vinificação ainda experimentais, não animaram muito nas primeiras colheitas sendo as cobaias, familiares e amigos. Em certa ocasião, Piero Antinori, primo do Marquês, provou o vinho e vislumbrou seu potencial. Chamou então seu enólogo Giacomo Tachis, uma espécie de Émile Peynaud da Itália, para lapidar aquele diamante bruto. O sucesso não tardou a chegar, com críticos ingleses embasbacados diante de um simples Vino da Tavola. O caldo era muito sofisticado para humilde denominação. E assim foi criado o termo Super Tuscans.

O assemblage do Sassicaia é praticamente Cabernet Sauvignon (85%) com uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (15%). É amadurecido em barricas de carvalho francês por 24 meses. Um modelo clássico bordalês de margem esquerda. Como todo italiano, seus taninos e sua acidez são firmes e presentes na juventude. Projetado como vinho de guarda, é um tanto difícil sua apreciação quando jovem. Contudo, envelhece maravilhosamente por décadas, de acordo com a potência da safra. O 1985 da foto abaixo, continua esplêndido.

A melhor safra: Nota 100

A descrição e características acima vão bem de encontro com o estilo Montrose, um Saint-Estèphe clássico e austero no juventude. Esta comuna, bem ao norte do Médoc, apresenta uma proporção maior de argila que as demais comunas famosas como Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Este solo mais frio faz com que o vinho seja mais duro, com taninos mais firmes, e acidez mais presente. Estes fatores faz de um Montrose um dos vinhos mais longevos e gastronômicos da margem esquerda. A foto abaixo, mostra um dos maiores Montroses da história.

Apesar de jovem, outro nota 100

O Assemblage de Montrose prevê em média, dois terços de Cabernet Sauvignon, quase um terço de Merlot, e uma pitada de Cabernet Franc. O vinho amadurece entre 16 e 18 meses em barricas francesas, sendo em média 40% novas. Montrose faz parte da elite de Saint-Estèphe juntamente com o Château Cos d´Estournel, embora os estilos sejam bem diferentes.

Quanto ao Sassicaia, da famosa Tenuta San Guido, começou humilde como um Vino da Távola até atingir a Denominação de Origem Bolgheri Sassicaia em 1994, diferenciando-se dos demais tintos sofisticados de Bolgheri como por exemplo, o grande Ornellaia.

Para esta degustação às cegas com dois ou três exemplares de cada lado, é imperativo uma decantação de pelo menos duas horas para os vinhos, sobretudo se forem jovens, ou seja, menos de dez anos de safra.