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Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte I

31 de Março de 2015

Mais um encontro descontraído entre amigos em torno dos míticos DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Um show do terroir Saint-Vivant frente às feras de Richebourg e La Tâche. A comida sob a batuta da grife Fasano estava deslumbrante. Os vinhos, já de certa idade, deram trabalho com suas  rolhas fragilizadas pelo tempo. Nem tudo são flores, mas o serviço compensou. A recepção dos convivas foram com frios e queijos acompanhados pelos DRCs: Échezeaux 87, Richebourg 98 e Richebourg 2007. Evidentemente, o mais abordável via de regra é o Échezeaux. Sem grandes segredos, se mostra sempre sedutor. Os Richebourgs, muito jovens, ainda tem um longo caminho a percorrer em adega.

O início em alto nível deu o tom do que vinha pela frente. O Montrachet DRC 2007 escoltou brilhantemente a Terrine de Foie Gras e Figos Assados. Branco potente, amplo, com todo o esplendor deste terroir sagrado. Evidentemente, com muita vida pela frente, mas delicioso com seu frescor da juventude.

Terrine impecável

Montrachet DRC: menos de 4000 garrafas

Seguindo em frente, veio a Polenta com Ragu de Linguiça de Javali e Porcini Fresco. Outra bela harmonização com vinhos envelhecidos da safra 1992, um Saint-Vivant e um La Tâche. Saint-Vivant em seu esplendor andou de mãos dadas com o prato. La Tâche, sempre grande, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Este ainda tem coisas a mostrar. Esperemos pelo menos mais cinco anos. Aí sim, ele vai confirmar porque é o segundo na hierarquia DRC.

Saint-Vivant: O Allegro Andante do DRC

Falando em Saint-Vivant, o 1982 gerou dúvidas quanto à sua evolução. Alguns acharam certos toques de oxidação. Pessoalmente, achei-o deliciosamente evoluído com notas de cacau, chocolate, ervas finas. Algo como um Lindt 70% Cacau. De fato, sua cor notadamente atijolada, chamou a atenção. Enfim, não entrou na brincadeira. O mesmo ocorreu com o Saint-Vivant 1974.

Um prato irretocável

Continuando o sacrifício, o terceiro prato foi um Raviolini de Cotecchino na Manteiga e Sálvia com Redução de Vinho e Mostarda de Cremona. A harmonia de sabores era incrível. Desta feita, um Saint-Vivant 86, e dois La Tâche, um 87 e um 2002. Novamente, Saint-Vivant surpreendendo. As safras 86 e 87 já se encontram num bom momento evolutivo, sendo 86 um pouco mais tânica. 2002 é muito boa para os tintos, mas para um La Tâche, precisamos um pouco mais de paciência.

Ribeye Kobe: Sabores em harmonia

No último ato, um Ribeye Kobe Cozido à Baixa Temperatura ao Molho Marsala com Mousseline de Mandioquinha e Mix de Brotos, muito bem executado. Para escolta-lo um belo pelotão DRC: Romanée-Saint Vivant 83 e 78, La Tâche 86 e 90, e Richebourg 70. Os velhinhos 70 e 90 com boa evolução em taça, taninos resolvidos e lindos aromas terciários, embora o La Tâche 90 posso ainda mostrar algo mais com o tempo. O Saint-Vivant 83 e La Tâche 86 um pouco abaixo, com vitória do Saint-Vivant, muito provavelmente pela superioridade da safra. Agora o Saint-Vivant 78 é um caso à parte, relatado abaixo.

 

Safra esplendorosa

No vinho acima, tudo o que você imaginar de aromas terciários da Pinot Noir no mais alto nível estavam aqui. Notas de adega úmida, sous-bois, minerais terrosos, as rosas, alcaçuz, e outros tantos inumeráveis. A cor evoluída, atijolada, e taninos perfeitamente resolvidos. Boca ampla, e persistência notável. Uma das grandes safras históricas da Borgonha e dos vinhos DRC. Se o preço não for problema, o prazer está garantido.

Assortimento de Queijos

Bem, agora para arrematar o almoço, um seleção de queijos. escoltado por um Porto Vintage. E que Porto, que safra! Um Taylor´s 1977, safra esta comparada a 63 e 94. A cor ainda com nítidas notas rubi, aroma com compota de frutas escuras, além dos esperados toques terciários, mesclando minerais, chocolate, especiarias, entre outros. Acompanhou muito bem tanto o clássico queijo Serra da Estrela, como o Gorgonzola Dolce.

Sobremesa de deixar nas nuvens

O Gran Finale nos foi brindado com um Zabaione Frio com frutas do Bosque Frescas. Para acompanhar, nada mais, nada menos, que um Yquem 2001, nota cem com louvor de qualquer crítico. Evidentemente, ainda jovem. Vai evoluir por décadas, sem um previsão precisa de seu apogeu. Contudo, seu frescor e sua untuosidade fez um belo par com o prato. Notas de Botrytis, favo de mel, cítricos, e um equilíbrio notável entre álcool e acidez. Persistência interminável.

Agora um mimo antes do café, um Bas-Armagac Francis Darroze safra 1952. Para quem não sabe, é bem mais fácil encontrar um Armagnac safrado do que um Cognac. Além disso, Bas-Armagnac é a melhor sub-região deste belo destilado do sudoeste francês. Equivale ao nobre terroir de “Grande-Champagne” em Cognac. Caloroso, maduro, persistente e belo equilíbrio  de álcool frente ao seu extrato. A tentação de um Puro é imediata.

Pensa que parou aqui a brincadeira? De jeito nenhum. Um dos confrades não queria terminar o dia sem um Romanée-Conti. Mas isso é conversa para o próximo artigo. Ufa, haja fígado!

Rotina de um Sommelier

26 de Janeiro de 2015

Nem tudo são flores na rotina de um sommelier, mesmo num evento sofisticado, envolvendo grandes vinhos. É preciso começar cedo, bem antes do glamour de uma grande noite. O aniversário de dois grandes amigos inspirou este texto, mostrando algumas peculiaridades no trabalho de bastidores.

Double Magnum La Grande Dame 1990

Os vinhos escalados para o jantar foram o champagne da foto acima, Jeroboam DRC 2011 (Domaine de La Romanée-Conti), o californiano Opus One 1999 Imperial (seis litros), outra Imperial do Château Margaux 1990 e mais alguns Portos para o final da noite.

Começando pelos tintos, a abertura das duas Imperiais. Trabalho meticuloso, pois o saca-rolhas de alavanca fartamente utilizado pelos sommeliers não funciona neste caso devido ao diâmetro do gargalo destas garrafas. Foi utilizado um saca-rolhas em T de espiral larga, procurando abranger o maior diâmetro possível para esta largura de rolha. Para o Château Margaux foi perfeito, mas nem tanto para o Opus One. A rolha deste último partiu, deixando um terço ainda na garrafa. Posicionando o saca-rolhas  inclinado em relação ao eixo do gargalo, o pedaço foi retirado com sucesso. Neste momento, vinhos perfeitos, sem nenhuma surpresa desagradável.

Esse vinhos estavam na adega dentro de suas caixas de madeira, na posição horizontal. Lembram daquele artigo deste blog onde mencionamos a importância do cesto de vinhos para a abertura e decantação da garrafa? Pois bem, o difícil é achar um cestinho para uma Imperial. Daí, o cavalete, um outro instrumento importante da sommellerie, conforme foto abaixo.

Eis a engenhoca para manter a garrafa deitada

Pois bem, as garrafas foram mantidas deitadas no cavalete com uma inclinação suficiente para permitir a abertura das mesmas, sem perturbar os sedimentos depositados na parede ao longo do eixo. Portanto, a abertura das garrafas foi feita no cavalete. A decantação de cada uma das garrafas se deu através de uma manivela que verte sutilmente o líquido em vários decantadores. O sistema é muito suave, permitindo as sucessivas paradas para a troca dos decantadores. Ao final, com auxilio de uma vela, visualizamos os sedimentos. Por sinal, bem mais na garrafa do Margaux.

Após toda esta decantação, a prova dos vinhos nos dá uma ideia do tempo de aeração. No caso do Opus One, o vinho é mais novo e mais robusto. Tem muita força, cor ainda intensa, mostrando que um certo arejamento lhe fará bem. Já o Château Margaux, estava menos rebelde. Com a elegância que lhe é peculiar, mostrava uma trama tânica muito bem moldada e taninos de uma textura impar. Os aromas já muito sedutores e uma cor pouco evoluída. Mas não se deixe enganar, os aromas terciários ainda irão se desenvolver lentamente, garantindo prazer por décadas. Um leve arejamento lhe fez bem, eliminando alguns aromas redutores.

Este foi a estrela da noite

Decantação feita, é hora de voltar o vinho para as garrafas, utilizando um funil. Evidentemente, as garrafas devem ser totalmente limpas com água mineral, não deixando vestígios de borra. Essa volta é interessante, pois o vinho será servido ao longo do jantar, preenchendo de tempo em tempo os decantadores novamente. Tudo funciona muito bem, além do charme da operação.

Mesa de serviço preparada

Até agora falamos dos tintos, mas o Montrachet DRC 2011 foi um completo infanticídio. É bem verdade que a decantação da Jeroboam (quatro litros e meio) horas antes do evento foi benéfica ao vinho, liberando mais aromas. Contudo, todo seu potencial só será desenvolvido através de longos anos em adega.

Privilégio de abrir  a garrafa nº 2

Parte da Jeroboam DRC em dois decantadores

Conjunto de taças do jantar

A foto acima mostra o conjunto de taças que irão acompanhar o jantar. O copo colorido para água dá um charme ao conjunto, além de evitar confusões com os vinhos. A taça bojuda para o Montrachet, a bordalesa menor para o Opus One e finalmente, a bordalesa Riedel linha Sommelier para o excepcional Margaux.

Voltando aos tintos, sempre que comparo os grandes Bordeaux a outros vinhos de mesmo perfil, lembro da famosa degustação de Paris (1976). Quando novos, dependendo da safra e do château, até posso admitir a supremacia dos norte-americanos. Porém, com o devido tempo de evolução em garrafa, e aqui falamos em mais de vinte anos de safra, a diferença é brutal. Com todo o respeito ao Opus One, um dos melhores californianos, sendo a Califórnia com folga, a região dos melhores tintos do Novo Mundo, a comparação é cruel. A elegância, o equilíbrio, a textura em boca, e o final extremamente bem acabado do Margaux 1990 deixa qualquer tinto desconcertado. A diferença entre as respectivas taças é muito menor do que a percepção sensorial mostra. Seguem abaixo, alguns dados técnicos dos vinhos.

Opus One 1999 84% Cabernet Sauvignon, 7% Merlot, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec, 1% Petit Verdot. 17 meses em barricas francesas novas. Primeira safra em 1979. Chateau Margaux 1990 Propriedade de 262 ha. 80 ha de vinhas. 18 a 24 meses em barricas novas. 130 mil garrafas. Primeira safra listada de 1771 em seu site oficial. Normalmente, temos 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, e o restante entre Cabernet Franc e Petit Verdot.

Portanto, vida longa aos aniversariantes e amigos presentes! Quanto aos Portos no final do jantar, após o café e charutos, já é uma outra história para o próximo artigo.

Claude Troisgros: Haddock com Maçãs

9 de Janeiro de 2014

Haddock ou Hadoque (aportuguesado) é um peixe de águas frias semelhante ao Cod Fish (mais conhecido como bacalhau). Normalmente, encontramos o mesmo defumado, processo pelo qual expressa-se melhor. Apesar de tratarmos esta receita como de verão, o mais indicado é servi-la no jantar, especialmente para uma noite romântica. O passo a passo é dado pelo endereço abaixo, no programa Que Marravilha! do Chef Claude Troisgros.

http://gnt.globo.com/receitas/Hadoque-confitado-com-macas–anote-a-receita-de-Claude-Troisgros.shtml

Segundo a receita, podemos perceber a oleosidade do prato. Para isto, precisaremos de vinhos de muito boa acidez. Só por este fato, os brancos saem na frente, deixando pouquíssimas opções para os tintos. Outros ingredientes como amêndoas tostadas, o próprio toque de defumação do peixe, limão siciliano e as maçãs, vão de encontro a um bom champagne. Contudo, devemos procurar champagnes relativamente jovens e com muito frescor. Além disso, o toque açucarado e as as uvas passas no preparo das maçãs, aconselham um champagne não muito seco. Pode ser um Brut com açúcar residual próximo ao limite de sua denominação ou então, um Sec ou Extra-Dry. Um Moët Chandon costuma ter estas características. O Taittinger pode ser uma escolha ainda melhor.

Harmonização com acidez e açúcar em equilíbrio

Outra bela opção seria um Riesling alsaciano ou alemão. A ótima acidez desta nobre casta e a comunhão com o aroma das maçãs é perfeita. Um Zind-Humbrecht, um dos melhores nomes da Alsace, possui o equilíbrio de doçura perfeito. Um alemão Halbtrocken (meio seco ou não tão seco) é uma excelente alternativa. Doctor Bürklin-Wolf da importadora Mistral (www.mistral.com.br) é uma referência na região germânica de Pfalz.

Um Chardonnay poderia ser uma alternativa, mas teria que ser da Borgonha, pela elegância e o perfeito equilíbrio da madeira. Poderia ser um Puligny-Montrachet, porém um Chassagne-Montrachet tem mais peso para o prato. Se for do Novo Mundo, apenas alguns podem cumprir os requisitos acima. Por exemplo, alguns americanos de Sonoma Valley, um argentino Catena Alta, um chileno Amelia ou Sol de Sol, um Hamilton Russell sul-africano, ou um australiano Roxburgh da vinícola Rosemount.

Algum desses vinhos são trazidos pelas seguintes importadoras:

  • Mistral (www.mistral.com.br)
  • Interfood (www.interfood.com.br)
  • Zahil (www.zahilvinhos.com.br

Domaine Leflaive: Montrachet em todos os prefixos

22 de Julho de 2013

Quando pensamos em Montrachet, imediatamente nos transportamos para a essência de um grande Borgonha. E quando falamos de Le Montrachet, falamos do Romanée-Conti de todos os grandes brancos da Côte de Beaune. Contudo, seria mais prudente compararmos este esplêndido vinhedo de pouco mais de oito hectares à comuna de Vosne-Romanée, pois temos vários produtores. Dentre os grandes, numa verdadeira batalha de titãs, Domaine Leflaive, pessoalmente, é a grande referência. A razão é simples, é especialista neste pequeno pedaço de terra com todos os prefixos Montrachet, sendo cinco hectares na apelação Grand Cru, e pouco mais de onze hectares na apelação Premier Cru, todos de altíssimo nível. Veja o vídeo abaixo, com madame Anne-Claude Leflaive e sua filosofia biodinâmica.

http://youtu.be/Q6Ebqm5Eud4

O quadro abaixo nos mostra os principais vinhedos do domaine com Premiers Crus notáveis. O trabalho na vinha dispensa comentários; é preciso, e com todo o rigor biodinâmico.

Lotes muito bem selecionados

Quanto à vinificação, de acordo com a matéria-prima, o processo desenvolve-se naturalmente, respeitando os respectivos terroirs. Para o Grand Vin, Le Montrachet, a fermentação dá-se em barricas de carvalho novas de Allier (carvalho ultra refinado), seguindo-se doze meses de amadurecimento sur lies com bâtonnage, e mais seis meses em carvalho de um ano de uso, antes do engarrafamento com filtragem extremamente ligeira, se necessário.

Montrachet: Berço espiritual da Chardonnay

Para os demais Grands Crus (Chevalier, Bâtard e Bienvenues), o processo é semelhante com algumas variações: apenas 25% de madeira nova. O carvalho, além de Allier, participa o da floresta de Vosges. E o amadurecimento de doze meses em barricas, é complementado por mais seis meses em cubas.

Para os Premiers Crus, todo o ritual é praticamente igual a dos vinhos acima citados, com pequenas variações na porcentagem de madeira nova. Os vinhos são de grande categoria, sendo os vinhedos Les Pucelles e Le Clavoillon, os maiores em área (em torno de quatro hectares cada um). 

Para aqueles que querem se aventurar na magia destes Grands Crus, podemos dizer que Chevalier-Montrachet é o mais delicado, com uma elegância ímpar. Seu solo é o mais pedregoso e de ótima drenagem. Já Bâtard-Montrachet é o mais denso, encorpado, por conta de seu solo mais argiloso em relação ao calcário. Por fim, Le Montrachet, a perfeição, unindo a elegância de Chevalier e a robustez de Bâtard, com muito equilíbrio, profundidade e expansão. Todos eles de grande guarda. Tenha paciência para pelo menos dez anos de espera, antes de abri-los. 

Coulée de Serrant: Do céu à terra

27 de Maio de 2013

Vinho do céu à terra. Este é o título do livro de Nicolas Joly, proprietário do famoso Coulée de Serrant e pai da Biodinâmica. Já falamos deste assunto em algumas oportunidades, inclusive num artigo deste blog intitulado “Chacra e Noemía: Bodegas de terroir”.

Para os mais céticos, devo dizer que antes de mais nada, Nicolas Joly é um excelente vinicultor, ou seja, sabe fazer vinhos. De nada adianta todos os preceitos da biodinâmica para pessoas sem talento. Como se diz: de boas intenções, o inferno está cheio. Contudo, se o século vinte foi o desenvolvimento da era industrial e o século vinte e um está sendo da era digital, provavelmente, o próximo século será o da sustentabilidade. Neste contexto, a biodinâmica encaixa-se perfeitamente, promovendo a harmonia do ecossistema, a ausência de produtos químicos no combate às pragas, e a preservação da fauna e flora locais.

Coulée de Serrant: Monopólio de sete hectares

Nicolas Joly elabora três vinhos em sua propriedade, todos dentro da apelação Savennières, a mais reputada apelação para a casta Chenin Blanc em estilo seco. Além de Coulée de Serrant, um terroir especial dentro de Savennières com apelação própria, temos Le Clos de La Bergerie, outro grande vinho da apelação Roche aux Moines, tão nobre como Coulée de Serrant. Por fim, Le Vieux Clos, um vinho sob a apelação Savennières, partindo de vinhas relativamente antigas, sob baixos rendimentos. Apenas quinze mil garrafas por ano.

Voltando ao grande Coulée de Serrant, alguns dados e informações sobre o mesmo valem para os demais vinhos da propriedade, já que os preceitos biodinâmicos não fazem distinções entre os vinhos, apenas respeitam as limitações e características de cada terroir. O trabalho de campo é feito pelo homem e por tração animal (cavalos). O solo é pedregoso com grande proporção de xisto e quartzo. A idade média das vinhas para o Coulée de Serrant é de 35 a 40 anos, com algumas chegando a mais de oitenta anos. Os rendimentos variam entre 20 e 25 hectolitros por hectare, bem abaixo dos quarenta autorizados para a apelação. Este vinhedo é cultivado desde o ano 1130 por monges cistercienses e até o presente momento foram feitas quase novecentas colheitas. A colheita é realizada em cinco passagens durante três ou quatro semanas para uma perfeita maturação, inclusive eventualmente com a presença parcial da Botrytis Cinerea (assunto já visto neste mesmo blog). 

Serrant decantacaoDecantação obrigatória

Da colheita à cave. Segundo Joly, a vinificação deve ser feita em barricas de madeira, jamais novas, com capacidade para quinhentos litros. O formato e o tamanho da barrica são o continente ideal para o nascimento do vinho. Não há decantação, resfriamento, controle de temperatura, clarificação e muito menos adição de leveduras industriais. Aqui é parto natural, não se admite cesarianas. Nestas condições, a fermentação em alguns momentos pode atingir temperaturas entre 25 e 30ºC, e sua duração ocorre entre dois e quatro meses, às vezes mais. 

O vinho envelhece muito bem por longos anos. É sempre bom decantá-lo com duas ou três horas de antecedência. A cor mais evoluída é fruto não só do tempo em adega, mas da super maturação das uvas, e de todo o processo natural de vinificação. A temperatura de serviço deve ficar entre 13 e 14ºC, pois seus aromas mais densos podem ser melhor apreciados e o vinho equilibra-se perfeitamente. Frutas como marmelo e ameixa amarela, mel, favo, e toques minerais são sempre lembrados. Com aromas mais evoluídos, o marzipã se faz presente.

Segundo Maurice Edmond Sailland, mais conhecido como Curnonsky, reverenciado como “Prince des Gastronomes”, grande crítico da primeira metade do século vinte, a França possui cinco grandes vinhedos na elaboração de brancos. São eles: Montrachet, Yquem, Grillet, Chalon e nosso espetacular Coulée de Serrant. Realmente, um time dos sonhos!

Borgonha: Parte VIII

16 de Abril de 2012

Após a comuna de Meursault, caminhando para o sul da Côte de Beaune, entramos no berço espiritual da Chardonnay. Aqui, a palavra mágica é Montrachet. Evidentemente, o excepcional vinhedo “Le Montrachet” é o mais cobiçado de todos os Grands Crus desta pequena área, conforme figura abaixo.

A perfeição da Chardonnay

Notem que no meio do mapa existe uma linha pontilhada dividindo as comunas de Chassagne-Montrachet à esquerda, e Puligny-Montrachet à direita. Com isso, dois Grands Crus são divididos entre as mesmas: Bâtard-Montrachet e o grande Le Montrachet. Ainda no mapa, observamos o Grand Cru Criots-Bâtard-Montrachet pertencendo exclusivamente à comuna de Chassagne-Montrachet. Por sua minúscula produção, menos de dez mil garrafas por ano, comprem o que estiver ao alcance dos olhos e do bolso. Do lado de Puligny-Montrachet, mais dois Grands Crus exclusivos: Bienveneus-Bâtard-Montrachet e o estupendo Chevalier-Montrachet. Este último para muitos, o grande rival da estrela maior.

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Dos cinco Grands Crus, três merecem atenção especial quanto a seus respectivos terroirs. Observem o esquema acima dos vinhedos em termos de altitude. Na parte mais baixa, temos Bâtard-Montrachet com seu solo de marga onde a argila destaca-se em meio ao calcário. Portanto, numa sintonia fina seus vinhos são mais densos, mais pesados, necessitando de uma boa decantação, principalmente se forem tomados relativamente jovens.

Em altitude oposta, temos o vinhedo Chevalier-Montrachet com seu solo de pedregosidade destacada. Este fato confere uma sutileza e elegância incríveis, impressionando a maioria dos degustadores, sejam eles experientes ou não. Bouchard Père et Fils, também grande comerciante da borgonha, elabora um Chevalier-Montrachet de cair o queixo.

Por fim, o grande Le Montrachet, com seus 7,93 hectares extremamente fracionados, posicionado entre os dois Grands Crus acima citados. A insolação é perfeita, tendo na época de maturação o sol batendo nas vinhas até nove horas da noite. Seu solo conjuga todos os fatores benéficos à Chardonnay, resultando num vinho extremamente elegante como Chevalier, e não menos denso e robusto como um Bâtard. A perfeição está próxima.

Alguns produtores destes grandes vinhos: Domaine Leflaive, Domaine de La Romanée-Conti, Comtes Lafon, Ramonet, Drouhin (Marquis de Laguiche), Carillon, Gagnard e Sauzet. Infelizmente, nem todos vêm para o Brasil. As importadoras Expand e Mistral possuem alguns destes produtores.

Alternativas interessantes a todos esses grandes vinhos citados, são alguns produtores ilustres nas vizinhanças de Chassagne e Puligny como Jean-Marc Boillot da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com vários Puligny-Montrachet Premier Cru a preços atraentes. O produtor Hubert Lamy trazido pela importadora Premium Wines (www.premiumwines.com.br) elabora belos exemplares em Chassagne-Montrachet e na comuna vizinha de Saint-Aubin, com belos Premier Cru. Aliás, Saint-Aubin é uma alternativa interessante frente às comunas mais badaladas, principalmente na categoria Premier Cru. 

Borgonha: Parte II

5 de Março de 2012

Neste post vamos começar a falar do filé mignon da Borgonha, a sub-região chamada Côte d´Or, com vinhos sublimes, polêmicos, caros, apaixonantes, decepcionantes, misteriosos, e tantos outros adjetivos surpreendentes. Vamos ter alguns capítulos só neste pedacinho de terra, pois engloba nomes reverenciados em todo o mundo: Chambertin, Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Montrachet, Corton-Charlemagne, só para ficar em alguns.

Podemos dizer que neste terreno encontra-se o berço espiritual da Pinot Noir (Côte de Nuits) e da Chardonnay (Côte de Beaune). Dito isto, estão devidamente apresentadas outras duas sub-regiões da Côte d´Or: Côte de Nuis ao norte, e Côte de Beaune ao sul, conforme mapa abaixo:

Todos os Grands Crus estão nesta área

Grand Cru é a classificação máxima nas apelações da Borgonha e todos eles estão concentrados neste trecho de terreno, sendo a única exceção a região de Chablis, comentada em post anterior. Outra observação pelo mapa é que todos os tintos Grand Cru estão na Côte de Nuits e todos os brancos Grand Cru estão na Côte de Beaune. O único tinto Grand Cru da Côte de Beaune é o famoso Corton.

As condições de terroir são perfeitas nesta região quanto ao clima, insolação, altitude e principalmente a composição do solo, fator determinante para o plantio de Chardonnay ou Pinot Noir.

O produtor, a localização do vinhedo, e a filosofia de trabalho em áreas específicas são os principais fatores para separarmos o joio do trigo. Borgonha sobretudo neste trecho, é terra de especialistas, e cada comuna tem seus segredos.

Normalmente, o nome das principais comunas desta área está ligado ao seu vinho mais famoso. Por exemplo; Gevrey-Chambertin, Chambolle-Musigny, Chassagne-Montrachet, Vosne-Romanée e assim por diante. Sempre o segundo nome agregado ao Village é o grande vinho da comuna.

A pirâmide de classificação das apelações da Borgonha e suas respectivas porcentagens em termos de produção encontra-se num post já publicado: A Borgonha em números.

Próximo post, Côte de Nuits e seus grandes tintos.