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François Bertheau: On y va

11 de Novembro de 2023

Uma das menores cidades da Bourgogne, com pouco mais de 300 habitantes, Chambolle-Musigny produz os mais delicados, finos e femininos vinhos da região. Por entre as ruas, deparam-se com sobrenomes famosos: Mugnier, Roumier, Barthod, Amiot-Servelle, Vogüé, cada um com seu estilo e seus vinhedos. Atrás do restaurante Chambolle, cuja carta de vinhos tem uma das mais completas seleções de rótulos dessa cidadela, fica o Domaine François Bertheau, que só produz Chambolles, com exceção da vinificação de uma pequena parcela de Aligoté, mas esse para consumo próprio.

Ao contrário de seus pares midiáticos, Bertheau, cujos vinhos não são vendidos no Brasil, está fora do radar das principais publicações e evita participar das degustações promovidas pelos guias franceses. Grande parte da produção é exportada para os Estados Unidos, Japão e Europa. Aqui são produzidos um Chambolle-Musigny, um Chambolle Premier Cru (assemblage de Groseilles, Baudes, Noirots and Gruenchers), o Chambolle Musigny Les Charmes, o Les Amoureuses e o Bonnes Mares, mescla entre a terra branca e a vermelha desse grand cru. A vinificação é quase igual para todos, com uso mínimo de madeira, de até 10% a 15%, para que a delicadeza e a sutileza possam transparecer na taça.

François, que assumiu o Domaine em 2003 do seu pai Pierre, faz Chambolles delicados e sutis, com preços que podem ser considerados uma barganha se comparados aos de Mugnier e Roumier, apesar de o primeiro ser líder inconteste nos quesitos: emoção, sutileza, coração e mente.  Há uma particularidade: não há marcação nos barris, Bertheau sabe de cor onde cada vinho repousa, um segredo de um meticuloso e perfeccionista viticultor que gosta de ter controle de cada etapa.

O sucesso das últimas safras fez com que ele não venda mais seus vinhos no Domaine, cujas últimas safras tiveram perdas por causa das condições climáticas, principalmente em 2016, quando os rendimentos foram até 50% menores. A safra 2016 é considerada clássica. O Chambolle-Musigny é vinho delicado e sutil. O Chambolle-Musigny Premier Cru é um degrau acima, um vinho que conjuga fruta, mineralidade e aromas florais, uma aposta certeira para se comprar de caixa. O Les Charmes é um vinho abordável, refinado.

Um dos mais reputados crus da Bourgogne, Les Amoureuses é um terroir mítico. Quatro produtores têm boa parte de seus vinhedos na parcela mais próxima de Musigny, a melhor. Um deles é Bertheau, os outros três são Mugnier, Roumier e Vogüé. Cada um extrai um vinho diferente. Mugnier caminha na linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, com um vinho absolutamente espetacular, a essência de um Bourgogne grandioso. Bertheau faz um meio caminho entre a delicadeza de Mugnier e as mãos de Christophe Roumier.

O Bonnes Mares é um vinho colhido em vinhedos de Morey Saint Denis e Chambolle-Musigny, com terras marrons e brancas, um vinho mais possante, rústico em comparação aos outros dois, mas muito bom. A degustação chega ao fim, mas antes de despedir peço um pequeno favor: uma taça a mais de Amoureuses. A vida fica muito mais fácil assim.

Latour-Giraud: Meursaults fora do radar

9 de Novembro de 2023

(Originalmente publicado em pisandoemuvas.com)

Há produtores que estão fora do radar das principais publicações, não fazem barulho como outros vizinhos, nem têm suas alocações vendidas meses antes de os vinhos chegarem às prateleiras. Quando aparecem notas a seu respeito, ganham curtos parágrafos, mesmo que elogiosos. Esse é o caso do Domaine Latour-Giraud, com mais de três séculos de história e com a maior área de produção de Genevrières, prestigiado premier cru de Meursault, hoje uma das cidades mais disputadas pelos enófilos por causa dos vinhos cada vez mais estrelados de Jean Marc Roulot, Arnaud Ente, Coche Dury.

Pierre Latour comanda o Domaine Latour-Giraud, que fica na antiga rua que abrigava um leprosário em Meursault. Hoje a rue de l´hopital não existe mais, tendo sido substituída por uma vicinal que corta a cidade e a interliga às cidades de Volnay e Puligny-Montrachet. Nem o GPS tem o Domaine no seu radar. Sorte que o senhor parado por nós sabia como se chegar lá.

Pierre Latour é um homem de cerca de 60 anos, educado e curioso. Nunca tinha recebido brasileiros e queria saber o que nos tinha levado lá. Com cerca de 85% da produção voltada para brancos e 15% para tintos, o Domaine faz Meursaults em um estilo diferente dos feitos por Roulot. Talvez um estilo entre Roulot e Lafon. São vinhos brancos feitos para a guarda, com fruta e um estilo menos mineral, muito gastronômicos. A safra 2014 é considerada por ele uma das melhores dos últimos anos. Em 2015, são vinhos mais acessíveis na juventude, talvez semelhantes aos 2009, sem grande capacidade de envelhecimento.

O Meursault Cuvée Charles Maxime é daqueles vinhos que os críticos pontuam com 89 a 90 pontos, mas que são a mostra de que pontos funcionam no basquete, não nas taças. Um chardonnay gastronômico, opulento, refinado e mineral, de comprar de caixa. O Les Narvaux é mais mineral, outro também para se comprar de caixa. No terreno dos premiers crus, o primeiro a desfilar é o raro Bouchères, com um toque mais acentuado de frutas secas; o próximo é o Poruzots, mais gordo; depois chega o suculento e profundo Charmes.

Pierre Latour comenta que o preço da terra na Bourgogne está cada vez mais alto. Um hectare de premier cru Charmes, em Meursault, pode custar um milhão de euros, o que cria um grande problema para os domaines familiares. A lei de transmissão na França recolhe 30% dos bens a serem herdados para seus cofres e põe pressão sobre o futuro em uma atividade de capital intensivo e sujeita às intempéries da natureza. Pressão ainda maior desde o início da década, quando as safras foram menores do que a média.

O preço alto do terroir faz com que a geração que assume um Domaine tenha de desenhar estratégias para se manter no comando: pode-se vender parte do estoque nas caves, pode-se vender 20% a 30% do domaine para outros viticultores, pode-se chegar até a vender o Domaine todo, tentação para pessoas que nunca viram um cheque tão alto. “Isso preocupa muito e isso traz grandes problemas para a Bourgogne, que é artesanal”, diz Pierre, pai de duas meninas. Ele quer manter a tradição familiar.

Antes de chegar ao Meursault Genevrières, a razão de nossa visita ao Domaine, Pierre Latour abre um Puligny Champs Canet, um dos mais refinados Pulignys, com um toque floral delicado. “É bom ter a oportunidade de fazer um vinho fora de Meursault”, afirma. Com dois hectares e meio de Genevrières, ele resolveu vinificar duas parcelas desse terroir: a normal e a chamada Cuvée des Pierres, geralmente quatro barris de vinho, com as uvas com mais de 50 anos. São dois vinhos distintos, ambos refinados, elétricos, com acidez que mostra um potencial de envelhecimento superior a uma década. Muito interessante seria colocá-lo às cegas em uma degustação com o Perriéres de Jean Marc Roulot.


Os vinhos não vêm para o Brasil, mas são facilmente encontrados nos Estados Unidos e se configuram em barganhas em relação aos preços que Roulot e companhia estão cotados hoje. Pierre Latour não está no radar de muitos, mas definitivamente entrou no meu.

O outro lado da RN 74

2 de Fevereiro de 2021

A Route Nationale 74, ou a D974, interliga alguns dos vinhedos mais míticos de pinot noir e chardonnay do planeta. O dólar alto e a disparada de preço na Bourgogne (um Bourgogne blanc sai da adega de Coche Dury por 40 euros e é vendido em NY por mais de US$ 200) têm deixado Chambolles, Vosnes, Volnays, Chassagnes e Pulignys cada vez mais caros no Brasil. Selecionar rótulos e produtores de regiões menos badaladas se tornou essencial para continuar a beber bem.

Maranges

Maranges fica ao sul de Beaune. Seus tintos são muito mais reputados que os brancos. Nas palavras de Clive Coates, produzem-se ali vinhos “honestos, robustos e rústicos, no melhor sentido”. Pablo e Vincent Chevrot são o principal nome desse terroir. Sur le Chêne é um dos vinhedos que têm ganho atenção da crítica francesa e inglesa. Por cerca de R$ 350 na Anima Vinum, esse é bom borgonha, com um toque animal, fruta bem moldada. Se os Chevrots seguirem nesse caminho, o primeiro pelotão da Bourgogne está logo ali. Quem disse não fui eu, mas William Kelley. Assino embaixo.

Auxey-Duresses

Auxey Duresses é mais conhecido por ter resultados estelares nas mãos de madame Lalou Bize Leroy. Há vida, muita aliás, fora de Auvenay. Esse rótulo branco é uma prova. Les Crais é um bom custo benefício de vinho branco da Bourgogne. Feito pelo Prunier-Bonheur, na @claretsbrasil, por cerca de R$ 350. Muita energia nesse 2017, ganhou muito depois de aberto. Boa opção para 2021. Não foi mal com a salada de salmão defumado.

Cote de Nuits-Villages

Côte_de_Nuits-Villages-Les_Chaillots

Os vinhos de Gachot Monot têm um avalista de peso: m. Aubert de Vilaine, que gerencia o Domaine Romanée Conti e é proprietário de ótimo domaine que produz excelentes vinhos na Côte Chalonaise. Foi Aubert quem chamou a atenção da importadora americana Kermit Lynch sobre Damien Gachot, que tem 12 hectares em Corgoloin, entre Nuits Saint Georges e Beaune. Esse Côte de Nuits ‘Les Chaillots’, que estava em promoção a R$ 315 na Govin, reforça a tese de que o estudo dos vinhos desse domaine deve ser aprofundado.

Bourgogne blanc 2015 Berlancourt

Se um dia visitar esse pequeno domaine em Meursault, que também hospeda, não se assuste se encontrar Jean Francois Coche degustando ali. O dono de um dos domaines míticos da Cote d’Or gosta bastante dos vinhos de Pierre e Adrien Berlancourt. Veio no fim do ano passado numa pequena quantidade pela @uvavinhos. Uma nova remessa deverá chegar em breve. Frutas brancas em profusão, leve toque de fruta seca, um vinho que tem tudo de Meursault e com um pouco mais de persistência e complexidade passaria por um bom premier cru da village.

Bourgogne Côte d´Or Cuvée Gravel 2018 – Claude et Catherine Maréchal

Ótima porta de entrada do domaine Catherine e Claude Marechal, criado em 1981 e cujo mentor foi a lenda Henri Jayer. Produz em 12 hectares.A cuvée Gravel é situada em Pommard et Bligny-les-Beaune. Por R$ 280 na Delacroix, um dos melhores bourgognes disponíveis no mercado brasileiro. Na Delacroix.

Bourgogne Roncevie

Quando se visita o domaine Arlaud (texto da visita no site pisandoemuvas.com) uma das primeiras histórias escutadas é a excelência desse terroir. Roncevie está Gevrey-Chambertin, mas do lado errado da RN 74, ou seja, distante dos grands crus. Até 1964 era considerado “Villages”, mas na disputa política ficou com parcelas fora da classificação. Pére Arlaud não se fez de rogado. Comprou bourgogne sabendo que tinha um Gevrey disfarçado. O domaine tem excelentes vinhos, a única pena é o preço, que tem subido muito nos últimos dois anos. Vêm pela Cellar. Por R$ 375.

Maceração Pré Fermentativa

3 de Abril de 2020

Não confundir com Maceração Carbônica, muito utilizada no processo de fermentação do Beaujolais com a uva Gamay, processo diferente que utiliza também o gás carbônico em forma gasosa.

maceração carbonica

maceração carbônica: escalonada

À medida em que a saturação da cuba vai se enchendo de CO2, a fermentação intracelular começa a acontecer na parte superior da cuba, extraindo aromas frutados, cor e poucos taninos. No interior da cuba, vai havendo um processo de transição até chegar à fermentação alcoólica propriamente dita. A maceração carbônica é um processo curto de poucos dias, onde os beaujolais mais simples são submetidos. A abertura total ou parcial da cuba é importante no processo. Os grandes beaujolais (crus) têm grande fermentação relativamente à pouca maceração.

Maceração Pré Fermentativa a Frio para vinhos tintos

Na Borgonha com a uva Pinot Noir, Henri Jayer foi um dos precursores do processo, submetendo suas uvas a baixas temperaturas, extraindo cor, aromas e poucos taninos. Lentamente, a subida de temperatura é gradual, aproveitando de maneira prolongada e suave todo o processo fermentativo, onde os taninos estão mais presentes, mas sempre somente das cascas (totalmente éraflage, desengaçar as uvas).

maceração a frio controlada

Tem que haver um equilíbrio no tempo pré-fermentativo

A maceração a frio controlada por alguns dias pode equilibrar amargor, persistência, cor, aromas e tipicidade, taninos moderados, para um bom processo fermentativo.

Maceração Pré Fermentativa a frio (MPF)

A utilização deste processo admite CO2 no estado sólido (gelo seco). O ponto de fusão deste CO2 é de menos 57° C, muito negativa. Para o gelo seco ou neve carbônica podemos chegar a temperatura a menos 80° C. Neste processo não estado liquido, temos a sublimação que é a passagem do estado sólido diretamente para o estado gasoso. É por isso que nos refrigerantes e bebidas espumantes, não há diluição do gás no liquido. A proporção recomenda é de 200 gramas de gelo seco para cada hectolitro na cuba, ou seja, de 12 a 13 kg de gelo seco (glace carbonique) numa cuba de 300 hectolitros. Isso é suficiente para baixar a temperatura acima de 5° C por cerca de dez dias.

glace carbonique tintos

gelo seco nas uvas antes da fermentação

gaz carbonique sublimation

os estados da matéria

No caso da água propriamente dita, ela passa facilmente pelos três estados citados acima, sólido (gelo), liquido (como a conhecemos) e em forma de valor (quando aquecemos). Já no CO2 é diferente, seu estado liquido é muito instável e só acontece sob determinadas condições de temperatura e pressão. Portanto, é muito mais fácil passar pela sublimação, ou seja, direto do estado sólido (gelo seco) para o gasoso (neve carbônica).

gaz carbonique ponto critico

fases instáveis da matéria

Nos pontos triplos e críticos, podemos ter o estado liquido momentâneo, onde os três estados da matéria coexistem, mas as condições de pressão e temperatura são muito especificas e instáveis. É por isso que na gastronomia molecular vemos certas “mágicas” que nos impressionam nos pratos e alimentos. Shows também pirotécnicos em eventos são muito comum nesta especialidade.

Brettanomyces

É importante uma certa sulfitação para proteger o mosto do Brettanomyces, levedura de baixa fermentação. Esses mostos são muito ricos em fruta, ésteres, e baixo níveis de polifenóis extraídos. Portanto, o SO2 é um importante bactericida no combate ao Brettanomyces.

Conclusões finais

Para os vinhos tintos da Bourgonge, o ganho de maceração a frio é significativo em termos de aromas e substâncias corantes, desde que não seja muito prolongada. Neste caso, usou-se neve carbônica na razão de 100 g por quilo de uva, a uma temperatura média de 8° C a 10° C por cinco dias.

 

A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

Jules Lavalle: Classificação 1855

20 de Junho de 2019

Quando falamos de classificação de vinhos de 1855, já pensamos de imediato nos famosos Chateaux de Bordeaux de margem esquerda. Uma classificação polêmica e imutável, onde 61 chateaux foram listados em cinco categorias, levando em conta prestígio e preços dos vinhos na época, sobretudo. Entretanto, desta feita, estamos falando da Borgonha, de um pesquisador e estudioso da época, que deu as diretrizes de classificação e organização dos vinhedos da Côte d´Or, além de um belíssimo trabalho cartográfico. Estamos falando de Jules Lavalle, professor da escola de Medicina de Dijon, diretor do Jardim Botânico de Dijon, secretario da Sociedade de  Horticultura da Côte d´Or e membro da Sociedade de Geologia da França. Essa classificação abriu caminho para as futuras apelações de origem francesas da região, promulgadas em 1936.

A seguir, vamos analisar as principais comunas da Côte d´Or, comparando a classificação de Lavalle com a atual legislação da Borgonha, principalmente nas categorias Grand Cru e Premier. Lavalle propõe uma classificação em cinco níveis de categoria na seguinte ordem decrescente de importância e mérito: Tête de Cuvée, Première, Seconde, Troisième, et Quatrième Cuvée. As questões de terroir no sentido mais amplo da palavra foram consideradas, mencionando um termo que ele chama de finage, ou seja, a perfeita integração de uma comunidade rural com suas terras integradas num conjunto harmônico que engloba não só os vinhedos, como florestas, outras culturas paralelas, respeitando fauna e flora locais. Segue tabela comparativa abaixo: 

JULES LAVALLE

Clique acima para abrir arquivo

Já na primeira comuna ao norte da Côte de Nuits, Fixin, uma surpresa. O climat Clos de La Perrière era considerado por Lavalle como Tête de Cuvée, enquando na classificação atual, qualquer um dos climats de Fixin são no máximo, Premier Cru. Atualmente, uma comuna bem menos prestigiada que outrora.


Seguindo a rota a sul, a famosa comuna na sequência é Gevrey-Chambertin, uma das mais prestigiadas da Côte d´Or atualmente com nada menos que nove Grands Crus. No entanto, na época de Lavalle, somente dois dos atuais Grands Crus foram Tête de Cuvée, Chambertin e Clos de Bèze que de fato, são os climats mais importantes desta comuna. Realmente, é difícil ter um consenso de mesmo prestígio nos outros sete Grands Crus atualmente classificados.


Na sequência, temos a comuna de Morey-St-Denis com cinco Grands Crus na atualidade. Destes, somente Clos de Tart foi classificado por Lavalle como Cuvée de Tête. Clos des Lambrays, Clos de La Roche, Clos St Denis, e uma pequena parte de Bonnes Mares, ficaram longe da excelência. Clos de Tart bem o merece. É um vinho tão enigmático como o mítico Romanée-Conti e sua longa história dentro da Borgonha medieval é igualmente rica e brilhante.


Continuando a saga, Musigny é o grande vinho da comuna de Chambolle-Musigny. Sempre um vinho de grande prestígio, é o único que Lavalle classificou como Tête de Cuvée. Bonnes Mares, atualmente Grand Cru, e Les Amoureuses um super Premier Cru, foram considerados como Première Cuvée.


Quando se fala do Grand Cru Clos de Vougeot, falamos primeiramente de história, deixando o rigor técnico um pouco de lado. De fato, com cerca de 80 produtores fica difícil manter uma homogeneidade e um padrão elevado em todo o vinhedo que perfaz 50 hectares de vinhas, um verdadeiro latifúndio na Borgonha. Por isso, tanto a legislação atual como Lavalle, consideram Clos de Vougeot um patrimônio histórico inestimável com a classificação máxima. Lavalle utiliza um termo peculiar que ele chama de “Hors Ligne”, equivalente ao termo Tête de Cuvée.


Nas comunas de Flagey-Echezeaux e Vosne-Romanée, tratadas atualmente como uma só com o nome mais prestigiado, Vosne-Romanée, temos oito Grands Crus na legislação vigente, ou seja, Romanée-Conti, La Tache, Richebourg, Romanée-St-Vivant, Echezeaux, Grands-Echezeaux, La Romanée, e La Grande Rue. Lavalle foi bem rigoroso, listando sem contestação como  Tête de Cuvée os vinhedos Romanée-Conti, Grands-Echezeaux, e La Romanée. Em seguida fez questão de classificar parcialmente como Tête de Cuvée os vinhedos La Tache, a parte original sem a participação de Les Gaudichots, atualmente totalmente fundido com o nome La Tache. O mesmo critério foi usado para Richebourg. A porção denominada Les Richebourgs foi considerada Tête de Cuvée, mas parte Les Veroilles, hoje incorporado ao vinhedo original, foi considerada Première Cuvée. Os vinhedos La Grande Rue e Romanée-St-Vivant foram considerados como Première Cuvée. Por fim, o vasto vinhedo Echezeaux, dividido por Lavalle em várias parcelas, foi considerado Premiére Cuvée, sendo algumas delas ainda abaixo desta classificação.


Fazendo um parêntese na comparação Echezeaux e Grands-Echezeaux, fica muito claro a enorme diferença de força, concentração, profundidade, entre esse dois vinhos degustados lado a lado, sobretudo se forem DRC, suas melhores interpretações. O Echezeaux parece de fato um Premier Cru, frente ao poderoso Grands-Echezeaux, um verdadeiro Grand Cru.


Terminando a Côte de Nuits, a última comuna de Nuits-St-Georges revela grandes surpresas. Na atual legislação, não há nenhum Grand Cru, embora tenhamos vários Premiers Crus. Já para Lavalle, muitas parcelas foram classificadas como Tête de Cuvée. As mais famosas são Les Saint Georges com toda a justiça, Les Pruliers, Les Vaucrains, e Les Poirets (Porrets), entre outras. De fato, uma comuna bem mais prestigiada no passado.


Iniciando a Côte de Beaune no sentido norte-sul, começamos pelas comunas contíguas Ladoix, Aloxe-Corton, e Pernand-Vergelesses. Evidentemente, aqui os Grands Crus Corton para tintos, e Corton-Charlemagne para brancos, são os mais prestigiados. Entretanto, Lavalle classifica somente algumas parcelas destes vinhedos, os chamados lieux-dits, como Tête de Cuvée: Le Chaumes, Le Charlemagne, Le Corton, Les Renardes, e Le Clos du Roi.


Descendo em direção ao sul, temos a comuna de Savigny-Les-Beaune com vinhos deliciosos, mas nenhum Grand Cru. Somente Premier Cru na classificação atual em concordância com Lavalle na época. Sem surpresas.


Seguindo a sequência, temos a vasta comuna de Beaune, emblematizada pelos vinhos do Hospices de Beaune. Na legislação atual, não temos nenhum Grand Cru, somente Premier Cru. Para Lavalle, alguns lieux-dits merecem destaque com a classificação Tête de Cuvée, tais como, Aux Cras, Champs Pimont, Les Fèves, e Les Grèves. Le Clos des Mouches, vinhedo de muito prestígio nos vinhos de Drouhin, foi classificado como Première Cuvée.


Em seguida, temos a comuna de Pommard, os tintos mais rústicos da Borgonha numa sintonia fina. Chamados também, os “Barolos” da região. Nenhuma surpresa, nenhum Tête de Cuvée, nenhum Grand Cru na legislação atual. Destaques para os vinhedos Les Grands Epenots e Les Rugiens.


Ao lado de Pommard, a comuna de Volnay com vinhos completamente diferentes onde a delicadeza impera. Nenhum Grand Cru na legislação atual, embora com muitos Premier Cru. Já para Lavalle alguns vinhedos especiais com a classificação Tête de Cuvée. São eles: Les Caillerets, Champans, Les Santenots, e Clos des Santenots. Curiosamente, Clos des Chenes e Clos des Ducs não eram tão prestigiados como na atualidade.


Em Meursault, começam os grandes brancos da Côte de Beaune, embora sem nenhum Grand Cru na legislação atual. Para Lavalle, os climats Perriéres e Clos des Perrières são diferenciados, merecendo a classificação Tête de Cuvée. No mais, sem surpresas.


Seguinda a rota, vamos para Puligny-Montrachet. Aqui, embora tendo quatro Grands Crus de primeira grandeza: Montrachet, Chevalier-Montrachet, Batard-Montrachet e Bienvenues-Batard Montrachet, Lavalle só considera o grande Montrachet como Tête de Cuvée. Os demais são todos Première Cuvée. Pessoalmente, achei muito rigorosa a classificação, pois esses vinhedos embora com características próprias, são espetaculares nos principais Domaines.


Em Chassagne-Montrachet, a comuna vizinha, o mesmo critério. Somente o Le Montrachet foi considerado como Tête de Cuvée por Lavalle. No entanto, ele faz menção especial para alguns Premier Cru, tais como, Clos Saint-Jean, Morgeot La Boudriotte, e Morgeot Clos Pitois.


Na última comuna da Côte de Beaune, Santenay, sem maiores surpresas. Nenhum Grand Cru na classificação atual com alguns Premiers Crus. Para Lavalle, menção especial para os vinhedos Les Gravières e Clos de Tavannes.


Concluindo, as classificações evoluem com o tempo, ditadas pelas fusões de terroir, pelas modificações ocorridas nos climats, sobretudo pela intervenção humana, inerente a perpetuação das práticas vitivinícolas de acordo com as mudanças do homem moderno, sempre na adequação do vinho de acordo com seu tempo.

Efeito Premox

10 de Setembro de 2018

Todos sabemos que os melhores vinhos brancos secos do mundo estão na Borgonha, sobretudo os ligados a um nome mágico chamado Montrachet. É lógico que Rieslings alemães, alguns brancos do Loire, do Rhône, podem entrar nesta briga, mas a Chardonnay na Borgonha assume apelações fantásticas como Corton-Charlemagne, Chevalier-Montrachet, Batard-Montrachet, assim como o inimitável Chablis.

Um das características destes vinhos é envelhecer com propriedade, embora em tenra idade já sejam deliciosos. Contudo, a condição de guarda é uma das razões que os diferenciam da maioria de outros Chardonnays. É exatamente este ponto o motivo de nosso artigo. Por que Borgonhas tão jovens já parecem oxidados e sem estrutura para envelhecer em adega?

Esse fato tem ocorrido nos últimos anos mesmo com produtores de destaque como Domaine Leflaive, Coche-Dury, e Domaine Leroy, por exemplo. Brancos de prestígio e preços nas alturas decepcionando consumidores fieis que jamais acreditariam em tal fato se eles mesmos não fossem as principais vítimas.

Para tentar elucidar o fato, vamos falar do efeito Premox (Premature Oxidation). Sabemos que os brancos da Borgonha são fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho, tendo um certo contato com o oxigênio em sua construção como vinho. Esses fatores em linhas gerais contribuem para uma certa resistência à oxidação e portanto, permitindo a eles uma longa guarda em adega.

Os efeitos Premox provavelmente têm explicação no vinhedo e na cantina, sendo praticamente descartados os problemas de vedação e conservação do vinho. Segundo especialistas como Dra Valérie Lavigne de Bordeaux que estuda o efeito Premox em vinhos brancos há mais de dez anos, alguns fatores de campo e de cantina atuam no problema, sobretudo quando somados, contribuindo para uma vida relativamente curta do vinho.

wine folly massal-selection-clonal-selection-vines-preferência pela seleção massal

Fatores de campo (vinhedo)

  • baixos rendimentos das vinhas somados ao estresse hídrico, potencializado em anos secos, podem baixar os níveis de nitrogênio no solo reduzindo a presença de uma substância chamada glutationa presente nas uvas, responsável por combater a oxidação.
  • seleção clonal x seleção massal. A seleção clonal é feita em laboratório detectando certos tipos de parreiras com produção baixa e resistência a doenças de forma destacada. A seleção massal é praticada de longa data na viticultura, selecionando algumas parreiras naturalmente e tentando replica-las no vinhedo em meio a outras parreiras de características diferentes. Nesta ultima técnica natural a concentração de taninos (substância antioxidante) nas uvas é notavelmente superior.
  • níveis excessivos de maturação das uvas, aumentando o teor de açúcar e diminuindo a acidez natural. Desta prática resulta a frase: três semanas a mais no vinhedo rouba um década ou mais na adega.

batonnage wine follyas borras protegem o vinho

Fatores de cantina (vinificação)

  • prensagem delicada das uvas (prensas pneumáticas) extraem menos material corante das uvas, inclusive taninos (antioxidantes).
  • intervalo relativamente longo entre a fermentação alcoólica e a malolática pode contribuir para o Premox, período em que o vinho fica menos protegido de fatores oxidativos.
  • não abrir mão da técnica de bâtonnage que consiste em deixar o vinho em contato com as borras (leveduras mortas), aumentando assim sua resistência a processos oxidativos.
  • utilizar o SO2 (dióxido de enxofre) de forma coerente e precisa nas várias etapas de vinificação. É um poderoso antioxidante e bactericida. 
  • maior porcentagem do carvalho novo na vinificação pode aumentar a resistência contra a oxidação.

Mediante os fatores acima citados, problemas como vedação das garrafas e armazenamento inadequado só potencializam a questão. No entanto, sozinhos não são determinantes no efeito Premox.

premox 1988-oxidation

as várias tonalidades de cores nos Borgonhas

Um dos aromas característicos do Premox é algo que lembra Sherry ou Jerez, advindos do Sotolon, substância derivada do acetaldeído, uma espécie de oxidação dos álcoois do vinho. Seus aromas podem lembrar mel, curry e amêndoas. 

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Premox: apelações nobres

No painel acima, Meursault-Perrières 2008 e Meursault-Genevrières 1995, completamente oxidados (premox). Na foto seguinte, Louis Jadot Chassagne-Montrachet 2007, também oxidado. Experiências do passado.

Na foto abaixo, um dos grandes vinhedos de Madame Leflaive, les Pucelles. Muitas decepções na safra 1999.

premox puligny montrachet

cuidado com a safra 1999, alto risco premox

Para aqueles que apostam nos grandes brancos da Borgonha como vinhos de guarda capazes de vencer longos anos em adega, prefiram os anos clássicos de boa safra, onde as condições de campo parecem ser mais seguras. Evitem anos muito quentes com grande estresse hídrico, capazes de iludirem os mais desavisados com seus aromas sedutores quando muito novos, quebrando o encanto em pouco anos de vida. Como exemplo de anos recentes, os brancos borgonheses 2009 mostram claramente vida mais curta, comparados aos brancos de 2010, uma safra clássica.

O assunto é polêmico e vasto à medida em que as experiências se sucedem e mais especialistas lançam novas teses. Para aqueles que possuem várias garrafas ou caixas de determinados vinhos de mesma safra, convém monitora-los de tempo em tempo e observar o fenômeno pessoalmente, se for o caso. De todo modo, novas técnicas de cultivo e vinificação solucionam determinados problemas, a despeito de vez por outra, aparecerem alguns efeitos colaterais.

Que os Borgonhas continuem dando muitas alegrias a que os têm e conserva. Por enquanto, o saldo histórico deste tipo de vinho é amplamente favorável, confirmando seus lugares cativos nas melhores adegas do mundo.

Vosne-Montrachet entre Hashis

22 de Abril de 2018

Provar um Montrachet é sempre um momento de contemplação. Afinal, estamos falando de um dos melhores brancos do mundo, se não for o melhor para muitos entendidos. Agora, fazer uma vertical de Montrachet do Domaine Comte Lafon, uma das referências nesta diminuta apelação de aproximadamente oito hectares de vinhas, é um privilégio para poucos.

montrachet lafonbem ao lado das vinhas DRC

Alguns dados traduzem a exclusividade deste momento. Sabe quando o camarada compra aquele lote de 3200 m² para fazer sua casa de lazer. Pois bem, essa é a área das vinhas Montrachet do Comte Lafon. Essas vinhas foram plantadas em 1953 (80%) e 1972 (20%). Seus rendimentos ficam entre 20 e 35 hl/ha. O vinho é fermentado em barricas com bâtonnage (revolvimento das borras) e amadurece entre 18 e 22 meses em barricas também.

187ba657-7a40-4cdb-a249-2652291d2d30.jpgapelação Vosne-Montrachet

Feitas as considerações iniciais, vamos aos vinhos e suas combinações à mesa. Quanto aos três La Tache, serão devidamente comentados em seguida.

IMG_4511.jpgsafras de extremo didatismo

Começando pelo Montrachet 2009, estava num momento ótimo para ser abatido. Cheio de fruta, toques tostados, caramelo, especiarias, e aquela textura macia típica dos Lafons. Sem qualquer sinal de oxidação, este exemplar muito bem conservado, mostra a exuberância da safra 2009 com frutas em profusão. Temo em guarda-lo por mais tempo, pois sua acidez está no limite, sendo este fator de extrema importância para sua longevidade. Foi o preferido para vários dos confrades. Já 2010, outra safra de extremo didatismo. Ela segue o perfil de 2009 no sentido de se mostrar sem rodeios, mas seu equilíbrio é mais harmônico com uma acidez mais vibrante. Evoluiu muito bem na taça, e mostra que pode caminhar por mais tempo em adega. Notas 96 e 97, respectivamente.

um festival de sushis

A fota acima retrata bem os ótimos sushis do restaurante Ryo. Com os Montrachets acima, safras 2009 e 2010, combinaram bem, sobretudo em termos de texturas. O lado adocicado do prato foi de encontro com a riqueza de fruta dos vinhos.

IMG_4512.jpgsafras mais contidas

Num estilo oposto a 2009 e 2010, as safras 2011 e 2013 são mais contidas. Possuem bela acidez e uma mineralidade mais destacada. De início, mostraram-se muito redutivas no aroma onde em seguida, pouco a pouco os mesmos foram se revelando. O grande pecado é que apresentam persistência aromática não muito longa, faltando um pouco de meio de boca. No geral a safra 2013 é levemente superior com deliciosos aromas de pitanga. A longevidade de ambas é um ponto de interrogação, mas aparentemente apresentam acidez para tanto. Notas 93 e 95, respectivamente.

mais hashi em ação

As duas safras acima, 2011 e 2013, de textura mais delgada e acidez mais aguda, foram bem com os pratos de sashimi e sobretudo as vieiras frescas com gelatina de tomate, um dos melhores pratos do menu. Aqui a maresia e frescor dos pescados deram as mãos com a mineralidade e acidez dos vinhos.

IMG_4513.jpgbeirando a perfeição

Pessoalmente, o melhor Montrachet do painel, embora esteja longe de estar pronto. Para beber agora, o 2009 é encantador. Voltando ao 2012, um vinho cheio de mineralidade, bela acidez, toques cítricos no aroma e uma gostosa salinidade em boca. Sua persistência aromática é expansiva e notável. Deve evoluir bem em adega. Sua longevidade pode estender-se até 2040. Talvez um pouco exagerada. Sua nota é 98 pontos.

IMG_4506.jpga escolha de Sofia …

Como se não bastasse essa cascata de Montrachets, entramos em outro terroir sagrado, Vosne-Romanée com sua Majestade, La Tache. O quadro acima revela dois La Taches excepcionais, cada qual em seu estilo e momento de evolução. O de safra 1985 é uma poesia liquida com todos os aromas terciários nobres que um vinho deste naipe pode entregar. Logo ao ser aberto, emergiu um aroma curado de Pata Negra, quase um Joselito, o melhor ramon espanhol. Devidamente decantado, os aromas de trufas, sous-bois, licor de cereja, chá, e flores secas foram perfumando as taças. Boca harmoniosa, precisa em seus componentes bem equilibrados, culminando num final muito bem acabado. Está no momento exato para ser apreciado, embora sem sinais de qualquer indicio de decadência. Deixando a emoção de lado, numa análise técnica isenta, falta um pouco de corpo e persistência para entrar na galeria dos La Taches perfeitos, mas é essa nobreza de aromas que faz deste vinho, independente da safra, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Nota 91 Parker. Eu daria entre 93 e 95 …

O La Tache 1991, safra um tanto desdenhada, é um dos La Taches históricos. O próprio Aubert de Villaine o prefere ao mítico 1990. A diferença de idade de seis anos para o La Tache 85 é desproporcional em termos de evolução. Enquanto o 85 está plenamente formado, o 91 ainda é um adolescente. Tem um estrutura monumental de taninos. Os aromas já estão encantadores com notas de cerejas escuras, minerais, alcaçuz e um delicioso chocolate amargo (cacau). Outro aroma que pouca gente entende é o aroma de carne fresca, nítido neste vinho. Da próxima vez que entrar num açougue, sinta este tipo de aroma. Em boca, falta muito a ser lapidado, mas quando o tempo se encarregar desta lenta tarefa, estaremos diante de um vinho grandioso. Previsão para 2040. Nota 97 com louvor.

os pratos de carne

Os pratos de carne, carne de porco ultra macia num caldo de sabor delicado para os aromas terciários dos vinho, e a delicada textura de língua numa farofinha crocante, complementaram muito bem a nobreza destes dois grandes vinhos.

IMG_4532.jpgo infanticídio de dia

Não se deve abrir um La Tache e outros vinhos DRC antes de vinte anos. A prova está na foto acima, deste belo 96. Um vinho que já tem seus encantos, mas tem muito a entregar ainda. Não tem a estrutura e longevidade do excepcional 91, mas tem acidez e taninos finos para evoluir com propriedade. Os aromas de cerejas, alcaçuz e especiarias, se destacam neste momento. Deve ser imperativamente decantado por duas horas, permitindo assim, uma melhor harmonia em boca. Nota entre 94 e 97 pontos num dos estilos mais elegantes de La Tache, se contrapondo ao potente 91.

O que mais dizer depois de um almoço desses, onde brancos e tintos foram exponenciados ao limite. Apenas agradecer a companhia e generosidade dos confrades, desejando-lhes vida longa regada aos sabores de Bacco. Saúde a todos!

Comunas e Estilos

8 de Janeiro de 2018

Quando tentamos traçar um paralelo entre as regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne é sempre algo muito mais contrastante do que semelhante. Tudo que cerca esses dois terroirs são conceitos muito diferentes, além de solos, climas e uvas. Um dos únicos pontos em comum é que são vinhos igualmente divinos, que envelhecem bem, e atinge uma complexidade difícil de parear com outras regiões vinícolas. Evidentemente, estamos falando do que há de melhor nestes respectivos terroirs. Assim sendo, as mais nobres sub-regiões de cada um destes terrenos estão exemplificadas no mapa abaixo: Médoc em Bordeaux e Côte de Nuits em Bourgogne.

correlação de estilos

As principais comunas dessas regiões fornecem vinhos distintos e de muita personalidade. O estilo particular de cada comuna permite fazer uma analogia entre as duas regiões. A intensidade, sabor, aroma, e textura, não são os mesmos, mas há uma linha mestra que permite a comparação. Senão, vejamos.

Margaux e Chambolle-Musigny

São comunas que afloram sobretudo a elegância. Portanto, textura e aromas delicados, escondendo com sutileza a força e profundidade desses vinhos. Quando nos deparamos com os respectivos astros maiores, a comparação faz ainda mais sentido. Um grande Chateau Margaux possui uma estrutura fabulosa, capaz de vencer décadas em garrafa, sempre envolto em muita elegância. O Grand Cru Le Musigny é outro vinho monumental que segue o mesmo caminho, profundo e elegante. São vinhos com discrição, que precisam ser descobertos e apreciados com atenção e paciência.

Saint-Julien e Morey-Saint-Denis

O ponto em comum entre essas comunas é a imprecisão de estilos de seus vinhos. Saint-Julien, colada em Pauillac, tenta ter a mesma força com vinhos muito equilibrados. Às vezes, o estilo pende para Margaux. Da mesma forma, os tintos de Morey-Saint-Denis procuram ter a força de Chambertin com alguma delicadeza de Chambolle-Musigny. De toda a forma, ambas comunas fazem vinhos de grande consistência e longevidade.

Pauillac e Gevrey-Chambertin

Duas comunas de grande prestígio e com o maior número de Grands Crus em seus respectivos terroirs. Pauillac tem três dos cinco primeiros de Bordeaux. Gevrey-Chambertin possui nove Grands Crus, liderados pelos espetaculares Chambertin e Clos de Bèze. Outros vinhos logo abaixo do primeiro escalão procuram manter o alto nível dos grandes astros. Já os demais vinhos de cada uma das comunas ficam sensivelmente abaixo da perfeição. De fato, são terroirs muito distintos, de difícil replicação.   

Saint-Estèphe e Nuits-Saint-Georges

Comunas que não possuem Grands Crus em seus repectivos terroirs. Saint-Estèphe tem vinhos longevos e de muita distinção, mas falta-lhes um certo refinamento que os difere de um Pauillac, por exemplo. Nuits-Saint-Georges segue o mesmo caminho. Embora seja uma comuna relativamente extensa, os tintos produzidos mais perto de Vosne-Romanée tendem a ser mais delicados, mas falta-lhes finesse, a elegância suprema de Vosne. Pessoalmente, prefiro a autêntica rusticidade de um Gouges ou Faiveley. São mais verdadeiros e envelhecem muito bem.

Vosne-Romanée

Aqui não há comparação. Aqui não temos vinhos comuns. São tintos que aliam profundidade e elegância sem paralelos. Isso fica potencializado quando nos deparamos com produtores como Domaine de La Romanée-Conti, Domaine Leroy, e Henri Jayer. A Pinot Noir toma outra dimensão, gerando vinhos de alta complexidade e enorme longevidade. Do trio mágico acima, os DRCs costumam ser menos lapidados. Precisam de muito tempo em garrafa para mostrarem o que são. Agora, a alta costura dos vinhos de Madame Leroy e Jayer são indescritíveis. Eles imprimem uma elegância extrema, parecendo ser quase frágeis, mas com uma profundidade soberba.

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duas obras-primas sem paralelos

Para não ficar em cima do muro, um grande Vosne em algum momento de sua evolução apresenta uma intersecção com um belo Lafite envelhecido, o mais borgonhês de todo o Médoc. Lafite, sempre é um tinto discreto, misterioso, difícil de se mostrar quando novo. Contudo, quando envelhece, seus aromas etéreos lembrando flores e cedro, além da textura delicada, alguma coisa da Borgonha parece dançar pela taça.

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delicadeza bordalesa com traços borgonheses    

Enfim, apenas um pouco de filosofia comparando duas pequenas porções de terreno onde os maiores tintos do planeta se expressam. O dia em que cair a última gota de chuva e for removido o último estrato geológico na terra, ainda não se saberá porque a França é a indiscutível mestra dos vinhos.  Hugh Johnson!  

 

 

O vinho e o tempo

17 de Dezembro de 2017

Como é difícil prever a longevidade de um vinho, sem falar nas questões de gosto pessoal que variam imensamente. Embora os tintos tenham mais atributos para vencer o tempo, alguns brancos parece seguir o mesmo caminho.

Vamos nos ater somente a vinhos secos, de mesa, de duas grandes regiões francesas: Bordeaux e Bourgogne. Uma dupla de brancos e uma de tintos.

uma década de diferença

Pessac-Léognan

Na foto acima, temos uma double magnum de Smith Haut Lafitte 2000, um dos mais prestigiados chateaux para brancos bordaleses, embora faça tintos também. O tamanho da garrafa traz mais um fator de longevidade onde a evolução do vinho é mais lenta. Esses vinhos costumam ser uma mescla de Sauvignon Blanc e Sémillon em partes quase iguais. Particularmente para este Chateau e nesta safra, temos 95% Sauvignon Blanc e 5% Sauvignon Gris, nada de Sémillon. Embora o vinho seja fermentado em barricas com posterior processo de bâtonnage, o fato de não haver Sémillon, afeta de maneira significativa a longevidade do vinho. Afinal, é esta uva que dá estrutura e potência ao conjunto. O que segura de fato neste caso, é a bela acidez da Sauvignon Blanc. Entretanto, sozinha, não consegue caminhar por períodos muito longos. Como este é um vinho de exceção, encontra-se no auge aos 17 anos de idade. Muita fruta no aroma, toques de mel e flores, e uma textura macia pelo contato sur lies. Começa insinuar alguns toques oxidativos bem discretos. A própria cor denuncia o fato, pois seus toques dourados claros são bem evidentes. É hora de beber.

Corton-Charlemagne

Assim como no caso bordalês, Bonneau du Martray produz tintos e brancos. Os vinhedos ficam na montanha de Corton com amplo destaque para os brancos. Seu perfil é elegante, altivo e bem mineral. Este é um terroir que me agrada muito pela textura e mineralidade de seus vinhos que de certo modo, lembram os grandes Chablis Grands Crus como Les Clos, por exemplo. Novamente, um trabalho preciso e marcante em barricas e posterior bâtonnage. Neste solo com alta porcentagem de calcário, a Chardonnay ganha elegância e acidez notáveis para uma grande guarda. De fato, este 1991 com seus 26 anos não sente a passagem do tempo. A própria cor, muito mais clara e jovial se comparada ao bordalês. Pelo vigor, pela vivacidade, pelo equilíbrio, é vinhos para mais dez anos com muita segurança. E olha, que estou falanda de garrafa standard (750 ml). Coisas da Borgonha. Aqui, a Chardonnay ganha outra dimensão.

trajetórias diferentes

Praticamente tintos de mesma idade, sendo os dois exemplares em double magnum. Brigar com a longevidade de um grande Bordeaux não é para qualquer terroir, mesmo se tratando de Borgonha. Aqui, chega a ser até covardia, dada a procedência de cada um dos vinhos.   

Clos Vougeot

Um dos Grands Crus mais polêmicos da Côte de Nuits, este exemplar parte não de um produtor, mas um negociante de prestígio na região, Dominique Laurent. Ele gosta de comprar e educar os vinhos em sua coleção própria de barricas. A safra 99 é muita boa, generosa em aromas e de textura muito agradável. O vinho tem até um bom extrato, concentração, mas falta uma lapidação mais apurada. Pessoalmente, acho a madeira um pouco invasiva, tirando aquelas sutilezas tão apreciadas nesses caldos delicados. Um vinho que encontra-se no auge, pronto a oferecer seu melhor, ainda com bom poder de fruta. Já se fosse um Méo-Camuzet ou um Domaine Leroy, a história seria bem diferente. Saudades de Clos Vougeot Leroy 1988 …

Chateau La Mission Haut-Brion     

Voltamos à Pessac-Léognan e a comparação com seu eterno rival, Haut-Brion, é inevitável. Embora de estilos diferentes, são vinhos de altissimo nível, capazes de romper décadas. Haut-Brion tem a sutileza de um Lafite, enquanto La Mission tem a força de um Latour. Neste exemplar da safra 2000, estamos diante de um nota 100. E aqui não tem conversa, é um vinhaço. Com seus 17 anos de idade, realmente é um adolescente com todo o vigor. A cor ainda impenetrável, os aromas minerais, de frutas escuras e defumados, são intensos e austeros. Uma estrutura de taninos admirável, densa, profunda, e de alta qualidade. Vai precisar de décadas para polimerizar tudo isso. Apenas com um ano de diferença do Borgonha citado acima, a comparação é cruel. Seria como um bom carro de luxo lado a lado com uma Ferrari. Não dá para a saída …

Voltando ao tema

Terroir é um conceito que precisa sempre ser interpretado com precisão e filosofia bem definida. Cada produtor em sua porção de terreno, procura extrair suas potencialidades e particularidades no sentido de imprimir um DNA seu, distinto, que marque o estilo de seus vinhos.

No caso do Smith Haut Lafitte, bordeaux branco, a opção pela Sauvignon Blanc de maneira exclusiva é sua marca diferenciada. Já Bonneau du Martray, segue o classicismo absoluto na montanha de Corton, potencializando sua mineralidade sem invenções.

No caso dos tintos, Dominique Laurent imprime seu estilo próprio nos vinhos que educa em suas barricas. Paga um preço caro por esta distinção,  já que o homem deve interferir até certo ponto num terroir cheio de sutilezas.

Por fim, La Mission Haut-Brion. A conjunção perfeita do terroir (solo, clima, uvas e interpretação humana). Numa safra magnífica como 2000, as características são potencializadas numa estrutura monumental. Aqui, só o tempo, a longevidade, são capazes de traduzir na taça este futuro promissor.