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A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

Charutos e seus Parceiros

2 de Outubro de 2019

Embora a turma do charuto diga que existem charutos leves, medianamente potentes, e os declaradamente potentes, charuto leve é como feijoada light, acredita quem quiser. De todo modo, um bom charuto, e pessoalmente falo dos cubanos, após uma bela refeição, é um prolongamento gourmet que se estende fora da mesa, para uma boa conversa, uma boa música, ou uma boa leitura. Na mesa ficaram os vinhos, as cervejas, os acompanhamentos naturais dos mais variados pratos. E é nessa hora, fora da mesa com os charutos, que os destilados reinam como nenhuma outra bebida. O estômago está preparado para recebe-los, assim como os charutos. Essas bebidas têm potência e força aromática compativeis com os charutos, sobretudo aquelas com passagem por algum tipo de madeira. Entre elas o carvalho, que além de promover uma micro-oxigenação na bebida, fornece deliciosos aromas de baunilhas, especiarias, e toda a sorte de empireumáticos. É a hora certa com o parceiro certo.

Dentre uma infinidade de destilados, existem três de grande projeção internacional, encontrados com facilidade mundo afora. São eles: Brandies, Cognac e Armagnac, num primeiro grupo, Whiskies escoceses e fora da Escócia num segundo grupo, e a bebida nativa da terra caribenha e do charuto, o delicioso rum nos mais variados estilos, sempre añejo, viejo. Para nós brasileiros, contamos com um quarto grupo que são as nossas cachaças artesanais, envelhecidas nas mais variadas madeiras. Uma harmonização muito interessante.  Um outro grupo de destilados que não devemos nos esquecer são as Grappas.

Brandy

img_6687-1um dos mais excluvivos Brandies (Bourgogne DRC)

Os mais interessantes encontrados no Brasil são os Brandy de Jerez, região espanhola especializada na bebida. Os brandies nacionais de vinícolas importantes da Serra Gaúcha, fazem bons exemplares com certo grau de sofisticação. Por fim, os Cognac e Armagnac, também bastante difundidos no mercado, para todos os gostos e todos os bolsos. Os mais sofisticados são sublimes e imbatíveis. 

Whisky

img_6460um dos mais consistentes Bourbons

É realmente um mundo à parte. O destilado mais poderoso do planeta tem seu reino na Escócia. Além dos famosos Blended Scotch amplamente divulgados no mercado, temos um nicho bem mais sofisticado dos Single Malts nos mais variados estilos. Dentre eles, um bem particular, os poderosos Single Malts de Islay como Ardbeg, Laphroaig, e Lagavulin. Nestes Malts de Islay não tem meio termo: ou você ama, ou odeia. São bebidas altamente turfadas que dão um caráter fortemente esfumaçado e um toque medicinal. Exclusivamente indicadas para charutos potentes como Partagas e Bolívar. Para aqueles que preferem Malts mais macios e frutados, Speyside é uma ótima alternativa.

Fora da Escócia, os Bourbons americanos também têm uma clientela fiel. Wild Turkey e Buffalo Trace são pedidas certas e extremamente bem elaboradas. Ainda temos Irlanda e Canadá com alguns exemplares de Whiskies mais leves.

Rum

img_5921Um trio de destilados imbatíveis

Todo o Caribe e América Central têm uma infinidade de runs nos mais variados estilos. A escola inglesa elabora runs mais pesados, mais escuros e com certa tendência adocicada. O escola espanhola faz um rum de certa potência com mais equilíbrio. Vão muito bem com a maioria dos charutos. Por fim, o rum mais delicado da escola francesa, o rum agricole. Indicado para charutos de leve e média fortaleza.

Contudo, um dos melhores runs em nosso mercado é o guatemalteco Zacapa. Um rum elaborado nas altitudes com canaviais altamente selecionados e uma série de barricas especiais, algumas que envelheceram grandes cognacs. Potente, mas muito bem equilibrado.

Grappa, Bagaceira, Marc

img_3131Grappas nobres (Sassicaia e Torcolato, um belo vinho de sobremesa do Veneto)

Cada país tem seu nome, mas a Itália é mestra neste tipo de bebida. Um grupo destilado à base do bagaço de uvas que sobram da fermentação dos vinhos. Aqui se separam os homens dos meninos. Um bebida potente que deve se ter respeito. Talvez o único destilado à sua altura de potência, são os whiskies de Islay turfados, acima mencionados. Indicada exclusivamente para charutos de grande fortaleza.

Alternativas

Por uma série de razões, há pessoas que não tomam destilados, preferem vinhos, cervejas, drinks, licores, entre outras bebidas. Outras pessoas nem tomam bebida alcoólica, partindo então para cafés, chás, ou achocolatados.

Além disso, épocas do ano mais quentes afugentam um pouco os destilados, abrindo caminho para os drinks. A frequência e o número de charutos fumados por dia, podem limitar o consumo de destilados, sob pena da pessoa virar alcoólatra.

Drinks, Cocktails

img_5828Mojito e Negroni

Esse tipo de bebida para quem gosta de destilados e por uma questão de temperatura prefere consumi-los mais gelados e mais diluídos, os drinks são ótimas alternativas. Pessoalmente, o Negroni (partes iguais de vermute, campari, e gin), um dos mais clássicos da coquetelaria internacional, vai bem com o charuto, exibindo aromas e sabores compatíveis. 

A nossa caipirinha, o mojito, e outros drinks à base de cachaça ou rum, são acompanhamentos clássicos. Embora eles não tenham uma semelhança de aromas com os charutos, acabam sendo refrescantes e não comprometendo a apreciação do charuto.

Vinhos

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De modo geral, os vinhos não têm potência para acompanhar charutos. O baixo teor alcoólico e as delicadas nuances da bebida são geralmente atropeladas pelo charuto. Portanto, charutos de fortaleza elevada estão fora do páreo. Os charutos mais leves como Hoyo de Monterrey podem acompanhar até certo ponto os vinhos chamados de fortificados. São vinhos de maior teor alcoólico como Porto, Madeira, Jerez, Moscatel de Setúbal, sobretudo.

Cervejas

Para os amantes das cervejas, a mesma dica dos vinhos. Normalmente, elas não têm potência para os charutos. As chamadas Lagers, definitivamente estão fora de combate, a não ser para refrescar o palato. Já as chamadas Ales, têm mais chance. As complexas belgas trapistas e os estilos de cerveja escura como as Stouts, têm maior afinidade com o charuto e nos dois primeiros terços, ainda podem aguentar a potência do mesmo.

Cafés, chás, Achocolatados

img_6508café e charuto: inseparáveis

Sem dúvida o café, é grande companheiro do charuto a qualquer momento. Embora não tenha álcool, é uma bebida de sabor e personalidade marcantes, além de seus aromas terem tudo a ver com o charuto. Basta escolher a fortaleza, o ponto de torrefação, e a origem da bebida (Arábica ou Roubusta), é sempre um porto seguro.

Já os chás, prefira os pretos, geralmente com mais sabor e aromas compatíveis com charutos mais leves. Curiosamente, o chá é a bebida indicada para degustação técnica de charutos, pois ele incrivelmente neutraliza a bebida, limpando o palato para o próximo charuto.  Earl Grey é uma boa pedida. Além disso, é digestivo e hidratante.

Por fim, os achocolatados. Parece meio infantil, mas tem gente que gosta. Mais uma bebida não alcoólica onde o chocolate é a ponte de ligação para os aromas e sabores do charuto. Se você não for tão radical, experimente o Irish Coffee, uma bebida que vai café, uísque irlandês, açúcar e chantilly. Tem a cremosidade e textura dos achocolatados, mas é um salto de evolução. Deilcioso no inverno.


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