Archive for the ‘Vinho em Destaque’ Category

Château Gilette: Origininalidade em Sauternes

13 de Agosto de 2012

Este château completa a trilogia em Sauternes, juntamente com Yquem e Climens. Se Yquem é a opulência, Climens a delicadeza, certamente Gilette, é a originalidade de um grande terroir. Falando neste conceito, aqui não é a cepa, o clima ou o solo, os fatores determinantes, e sim, o homem. A filosofia na vinificação e sobretudo no amadurecimento do vinho, transforma Gilette num vinho único.

Num terreno pedregoso na comuna de Preignac, de solo arenoso com subsolo calcário, quatro hectares e meio são cultivados com uvas Sémillon, complementadas por Sauvignon Blanc e uma pitada de Muscadelle. O vinho é fermentado em aço inox e amadurecido em cubas de cimento por quinze a dezoito anos em média. Eu disse anos, não meses. Completando mais dois anos em garrafa, é então comercializado.

Normalmente, os vinhos doces na região de Sauternes são fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho por longos meses. Château Gilette não tem qualquer contato com madeira, preservando integralmente todo o potencial aromático da fruta e dos efeitos da Botrytis. Um detalhe importante para quem for degustá-lo, é que imperativamente deve ser decantado por pelo menos uma hora. O ideal seria mais de duas horas. A explicação é simples. Além de um longo período nos tanques de cimento, há muitas vezes um longo período em garrafa. Portanto, nestes dois ambientes, há um forte caráter redutivo, ou seja, ausência de oxigênio. Daí, a necessidade da decantação para que a aeração devolva com o tempo toda a riqueza aromática deste grande vinho.

Decima Tannat Gran Reserva: Prazer em conhecê-lo

9 de Agosto de 2012

Degustar às cegas é sempre um ato de humildade, colocando à prova nossos conhecimentos e habilidades sensoriais. Como consequência, surpresas sempre ocorrem e muitas vezes de forma extremamente agradável, fazendo-nos descobrir a força do terroir em regiões absolutamente inesperadas.

Foi o que ocorreu numa degustação às cegas que participei com trinta e um vinhos tintos dos mais variados países, regiões, denominações e uvas, ou seja, não sabíamos rigorosamente o que estávamos degustando.

Deste batalhão, três vinhos chamaram-me a atenção pela personalidade, tipicidade e equilíbrio. De tudo que foi degustado, confirmei alguns palpites sobre uvas, países e denominações. Dos três escolhidos, cravei com certeza que tratavam-se de vinhos italianos, provavelmente dois toscanos e um Amarone. Um toscano e o Amarone revelaram-se sem sustos. Contudo, a grata surpresa ainda estava por vir. Foi exatamente o rótulo abaixo, motivo maior deste artigo. Ele disse: Eu sou Decima Tannat Gran Reserva 2005, muito prazer!

2005: grande safra brasileira

Essa surpresa para mim valeu toda a degustação. Errei uva, região, país, denominação. Pessoalmente, tratava-se de um grande Brunello ou algum outro toscano de estilo bem tradicional. Que nada, um belo Tannat da serra gaúcha, de uma vinícola que eu nem conhecia, de Caxias do Sul, fora da denominação Vale dos Vinhedos. Não sei até que ponto a bela safra de 2005 contribuiu para este êxito, mas este vinho com sete anos tem uma estrutura tânica invejável, aromas terciários de grande classe e um equilíbrio notável.

Explorando mais detalhes desta vinícola, descobri que este vinho é elaborado por um enólogo uruguaio Alejandro Cardozo, terra do Tannat na América do Sul. As uvas desta safra foram colhidas em março, sofrendo uma longa maceração pós-fermentativa durante vinte dias. Reposou mais oito meses em tanques de aço inox para uma completa estabilização. Posteriormente, amadureceu em barricas de carvalho americano por dezessete meses.

A filosofia desta pequena vinícola denominada multi-terroir tem como base um forte conceito do mesmo, fazendo parcerias muito bem cuidadas com pequenos proprietários de terra em locais estrategicamente escolhidos, levando-se em conta a natureza do solo, altitude, índice pluviométrico, grau de umidade e influência do vento. Os vinhos são elaborados em pequenas partidas, buscando em cada local o melhor desempenho das uvas e por conseguinte, a elaboração de estilos específicos de vinhos.

Parabéns, Decima Tannat Gran Reserva 2005, o prazer é todo meu!

Maiores informações, www.vinhosdecima.com.br – fone: 11-2106-1500 – adriana@grupodecima.com.br

Terroir Barsac: Château Climens

6 de Agosto de 2012

Neste mesmo blog, já falamos em outras oportunidades sobre os vinhos de Sauternes, a região de Bordeaux, a influência da Botrytis Cinerea na elaboração de vinhos doces, e alguns outros assuntos correlacionados. Contudo, desta feita trataremos de um terroir específico na região de Sauternes denominado Barsac. O château abaixo está para esta comuna, assim como Yquem está para Sauternes.

A safra 2001 na região foi excepcional

Os châteaux Climens e Gilette (este da comuna de Preignac) são tecnicamente dois grandes rivais do todo poderoso Yquem, embora a fama e glamour deste último, seja inquestionável. Falaremos oportunamente, das peculiaridades do Château Gilette.

Detalhes geográficos de comunas famosas

Dentro do mágico território bordalês dos grandes vinhos botrytisados, apelações satélites como Sainte-Croix-du-Mont, Loupiac, Cérons e Cadillac, foram abordadas na série Bordeaux em cinco partes, neste blog.

A região de Sauternes, a mais famosa neste tipo de vinho, é desmembrada em cinco comunas clássicas, conforme mapa acima do lado esquerdo, ou seja, Barsac, Sauternes, Fargues, Preignac e Bommes. Notem que o rio Ciron, um importante afluente do Garonne, corta a região, separando a comuna de Barsac à esquerda, das demais comunas à direita. Outra peculiaridade, é que Barsac possui denominação própria, conforme rótulo acima do Château Climens, Appelation Barsac Controlée. As outras comunas são englobadas na apelação Sauternes. Contudo, a grande diferença de Barsac para as demais comunas em termos de terroir está na geologia, referente à formação de seus respectivos solos.

Em Barsac, o subsolo predominantemente calcário, apresenta várias fissuras, proporcionando uma drenagem excelente. A parte mais superficial, é composta de argila, areia e óxido de ferro, dando um aspecto avermelhado. O calcário além de fornecer finesse, agrega mineralidade e alto índice de acidez nas uvas, proporcionando vinhos equilibrados e elegantes. Numa comparação genérica com os vinhos de Sauternes, Barsac molda vinhos com maior frescor, transmitindo uma sensação menos untuosa que seu concorrente.

Em particular, Château Climens localiza-se próximo aos rios Ciron e Garonne a vinte metros acima do nível do mar, uma das mais altas da região conhecida como Haut-Barsac, com exposição sudeste. Essas condições proporcionam um ataque precoce da Botrytis Cinerea com ótimo nível de atuação, antecipando sempre a colheita no château com relação a seus concorrentes. A facilidade da botrytisação é um dos motivos para que Climens seja um varietal de Sémillon (100%), dada a afinadade desta cepa com o nobre fungo. A forte presença de fósseis marinhos no subsolo calcário indica a existência de mar no local em outras eras geológicas, transmitindo uma mineralidade adicional, além da destacada acidez. Tudo isso é potencializado pela proximidade da rocha-mãe, já que o solo é relativamente raso. Esses fatores são extremamente importantes para o belo equilíbrio de um vinho 100% Sémillon. Normalmente, em muitos châteaux, uma certa proporção de Sauvignon Blanc é necessária para garantir o frescor do vinhos.

Os châteaux Coutet e Doisy-Daëne são belas referências em Barsac, após o soberano Climens. Estes châteaux como todos os bordeaux, não têm exclusividade em importadoras, mas Doisy-Daëne elaborado pelo mestre Denis Dubourdieu, é importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br).

A busca pela caixa perfeita

30 de Julho de 2012

Todos nós ao longo dos anos, temos oportunidade de provar vinhos únicos, vinhos que se diferenciam dos demais por apresentarem equilíbrio notável, aromas e sabores raros, persistência aromática acima da média, e principalmente por serem provados na hora certa, no lugar certo e com as pessoas certas. São momentos mágicos e frequentemente nos pegam de surpresa. Geralmente, quando criamos espectativas superlativas, esses momentos não acontecem, ao contrário, é quando estamos desprevenidos que os grandes vinhos revelam-se.

Passados pouco mais de vinte e cinco anos em degustações, começo a pensar na caixa perfeita, aquelas doze garrafas que marcaram para sempre a memória gustativa, nomes muitas vezes relevantes que conquistaram respeito e prestígio não por acaso, mas fruto de um terroir diferenciado que é manifestado em vinhos singulares. Evidentemente, não são garrafas vitalícias, insubstituíveis, mas que pelo menos momentaneamente devem ser lembradas e descritas.

Caixa do Século: Wine Spectator

Este tema já foi explicitado recentemente com a famosa caixa do século XX da Wine Spectator. São vinhos e escolhas respeitáveis, mas muitos deles, não tive oportunidade de degustar, sobretudo as safras específicas. Dentro deste contexto, cada qual pode montar sua caixa, levando em conta experiência e gosto pessoais. Sendo assim, aqui vai a minha até o presente momento. Numa escala de pontuação pessoal, são todos vinhos entre 96 e 100 pontos, intervalo próximo à perfeição. Vide artigo neste blog: Critérios de Pontuação.

  1. Angelo Gaja dos seus três magníficos vinhedos (Costa Russi, Sori Tildin e Sori San Lorenzo). Qualquer um dos três em inúmeras safras são vinhos irrepreensíveis. Lembro-me da frase um grande degustador francófico: “Esses vinhos são tão bons, que nem parecem italianos”.
  2. Etienne Guigal Côte Rôtie de um de seus três vinhedos mágicos (La Landonne, La Moline e La Turque). São vinhos que conquistaram inúmeras vezes os cem pontos de Parker. Apesar de mais de quarenta meses em carvalho, o equilíbrio e finesse são notáveis.
  3. Chateau Mouton-Rothschild 1982. Já provei vários 82 de peso, mas este é para beber de joelhos. Como ainda não provei o 1945, fico com esta safra que alia potência e finesse no mais alto nível.
  4. Chateau Margaux 1983. Safra particularmente especial para a comuna, suplantando inclusive a própria safra de 82. Soberbo, misterioso e com muita vida pela frente.
  5. Porto Taylor´s Vintage 1994. Em todas as oportunidades, um completo infantícidio. Contudo, não estarei vivo para ver seu esplendor. Quem sabe, amparado por uma bengala.
  6. Domaine Trimbach Riesling Clos Sainte-Hune. A perfeição em Riesling no estilo seco, absolutamente mineral. Tenha paciência em guardá-lo e estará diante de uma obra-prima.
  7. Champagne Salon ou Krug Clos de Mesnil. Aqui existe um empate técnico. No fotochart, Salon por uma cabeça. Para quem gosta do estilo Blanc de Blancs, não há nada perto dessas maravillhas.
  8. Vega-Sicilia Unico safra 1970. Degustado com consistência em duas oportunidades e épocas bem distintas. Continua uma maravilha, fazendo deste mito o maior tinto da Espanha.
  9. Williams Selyem Russian River Pinot Noir. Enfim, um representante do Novo Mundo. Não é o melhor Pinot Noir do mundo, mas engana qualquer aficionado pela Borgonha no mais alto nível.
  10. Henri Jayer Cros Parantoux 1988. Degustado recentemente, conseguiu aliar delicadeza e personalidade sem que o tempo suplantesse seu frescor. Uma maravilha!
  11. Hermitage Paul Jaboulet Aîné La Chapelle 1990. Com todo respeito a Jean-Louis Chave, ainda não provei um Hermitage com a grandiosidade de La Chapelle. Um vinho monumental, com uma estrutura tânica invejável e extremamente longevo.
  12. Domaine Huet Vouvray Le Clos du Bourg Première Trie. Aqui está a delicadeza levada ao extremo. Chenin Blanc de rara pureza, aparentemente frágil, mas com uma estrutura e longevidade inacreditáveis. Além de Le Clos du Bourg, seus outros dois vinhedos são impecáveis: Le Haut-Lieu e Le Mont.

Revelados os personagens, inúmeras injustiças, faltas, esquecimentos e principalmente, dúvidas. Certamente, não é a caixa perfeita, mas são vinhos jamais indiferentes, que passam desapercebidos. São vinhos que tocam, mesmos os mais insensíveis.

Edelkeur: A nobre doçura da África do Sul

12 de Julho de 2012

Degustações históricas promoveram vinhos mundo afora, revelando rótulos como o australiano Grange Hermitage, o neozelandês Cloudy Bay, o supertoscano Sassicaia, e tantos outros. Entretanto, um vinho pouco lembrado é o sul-africano Edelkeur, lançado em 1969 pelo famoso enólogo alemão Günter Brözer da vinícola Nederburg. Em 1972, este vinho venceu um concurso em Budapeste concorrendo com grandes vinhos doces, incluindo Sauternes e Tokaji. Günter, um apaixonado pelos grandes Trockenbeerenauslese alemães, desenvolveu com competência vinhedos propícios ao ataque da Botrytis Cinerea com a casta Chenin Blanc na região de Paarl.

Rótulo original que deu origem à saga
Ao longo do tempo, Edelkeur abriu caminho para outros vinhos doces com outros castas, além da Chenin Blanc, na própria vinícola Nederburg, a qual batizou suas seleções como Winemaster´s Reserve Special Late Harvest e Winemaster´s Reserve Noble Late Harvest. A primeira envolvendo uvas como Chenin Blanc, Riesling, Muscat de Frontignan e Gewürztraminer. Já a segunda, com grande proporção de Chenin Blanc, complementada por Muscat de Frontignan, uvas estas botrytisadas.
Nova roupagem para o Edelkeur
Em 2001, o bastão é passado para o competente enólogo romeno Razvan Macici, após 33 anos sob a batuta de Günter Brözel. O rótulo mais atual acrescenta a expressão Private Bin, conforme foto abaixo. São vinhos de baixíssima produção, nem mencionados no próprio site da vinícola, www.nederburg.com.
 
Última versão na rotulagem
Tecnicamente, é um vinho muito bem equilibrado no tripé básico dos grandes vinhos de sobremesa, ou seja, álcool, acidez e açúcar. O grau alcoólico, geralmente baixo, gira em torno de 10 graus. A acidez total, frequentemente atinge 10 gramas por litro, e o açúcar residual às vezes passa de 200 gramas por litro. Além de ser elaborado totalmente com Chenin Blanc, aproxima-se de belos vinhos do Loire, principalmente das apelações Bonnezeaux e Quarts de Chaume. Um vinho delicado e de grande personalidade. Ótimo com tortas levemente cremosas com frutas frescas (pêssegos, por exemplo).
A safra 2005, uma das melhores dos últimos tempos, apresenta 9,75% de álcool, incríveis 12,49 gramas por litro de acidez total, e 240,50 gramas por litro de açúcar residual absolutamente balanceados, num final muito equilibrado e expansivo.
Os vinhos de Nederburg são trazidos pela importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br).

Decanter Wine Show 2012: Destaques

28 de Junho de 2012

Com um portfólio cada vez mais recheado de boas novidades, a importadora Decanter ano a ano vem se destacando no cenário nacional de vinhos importados. Os proprietários Adolar e Edson Hermann, pai e filho, respectivamente, cercados de grandes profissionais como Guilherme Corrêa e Cezar França, formam um time invejável neste mercado repleto de aventureiros.

Dos inúmeros vinhos apresentados, de produtores, países e regiões bastante diversas, três chamam a atenção quer pela boa relação preço/qualidade, quer pela originalidade e pouca difusão em nosso mercado.

Château Lagrézette 2004

A origem da uva Malbec na tradicional apelação francesa Cahors. Com 85% de Malbec e algumas pitadas de Merlot e Tannat, este tinto mostra classe e taninos bem trabalhados. Seus dezoito meses de barrica estão bem integrados ao conjunto, lembrando bons tintos de Bordeaux pelos aromas de torrefação e tabaco. Diametralmente oposto ao modelo argentino.

Nicodemi Notàri Montepulciano d´Abruzzo 2007

Nicodemi é um dos mais notáveis produtores da região italiana de Abruzzo. Seus vinhedos de altitude destacada, conduzidos organicamente, apresentam uvas de grande concentração e equilíbrio. A cuvée Notàri agrega as melhores partidas de vinho 100% montepulciano (uma das uvas tintas mais plantadas na Itália).  Com madeira criteriosamente dosada, consegue exprimir a força de seu terroir, denotando mineralidade, toques defumados, ervas e de chocolate amargo.

1583 Albariño De Fefiñanes 2010

O lado espanhol da uva Alvarinho (grafia portuguesa).No terroir de Rias Baixas, este 100% Albariño fermentado em barricas de carvalho de primeiro, segundo e terceiro usos, com seis meses de bâtonnage (movimentação da leveduras mortas na massa vínica), tem o mérito de manter grande frescor e mineralidade, aliando com sabedoria os benefícios da barrica (micro-oxigenação) e a riqueza de textura (contato sur lies).  

O Mito Vega-Sicilia: Parte II

22 de Março de 2012

A foto abaixo faz parte de uma vertical de Vega com muitas das melhores safras deste grande vinho. Por ordem cronológica, os anos foram: 1942, 1964, 1967, 1968, 1970, 1975, 1982, 1989, 1991, 1994, 1998, 2000 e um Reserva Especial com a mescla das safras 91, 94 e 98.

As safras de 1975, 1989 e 1998

A degustação foi conduzida em quatro módulos, começando com os mais evoluídos, seguidos dos mais maduros, continuando com os mais emblemáticos e finalizando com os mais jovens. Como sempre, muita polêmica quanto às safras, com alguns preferindo os mais jovens, mais modernos e mais robustos. Outros, reverenciando o estilo tradicional de safras mais antigas, com elegantes toques oxidativos.

Pessoalmente, a degustação agradou bastante, provando que o Vega é um dos grandes vinhos do mundo, tendo lugar cativo nas melhores adegas. A safra 1942 com setenta anos foi o Vega mais elegante e um dos mais expansivos em boca. Não é a toa que é a preferida de Parker com 98+ pontos. Alguns sinais da idade, mas ainda bastante prazerosa.

Outro destaque foi a safra de 1968 com 98 pontos de Parker. Ainda bastante robusta pela idade, com taninos presentes, vigor surpreendente, merece lugar de destaque entre todos os Vegas. A safra de 1970, degustada há muitos anos, voltou a impressionar mais uma vez. Vinho hedonista, aromas de torrefação, madeira integrada, macio, muito equilibrado e finamente bem acabado.

A safra de 1967, sem nenhuma referência na literatura, inclusive de Parker, surpreendeu favoravelmente. Não é potente, nem muito expansivo, mas esbanja elegância com extremo equilíbrio e final muito bem delineado. Uma grata surpresa.

Os Vegas mais novos, principalmente a partir de 1991, ainda são adolescentes, com uma vinificação mais moderna, taninos mais marcados, e mais potentes, porém sem perder a elegância. Demonstram um futuro promissor.

Todas essas considerações além de pessoais, envolvem a experiência, o gosto pela pluralidade dos vinhos e o respeito por ícones que mexem com o imaginário dos apaixonados por vinho. Portanto, as opiniões sobre estas safras sempre têm um fundo de incerteza e subjetivismo. Afinal, em safras antigas, não existem grandes anos. Existem grandes garrafas!

O Mito Vega-Sicilia: Parte I

19 de Março de 2012

Existem certos vinhos que dispensam apresentações. Estão acima até mesmo, da própria denominação de origem, fator chave para disciplinar os vários terroirs em regiões européias. Hugh Johnson em seu famoso Atlas, menciona a correlação e importância do Vega-Sicilia para Ribera del Duero, assim como Biondi-Santi para Montalcino, na Toscana.

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Uma das minhas safras preferidas

 Tudo que Ribera del Duero amealhou nestas últimas décadas, principalmente em seu trecho mais nobre denominado a “milha de ouro” (vide artigo neste blog – Terroir: Ribera del Duero), tem como lastro o famoso e mítico Vega-Sicilia, um vinho para heróis, lembrando mais uma vez o escritor inglês acima mencionado.

 A história deste mito é riquíssima e controversa, principalmente quanto às primeiras safras. Oficialmente em seu site, fala-se em 1917. Mas acima disto, estão os detalhes deste terroir, desde as vinhas muito antigas e bem trabalhadas, até o requinte em sua vinificação e amadurecimento. Os espanhóis que dominam a arte da barrica, no grande Vega superam-se, provocando uma lenta micro-oxigenação e por conseguinte, fornecendo condições para um prolongado envelhecimento em garrafa.

 A área de plantio soma em torno de 250 hectares de vinhas com idade distintas de 30, 60 e algumas com mais de 100 anos. O replantio é criterioso, sendo somente as vinhas mais antigas e perfeitamente adaptadas ao terroir, destinadas à elaboração do grande vinho. As podas são severas e o rendimento por parreira muito baixo, em torno de 22 hectolitros por hectare.

 Um Vega passa em média 10 anos na bodega, com sucessivas passagens por barricas de idades, tipos e tamanhos diferentes, buscando sempre uma perfeita integração entre vinho e madeira, culminando num longo envelhecimento em garrafa por pelo menos três anos antes da comercialização. Além de possuir sua própria tanoaria, a madeira de carvalho americano é escolhida e tratada com muito cuidado, com secagem natural por pelo menos três anos. Modernamente, o Vega passa menos tempo em madeira e mais em garrafa, sendo a participação de barricas francesas um fator marcante.

 A modernidade também trouxe modificações no corte do vinho. Nas safras mais antigas, a Tinto Fino (nome local da Tempranillo) participava em média com 70%, a Cabernet Sauvignon (20%) e outras uvas como Malbec, Merlot, Garnacha e a branca local Albillo, completavam o corte em porcentagens variáveis. Atualmente, o Vega-Sicilia Único apresenta 80% com Tinto Fino e 15 a 20% com Cabernet Sauvignon.

 Todas essas modificações são feitas de forma lenta e gradual, preservando sempre a essência deste grande terroir. Os vinhos atuais são mais robustos e menos oxidativos, respeitando o gosto atual. Contudo, sem perder sua classe e elegância. A propósito, nos Vegas mais antigos temos como marca registrada, uma pontinha de acidez volátil por conta dos métodos de vinificação e amadurecimento da época. Nosso grande Hugh Johnson resolveu o problema sentenciando: “Quando um vinho é tão soberbo quanto este, dane-se a acidez volátil!”.

Champagne em destaque: Cuvée William Deutz 1998

12 de Dezembro de 2011

Nesta última degustação na ABS-SP sobre champagnes de luxo, o rótulo abaixo brilhou entre feras já citadas e comentadas em post anterior. Resolvi destacá-lo em artigo específico por se tratar de um champagne envelhecido, de uma bela safra, e em grande forma.

A maison Deutz de origem alemã goza de grande reputação entre os melhores champagnes. Adquirida pela maison Roederer também de origem germânica, responsável pelo mítico champagne Cristal, os champagnes Deutz primam por sua elegância, equilíbrio e personalidade.

Um dos melhores rótulos no mercado

Como a maison Krug, as cuvées da Deutz fazem questão de incluir a uva Pinot Meunier em seu corte, além das nobres castas Chardonnay e Pinot Noir. Na cuvée acima, temos a seguinte proporção de uvas: 55% Pinot Moir, 35% Chardonnay e 10% Pinot Meunier.

Os vinhedos localizam-se em Aÿ, sede da maison, e também na Côte des Blancs, onde pelo menos 80% são da categoria Grand Cru e Premier Cru. Os champagnes não costumam ser encorpados, mas possuem estrutura e caráter para envelhecer. Para esta cuvée, o vinho permanece pelo menos cinco anos sur lies antes do dégorgement.

Na degustação,  apresentou-se com cor palha claro dourado de média intensidade e muito brilho. Os aromas finos denotam frutas secas e cítricas cristalizadas bem mescladas, lembrando um pouco os doces mineiros. Toques tostados, de gengibre e brioche também fazem parte do conjunto. No boca, mostrou-se medianamente encorpado, com uma acidez viva e revigorante de início, caminhando paulatinamente a uma maciez própria dos grandes champagnes, moldada por uma mousse delicada, mas de grande presença. Nas sensações finais, o equilíbrio é notável, além de todos os sabores fundirem-se harmoniosamente. Final fresco, elegante e marcante. É incrível sua vivacidade após treze anos de safra.

Importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br)

Domaine Huet: Vouvrays à perfeição

28 de Novembro de 2011

Voltando ao tema Top Ten da Wine Spectator que acaba de ser divulgado referente ao ano de 2011, o terceiro lugar com 96 pontos ficou com a lendária Domaine Huet, produtora dos melhores Vouvrays, uma das mais famosas apelações francesas do Vale do Loire, com base na temperamental casta Chenin Blanc. O vinho é o Vouvray Moelleux Clos du Bourg Première Trie da grande safra de 2009 na Europa.

Evidentemente, não é esta premiação que faz Domaine Huet ser uma das poucas vinícolas no mundo a alcançar um status quase imortal. Seus vinhedos são considerados verdadeiros patrimônios da viticultura francesa ao lado de Coullée de Serrant (Chenin Blanc da apelação Savennières), Chateau Grillet (o mais exótico Viognier do Rhône), Montrachet (o ápice na Borgonha), Chateau d´Yquem (o lendário Sauternes) e Chateau Chalon (a perfeição do Vin Jaune, já comentado em artigos anteriores). Todos, excepcionais vinhos brancos, capazes de envelhecer por décadas. O Domaine Huet Vouvray Haut de Lieu Moelleux  1947 é considerado num exclusivissímo grupo de grandes vinhos, como imortal. É aquele vinho que não tem parâmetros de comparação e que a idade parece não mais afetá-lo.

Conforme vídeo acima, Domaine Huet é composta de três terroirs, ou seja, seus três vinhedos: Le Haut-Lieu, Le Mont e Le Clos du Bourg, totalizando 35 hectares de vinhas (as mais antigas chegam a 50 anos). Cada vinhedo exibe particularidades em seu respectivo solo, transmitindo aos vinhos características específicas. O solo do vinhedo Le Haut-Lieu é de natureza argilo-calcária com predominância de argila escura, gerando vinhos macios e elegantes. Já o vinhedo Le Mont, apresenta um solo pedregoso com presença de siléx, gerando vinhos muito delicados e femininos. Por último, o vinhedo Clos du Bourg, delimitado por um muro de pedras, apresenta um solo pouco profundo diretamente acentado sobre rocha calcária, gerando vinhos estruturados e intensos.

Cada um destes vinhedos pode apresentar vinhos em três versões de açúcar residual, o que é muito comum em Vouvray, dependendo da época da colheita e as características específicas das safras. Portanto no rótulo, além do nome do vinhedo, uma das seguintes menções devem ser declaradas conforme detalhamento abaixo:

  • Sec – 3 a 5 gramas de açúcar residual por litro
  • Demi-sec (ou tendre) – 10 a 20 g/l (açúcar residual)
  • Moelleux – mais de 30 g/l (açúcar residual)

No caso de nosso vinho campeão (rótulo acima), a menção Première Trie significa a primeira passagem pelo vinhedo para colher as melhores uvas botrytisadas. Há outras passagens, aguardando um melhor amadurecimento das uvas restantes, mas a primeira é o supra-sumo da seleção. O vinho é extremamente equilibrado por conta de sua incrível acidez, em que pese um açúcar residual acima de 90 gramas por litro. Evita-se de todo modo a ocorrência da fermentação malolática, a fim de garantir grande longevidade em seus vinhos.

Domaine Huet é uma propriedade totalmente biodinâmica desde 1990, preservando e renovando com muito critério suas vinhas de idade avançada:

  • 50% – vinhas entre 30 e 50 anos
  • 35% – vinhas entre 10 e 30 anos
  • 15% – vinhas entre 01 e 10 anos

Em resumo, seus vinhos aparentam certa fragilidade por serem delicados e elegantes. Contudo, escondem uma concentração e estrutura capazes de envelhecer por décadas. Neste sentido, são os vinhos franceses mais alemães, trocando a bela Riesling pela intrigante Chenin Blanc. As duas uvas partilham fatores decisivos para toda esta longevidade: alta acidez e destacada mineralidade.

Os vinhos são trazidos ao Brasil pela importadora mineira Premium Wines – www.premiumwines.com.br