Archive for Agosto, 2026

A Geografia do Sal

27 de Agosto de 2026

O ouro branco moldou mapas, ensejou revoluções e ganhou as redes sociais


O influenciador digital dos Estados Unidos diz que não consegue mais segurar um saleiro sem sentir o “peso da civilização humana”. Fala também não conseguir pronunciar a palavra salário sem lembrar, no mesmo fôlego, que ela nasceu do sal usado para pagar soldados romanos. Mais adiante lembra que o sal esteve presente em revoluções, como a comandada por Gandhi.

O vídeo, publicado no Instagram, conta com mais de 820 mil curtidas e milhões de visualizações — não cita fonte nenhuma na tela, mas o discurso é baseado no livro “Sal, uma História do Mundo”, escrito pelo jornalista americano Mark Kurlansky e lançado no Brasil em 2004 pela editora Senac. Pouco mais de duas décadas depois, o livro voltou pelas redes sociais. Ganhou quase uma página nessa semana na seção de gastronomia do jornal espanhol El País.

Em resposta ao texto do criador de conteúdo digital, a filha de Kurlansky escreveu que o texto resume “praticamente os jantares da minha infância” e adiantou que uma edição especial de 25 anos do livro sai neste outono americano. Duas semanas depois do vídeo, o livro estava de volta à lista de mais vendidos do The New York Times, onde já estivera, brevemente, em 2002.

Por meio de um tempero milenar, Kurlansky mostra sua importância ao longo de vários períodos históricos. Os romanos salgavam vegetais e chamavam o prato de salada; pagavam soldados em sal, o que deu origem tanto à palavra salário quanto a soldado. Os bascos descobriram que o bacalhau salgado durava mais do que o bacalhau apenas seco ao vento, técnica que os vikings usavam havia séculos para transformar o peixe numa espécie de tábua de madeira que perdia quatro quintos do peso e se conservava no frio nórdico. A diferença de algumas semanas de conservação foi o suficiente para que os bascos pudessem passar mais tempo em alto-mar sem precisar voltar a terra firme antes que a pesca apodrecesse. O sal teria sido o elemento que os levou, segundo Kurlansky, a águas mais distantes do que qualquer outro povo europeu de sua época alcançava. A química por trás disso é direta: o sal retira, por osmose, a água dos tecidos do peixe e das próprias células das bactérias responsáveis pela putrefação, criando um ambiente seco demais para que esses micro-organismos se multipliquem — a mesma reação, sem geladeira nem freezer, que alimentou populações inteiras por séculos antes de qualquer tecnologia de refrigeração. A presença do sal não está apenas nas palavras, mas nas cidades. O autor destaca que boa parte das cidades na Inglaterra cujo nome termine em “wich” produzia sal. A Alsácia, palco de intensas disputas entre França e Alemanha, se traduz como “terra do sal”, enquanto Salzburgo é literalmente “cidade do sal”.

No século XIII, Veneza era um polo econômico da Europa. Parte do sucesso pode ser atribuído, segundo o jornalista, à capacidade de exportar sal para as cidades vizinhas. Não apenas eram capazes de extraí-lo das lagunas rasas que cercavam a cidade, como os exportadores venezianos eram obrigados a trazer sal quando retornavam a Veneza, recebendo um subsídio por isso. O sal era então revendido pela República com lucro. Segundo Kurlansky, o sal respondeu por quase 50% das importações venezianas entre os séculos XIV e XVI. No século XIII, os venezianos fecharam as salinas de Creta e indenizaram os trabalhadores locais para manter seu monopólio.

O sal ainda está por trás de revoluções. Sob o monopólio imposto pelos britânicos, formalizado no Salt Act de 1882, produzir ou vender sal por conta própria era crime para qualquer indiano. Foi contra essa lei específica que Gandhi organizou, entre 12 de março e 6 de abril de 1930, uma marcha terminando com ele recolhendo um punhado de sal da praia diante da imprensa internacional.  As leis do sal foram revogadas um ano depois, e a coleta do mineral voltou a ser legalizada. O estrago já estava feito, e a Índia alcançou sua independência em 1947.

Se hoje o saleiro na mesa evoca alertas médicos sobre a hipertensão, a popularidade renovada da obra de Kurlansky lembra que, muito antes de virar vilão cardiológico, o sal foi moeda de troca da civilização.

O engenheiro que desafiou a hierarquia de Bordeaux

22 de Agosto de 2026

O empresário Yves Vatelot transformou o Château Reignac em um símbolo de quebra de paradigmas em degustações cegas e na venda digital direta


Depois de uma bem-sucedida carreira profissional, com a criação do primeiro depilador eletrônico mundial, que o levou a vários países e contratos, Yves Vatelot decidiu que iria se aposentar com uma das paixões da sua vida: o vinho. Sua relação com o mundo de Baco começou na adolescência. Em uma casa onde o pai não bebia, mas a mãe gostava de tomar uma taça com pratos nos almoços em família, cabia a ele, ainda adolescente, escolher os rótulos. Desde cedo, preferia os vinhos de Bordeaux.

Em 1990, por indicação do consultor Michel Rolland, comprou o Château Reignac, localizado em uma região sem o brilho de outras mais reputadas, mas cujo terroir tinha um trunfo, ao combinar cascalhos profundos de quartzo e solos argilo-calcários adequados tanto para Cabernet Sauvignon quanto para Merlot.

O engenheiro Vatelot migrou para o mundo do vinho com a mesma filosofia de anos na gestão empresarial: investimentos em novos métodos e reestruturação da antiga propriedade, construída no século XVII. A colheita passou a ser manual, vinhedos ganharam novos cuidados. O castelo foi reformado, e o pombal do século XVI passou a abrigar uma sala de degustação equipada com um elevador de vinhos projetado pelo próprio Vatelot.

A modernização coincidiu com a criação de um grande júri europeu que se reunia periodicamente para degustar rótulos franceses e de outros países. Em 1998, os degustadores resolveram colocar 200 garrafas de bordeaux às cegas, entre rótulos mais e menos conhecidos. “Um pirata, o meu vinho, também foi colocado e ele ficou entre os 15 melhores depois da pontuação ser conhecida”, diz Vatelot, que esteve essa semana no Brasil para participar de um jantar com 20 safras de seus vinhos, importados pela Clarets.

Quando o resultado se tornou público, críticos e produtores tradicionais reagiram com ceticismo, argumentando que o vinho era agradável na juventude, mas perderia qualidade em cinco anos. Para testar a longevidade, Vatelot voltou a inscrever o rótulo periodicamente nas provas do júri ao longo da década seguinte. O vinho chegou a ficar até em quarto lugar em um ano, mas a virada de chave veio em 2009, com a safra 2001.

Vatelot recebeu uma proposta: ele não toparia financiar uma degustação em Paris colocando seu vinho às cegas com alguns dos mais famosos e caros rótulos de Bordeaux? O engenheiro respondeu que aceitaria o desafio com três condições: 1) que todos os participantes assinassem declaração de que cediam o uso de suas imagens na prova; 2) que um advogado auditasse; 3) se o Reignac fosse mal, a filmagem da degustação nunca se tornaria pública.

Numa manhã de 2009, em Paris, no restaurante Laurent, um dos preferidos do escritor Luis Fernando Verissimo, reputados jornalistas e sommeliers franceses se reuniram em uma manhã para degustar às cegas alguns famosos vinhos de Bordeaux. Quando degustavam, eram convidados a falar sobre o que achavam que tinham bebido e dar sua opinião sobre cada taça.

Ao fim, a surpresa: Reignac ficou em segundo lugar geral, atrás apenas de Château Angélus, e à frente dos cinco mais famosos e reputados da região (Mouton, Haut Brion, Latour, Margaux e Lafite). Era de longe o mais barato: uma garrafa custa 14 euros (àquela época), enquanto Pétrus saía a 1500 e boa parte dos outros acima de 200 euros.

O château mantém o hábito de realizar degustações semanais às cegas para clientes na torre histórica que mantém na propriedade, colocando seus vinhos em confronto com concorrentes da região. Paralelamente, o portfólio foi expandido para incluir o Balthus — um 100% Merlot de vinhas velhas —, além de um branco e um rosé.

Para ele, a região enfrenta desafios. O sistema de comercialização “en primeur”, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e que influenciou o mundo todo, está em xeque. Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor do que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou.

Yves buscou sempre dar força ao modelo de vendas próprias. Foi o primeiro a usar esse modelo sem intermediários para vender ao mercado dos Estados Unidos. Em 2015, quando o site da propriedade passou a adotar o sistema de vendas on-line, que hoje representa 20% da receita, o vídeo com a degustação às cegas foi o principal garoto propaganda. O formato de degustação às cegas transformou-se em rotina.

Em um mundo de canetas emagrecedoras, menos renda disponível e novos hábitos, o consumo de vinho tem caído em muitos países, como França e Estados Unidos. Isso tem levado a novidades saídas das adegas do château: um rosé que pode ser bebido sem se preocupar em guardar e o R de Reignac, um vinho feito com a uva Cabernet Franc. “Temos rótulos feitos para quem quer consumir sem se preocupar com o tempo de garrafa.”

Mesmo após décadas de parceria e amizade, a conexão profunda com Rolland permaneceu inabalável até os últimos dias do enólogo, com quem Vatelot almoçou em Paris poucos dias antes do falecimento de Rolland. Na ocasião, o renomado consultor reafirmou uma convicção compartilhada por ambos: apesar das transformações do mercado e das novas gerações de consumidores, a França continuará sendo o grande centro do mundo do vinho unicamente pela força de seu terroir.  Por acreditar nisso, Vatelot e a esposa, Stéphanie, também abrem as portas do château para o enoturismo.

A fumaça sobre o império de Bordeaux

12 de Agosto de 2026

Até 30 de julho, os incêndios já haviam consumido 115 mil hectares de floresta na França neste verão, um número que posiciona a tragédia como a pior desde 1949. Bombeiros cavaram mais de cem quilômetros de trincheiras. Mais de 200 mil pessoas chegaram a ser retiradas de casa desde o início da crise. Uma das regiões de vinho mais famosa do mundo, Bordeaux, está no epicentro das queimadas.

A fumaça de madeira em combustão basta para danificar o vinho, mesmo sem o fogo alcançar a videira: libera fenóis voláteis que a casca da uva absorve à distância, compostos que se prendem a açúcares da fruta e ficam escondidos até a fermentação soltá-los de novo. “Um vinho que a princípio não cheira a fumaça pode desenvolver, aos poucos, odores de chaminé, durante a fermentação ou até no envelhecimento”, disse Eric Serrano, diretor do Institut Français de la Vigne et du Vin, ao Financial Times dias atrás. “É uma bomba-relógio.”

Em 2022, outro incêndio na Gironde queimou mais de 20 mil hectares de floresta perto de vinhedos, e os piores temores não se confirmaram: testes posteriores encontraram níveis desprezíveis de compostos de fumaça na maioria das uvas, e o gosto de fumaça amplamente temido não apareceu no vinho engarrafado. A comparação inevitável é a Napa Valley de 2020, quando dezenas de vinícolas optaram por não engarrafar a safra, avaliando que o risco à reputação superava o risco real ao paladar. Bordeaux ainda não sabe em qual dos dois precedentes vai cair.

Os incêndios são mais um problema em uma extensa lista que tem perturbado o sono dos produtores de uma região outrora símbolo da riqueza do solo francês. Na metade do século XIX, Napoleão III encomendou aos corretores de vinho de Bordeaux uma classificação dos melhores châteaux para expor na na Exposição Universal de Paris, aberta em 15 de maio de 1855.

Os corretores ranquearam sessenta e um châteaux tintos pelo preço de venda e pela reputação comercial, divididos em cinco níveis de qualidade. Vinhos brancos doces de Sauternes e Barsac entraram em dois níveis à parte. A hierarquia praticamente não mudou desde então. Em cento e setenta e um anos, uma única revisão formal: em 1973, o Château Mouton Rothschild subiu de segundo para o primeiro posto do ranking, depois de décadas de pressão do barão Philippe de Rothschild. Fora isso, o mapa de prestígio desenhado às pressas para impressionar o mundo em 1855 ainda segue de pé.

O que Napoleão III organizou por decreto, tem sido desafiado pelos tempos modernos. O mercado de vinhos finos de Bordeaux perdeu quase um quinto do valor nos últimos cinco anos, segundo o índice Liv-ex Bordeaux 500. As exportações francesas de vinhos e destilados caíram, em 2025, ao menor volume em pelo menos vinte anos. Bordeaux responde por cerca de 10% do mercado de vinhos francês. “Tensões geopolíticas, conflitos comerciais, flutuações cambiais e perda de confiança do consumidor”, resumiu o presidente da federação francesa de exportadores do setor, Gabriel Picard.

O principal banco da região, o Crédit Agricole, relata que aproximadamente 1.200 propriedades — quase 25% dos cerca de 4.000 produtores remanescentes em Bordeaux — estão em renegociações de reestruturação de dívidas, segundo a Wine Spectator. Haveria um excedente de cerca de 150 milhões de garrafas por ano. Os franceses já não consomem os rótulos mais baratos nos supermercados como antes, e os preços do vinho a granel despencaram para níveis muito baixos: o preço médio obtido pelos produtores por um barril de 900 litros gira em torno da metade do seu custo de produção.

Entre agosto de 2023 e maio deste ano, cerca de 21 mil hectares foram arrancados só na Gironde, em programas subsidiados ou voluntários. A área de vinhedo da própria região encolheu de 115 mil para 85 mil hectares em poucos anos. Em setembro do ano passado, a família Guinaudeau, do Château Lafleur, em Pomerol, anunciou que deixaria de vinificar dentro das regras da apelação (a mesma hierarquia erguida em 1855), alegando que o sistema trava práticas essenciais, como a irrigação, diante do que chamaram de “anormalidade climática” sentida desde 2003.

No fim de novembro do ano passado, o Ministério de Agricultura da França anunciou um fundo de 130 milhões de euros para um plano de erradicação definitiva de vinhedos que se estenderá pelos anos de 2026 e 2027. A medida visa reequilibrar a oferta diante de uma queda acentuada na demanda, particularmente por vinhos tintos. A crise ainda atinge um sistema secular de venda: o sistema de comercialização “en primeur”, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e que influenciou o mundo todo.

Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor do que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou. “Qual é o sentido de comprar en primeur se o vinho estará mais barato daqui a cinco anos?”, questionou Laura Taylor, da loja britânica de vinhos Private Cellar, a David Williams, da The Observer.

Entre a fumaça das florestas em chamas e a poeira dos vinhedos arrancados por tratores financiados pelo estado, Bordeaux descobre que sua reputação secular já não basta para blindá-la das forças combinadas do clima e do mercado. Fica a pergunta se a crise e as queimadas terão algum impacto sobre o acordo União Europeia e Mercosul, lembrando que a França sempre foi um dos maiores opositores da negociação.

A aventura do brasileiro que trocou Wall Street pelo vinho

11 de Agosto de 2026

A paixão pelo vinho não nasceu numa sala de reuniões de Wall Street, nem nos comitês de investimento da Bunge, a gigante global do agronegócio que Alberto Weisser comandou por anos viajando cerca de 90 noites em um ano. Começou no início da década de 1970 nas mesas de restaurantes franceses de São Paulo — o Freddy, ainda aberto, e o extinto La Cocagne. O jovem executivo em formação, levado pelos pais da namorada em fins de semana ensolarados, deu os primeiros goles em rótulos nacionais e nas poucas garrafas importadas que cruzavam a fronteira. Nasceu o interesse em harmonizar comida e vinho.

O ponto de inflexão veio em 1974. Uma hepatite severa o levou à cama por meses. Weisser usou o tempo livre para fazer uma lista de desejos para quando recuperasse a saúde: comer um pedaço de queijo Roquefort com uma taça de tinto e viajar à Borgonha para andar entre as vinhas. A Borgonha ficou para depois; o Roquefort com tinto foi saboreado. A mesma doença que o afastou do serviço militar para o qual havia se voluntariado liberou tempo para se dedicar à universidade, onde se formou em administração de empresas.

Filho de mãe alemã e de pai nascido em Belém do Pará — que aos nove meses foi para a Suíça, lá foi educado e voltou ao Brasil pouco antes da guerra —, Weisser cresceu em São Paulo em escola alemã, de onde vem o sotaque que mistura as duas línguas com o inglês. O pai, vendedor, morreu aos 51 anos; a mãe, enfermeira, parou de trabalhar ao nascer a primeira dos quatro filhos. A partir dos 15 anos, Weisser trabalhou à noite numa clínica médica para ajudar no orçamento da casa, enquanto cursava Administração na USP.

Aos 25 anos, contratado pela Basf, entrou na engrenagem corporativa internacional. Passou três anos no Brasil antes de ser transferido para a sede alemã, onde trabalhou cinco anos na área financeira. Os fins de semana viravam roteiro de vinhas europeias: Alsácia, Borgonha, Vale do Loire, Bordeaux, os vales alemães, os terroirs italianos. Depois de anos na Bunge, saiu em 2013, aos 58 anos, cansado de uma a duas viagens semanais para China, Oriente Médio, Europa e Brasil. Num só ano, dormiu 90 noites dentro de um avião. Teve a ideia de mudar de ares e dar mais espaço à paixão pelo vinho.

Escolheu Portugal. Apreciava os vinhos do Douro e do Dão, mas a logística pesava contra, ficavam distantes do aeroporto, necessário já que iria manter assento em conselhos de empresas como Pepsi e Bayer. Já o Alentejo fica a pouco mais de uma hora de Lisboa. Num dia chuvoso de janeiro de 2015, às cinco da tarde, já quase escuro, Weisser bateu à porta da Tapada dos Coelheiros. Deu uma volta pelo terreno. Ficou encantado, percebeu que talvez houvesse interesse em vender se as condições fossem certas. Fechou negócio nove meses depois, em setembro. “Foi a segunda mais difícil negociação da vida, depois das que fiz na Bunge, porque eles não queriam vender”, relembra em entrevista na quarta-feira, em São Paulo.

A propriedade soma quase 800 hectares. Produz cortiça, mantém 1.300 ovelhas, que pastam na floresta e, no inverno, migram para a vinha e o pomar. “Não revolucionei, evolui”, resume Weisser sobre a década seguinte. Investiu pesado nas vinhas, reduziu o portfólio, de 14 marcas para três linhas. A produção caiu de 400 mil para um piso de 40 mil garrafas. Hoje a produção está em cerca de 150 mil garrafas, o Brasil, com 10% das vendas, é o segundo mercado da vinícola, atrás apenas de Portugal. Na linha básica, importada pela Mistral, um vinho rosado e um tinto se destacam na faixa dos 250 reais por garrafa.

A virada teve nome: Luís Patrão, enólogo que passou pelo Esporão e mantém rótulo próprio, o Vadio, na Bairrada. Foi contratado em 2016 para conduzir a transformação. A sustentabilidade organiza quatro eixos — orgânico, biodinâmico, sustentável, regenerativo. Painéis solares cobrem boa parte do consumo elétrico. O uso de água caiu de forma acentuada, com a meta declarada de depender só da chuva, sem poços. Uma parceria com a Universidade de Évora testa o uso de pássaros como controle biológico de pragas, no lugar de químicos.

A disciplina financeira da vida corporativa não esconde a realidade do agronegócio de nicho: passados dez anos, a Tapada ainda não atingiu o ponto de equilíbrio. Nas suas contas, são necessárias 200 mil garrafas vendidas por ano para chegar lá. Weisser resume o problema com uma anedota de família. Quando o filho cursava o MBA em Harvard, escreveu um trabalho sobre o modelo de negócios do Château Margaux e mandou ao pai um dado do estudo: 95% das vinícolas do mundo não dão lucro. De Portugal, Weisser respondeu que estava em excelente companhia.