O convite chegou numa manhã de terça-feira. “Almoço na sexta-feira, pode?” A agenda estava livre. O amigo avisava que levaria todos os vinhos; cabia apenas fechar a lista de convidados. Nada de formalidades: seria apenas uma brincadeira entre amigos, dessas que misturam curiosidade e prazer. O restaurante escolhido ficava fora do eixo centro–zona sul–zona oeste: a Parrillita, na Avenida Lins de Vasconcelos, 988, no Cambuci. Bom preço, boas carnes, segundo o anfitrião.
Sentados à mesa, a pegadinha foi logo revelada: quatro vinhos tintos enrolados em papel-alumínio. Degustação às cegas, com direito a palpites antes da revelação. Seriam da mesma uva? De países diferentes? Safras distintas? As opiniões divergiam: dois rótulos pareciam vir do Novo Mundo, cheios de fruta; dois, do Velho Mundo, lembrando margem esquerda de Bordeaux ou talvez Espanha? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/a-arte-de-envelhecer-e-permanecer-relevante/ Ou Portugal? https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/heteronimos-de-um-viticultor/ E quanto à idade? A maioria arriscava algo em torno de dez anos.
A expectativa aumentava à cada gole. O amigo em questão tinha a fama de uma adega generosa, recheada de rótulos de prestígio. Qual seria a surpresa desta vez? Quando o papel foi retirado, os olhos de todos se arregalaram: tratava-se do mesmo vinho, em safras diferentes. Não era Velho Mundo. Eram tintos da mesma vinícola. Mais precisamente, elaborados com malbec na fria Patagônia pela Bodega Noemía, das safras 2006, 2007, 2010 e 2011. São importados hoje pela @vinoterra_br.

As duas primeiras garrafas, quase vinte anos depois da colheita, mostravam como bons vinhos, não importa de onde, envelhecem com graça e complexidade. As mais jovens, por sua vez, exibiam o vigor da malbec — fruta generosa, taninos macios —, combinação perfeita com a suculência das carnes servidas. Noemia já foi tema de post desse site há anos (incluindo com viagem para conhecer os vinhedos e a propriedade: https://vinhosemsegredo.com/2011/11/17/chacra-e-noemiabodegas-de-terroir/.
Vinhedos das primeiras décadas do século passado são a espinha dorsal deste projeto biodinâmico na região argentina da Patagônia, mais especificamente na sub-região de Rio Negro. Os mesmos estavam para ser arrancados na virada do milênio quando aparece a figura central desta história, um dinamarquês perfeccionista chamado Hans Vinding-Diers. Percebendo o potencial da região e este pequeno tesouro de pouco hectares, não teve dúvida, articulou a negociação com duas poderosas famílias italianas do ramo vitivinícola. Piero Incisa della Rocchetta, proprietário do mítico supertoscano Sassicaia, e Condessa Noemi Marone Cinzano do famoso Brunello di Montalcino Argiano.
Dividiram a propriedade em duas bodegas distintas (Chacra e Noemia), mas com um único propósito; elaborar vinhos de alta qualidade expressando fielmente a natureza de seus respectivos terroirs. Os pequenos lotes de vinhas antigas dividem-se por idade. As cepas plantadas em 1955 geram os vinhos Chacra 55 (Pinot Noir) e os vinhos J. Alberto (Malbec). Os vinhedos plantados em 1932 dão origem aos ícones Chacra 32 (Pinot Noir) e Noemía (Malbec). Os vinhos ícones provenientes das parreiras de 1932 diferenciam-se por uma concentração maior e rendimentos baixíssimos em torno de 20 hectolitros por hectare. A produção não passa muito de seis mil garrafas por safra.

A prova às cegas https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/degustador-as-cegas/ , sempre um exercício de humildade, acabou funcionando como antídoto contra uma tendência que vem crescendo em algumas rodas de enófilos brasileiros: o “cancelamento” do vinho argentino. Não se trata de boicote formal nem de cruzada declarada, mas de uma atitude repetida em algumas mesas e grupos de WhatsApp, em que o malbec (e por extensão outros argentinos) é tratado como algo fora de moda, previsível, quase um clichê.
Em algumas rodas enófilas, há quem torça o nariz não apenas para o malbec da Patagônia, mas também para uma das vinícolas mais prestigiadas da Argentina: a Catena Zapata, cuja história abriu o caminho para os vinhos da América Latina.
A história começa em 1902, quando Nicola Catena deixou a Itália, fugindo da fome que devastava sua região natal, e plantou em Mendoza a primeira vinha de malbec. Aos poucos, a uva francesa encontrou na Argentina um novo lar e ganhou dimensão internacional. Na década de 1960, porém, a economia argentina entrou em colapso, a inflação disparou e a família Catena enfrentou um de seus períodos mais difíceis. Colher as uvas custava mais caro do que deixá-las nas videiras.
Diante do dilema, Domingo Catena consultou seu filho de 22 anos, Nicolás — recém-doutor em economia. O jovem recomendou não colher. Mas Domingo não conseguiu contrariar a própria consciência e levou adiante uma safra que sabia trazer pouquíssima renda. Anos depois, Nicolás ainda recordaria a tristeza de ver o pai trabalhar em vão.
Nos anos 1980, após expandir a distribuição dos vinhos da família no Reino Unido, Nicolás teve uma oportunidade decisiva: tornar-se professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi lá que conheceu de perto os vinhos da Califórnia, então em ascensão, e percebeu que um novo mundo era possível. Voltou a Mendoza com uma convicção clara: a Argentina também poderia produzir vinhos de classe internacional.
O contexto, no entanto, era adverso. Assim como o Chile, a Argentina era vista como produtora de vinhos de mesa baratos, vendidos a granel. Apostar em qualidade parecia uma temeridade. Nicolás vendeu a divisão de vinhos comuns e manteve apenas o braço dedicado aos vinhos finos. Colegas e concorrentes riram, chamando-o de “completamente loco”. Mas foi justamente esse gesto ousado — exportar o primeiro vinho argentino de qualidade internacional — que pavimentou o caminho para colocar o país no mapa mundial do vinho. Décadas depois, a vinícola seria reconhecida pelo crítico Robert Parker https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/parker-o-paladar-absoluto/ como “a referência em vinhos da América do Sul”
O almoço no Cambuci, com as safras da Bodega Noemía degustadas às cegas, mostrou exatamente isso: quando bem escolhidos, os vinhos argentinos são muito bons, envelhecem com elegância e seguem sendo parceiros ideais de uma boa carne. Mais do que revelar rótulos, a mesa mostrou algo maior: o “cancelamento” do vinho argentino em certas rodas fala menos sobre o que está dentro da taça e mais sobre modismos passageiros que, cedo ou tarde, também passam.
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