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Vosne-Montrachet entre Hashis

22 de Abril de 2018

Provar um Montrachet é sempre um momento de contemplação. Afinal, estamos falando de um dos melhores brancos do mundo, se não for o melhor para muitos entendidos. Agora, fazer uma vertical de Montrachet do Domaine Comte Lafon, uma das referências nesta diminuta apelação de aproximadamente oito hectares de vinhas, é um privilégio para poucos.

montrachet lafonbem ao lado das vinhas DRC

Alguns dados traduzem a exclusividade deste momento. Sabe quando o camarada compra aquele lote de 3200 m² para fazer sua casa de lazer. Pois bem, essa é a área das vinhas Montrachet do Comte Lafon. Essas vinhas foram plantadas em 1953 (80%) e 1972 (20%). Seus rendimentos ficam entre 20 e 35 hl/ha. O vinho é fermentado em barricas com bâtonnage (revolvimento das borras) e amadurece entre 18 e 22 meses em barricas também.

187ba657-7a40-4cdb-a249-2652291d2d30.jpgapelação Vosne-Montrachet

Feitas as considerações iniciais, vamos aos vinhos e suas combinações à mesa. Quanto aos três La Tache, serão devidamente comentados em seguida.

IMG_4511.jpgsafras de extremo didatismo

Começando pelo Montrachet 2009, estava num momento ótimo para ser abatido. Cheio de fruta, toques tostados, caramelo, especiarias, e aquela textura macia típica dos Lafons. Sem qualquer sinal de oxidação, este exemplar muito bem conservado, mostra a exuberância da safra 2009 com frutas em profusão. Temo em guarda-lo por mais tempo, pois sua acidez está no limite, sendo este fator de extrema importância para sua longevidade. Foi o preferido para vários dos confrades. Já 2010, outra safra de extremo didatismo. Ela segue o perfil de 2009 no sentido de se mostrar sem rodeios, mas seu equilíbrio é mais harmônico com uma acidez mais vibrante. Evoluiu muito bem na taça, e mostra que pode caminhar por mais tempo em adega. Notas 96 e 97, respectivamente.

um festival de sushis

A fota acima retrata bem os ótimos sushis do restaurante Ryo. Com os Montrachets acima, safras 2009 e 2010, combinaram bem, sobretudo em termos de texturas. O lado adocicado do prato foi de encontro com a riqueza de fruta dos vinhos.

IMG_4512.jpgsafras mais contidas

Num estilo oposto a 2009 e 2010, as safras 2011 e 2013 são mais contidas. Possuem bela acidez e uma mineralidade mais destacada. De início, mostraram-se muito redutivas no aroma onde em seguida, pouco a pouco os mesmos foram se revelando. O grande pecado é que apresentam persistência aromática não muito longa, faltando um pouco de meio de boca. No geral a safra 2013 é levemente superior com deliciosos aromas de pitanga. A longevidade de ambas é um ponto de interrogação, mas aparentemente apresentam acidez para tanto. Notas 93 e 95, respectivamente.

mais hashi em ação

As duas safras acima, 2011 e 2013, de textura mais delgada e acidez mais aguda, foram bem com os pratos de sashimi e sobretudo as vieiras frescas com gelatina de tomate, um dos melhores pratos do menu. Aqui a maresia e frescor dos pescados deram as mãos com a mineralidade e acidez dos vinhos.

IMG_4513.jpgbeirando a perfeição

Pessoalmente, o melhor Montrachet do painel, embora esteja longe de estar pronto. Para beber agora, o 2009 é encantador. Voltando ao 2012, um vinho cheio de mineralidade, bela acidez, toques cítricos no aroma e uma gostosa salinidade em boca. Sua persistência aromática é expansiva e notável. Deve evoluir bem em adega. Sua longevidade pode estender-se até 2040. Talvez um pouco exagerada. Sua nota é 98 pontos.

IMG_4506.jpga escolha de Sofia …

Como se não bastasse essa cascata de Montrachets, entramos em outro terroir sagrado, Vosne-Romanée com sua Majestade, La Tache. O quadro acima revela dois La Taches excepcionais, cada qual em seu estilo e momento de evolução. O de safra 1985 é uma poesia liquida com todos os aromas terciários nobres que um vinho deste naipe pode entregar. Logo ao ser aberto, emergiu um aroma curado de Pata Negra, quase um Joselito, o melhor ramon espanhol. Devidamente decantado, os aromas de trufas, sous-bois, licor de cereja, chá, e flores secas foram perfumando as taças. Boca harmoniosa, precisa em seus componentes bem equilibrados, culminando num final muito bem acabado. Está no momento exato para ser apreciado, embora sem sinais de qualquer indicio de decadência. Deixando a emoção de lado, numa análise técnica isenta, falta um pouco de corpo e persistência para entrar na galeria dos La Taches perfeitos, mas é essa nobreza de aromas que faz deste vinho, independente da safra, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Nota 91 Parker. Eu daria entre 93 e 95 …

O La Tache 1991, safra um tanto desdenhada, é um dos La Taches históricos. O próprio Aubert de Villaine o prefere ao mítico 1990. A diferença de idade de seis anos para o La Tache 85 é desproporcional em termos de evolução. Enquanto o 85 está plenamente formado, o 91 ainda é um adolescente. Tem um estrutura monumental de taninos. Os aromas já estão encantadores com notas de cerejas escuras, minerais, alcaçuz e um delicioso chocolate amargo (cacau). Outro aroma que pouca gente entende é o aroma de carne fresca, nítido neste vinho. Da próxima vez que entrar num açougue, sinta este tipo de aroma. Em boca, falta muito a ser lapidado, mas quando o tempo se encarregar desta lenta tarefa, estaremos diante de um vinho grandioso. Previsão para 2040. Nota 97 com louvor.

os pratos de carne

Os pratos de carne, carne de porco ultra macia num caldo de sabor delicado para os aromas terciários dos vinho, e a delicada textura de língua numa farofinha crocante, complementaram muito bem a nobreza destes dois grandes vinhos.

IMG_4532.jpgo infanticídio de dia

Não se deve abrir um La Tache e outros vinhos DRC antes de vinte anos. A prova está na foto acima, deste belo 96. Um vinho que já tem seus encantos, mas tem muito a entregar ainda. Não tem a estrutura e longevidade do excepcional 91, mas tem acidez e taninos finos para evoluir com propriedade. Os aromas de cerejas, alcaçuz e especiarias, se destacam neste momento. Deve ser imperativamente decantado por duas horas, permitindo assim, uma melhor harmonia em boca. Nota entre 94 e 97 pontos num dos estilos mais elegantes de La Tache, se contrapondo ao potente 91.

O que mais dizer depois de um almoço desses, onde brancos e tintos foram exponenciados ao limite. Apenas agradecer a companhia e generosidade dos confrades, desejando-lhes vida longa regada aos sabores de Bacco. Saúde a todos!

Hits da Borgonha

16 de Abril de 2018

Vez por outra, é bom dar um passeio pela Borgonha buscando comunas distintas em épocas onde o glamour do vinho tinha um sentido mais romântico e filosófico do que os atuais dias onde o marketing e a especulação imperam num dos terroirs mais fascinantes da França. Foi com esses propósito, que um grupo de amigos reuniu-se na Trattoria Fasano num belo almoço outonal. 

Old School

Diferentemente de champagne ou vinho branco, iniciamos os trabalhos com um aperitivo distinto, um Charmes-Chambertin 1964 da velha guarda da Borgonha. Notem no rótulo abaixo, que não há menção Grand Cru. Nesta época, Charmes-Chambertin como Lieu-Dit (território consagrado) era mais relevante para os conhecedores. É um vinho muito mais de alma que de corpo. Seus aromas etéreos com notas de chá, manteiga de cacau e sous-bois, além das sutilezas em boca, nos leva a outros tempos …

IMG_4478.jpgsafra 1964: sabor nostálgico

Descendo mais um pouquinho no tempo, chegamos a mítica safra de 1959, minha safra também, para nos deliciarmos com toda a energia deste Pommard Village sem identificação do vinhedo. Aparentemente sem pedigree, o vinho é de uma força extraordinária, justificando sua fama de Barolo da Borgonha. Com seus quase 60 anos, tem sua rusticidade domada pelo tempo com aromas terciários fantásticos. Sem sinais de declínio. 

1959, uma das safras históricas

Deixando de lado a nostalgia, vamos para 1997 na comuna de Volnay, sabidamente de tintos delicados, exceto por este produtor, Domaine Marquis d´Angerville. Sobretudo em seu grande tinto, o monopole Clos des Ducs do século XVI de pouco mais de dois hectares, mostra extrema virilidade, taninos bastante firmes, aromas recatados, dando indícios de sua longa guarda. Este provado da safra 1997, mostra-se ainda muito jovem, necessitando de decantação. Seus aromas um tanto tímidos mostra um lado sanguíneo, notas de alcatrão, e frutas escuras. Sua incrível acidez e estrutura tânica o permitirão vencer décadas de lenta polimerização, liberando seu bouquet.

IMG_4482.jpgum tinto para envelhecer

O outro grande nome da comuna de Volnay é Domaine Lafarge, de estilo mais feminino e elegante, mas igualmente complexo e sedutor. Seu monopole Clos des Chenes 1999 provado há anos, ainda está na memória …

DRC Romanée-St-Vivant em dois tempos

Entrando no terroir sagrado de Vosne-Romanée, um dos meus DRCs preferidos, Romanée-St-Vivant. É sempre um vinho vibrante, gracioso, sem muita timidez. A safra 1995 da foto abaixo, mostra já um vinho delicioso em sua maioridade, mas com muita vida pela frente. Taninos firmes e polidos, aromas de cerejas negras, especiarias, toques balsâmicos, e uma boca harmoniosa. Aqui não há vinhos comuns …

diferentes momentos de evolução

Agora para tudo, sua majestade Romanée-St-Vivant DRC 1978 entra em cena. Um dos cinco melhores Borgonhas que já provei numa safra mítica da região. Esta garrafa estava incrivelmente jovem comparada a outras degustadas. Um vinho praticamente imortal, com uma energia e vivacidade ímpares. Suas notas de cerejas negras, rosas, especiarias delicadas, toques balsâmicos, são de um riqueza e harmonia absolutas. Impossível não ser seduzido por todo este encantamento. Aquela garrafa da ilha deserta …

IMG_4487.jpgum bebê engatinhando

Ainda em Vosne-Romanée, um pequeno infanticídio com a criança acima, um Echezeaux Liger-Belair da ótima safra 2015. Um vinho elegante, muito bem equilibrado e com ótima riqueza de fruta. Vide, foto acima.

flagey echezeaux

uma comuna que se confunde com Vosne-Romanée

O mapa acima tenta ilustrar a complexidade deste terroir chamado Echezeaux com área em torno de 37 hectares. É um pouco menor do que Clos de Vougeot, Grand Cru com 50 hectares de vinhas. Nos dois casos, cerca de 80 produtores disputam espaço e imprimem por conseguinte seu estilo de vinho. Portanto, uma comuna com vinhos bastante heterogêneos. 

A rigor, os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux pertencem à comuna de Flagey-Echezeaux conforme mapa acima, e frequentemente confundida e englobada na badalada comuna de Vosne-Romanée. Em termos de terroir, existem 11 diferentes Climats em torno de Grands-Echezeaux formando o mosaico chamado Echezeaux. Em linhas gerais, os climats adjacentes a Grands-Echezeaux de solo mais argiloso, mostram vinhos mais robustos e concentrados. Não é por acaso, que as vinhas DRC para esta apelação estão concentradas nesta porção de terreno, sobretudo no climat Les Poulaillères. Já Liger-Belair, objeto de nosso tinto degustado, possui vinhas nos climats Les Crouts e Les Champs Traversins, de solo mais arenoso e menos argiloso. Isso proporciona vinhos mais leves e elegantes. Seu grande diferencial, são vinhas muito antigas, em torno de 65 anos. Daí se explica a delicadeza de seus vinhos.

IMG_4484.jpgfettuccini com cogumelos e molho rôti

Um dos pratos de grande sucesso do almoço na Trattoria Fasano foi o Fettuccini com cogumelos e molho rôti. A textura da massa estava perfeita para a densidade dos borgonhas, além dos aromas e sabores do prato instigarem o aspecto de evolução desses vinhos baseados em sous-bois e algo terroso.

IMG_4490.jpgum vinho enigmático

Por fim, um dos tintos mais enigmáticos da Côte de Nuits, Clos de Tart, monopole histórico da comuna de Morey-St-Denis. Seu rótulo sóbrio traz o peso de sua história e tradição. Um vinho sempre muito difícil de se mostrar, pedindo tempo ao tempo, mas de uma riqueza impressionante, incitando o degustador a tentar revelar seus segredos. O vinho é muito equilibrado, muito estruturado em todos seus componentes, mas ainda a ser lapidado. Esse seu mistério e relutância em não se revelar por completo me remete de alguma forma ao mítico Romanée-Conti. Sempre um privilégio prova-lo. 

bolivarianos em ação

Finalizando a conversa, nada como uma sessão espiritual, Puros e Cognacs. A seleção ficou a cargo da Casa Bolivar, uma das mais tradicionais marcas cubanas conhecida por sua destacada fortaleza em aromas e sabores. No caso, um duplo figurado lembrando um concorrente à altura, Partagas Salomones. Além disso, uma bitola exclusiva de nome Geniales com ring 54 de ótimo fluxo completou o deleite.

IMG_4493.jpgencontro espiritual

Essa garrafinha dentilhada de  Baccarat quando entra em cena, não há espaço para a concorrência. Cognac Louis XIII, a excelência desta apelação francesa, primando pelo extremo cuidado na seleção e envelhecimento dos melhores cognacs da Maison Remy Martin. Personalidade, força, em perfeita harmonia com a elegância e delicadeza de um verdadeiro néctar.

O que mais dizer, senão agradecer aos amigos pela companhia, bom papo, e alto astral. Que Bacco nos proteja em busca de novas orgias. Abraço a todos!

 

 

Tres Bonds e um Trem chamado Montrose

7 de Abril de 2018

Nem sempre temos oportunidades de provar bons californianos no Brasil. A maioria disponível no mercado está bem longe da elite de Napa Valley, quer seja por preços muito elevados, quer seja por produções extremamente baixas. Na verdade, uma coisa está atrelada à outra. Neste contexto, num belo almoço no Varanda Grill, degustamos algumas feras dos diferenciados tintos americanos.

varanda salon 2002

o epítome em Blanc de Blancs

Para começar os trabalhos, nada melhor que um belo champagne. Se for um Blanc de Blancs, c´est parfait, com muito frescor e mineralidade. Toda vez que provo Salon, vem aquela dúvida cruel imediatamente: Salon ou Clos du Mesnil da Krug?. As duas são realmente a perfeição neste estilo tão elegante e delicado, onde a força do calcário no solo, imprime uma mineralidade sem igual. São champagnes que envelhecem muito bem, haja vista esta da safra 2002. Ainda um bebê na garrafa com cores vibrantes, extremamente brilhante e reflexos verdeais. Seguramente pela qualidade da safra, tem pelo menos mais quinze anos de boa evolução. Salon costuma ficar dez anos sur lies, antes do dégorgement.

IMG_4460.jpgtinto de grande maciez

Se você quer ter uma ideia de um grande californiano, o vinho acima cumpre bem o papel. Com seus vinte anos de evolução da excepcional safra 1997, o vinho mostra-se ainda jovem, vigoroso, sem nenhum sinal de evolução na cor. É seguramente a mistura de Cabernets mais macia já provada, lembrando textura de grandes Pomerols, terroir onde a Merlot predomina. A força da Cabernet Sauvignon fornece a espinha dorsal deste tinto, enquanto a Cabernet Franc entrega toda a suavidade e elegância. Um vinho cheio de fruta, opulento, com traços de chocolate, defumado, ervas e temperos, como salsão, por exemplo. Longo em boca e extremamente sedutor. Tem 99 pontos com previsão de apogeu em 2030. Apenas 500 caixas por ano.

IMG_4462.jpgoutra bela safra em Napa Valley

A foto acima resume o tema da degustação. Degustar três vinhos de diferentes vinhedos muito próximos, percebendo as sutilezas de terroir em termos de altitude e composição do solo, tendo como uva principal, a Cabernet Sauvignon.

Bond Estates, sediada em Oakville, tem por trás uma das mais sofisticadas vinícolas de Napa, Harlan Estate. Seus vinhos ultra premiados, é um dos melhores cortes bordaleses do mundo. Pessoalmente, um dos meus preferidos de todo o Napa. Voltando a Bond Estates, eles trabalham com cinco vinhedos, dentre os quais, degustamos na mesma safra (2001), os vinhedos Vecina, St Eden, e Melbury. Todos são vinhedos de áreas diminutas menos de 11 acres (cinco hectares).

Resumindo a história, o St Eden com 100 pontos Parker ficou em terceiro lugar. Comparativamente, mostrou-se com menor corpo, faltando um pouco de meio de boca. Embora delicioso, muito bem equilibrado nos seus 14,5° de álcool, taninos bem trabalhados, não conseguiu mostrar a força de seus concorrentes.

Em segundo lugar, ficou o Melbury com 98 pontos Parker. Um vinho musculoso, de um estrutura tânica marcante. Talvez, o de menor evolução em garrafa. Um verdadeiro margem esquerda, por sua virilidade. Também com seus 14,5° de álcool perfeitamente balanceados.

Em primeiro lugar, o belo Vecina 2001 com 96 pontos Parker. Um Cabernet Sauvignon sedutor, de muita maciez e aromas encantadores, lembrando cassis, toques balsâmicos e de caramelo, além de florais. Equilibrado, denso, e persistente. Ficou muito próximo do Maya 1997 acima comentado, sobretudo pela similaridade de maciez.

Chateau Montrose em Double Magnum

Para por ordem no galinheiro, só mesmo um Bordeaux de 100 pontos, Chateau Montrose 1990, uma obra-prima. Olha a cor deste vinho com seus 28 anos de idade. O equilíbrio, a finesse, e a persistência em boca, são excepcionais. Pessoalmente, talvez seja o grande vinho da bela safra de 1990. Embora longe de seu auge, seus taninos são finos, agradavelmente adstringentes, além de seus aromas balsâmicos, de tabaco, e de notas animais. A comparação com os demais californianos presentes mostra toda a superioridade dos grandes bordaleses, principalmente nas safras ditas perfeitas.

Voltando ao Parker, temos que admitir que suas avaliações para os vinhos americanos são um tanto exageradas e de cunho emocional. Por outro lado, seu rigor com os bordaleses, faz dele o mais justo, frio e calculista, juiz desta apelação glamorosa. O que mais chamou a atenção em suas avaliações, foi o fato dele comparar o estilo do Bond Vecina com o Chateau Montrose. Dada a feliz coincidência de poder prova-lo lado a lado com o Montrose, a similaridade sobretudo de aromas foi notável e marcante, digna de um degustador brilhante e altamente experimentado.

IMG_4461.jpgVaranda Grill e seus cortes especiais

Acompanhando tintos de grande estrutura, as carnes especiais do Varanda Grill caem como uma luva para amalgamar os poderosos taninos destes grandes Cabernets. No caso acima, além dos acompanhamentos, temos um corte especial do T-bone sem osso, no seu lado mais suculento. Nada mau!

Mais uma vez, meus agradecimentos aos amigos e confrades presentes, sempre em busca de experiências inéditas no mundo de Bacco, com muita conversa, animação e generosidade. Vida longa a todos!

Magnânimos à Mesa

24 de Março de 2018

As grandes pessoas que se tornam grandes profissionais, grandes amigos, grandes chefes de família no sentido mais nobre do termo, são talhadas pelo tempo, tempo esse que envelhece, mas sobretudo enobrece, superando todas as expectativas, por mais otimistas e tendenciosas que elas sejam. O berço, a origem, a formação, as boas diretrizes sugeridas, o exemplo daqueles que as orientam nos primeiros passos da vida, formam o esteio desta magnânima caminhada.

Eu sei que o assunto é vinho, mas este preâmbulo tem muito a ver com a pessoa homenageada neste almoço, um grande amigo de todos os confrades e um profissional da Saúde exemplar. Os vinhos do encontro que serão descritos têm na sua concepção os pré-requisitos desta pessoa fundamentados na origem da nobreza e na longa viagem do tempo para eterniza-los.

Toda vez que falamos da ação do tempo sobre o vinho, é sempre um fato cercado de mistérios e dúvidas. Quanto tempo para atingir a plenitude? Essa plenitude tem platô amplo? qual o melhor momento para apreciar um grande vinho?

Neste almoço, tivemos a oportunidade de rever esses conceitos de longevidade, de nobreza, e da ação do tempo moldando e permitindo a magia da vida. Isso posto, dois grandes terroirs incontestáveis à mesa, o branco Grand Cru Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive, o melhor dos Chevaliers,  e Chateau Latour, Premier Grand Cru Classé de margem esquerda, o senhor do Médoc.

IMG_4416.jpgreferência absoluta da apelação

Na foto acima, temos duas excelentes safras de Madame Leflaive, 1996 e 2005, quase uma década de evolução. Servidos nas taças, lado a lado, percebemos claramente a ação do tempo em duas safras distintas, mas que têm o mesmo potencial e esplendor para se agigantarem no tempo. Estamos falando de avaliações em torno de 95 pontos.

O Chevalier-Montrachet 96 encontra-se esplendoroso, aromas complexos e multifacetados. Boca harmoniosa, acidez presente apenas para manter a vivacidade do conjunto, dando campo para a maciez, e reverberando sabores e aromas de grande expansão. Pode ser que ainda evolua, mas certamente já está delicioso e com amplo platô de estabilização, sem nenhum sinal de fragilidade. Já o 2005, tem uma acidez vibrante, própria dos grandes vinhos jovens. Percebe-se claramente seu extrato, seu imenso potencial, mas falta-lhe ainda integração, amadurecimento, encaixe de peças, que  só o tempo é capaz de molda-lo à perfeição. É bom enfatizar, que o 96 trata-se de uma garrafa magnum, sabidamente um formato que privilegia os bons anos em adega. Aliás, está garrafa estava impecável. 

IMG_4417.jpgnobreza da margem esquerda

Passando agora aos tintos, a ação do tempo fica mais emocionante ainda. Provar um Chateau Margaux 1959, felizmente minha safra, é sempre algo emocionante, independente de análises técnicas, geralmente muito frias. O ano de 1959 foi  grande em Bordeaux com muitos chateaux ratificando a bela safra. Particularmente para o Chateau Margaux, não foi uma safra histórica. Contudo, o vinho estava magnânimo e sobretudo íntegro, uma grande garrafa. Uma poesia liquida, aromas etéreos recordando tabaco, torrefação, notas de sous-bois, e uma fruta delicada mostrando sua vivacidade. Boca macia, de médio corpo, mas muito bem resolvida com taninos absolutamente polimerizados. Certamente, o melhor Margaux 1959 já provado. Nas palavras do filósofo Friedrich Engels, um momento de felicidade!

Por fim, um duplamente magnânimo, Chateau Latour 1982 em double magnum. Pensa num vinho perfeito, que ainda assim não está pronto, mas é delicioso. Evidentemente, o formato da garrafa tem seu peso na integridade e pouca evolução deste monstro do Médoc chamado Latour. É incrível como um vinho com 36 anos de vida encontra-se jovem, vibrante, com uma estrutura de taninos portentosa, e um equilíbrio sem igual. As cores abaixo falam por si.

a lenta ação do tempo

A foto à esquerda, trata-se do Margaux 59, um vinho apaixonante, pronto e pleno. A foto à direita, é o incrível Latour 82, quase sem sinais de evolução. Escolher o melhor do todos os Latours ao longo de sua rica história é uma tarefa insana, tal a regularidade deste chateau e os vários anos em que foi sempre esplendoroso. Deixando esta missão para Parker, o mais rigoroso crítico de Bordeaux, na sua lista de prioridade, aparece o 1982 no topo da relação, superando inclusive o majestoso Latour 1961. Na última previsão de Parker, o Latour 82 atingirá o apogeu em 2059. Sem querer contradize-lo, pelo que foi provado neste double magnum, a data sugerida tem toda a coerência.

O vinho tem a força de um trapezista com a delicadeza de um bailarino. Potência e elegância se integram numa forma sublime, onde todos os componentes estão perfeitamente integrados. O que realmente garante esta incrível longevidade são seus taninos absolutamente perfeitos, numerosos, de uma textura ímpar. Seus aromas terciários são divinos com as notas de cassis, couro do mais fino acabamento, uma torrefação maravilhosa, e outros mistérios a serem revelados. Para ser apreciado no momento, este Latour 82 deve ser decantado por três horas antes do serviço. Um vinho para heróis!

IMG_4413.jpgBela Sintra: o clássico arroz de pato

Encerrando as considerações, o clássico arroz de pato do restaurante Bela Sintra, acompanhou bem os tintos bordaleses. Numa harmonização mais regional, os tintos durienses fazem boa parceria. Barca Velha ou Reserva Ferreirinha devidamente envelhecidos são pedidas excelentes.

Vida longa aos confrades, especialmente ao homenageado, que certamente terá seu apogeu na mesma previsão do Latour 82. Afinal, nobreza e longevidade são para poucos. Abraço a todos!