Um foco em Clos Apalta

Charles de Bournet Marnier Lapostolle tirou o celular do bolso no meio da conversa para mostrar uma foto. Na tela, um punhado de manchas coloridas dos 180 hectares de vinhedos que a família detém desde o início dos anos 1990, no vale de Colchagua, uma das principais regiões de vinhos do Chile. Cada mancha leva uma cor: verde seria a apelação regional, a mais baixa da Borgonha; village ganha a tonalidade amarela; premier cru, a laranja; grand cru, o melhor terreno para um vinho, a vermelha. Em plena encosta chilena, uma propriedade fundada por franceses foi dividida segundo o vocabulário da Borgonha, estruturado séculos atrás por monges e baseada em fatores como sol, terra, ventos, chuva, combinação que leva o nome de terroir, intraduzível.

“Desde a primeira safra, em 1997, fomos ganhando conhecimento das 200 parcelas que temos e cada uma delas vai resultando em um vinho do portfólio”, disse Charles, em entrevista nessa semana em São Paulo. O mapa decide de que parcela sai cada vinho da casa – o rótulo mais barato sai por cerca de 250 reais, o mais caro, mais de dois mil. As novas safras de Clos Apalta chegam pela @setwinesbr. A cada cinco anos, a equipe o revisa, porque o potencial de um pedaço de terra pode mudar.

Os pais de Charles, Alexandra Marnier Lapostolle e Cyril de Bournet, não conheciam o Chile quando viajaram para lá nos anos 1990. Alexandra descende da família que criou o conhaque Grand Marnier em 1880 e que, desde 1919, era dona do Château de Sancerre, no Loire. Segundo Charles, o casal se encantou com o campo chileno antes de pensar em vinho. Em 1994, compraram terras em Apalta com vinhas antigas. Uma delas, de Cabernet Sauvignon, mais tarde foi datada de 1907.

Para a primeira safra, a de 1997, contrataram Michel Rolland. Era chamado de “Mr. Merlot”. Rolland cresceu no Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, entre vinhedos dominados pela uva. A ficha técnica de 1997, ainda publicada pela vinícola, registra 50% de Merlot, 45% de Carmenère e 5% de Cabernet. A nota de prova, assinada por Rolland em fevereiro de 1999. Mas os tempos e o clima eram outros.

Na safra 2013, a Merlot tinha caído para 7% do corte, e a Carmenère subido a 70%. A ficha da safra 2022, em fichas de importadoras dos Estados Unidos, haveria 10% de Merlot. Charles atribui a mudança ao aquecimento global: muitas plantas de Merlot, queimam com as temperaturas altas. “Os extremos são maiores hoje”, diz., descreveu Em entrevista ao site do crítico americano James Suckling, em 2024, Andrea León, diretora técnica da casa, disse que a chuva média anual em Apalta rondava 800 milímetros quando ela chegou à vinícola, em 2004. Hoje fica perto de 600 mm. Rolland morreu em 20 de março deste ano, aos 78 anos, de infarto. A própria Andrea León começou sob a orientação dele.

Charles chegou ao vinho por um desvio. Estudou microengenharia, mudou-se para o Chile para trabalhar numa consultoria de informática e criou uma marca de pisco antes de assumir a empresa da família, em 2013. Boa parte da produção da casa segue para os Estados Unidos, contou Charles. É lá que fica o dado mais incômodo para qualquer produtor de vinho caro.

Em agosto de 2025, o Gallup registrou que apenas 54% dos americanos dizem beber, o menor índice desde 1939, quando a pesquisa começou. Entre os adultos de 18 a 34 anos, metade bebe, e 66% consideram nocivo até o consumo moderado. Algumas vinícolas estão pensando em vender vinho sem álcool, na esteira do que fizeram algumas cervejarias. “Isso pode ser um nicho, mas vejo muitos artigos e estudos contraditórios que dizem o contrário. A indústria teve o impacto da pandemia, o que elevou o consumo, e depois outros desafios, como a política comercial dos Estados Unidos. O vinho faz parte da cultura milenar das pessoas.”

Ele fala que nos últimos dois anos tem havido aumento dos preços em restaurantes e as viagens voltaram aos orçamentos domésticos, depois da pandemia. Ou seja, o vinho tem outros rivais na hora dos gastos. Charles diz que as inovações não param. No ano passado, vinificou uma pequena parcela de sémillon de vinhas com quase cem anos, cerca de 600 garrafas. Ficaram todas com a família. A operação se repetiu na colheita deste ano, com uma produção maior. As vinhas foram adquiridas há quatro anos. Charles acha os resultados bons, mas não promete lançar ao mercado.

Ele diz que em 30 anos a família conseguiu posicionar seus vinhos entre os mais disputados do mundo. A história do futuro passará por mudanças, como as induzidas pelo aquecimento global, mas a empresa está buscando ampliar seu portfólio, por exemplo com vinhos à base das uvas Syrah e viognier, que fazem sucesso na região do Rhône, na França. “Um dos vinhos só foi lançado depois que as videiras tiveram 15 anos e deram bons resultados.”

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