Archive for Setembro, 2010

Terroir Mendocino

15 de Setembro de 2010

 

Particularidades de Mendoza

A província de Mendoza lidera com absoluta supremacia qualquer pesquisa vitivinícola da Argentina. Seja em variedades de uva, produção e principalmente qualidade, o terroir mendocino oferece inúmeras opções, e vem sendo descoberto e explorado pouco a pouco. Provar um Malbec de Mendoza não é algo genérico. É preciso identificar a microregião e quando se trata de vinhos de corte, mais uma variável entra em ação.

A pioneira neste estudo de precisão das peculiaridades de Mendoza foi a bodega Catena com vinhos muito bem elaborados em qualquer faixa de preço. Mesmo quando se trata de uma única uva, no caso, a Malbec, o Catena Malbec-Malbec sugere um corte de Malbecs de regiões distintas dentro do terroir mendocino.

O vinhedo argentino, sobretudo em  Mendoza, é calibrado basicamente em níveis de altitude. O clima é seco e continental, influenciado de modo marcante pela cordilheira dos Andes. O nível pluviométrico é praticamente desértico, com 200 mm anuais em média. Didadicamente, a linha Terrazas da Chandon, soube mostrar seus varietais de acordo com a altitude adequada, tanto para os brancos, como para os tintos.

De acordo com o mapa acima, os vinhedos mais a oeste, próximos à cordilheira dos Andes, ganham em altitude, entre 1100 e 1500 metros. Portanto, os dias são ensolarados e as noites frias, com grande amplitude térmica. Esses fatores alongam o ciclo de maturação das uvas, gerando vinhos elegantes e estruturados. Valle do Uco, incluindo Tupungato, é um dos grandes terroirs para Malbecs elegantes. Para os brancos de destaque, este terroir torna-se imprescindível. Não é por acaso, que o Catena Alta Chardonnay é o melhor branco argentino e porque não, da América do Sul, se levarmos em conta seu preço, menos de cem reais, atualmente. Seu vinhedo Adrianna a 1500 metros de altitude em Tupungato, são alguns de seus segredos.

Outro destaque da Catena, é o excepcional Catena Zapata Estiba Reservada. Muita gente toma este vinho pensando ser um grande Malbec. Na verdade, é 100% Cabernet Sauvginon, e que Cabernet Sauvignon! Sem dúvida, o melhor da Argentina, além de sério concorrente para os grandes Cabernets chilenos. Aqui novamente, a precisa calibragem dos vinhedos mendocinos. No caso, são três vinhedos: La Piramide, Domingo e Adrianna. O primeiro pertence a Agrelo, excepcional terroir para Cabernet Sauvignon, com solo pedregoso e altitudes ideais para esta casta (abaixo de 1000 metros). O segundo e terceiro vinhedos ficam em Tupungato, em altitudes de 1100 e 1500 metros, respectivamente. Essas parcelas fornecem a elegância tão benvinda dos vinhedos de altitude, mesclada à potência e profundidade do terroir de Agrelo. Resultado final, um equilíbrio fantástico!

Para os vinhos de corte, a Malbec combinada com uvas como Cabernet Sauvignon, Tempranillo ou Merlot, ganha profundidade e certa longevidade. Pessoalmente, a ordem das uvas acima citadas, fornece melhores resultados de forma decrescente. Os exemplos mais emblemáticos seguindo esta mesma ordem de corte são Cheval des Andes, Zuccardi Zeta e Trapiche Iscay. Respectivamente, são importados pelo grupo LVMH, importadora Ravin e importadora Interfood. Os vinhos da Catena já são velhos conhecidos da importadora Mistral.

Terroir Chileno

12 de Setembro de 2010

Já foi o tempo em que o Chile resumia-se em vinhos do Vale Central, entre tintos e brancos. Principalmente nas últimas duas décadas, o terroir chileno está sendo devidamente estudado, com exploração de vários outros vales, como mostra o mapa abaixo. Casablanca, por exemplo, promoveu grande impacto nos vinhos brancos com as castas Chardonnay e Sauvignon Blanc, descoberto na década de oitenta por Pablo Morandé. Atualmente, Limarí, Elqui, Bio Bio e Malleco, são a bola da vez, com vinhos curiosos e surpreendentes.

corrente de Humboldt → ventos marítimos gelados

Observando o mapa acima, podemos perceber algumas variáveis importantes para definir o terroir chileno. O Chile é um país comprido, tendo grandes variações de latitude. Portanto, quanto mais ao norte, mais quente, culminando no deserto de Atacama. Quanto mais ao sul, mais frio, chegando à Patagônia chilena.

Outra variável importante é o relevo chileno. Olhando para o mapa, do lado direito temos o paredão da Cordilheira dos Andes. Do lado esquerdo, em determinadas faixas de latitude, principalmente no vale central, temos a chamada cordilheira da Costa, que barra o ar gelado vindo do pacífico, gerado pela corrente marítima de Humboldt, a qual é a terceira grande variável. Portanto, é uma questão de calibrarmos a latitude com o nível de influência da corrente de Humboldt. Mesmo em vales bem ao norte como Limarí, a ausência da cordilheira da costa, permite notável amplitude térmica (diferença de temperatura entre o dia e a noite), gerando belos vinhos brancos, como o Chardonnay De Martino Single Vineyard Quebrada Seca, importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Para quem gosta de Cabernet Sauvignon chileno, o Alto Maipo, com vinhedos próximos à capital chilena Santiago, é um dos melhores terroirs do mundo para esta uva. No mesmo nível de Bolgheri (Toscana), Napa Valley (Califórnia) e Coonawarra (Austrália). Evidentemente, o Médoc na região bordalesa, é a inspiração de todos eles.

No Alto Maipo, temos dias ensolarados sem a influência do pacífico, protegido pela cordilheira costeira. As noites são frias pelo ar gelado que desce da cordilheira dos Andes. O solo é pedregoso e de excelente drenagem. Todos esses fatores fazem a Cabernet Sauvignon amadurecer lentamente, com riqueza de aromas e taninos bem desenvolvidos. Vinhos como Don Melchor, Almaviva, Casa Real e Chadwick, confirmam esta teoria, com altas pontuações em inúmeras safras.

Uvas como Carmenère e Merlot parecem ter encontrado seus respectivos terroirs nos Vales Cachapoal e Conchagua. Apesar de muito próximos e de fato vizinhos, esses vales apresentam características distintas na maturação das uvas acima citadas, que por sinal, foram confundidas durante muito tempo, até a devida separação das vinhas de cepa Merlot, das de cepa Carmenère.

O Vale Cachapoal fica praticamente atrás do Vale Conchagua, que de certa forma o protege da influência marítima. Esta particularidade torna Cachapoal suficientemente quente para amadurecer de forma adequada a tardia Carmenère, a qual deve ser colhida muitas vezes, no mês de maio. Já o Vale Conchagua, recebendo maior influência oceânica, torna-se uma vale mais frio, devidamente ajustado à maturação precoce da uva Merlot. É evidente que outras questões como solo, relevo e microclima, têm seu peso no balanço final.

O assunto é vasto e mereceria vários posts para um detalhamento maior. O fato é que hoje no Chile, as vinícolas comprometidas com a qualidade e a expressão correta de cada varietal, investem em pesquisas detalhadas para buscarem terroirs cada vez mais adequados, elaborando vinhos de personalidade e distinção. Os inúmeros vales de norte a sul levarão ainda um bom tempo para serem devidamente estudados.

DOCG: Piemonte dispara na liderança

9 de Setembro de 2010

 

Mapa em constante mudança

Não perca a conta! Até agora são catorze DOCGs (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), ou seja, o dobro da Toscana, e quase um terço das DOCGs italianas. Maiores detalhes, consultar site www.vinealia.org com a lista completa.

Como geralmente o Piemonte trabalha com varietais, é comum a intersecção de áreas das DOCGs e das DOCs. É bom lembrar também, que o Piemonte e Valle d´Aosta não possuem legislação para as IGTs (Indicazione Geografica Tipica). Seguem abaixo as DOCGs atuais em vermelho por varietal:

Nebbiolo

Barolo, Barbaresco, Ghemme e Gattinara

Barolo e Barbaresco dispensam comentários. Já Ghemme e Gattinara, são menos conhecidas. São denominações interessantes e rivais das mais famosas já citadas. A Nebbiolo é conhecida localmente como Spanna. Normalmente, os vinhos não apresentam grande profundidade, mas podem ser boas escolhas se os produtores forem referências. Travaglini e Antoniolo para Gattinara. Para Ghemme não temos referência no Brasil.

Barbera

Barbera d´Asti, Barbera del Monferrato

Barbera d´Asti é o berço do chamado Barbera Barricato, embora tenha uma corrente mais tradicionalista. É um estilo moderno, às vezes demasiado extraído e notadamente marcado pela madeira. O Barbera del Monferrato é mais leve e geralmente mais simples. Neste caso, a categoria DOCG é designada apenas para a versão Superiore.

Dolcetto

Dolcetto di Dogliani, Dolcetto di Ovada, Dolcetto di Diano d´Alba

São Dolcettos diferenciados, com uma concentração acima da média. Ovada costuma ser mais encorpado que o Dogliani e existe também a versão Riserva. Já o Diano d´Alba pode ter um estilo intermediário com menção do vinhedo. Tanto Dogliani, como Ovada, a categoria DOCG vale apenas para a versão Superiore. Nestes casos, um mínimo de 13º e 12,5º de álcool, respectivamente.

Brachetto

Brachetto d´Acqui

Tinto de estilo Claret ou Chiaretto elaborado com a uva Brachetto. É mais conhecido na versão espumante doce. Uma espécie de Lambrusco local, embora um pouco mais encorpado e persistente que as DOCs Freisa d´Asti e Freisa di Chieri. Nestes casos, Freisa é mais uma uva tinta autóctone.

Cortese (uva branca)

Gavi ou Cortese di Gavi

Branco medianamente encorpado, com eventual passagem por madeira. Costuma fazer a vez do Chardonnay local.

Ruchè (uva tinta)

Ruchè (área de Castagnole Monferrato)

Tinto relativamente leve, elaborado próximo à província de Asti, na região de Castagnole Monferrato. Geralmente, na versão secco ou amabile, embora exista a versão passito.

Moscato

Asti (engloba Moscato d´Asti e Asti Spumante)

Elaborados com a uva Moscato Bianco, são vinhos doces frisantes e espumantes, respectivamente, bem conhecidos do público em geral.

Nebbiolo e Arneis (tinta e branca, respectivamente)

Roero (Roero para o tinto e Roero Arneis para o branco)

Roero tinto é um Nebbiolo de estilo mais leve e pode perfeitamente anteceder vinhos como Barbaresco e Barolo. Roero Arneis é um branco delicado com a uva autóctone Arneis.

 

Harmonização: Cassoulet e vinho

5 de Setembro de 2010

 

Grande pedida para este final de inverno

Especialidade do Languedoc, o cassoulet é também apreciado em todo o sudoeste francês. Este cozido famoso à base de feijão branco, onde se incorporam confit de pato, ganso, embutidos de porco, além de eventualmente partes de cordeiro e perdiz, exige uma longa preparação. É muitas vezes citado como a feijoada francesa.

É um prato típico de inverno, robusto e de sabores pronunciados. Os tintos potentes e rústicos das apelações Madiran (uva Tannat) e Cahors (uva Malbec) são sempre lembrados para a harmonização. Apelações do Midi como Corbières e Minervois também são clássicas, envolvendo uvas como a Syrah, Grenache, Mourvèdre e Carignan.

Château Montus: um clássico importado pela Decanter (www.decanter.com.br)

De fato, o prato além de encorpado e robusto, tem suculência e gordura dissolvida no próprio caldo. A textura cremosa do  feijão branco reforça a escolha de um vinho mais encorpado. Taninos e acidez são componentes benvindos neste contexto e justificam as escolhas acima citadas.

Apesar de grandes Bordeaux e grandes tintos do Rhône preencherem os requisitos para a harmonização, o fator tipologia do prato prevalece. Frente a robustez e rusticidade do prato, é sempre um desperdício abrirmos uma grande garrafa, onde a finesse e sutileza de aromas serão sobrepujados.

Do Novo Mundo, tintos encorpados dos principais varietais, são adequados, a despeito de problemas crônicos como excesso de madeira e falta de frescor.

Soluções sazonais, a exemplo do post sobre a nossa feijoada, podem ser testadas. É o caso de um dia de verão, optarmos por um vinho medianamente encorpado, jovem, tanicidade moderada e de boa acidez. O vinho perde o confronto diante do prato, mas fornece uma sensação de leveza e frescor, facilitando psicologicamente a digestão. Neste cenário, um Cru de Beaujolais, um Barbera, um Sangiovese, um Tempranillo Joven, todos esses de safras recentes e com muito frescor, são opções adequadas.