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Feijoada, Rabada, Galinhada, …

18 de Julho de 2019

Além do sufixo em comum, as comidas acima são cheias de sabor, reconfortantes, e apropriadas para os dias mais frios. Bem ao gosto do brasileiro, cada qual tem suas peculiaridades e direcionamentos para os vinhos. Vamos falar um pouco das três, discutindo algumas opções de vinhos possíveis.

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dois dias da semana dedicados a ela

Feijoada

Assunto já discutido neste blog e talvez a mais polêmica das harmonizações com vinho, a nossa feijoada. Embora tente indicar algumas sugestões, nenhuma realmente se encaixa perfeitamente. Uma coisa é você comer feijoada no inverno ou nos poucos dias que realmente faz frio durante o ano. Outra coisa, é desfruta-la em pleno verão com mais de trinta graus. E é assim mesmo que acontece, feijoada é o ano inteiro como o nosso futebol.

O prato realmente é forte e consistente. Se a gente parte para a teoria de encara-la com o vinho de igual para igual, vamos chegar a tintos potentes como Tannat, tintos da Bairrada, Nebbiolos do Piemonte, e outros exemplos de vinhos ricos em taninos e acidez. Mesmo se fizermos isso no inverno, estação mais apropriada, sempre fica aquela sensação de algo pesado no final. E a razão é muito simples, feijoada é um prato que se repete. Sempre falta um pouco de couve com a carne, um pouco mais de arroz, mais um caldinho de feijão, um pouco mais de farofa, e assim por diante.

Pessoalmente, se quisermos insistir com o vinho, sobretudo no verão, é partir para vinhos mais refrescantes, abrindo mão um pouco de igualar a intensidade do prato. Vamos deixa-la ganhar no sabor. Afinal, ela é soberana. De todo modo, também não podemos partir para vinhos muitos delicados, fugindo do combate. Acho que espumantes rosés de bom corpo e certa rusticidade podem refrescar o prato, sem perder sua personalidade. Neste sentido, os espumantes da Bairrada podem ir muito bem. Quando as opções forem para os tintos, é melhor investir na acidez cortando as gorduras e abrir mão de tantos taninos. Um tinto que pode encaixar muito bem é o piemontês Barbera d´Alba não barricato, bem fresco, e jovem. Normalmente, esses vinhos têm alguns traços defumados que caem bem com os sabores do prato, sem ficar um conjunto pesado. Tempranillos jovens e até mesmo um Rioja Crianza com alguns toques de barrica, podem ser interessantes. A ideia é do vinho ter frescor e alguma personalidade para encarar o prato. Outro vinho que pode se dar bem neste desafio são os chamados vinhos laranjas. São vinhos ricos em sabor, com bom frescor, e estrutura suficiente para o prato. 

rabada-com-polentaRabada com Polenta

Um prato de origem italiana, sobretudo na Itália Central, a famosa Coda alla Vaccinara, perfeitamente adaptada ao Brasil e tradicionalmente servida com polenta, um acompanhamento mais do norte italiano. Enfim, outro prato rico em sabor. Evidentemente, as primeiras indicações são para tintos italianos. O vinho precisa ter sabores ricos, ter estrutura, e certa evolução com taninos mais polimerizados, já que a carne passa por longo cozimento. Os Brunellos e Chianti Riserva são ótimas pedidas. Um Taurasi já com algum envelhecimento da Campania é outra pedida certa. Acho que um Barbera Barricato com certa textura também encara este desafio. 

De outros países, um Chateauneuf-du-Pape e outras opções do sul do Rhône podem funcionar. Da Espanha, um Ribera del Duero ou um bom Garnacha de parreiras antigas bem estruturado vão bem, além dos tintos do Priorato. De Portugal, um bom tinto alentejano, rico em sabores, dá conta do recado. Em suma, tanto o prato, como os vinhos sugeridos, são reconfortantes e muito apropriados ao inverno.

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Galinhada

Outro prato brasileiro rico em sabores, típico de Minas Gerais e Goiás. A receita tem algumas variantes como o pequi e a guariroba (palmito amargo), utilizados pelos goianos. Na essência, além da galinha, o prato é rico em temperos como cebola, alho, bacon, açafrão da terra, tomates, ervas, pimentão, milho, e arroz. 

Aqui, apesar dos sabores ricos, o vinho pende mais para um branco, mas um branco de personalidade. De cara, um bom chardonnay com alguma passagem por barrica, onde o vinho ganha mais textura. Semillon australiano ou sul-africano caem bem. Um bom branco do Rhône é uma opção interessante. Condrieu ou um Hermitage branco com certa evolução. Chenin Blanc do Loire também mais evoluído tem textura e força para o prato. Novamente, alguns vinhos laranjas não tão potentes podem dar certo.

Os tintos têm força para  o prato, mas os sabores da galinha e os outros ingredientes têm mais afinidades com os brancos. De todo modo, um Cru de Beaujolais mais estruturado pode ser uma boa opção para quem não abre mão de tintos. Do lado italiano, um Valpolicella de bom produtor é uma saída.

Além desses pratos, outros cozidos de inverno pedem vinhos de bom corpo e estrutura. Como geralmente as carnes passam por longo cozimento, não há necessidade de tantos taninos no vinho, sobretudo se for jovem. Basta ele ter  textura macia, intensidade e acidez adequada a um bom equilíbrio. No mais, é continuar curtindo o frio …

Harmonização: Cassoulet e vinho

5 de Setembro de 2010

 

Grande pedida para este final de inverno

Especialidade do Languedoc, o cassoulet é também apreciado em todo o sudoeste francês. Este cozido famoso à base de feijão branco, onde se incorporam confit de pato, ganso, embutidos de porco, além de eventualmente partes de cordeiro e perdiz, exige uma longa preparação. É muitas vezes citado como a feijoada francesa.

É um prato típico de inverno, robusto e de sabores pronunciados. Os tintos potentes e rústicos das apelações Madiran (uva Tannat) e Cahors (uva Malbec) são sempre lembrados para a harmonização. Apelações do Midi como Corbières e Minervois também são clássicas, envolvendo uvas como a Syrah, Grenache, Mourvèdre e Carignan.

Château Montus: um clássico importado pela Decanter (www.decanter.com.br)

De fato, o prato além de encorpado e robusto, tem suculência e gordura dissolvida no próprio caldo. A textura cremosa do  feijão branco reforça a escolha de um vinho mais encorpado. Taninos e acidez são componentes benvindos neste contexto e justificam as escolhas acima citadas.

Apesar de grandes Bordeaux e grandes tintos do Rhône preencherem os requisitos para a harmonização, o fator tipologia do prato prevalece. Frente a robustez e rusticidade do prato, é sempre um desperdício abrirmos uma grande garrafa, onde a finesse e sutileza de aromas serão sobrepujados.

Do Novo Mundo, tintos encorpados dos principais varietais, são adequados, a despeito de problemas crônicos como excesso de madeira e falta de frescor.

Soluções sazonais, a exemplo do post sobre a nossa feijoada, podem ser testadas. É o caso de um dia de verão, optarmos por um vinho medianamente encorpado, jovem, tanicidade moderada e de boa acidez. O vinho perde o confronto diante do prato, mas fornece uma sensação de leveza e frescor, facilitando psicologicamente a digestão. Neste cenário, um Cru de Beaujolais, um Barbera, um Sangiovese, um Tempranillo Joven, todos esses de safras recentes e com muito frescor, são opções adequadas.

Harmonização: Feijoada e Vinho

25 de Abril de 2010

“Feijoada só é completa com maca e ambulância na porta”

Esta frase antológica é de Stanislaw Ponte Preta, saudoso cronista falecido em 1968, cujo nome verdadeiro era Sérgio Porto. Satírico e mordaz combatente da ditadura.

Tradicionalíssima nos cardápios de quartas e sábados, é um prato vigoroso, que exige enorme autocontrole em saber parar na hora certa. Além do prato em si, os acompanhamentos podem ser numerosos e desafiadores: pimenta de vários calibres, torresmo, costelinha, farofa, couve, mandioca, laranja que ninguém é de ferro, entre outros.

Caipirinha e cerveja são de longe seus eternos parceiros. O vinho, sabendo adaptar-se neste ambiente, pode ser uma opção alternativa, nem que for só para variar. Mas por favor, sem pagode.

Talvez este seja o prato mais polêmico quanto à escolha do vinho, chegando ao absurdo de alguns indicarem champagne. O vinho deve ser relativamente simples e rústico, em sintonia com as características do prato. Outro fator esclarecedor é o sal que não deve ser parâmetro na harmonização. Feijoada bem feita tem os pertences devidamente dessalgados, continuando este cuidado até a finalização do prato.

A meu ver, a escolha do vinho deve levar em conta a época do ano. Uma coisa é a feijoada fumegante no verão em uma área externa com temperatura acima de 30ºC. Outra coisa é a feijoada servida no inverno, em ambiente climatizado. Isto permite escolhas de vinho distintas.

No caso do verão, a opção de um vinho tinto medianamente encorpado, com boa acidez e tanicidade moderada, pode fornecer o frescor que a situação requer. Essas características permitem que o vinho possa ser servido ligeiramente refrescado, em torno de 15ºC. Embora possa faltar um pouco de corpo e vigor ao vinho, a função da acidez em cortar gorduras e principalmente promover um agradável frescor ao palato é mais relevante neste caso. Vinhos como Barbera (não barricato), Tempranillo Joven de Toro (tem a rusticidade na medida certa) e vinhos do Douro relativamente jovem, levemente amadeirados, podem cumprir bem o papel.

Já no inverno, podemos equilibrar melhor as forças no que diz respeito a corpo e estrutura. O importante é não abrirmos mão da acidez, fator muito mais presente em vinhos do Velho Mundo. Juntamente com os taninos, a acidez vai combater de forma eficiente as gorduras do prato, mantendo um frescor agradável. A força do vinho e toques amadeirados encontram eco nas diversas carnes defumadas e de sabores pronunciados. Nosso atual campeão brasileiro, o sommelier  Guilherme Correa, costuma indicar um vigoroso Bairrada, vinho elaborado próximo a Coimbra com a indomável uva tinta denominada Baga. Já o campeão mundial, sommelier  Enrico Bernardo, indica um Syrah do Rhône sob várias apelações: Saint-Joseph, Crozes-Hermitage e Côte-Rôtie. Particularmente, esta última, muito sofisticada para o prato.

Outras indicações possíveis são vinhos do Dão Reservas, Douros Reservas, Barbera Barricato, Tempranillo Crianza ou Reserva de estilo mais tradicional.

A França também tem  resposta para sua feijoada local, o Cassoulet. É bem verdade que no caso, trocamos o feijão preto pelo branco, além de outros ingredientes e processos de elaboração diferenciados. Contudo, o vigor do prato é semelhante e sendo proveniente da região do sudoeste francês, tintos vigorosos e rústicos como Madiran (uva Tannat) e Cahors (uva Malbec, localmente conhecida como Côt) são as escolhas clássicas.

As opções para brancos e espumantes não encontram sintonia com sabores e corpo do prato, embora possam fornecer frescor suficiente e agradável. Além disso, os estilos mais encorpados, amadeirados e potentes, carecem de acidez mais pronunciada.

Opções de rosés mais encorpados podem ser tentadas para um clima de verão. O famoso rosé de Tavel (Rhône) de safra relativamente recente é um exemplo clássico. Vários exemplares do Novo Mundo obtidos pelo método de sangria (contato relativamente prolongado com as cascas na fermentação) são opções a serem testadas.

Uma coisa é certa. Para este prato não existe unanimidade. E viva Nelson Rodrigues!


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