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Ramonet rima com Montrachet

9 de Novembro de 2020

Pierre Ramonet, ou père Ramonet, foi uma das figuras lendárias do mundo do vinho. Suas histórias saborosas recheariam livros. Uma das melhores, contada em detalhes por Clive Coates em uma de suas bíblias sobre a Bourgogne, se passou em 1978,quando Ramonet, com seu pulover, calça baggy e boina, entrou no escritório de um advogado em Beaune. Era um homem da terra. Não gostava de formalidades, de falar ao telefone, nem de escrever cartas. Nunca enviava amostras de seus vinhos aos críticos. A razão era simples: nunca viu os Troisgros, Bocuse ou qualquer chef estrelado do Michelin mandar quentinhas para os críticos dos guias. Se alguém quisesse beber seus vinhos, que fosse a Chassagne.

Estava no escritório do advogado porque as famílias Milan e Mathey-Blanchet tinham decidido vender suas parcelas em Le Montrachet, o mais cobiçado terroir de chardonnay do mundo, com uvas do lado de Puligny-Montrachet suficientes para quatro barris e meio de vinho. Mal se sentou à cadeira. Começou a tirar notas dos bolsos e deixou o dinheiro em cima da mesa. “Acho que está tudo aí.”

La Boudriotte é um terroir de 1,2 hectares, com uvas com mais de 40 anos de vida.

Em uma visita à Bourgogne, Noël Ramonet confirmou a veracidade da história e ainda disse que o pai tinha apreço especial também pelo premier cru “Les Ruchottes”, com algumas vinhas com mais de 60 anos de idade.

Mais que uma figura com histórias saborosas, Pierre Ramonet era um profundo degustador e um viticultor de mãos cheias. Construiu, em 1920, um domaine com uma constelação de grandes rótulos, que chegarão em breve ao Brasil pela importadora Clarets. Do bourgogne ao Montrachet, tudo é bom. Hoje o domaine é tocado pelos dois filhos: Jean Claude e Noël, sendo o primeiro que põe o nome nos rótulos, o segundo fica mais à frente do cuidado das vinhas. A divisão teria ocorrido em razão de um câncer que afetou Noël, mas já há algum tempo ele estaria curado.

No mundo dos vinhos brancos, há aqueles que hoje não os envelhecem por conta de eventuais problemas de premox ou os que são crentes em dias melhores. Se você jogar nesse segundo time e der tempo às garrafas, com sorte, terá grandes momentos ao abrir esses vinhos que ganham muito com o tempo em adega, com uma paleta gustativa e aromática complexa, profunda e hedonística. Flores, frutas secas, toque de mel, salinidade, ondas de sabores que vão e vêm.

Em outras famílias, seria um grand cru…

Boudriottes, Caillerets e Ruchottes são três premiers crus muito bem moldados pelo domaine, mas o último é o grande destaque. Como dito anteriormente, père Ramonet tinha muito orgulho desse rótulo em especial, não apenas pela qualidade do terroir, mas por motivos emocionais. Foi a primeira parcela que ele comprou em 1938. Foi a partir dali que ele começou a galgar os passos que o levariam a um curto elogio de Clive Coates. “Ramonet está para os vinhos brancos como Jayer está para os tintos.”

Ruchottes é um vinhaço, profundo, longo, cativante, muda em goles, conquista no aroma, persevera na boca por minutos. “Parece um grand cru”, disse Noël há três anos, em viagem à Borgonha. Mas e os grands crus? Infelizmente, não tive ainda o prazer de degustá-los, mas carrego comigo, depois de ler muitas degustações às cegas, que Le Montrachet dos Ramonet rima com perfeição.

Père Ramonet dizia que, com seu Batard, poderia ser servido foie gras ou lagostins, mas o Montrachet merecia ser degustado solitariamente, de forma meditativa.

Chegar aos céus exige contemplação.


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