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Franceses no Top Ten

21 de Novembro de 2017

A lista de vinhos mais esperada no final de ano são os premiados da revista Wine Spectator, a despeito de toda a polêmica que envolve seus critérios. Seja o Top 100 ou Top 10, assunto é que não falta.

Neste ano, como de costume, um pelotão de americanos nos dez mais. Sem entrar no mérito do ranking e suas pontuações, são vinhos muito bem feitos, de ótima concentração, e dentro do estilo Novo Mundo, o que há de melhor.

a bela safra 2014 em Bordeaux

Falando agora dos franceses, tema do nosso artigo, vale destacar a ótima safra 2014 em Bordeaux. Se por um lado a safra 2015 mostra-se superior e com preços nas alturas, 2014 pode ser uma boa alternativa, sobretudo na margem direita. É o caso do Chateau Canon La Gaffelière no sétimo lugar com 95 pontos. Um St-Emilion de corte clássico com 55% Merlot, 37% Cabernet Franc, e 8% Cabernet Sauvignon. A boa participação da Cabernet Franc confere finesse e uma certa delicadeza ao vinho.

Outro destaque da safra 2014 foram os vinhos doces na região Sauternes-Barsac. O número três da lista é o tradicional Chateau Coutet,  o mais delicado nos já delicados vinhos de Barsac. Com 75% Sémillon, 23% Sauvignon Blanc e 2% Muscadelle, esse vinho alcançou 96 pontos. É um corte clássico na região com predomínio amplo da Sémillon, uva suscetível ao ataque da Botrytis e ao mesmo tempo, fornecendo estrutura ao conjunto. Os vinhos de Barsac costumam ser mais delicados e elegantes se comparados aos ilustres vizinhos de Sauternes. A maior porporção de calcário no solo explica em parte as características. Chateau Coutet personifica bem este estilo. Ótima referência, independente de safra.

wine spectator domaine huet

Domaine Huet: referência absoluta em Vouvray

Mais um branco francês e mais uma figurinha carimbada na Wine Spectator, o estupendo Domaine Huet. Qualquer vinho deste domaine é sempre muito bem feito, sendo referência absoluta na apelação Vouvray, uma das mais nobres do Loire com a casta Chenin Blanc. Vouvray tem a capacidade de moldar brancos de vários teores de açúcar residual, além de grandes espumantes. É o que há de mais alemão dentro da França. Este Vouvray Demi-Sec 2016, sexto lugar com 95 pontos, tem 20 gramas de açúcar residual por litro, se aproximamdo de um Spätlese alemão. Apesar de sua aparente fragilidade, são vinhos delicados, elegantes, minerais, e com uma capacidade de evoluir por décadas em adega. Sempre uma grande pedida.

wine spectator gigondas

Gigondas: apelação negligenciada por muitos

Agora mais um tinto francês da excelente safra 2015 em toda a França, inclusive no vale do Rhône. Gigondas é uma bela opção de compra aos badalados, caros, e inconstantes Chateauneuf-du-Pape. Este Chateau de Saint Cosme é um blend de 70% Grenache, 14% Syrah, 15% Mourvèdre, e 1% Cinsault. O famoso corte GSM maturado num bom balanço de barricas novas, usadas, e tanques de concreto. Vinho que privilegia a fruta, a maciez, e a concentração de sabores, ricos em ervas e especiarias. Chateau de muita consistência. Alcançou o quinto lugar com 95 pontos para um tinto de pouco mais de quarenta dólares no mercado internacional.

Esses quatro franceses descritos acima estão entre os Top Ten de 2017. Temos ainda um Brunello e cinco americanos fechando o ranking. Pensando agora num Top Ten pessoal, só de franceses, seguem abaixo os seis restantes, incluídos na lista dos Top 100 de 2017.

Completando a lista da bela safra 2014 em Bordeaux, temos mais dois tintos de peso. Um margem direita Saint-Émilion, e outro margem esquerda Saint-Julien.

Clos Fourtet St Emilion 2014 

Este é um Premier Grand Cru Classe de St-Emilion com predominância de Merlot no corte, cerca de 89%. Tinto de muita fruta escura, maciez e profundidade. Bem balanceado com a madeira (40% de barricas novas). 62º lugar com 95 pontos.

Chateau Léoville Las Cases 2014 

Este autêntico margem esquerda tem predomínio amplo da Cabernet Sauvignon com 75% no corte. Referência na comuna de St-Julien, o melhor dos Léoville é vizinho do grande Latour. Tinto de muita consistência, rica estrutura tânica, e enorme longevidade. 91º lugar com 95 pontos.   

Domaine des Baumard Savennières 2015 

Voltando ao Loire, outro Domaine de peso, Baumard. Especializado em Savennières, a melhor apelação para Chenin Blanc seco, a bela safra 2015 brilhou com o sol necessário para a tardia Chenin Blanc. Frutas exóticas como marmelo, toques minerais e de cera, além de uma acidez que garante muitos anos em adega. 15º lugar com 94 pontos.

Agora vamos à Borgonha que não podia ficar de fora. Contudo, fugindo um pouco das regiões badaladas. Portanto, mais ao sul da região, chegando até Beaujolais.

J.A. Ferret Pouilly-Fuissé 2015 

Referência da apelação Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret molda vinhos de grande personalidade. Seus Crus especiais apresentam uma complexidade sem igual. Este em questão é a cuvée básica. Sua vinificação é parcialmente feita em barricas, nunca novas. O resultado é vinho cheio de frutas, toques florais, e incrível mineralidade. Sempre, uma compra certeira. 43º lugar com 92 pontos.

Dominique Piron Morgon La Chanaise 2015 

Para quem gosta de Beaujolais, Morgon é meu Cru predileto. Com certo envelhecimento, ele adquire alguns toques minerais de um autêntico Borgonha. Dominique Piron é um especialista desta comuna com vinhos sempre muito equilibrados. 56º lugar com 91 pontos. É o máximo que um Beaujolais pode atingir. Envelhece bem por pelo menos cinco anos.

wine spectator faiveley

Domaine Faiveley Mercurey  1º Cru Monopole Clos des Myglands 2015    

Embora não seja meu estilo preferido de Borgonha, devo admitir de Faiveley é um produtor cheio de tradição e de fãs inveterados. Sempre procura fazer uma vinificação junto com o engaço, o que gera vinhos robustos e de muita força. Este monopólio de pouco mais de seis hectares trabalha com vinhas antigas, entre 63 e 82 (idade de plantação). De todo modo, Faiveley é referência absoluta na pouco badalada apelação Mercurey (Côte Chalonnaise). 83º lugar com 93 pontos.

Da lista acima, alguns produtores que podem ser encontrados no Brasil através das seguintes importadoras abaixo. Os Bordeaux mencionados podem ser encontrados em algumas importadoras, já que não há exclusividade na comercialização.

http://www.mistral.com.br (Faiveley, Ferret, Coutet, Baumard, Ferret)

http://www.decanter.com.br (Dominique Piron)

http://www.premiumwines.com.br (Domaine Huet)

http://www.winebrands.com.br (Chateau de Saint Cosme)

 

O vinho e o tempo

12 de Novembro de 2017

Quanto mais velho, melhor. Esta é uma das inúmeras frases sobre vinhos e uma das mais equivocadas também. A grande maioria dos vinhos deve ser tomada com poucos anos de garrafa, onde seu apogeu é relativamente curto. Mesmo numa região como Bordeaux, somente menos de cinco por cento de toda a produção anual, faria jus à frase citada.   

As condições de terroir para vinhos de grande longevidade são extremamente precisas e singulares. Voltando a Bordeaux, percebemos que os melhores terrenos nos chamados vinhos de margem esquerda apresentam camadas de cascalho profundas e espessas, garantindo assim uma drenagem eficiente e o perfeito amadurecimento da Cabernet Sauvignon, uva principal do chamado corte bordalês nestas paragens. Seu ciclo de amadurecimento nestas condições de solo e de clima ameno fica alongado, proporcionando uma estrutura de taninos única, não encontrada em outras partes do mundo. Esses taninos sobretudo, é que garantirão um grande Chateau  envelhecer seus vinhos durante 20, 30, 40 anos, ou mais, dependendo de condições específicas de safra.

Nada como constatar na prática o exposto acima num excelente almoço entre amigos. Ficou extremamente didático como os grandes Bordeaux se comportam ao longo do tempo com aromas e sabores fascinantes, cada qual com suas peculiaridades e fidelidade a seus respectivos terroirs.

mani latour 90

a vida começa aos 27 anos …

O que são 27 anos para um Latour? Sabe aquele jovem bem preparado que está começando a vida, cheio de vitalidade e sonhos?. É exatamente a sensação de provar um vinho deste naipe. Devidamente decantada, esta garrafa double magnum estava deliciosa. Toda a força e imponência do Latour numa grande safra. Reparem no rótulo, apenas 12,5 graus de álcool, para que mais?. Corpo perfeito, taninos ultra polidos, absurdamente equilibrado, e extremamente bem conservado. Sua marca registrada estava ali, um toque elegante de couro de pelica, além do intenso cassis, grafite, e notas de chocolate. Vai romper décadas para ser um daqueles grandes Latours que faz a fama do tinto mais respeitado de todo o Médoc.

mani pichon 82

o apogeu de um Bordeaux

Vamos descer um pouco mais no tempo e chegar aos gloriosos 82. São vários os que marcaram história: Latour, Mouton, Lafite, e tantos outros. Contudo, Pichon Lalande se superou como Deuxième. Um vinho às cegas que é capaz de fazer grande barulho na turma de primeiro escalão. Apesar de estar em seu esplendor, seu platô é amplo com uma capacidade de envelhecimento imensa. Mescla com maestria a exuberância da fruta com divinos toques terciários. Sem medo de errar, é o melhor Pichon de toda história deste grande Chateau.

mani margaux 59

outra safra gloriosa

Aqui temos a exata ideia de um grande Bordeaux envelhecido. É um dos grandes Margaux da história, mostrando toda a elegância deste senhor da comuna homônima. Um licor de cassis misturado com floral e um tabaco de Havana sensacional. Taninos totalmente polimerizados, equilíbrio perfeito, e um final muito bem delineado. Vai um pouco de gosto pessoal, mas a suavidade e elegância destes tintos envelhecidos são experiências únicas. 

mani lafite 69

as marcas do tempo no rótulo   

O Brasil ainda se preparava para ser tricampeão mundial de futebol com Pelé em plena maturidade futebolística. Por falar em maturidade, eis um Bordeaux com quase 50 anos. Não é tecnicamente uma grande safra, mas é um Lafite. Só pelos aromas, já vale a pena prova-lo. Etéreo ao extremo com seus toques de cedro, madeira fina, balsâmicos, e notas de chá. A boca já um pouco cansada, mantem o equilíbrio e altivez de um autentico Premier Grand Cru Classé. Lafite é a Borgonha de Pauillac, vinho de extrema elegância e sutilezas. 

Aqui podemos ter a clara noção de delicadeza com profundidade. Numa brincadeira com um dos convivas, aliás nascido nesta safra e grande conhecedor de Bordeaux de elite, foi lhe dado uma taça para provar sem nenhuma pista, e imediatamente sentenciou: isso aqui é uma mistura de Lafite com Latour. De fato, era o que estava na taça. Analisando o fato, veja como um Lafite aparentemente frágil peitou de frente o todo poderoso Latour numa safra vigorosa, pois os aromas do Lafite predominaram na taça. Mistério dos vinhos …

carnes do restaurante Mani

Carnes de diferentes texturas como bochecha de boi e bife de chorizo acompanharam com competência o time de bordaleses descritos acima. Outros pratos do menu harmonizaram melhor com uma série de brancos maravilhosos que descreverei no próximo artigo, exceto o Yquem 1990 abaixo, por sua origem bordalesa.

mani yquem 90mani mochi de bacuri

safra histórica deste grande ícone

Começamos e encerramos muito bem o almoço com dois maravilhosos Bordeaux de 1990, Latour e Yquem. Parece que essa garrafa adivinhou que iria encerrar um almoço de bordaleses envelhecidos. Ao contrário de outras garrafas de mesma safra, a própria cor estava mais evoluída, acompanhando os aromas de mel, caramelo escuro, e notas adamascadas. Amplo em boca, deixa um final harmonioso e bastante expansivo. Ainda na foto acima, sobremesa de frutas exóticas e a cor evoluída do maior dos Sauternes.

Encerrando as considerações sobre o tempo, os grandes vinhos nos ensinam que paciência e sabedoria são virtudes trabalhadas ano após ano com muita serenidade. Num dado momento, percebemos que a espera valeu a pena.    

Abraços a todos os confrades, companheiros de mesa e copo!

Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    

Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!