A casa das negociações sem fim

Às vezes quando encontrava Mino Carta eu lhe perguntava sobre vinhos e de vez em quando a conversa chegava aos Estados Unidos e se havia algum rótulo de lá de que ele gostava. Mino torcia o nariz. Tinha especial predileção pelos vinhos franceses e italianos. Um produtor chamava sua atenção: Gaja. Era essa a razão pela qual frequentava o restaurante Massimo, que tinha um punhado de rótulos de Angelo Gaja no Piemonte.

Um dia mudei a pergunta. O que ele achava da Cabernet Sauvignon, dos vinhos italianos feitos com uvas internacionais, plantadas na Califórnia ou na França. Que ele achava dos vinhos que Gaja produzia na Toscana com castas francesas? Mino respondeu que em Bolgheri havia a influência do mar Tirreno. E havia o toque italiano.

A resposta guardava uma ironia. Mino gostava da comparação de Gaja: se a nebbiolo fosse ator, seria Marcello Mastroianni; a cabernet sauvignon, John Wayne. Lembrei-me dessas conversas numa degustação de nove safras do Camarcanda, principal tinto da Ca’Marcanda, realizada em São Paulo na última segunda-feira. A propriedade dos Gaja em Bolgheri, próximo à costa da Toscana, completa 30 anos em 2026. A primeira garrafa servida, da safra 2000, mostrou como um vinho pode sobreviver não apenas ao tempo, mas também às previsões de quem o avaliou.

Angelo Gaja já havia desafiado tradições muitos anos antes. Em 1978, plantou Cabernet Sauvignon num vinhedo de barbaresco, em pleno Piemonte, terra da Nebbiolo. Seu pai lamentou em dialeto piemontês: darmagi, que pena. O filho batizou o vinho com o lamento paterno. A primeira safra foi a de 1982.

Depois dos 50 anos, o pai vivia sua crise de meia idade e procurava alguma coisa diferente para fazer, diz o filho, Giovanni, que veio essa semana para o Brasil. Não se tratava de abandonar o Piemonte, mas de começar outra história. Em 1994, Angelo comprou a propriedade de Pieve Santa Restituta, em Montalcino, onde passou a produzir Brunello. Dois anos depois, chegou a um outro lado da Toscana, Bolgheri, conhecida por vinhos com uvas internacionais, como cabernet sauvignon e merlot. Nascido em 1940, já havia transformado a reputação de barbaresco, desafiado convenções locais e introduzido novas práticas de vinificação.

Em Bolgheri, enfrentou uma negociação que parecia não acabar. Angelo identificara, a partir de estudos de zoneamento, terrenos de argila e calcário ao pé de colinas onde pretendia plantar variedades francesas. Os proprietários relutavam em vender. Giovanni conta que o pai precisou fazer 19 viagens até concluir a compra, no fim de 1996. As ausências eram tantas que Lucia, sua mulher, chegou a perguntar se ele tinha arranjado uma amante na Toscana. Angelo estava apaixonado pela possibilidade de criar em um novo local. O nome escolhido para a propriedade, Ca’Marcanda, vem do dialeto piemontês e remete à casa das negociações intermináveis. Depois de tantas viagens, a barganha havia se tornado parte da identidade do lugar.

A primeira safra do vinho foi a de 2000. Reunia Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, variedades que haviam feito a reputação dos tintos de Bordeaux e, mais recentemente, de Bolgheri. Foram produzidas apenas 665 caixas. A Wine Advocate, publicação fundada por Robert Parker, deu-lhe 91 pontos em abril de 2004 e recomendava bebê-lo entre 2005 e 2016.

Pontos funcionam no basquete e no vôlei. No vinho, servem para alimentar rankings, organizar prateleiras e influenciar preços.  Muitas vezes, as notas envelhecem pior do que os vinhos. Foi o que sugeriu o Camarcanda 2000. O 2007, também servido na degustação, pertencia à fase em que o Merlot ainda integrava o corte. A variedade permaneceu até a safra 2013. Não houve Camarcanda em 2014 e, a partir de 2015, o vinho passou a ser elaborado com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, hoje nas proporções de 80% e 20%.

Giovanni apresenta duas razões para a mudança. A primeira está no clima. O Merlot amadurece cedo, e os verões cada vez mais quentes de Bolgheri passaram a dificultar o equilíbrio que a família procurava. A segunda é uma escolha de estilo. Os Gaja queriam produzir um vinho mais “misterioso”, mais Marcello Mastroianni.

As mudanças não pararam nas uvas. A partir da safra 2021, o sobrenome Gaja desapareceu da frente do rótulo de Camarcanda. O nome da família, tão associado ao Piemonte, acabava ofuscando a identidade da propriedade toscana e o trabalho da equipe, uma decisão pouco habitual para quem construiu uma das marcas mais reconhecidas do vinho italiano.

Angelo parece não se incomodar com a passagem do tempo, desde que possa se antecipar a ela. Nascido em 1940, diz que está chegando aos 87 anos, idade que só completará em 2027. “Meu pai pensa no futuro até no aniversário próximo”, diz Giovanni, que conta que, nos últimos anos, o pai delegou mais responsabilidades aos três filhos, Gaia, Rossana e Giovanni. Mas continua acompanhando suas decisões.

Segundo o filho, Angelo mantém no computador um arquivo intitulado “Eu te disse”, no qual reúne escolhas equivocadas da família ao longo dos últimos vinte anos. A história, contada com humor por Giovanni, sugere que a transferência de responsabilidades não encerrou as discussões familiares.

Os filhos, por sua vez, continuam a procurar novos caminhos. Em Trezzo Tinella, nas terras mais altas das Langhe, a família construiu uma cantina dedicada aos vinhos brancos. O projeto começou em 2015, com a aquisição de cerca de 30 hectares, em terrenos que chegam a 750 metros de altitude, em busca de onde produzir brancos capazes de preservar a acidez e amadurecer lentamente num clima mais quente. Chardonnay e Sauvignon Blanc têm papel central, mas a família também experimenta Riesling, Timorasso, Pinot Bianco, Incrocio Manzoni e outras variedades.

Parte das uvas de Alta Langa já é utilizada em vinhos históricos da casa, como Alteni di Brassica e Rossj-Bass. O Gaia & Rey, Chardonnay criado por Angelo a partir de vinhedos plantados no fim dos anos 1970 e na década seguinte, continua associado às parcelas históricas de Treiso e Serralunga d’Alba. Giovanni contou que a próxima novidade de Alta Langa deve ser lançada em 2027: um branco elaborado com Pinot Bianco e Incrocio Manzoni. A produção inicial será de 13 mil garrafas. Ainda não decidiram se o vinho será comercializado também fora da Itália. Também não bateram o martelo sobre o nome a ser estampado no rótulo.

A passagem de Giovanni por São Paulo revelou outra paixão do pai, Angelo. Otavio Lilla, presidente da Mistral, que importa seus vinhos no país, enviou-lhe pelo filho uma caixa de mangas. Angelo sempre adorou a fruta, saboreando-a nos hotéis, almoços e jantares de suas vindas ao país, uma paixão que levou até mesmo a filha Gaia a tentar, em vão durante a pandemia, o envio postal da fruta rumo ao Piemonte.

Gostaria de saber o que Mino Carta diria do Camarcanda 2000, com seus 26 anos de idade e os aromas de evolução de uma bela garrafa. No Massimo, diante de uma carta repleta de Gajas, ele tinha certeza de que certas coisas não cabiam numa escala de cem pontos, mas deviam ser contempladas em silêncio.

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