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Do campo aos vinhedos: a trajetória de Jussiê Vieira

11 de Maio de 2026

Em 13 de junho, quatro equipes se enfrentarão num campo de futebol em Chassagne-Montrachet, uma cidade da Borgonha com menos de 500 habitantes. Ao redor do campo, vinhas de Chardonnay que produzem alguns dos brancos mais caros e raros do mundo. A prefeita é casada com Vincent Dancer, produtor com vinhedos na cidade e cujos vinhos são importados no Brasil pela Clarets.

Numa das equipes estará David Silva, jogador brasileiro que fez história no Manchester City. O ex-jogador do São Paulo Raí, que também vestiu a camisa do Paris Saint Germain, foi convidado. Na beira do campo, grupo de samba, dançarinas de carnaval e DJ brasileiro. Nos intervalos, litros de água, energéticos, caipirinha e vinho branco e tinto. No almoço, feijoada preparada por Vanessa Vieira.

O organizador do torneio é seu marido, Jussiê Vieira, que até poucos anos atrás era atacante profissional, com passagens pelo Cruzeiro, no Brasil, e pelo Bordeaux, na França. Hoje é embaixador da importadora Clarets no Brasil, responsável por trazer ao país sobrenomes famosos no mundo do vinho como Ramonet, Dujac, Lafarge, Roulot. O campeonato é anual. Os adversários são ex-jogadores de futebol, produtores de vinho e suas famílias.

De Chassagne-Montrachet a Nova Venécia (ES), onde Jussiê cresceu, são dez horas de voo. Nascido em 1983, comia carne quando dava, geralmente no fim de semana. O padrasto não tinha paciência com ele. O bairro também era violento. O irmão foi para a lavoura. “Eu concentrei no futebol como se não tivesse outra opção na vida, como se tudo dependesse disso”, recorda-se em almoço em São Paulo em um restaurante na região da Paulista.

Um tio jogava num time amador, e o pai, falecido, tinha sido ponta direita. Jussiê passava horas com a bola no pé. O talento foi visto por um olheiro. Aos 14 anos, mudou-se sozinho para Belo Horizonte para jogar no Cruzeiro. Em 2003, pelo time mineiro, conquistou a Tríplice Coroa (Copa do Brasil, Brasileirão e Campeonato Mineiro), feito então inédito no futebol brasileiro. Em janeiro de 2005, foi negociado com o Lens, na França.

Chegou sem falar francês. O clube pagava um curso para expatriados, com aulas três vezes por semana. Foi por duas semanas e desistiu. Fez um acordo informal: se em seis meses não falasse francês, poderia ser dispensado. Trocou as aulas por filmes de Harry Potter, acompanhou Vanessa a todas as consultas pré-natais da filha Lavínia, forçou-se a conversar com a médica, leu tudo que podia sobre gravidez e cuidados com recém-nascidos.

Em dezembro de 2006, numa volta ao Brasil para as férias, sentou-se no avião ao lado do volante Wendell, que também tinha passado pela base do Cruzeiro. O volante perguntou se Jussiê não queria trocar o Lens pelo Bordeaux. O treinador era Ricardo Gomes, o zagueiro que tinha sido capitão da seleção brasileira na Copa de 1990 e que quatro anos depois seria convocado novamente como capitão para o Mundial de 1994, mas foi cortado dias antes da estreia, após sofrer uma lesão muscular. Ricardo Gomes dirigia o Bordeaux desde 2005. Disse a Jussiê que precisava de um atacante. No fim de janeiro de 2007, o contrato foi assinado. Jussiê ficaria no clube por quase uma década, ganharia a Ligue 1 na temporada 2008-2009 e seria apelidado de “mágico” pela imprensa francesa.

Em 2017, Jussiê pendurou as chuteiras. “Não queria continuar no futebol e ouvia relatos de jogadores que caíam em depressão ou ruína financeira. Precisava de outro caminho.” Nos almoços do Bordeaux, vinho era oferecido aos jogadores mesmo antes de treinos. Após vitórias, os dirigentes abriam garrafas. Num jogo contra o Paris Saint-Germain, o Bordeaux arrancou um empate de um a um, em Paris. O presidente havia prometido como bicho uma garrafa de Cheval Blanc – um dos mais famosos e caros vinhos da França.

“Os jogadores brincaram que era uma caixa para cada um, mas foi uma garrafa para cada um”, lembra Jussiê. A depender da safra, uma garrafa pode custar mais de mil euros. Na cidade pequena, os produtores logo perceberam que o jogador brasileiro gostava de vinho. Os convites para visitar propriedades e compartilhar garrafas vieram sem esforço. Jussiê fez o nível 3 do WSET, a principal certificação internacional de vinhos, e começou a passar férias na Borgonha visitando e conversando.

a história de jussiê vieira, dos campos de futebol à importação de produtores franceses

A Borgonha o capturou pela dificuldade. Para explicar esse caminho, gosta de contar que, anos atrás, um ministro do governo Sarkozy ligou para o Domaine de la Romanée-Conti pedindo uma caixa de uma safra. A resposta foi curta: não era possível. “Há um ditado aqui na França: em Bordeaux, você não degusta nada, mas pode comprar tudo; na Borgonha, você pode degustar tudo, mas não se compra nada.”

“Um amigo então me perguntou: por que não trabalhar com vinho?” Jussiê criou a Juss Millésimes em 2018, importadora focada em produtores franceses para o mercado brasileiro. Contou com a ajuda de Raphael Malago, que tinha ajudado anos antes a importar vinhos sul africanos e ajudou a desbravar esse mercado no Brasil. Na estreia, trouxe ao Brasil, entre outros, Eric Rousseau e Jean-Claude Ramonet, sendo que Ramonet não entrava em um avião desde 1996. Os dois desembarcaram no Rio de Janeiro para uma série de eventos no Hotel Emiliano.

Em 2019, Jussiê migrou o portfólio para a Clarets e se tornou embaixador da importadora na Europa. Para fechar a parceria, mandou mensagem num domingo para Guilherme Lemes, dono da Clarets. A resposta inicial foi educada, mas fria. Uma semana depois, Lemes disse que tinha interesse em alguns produtores da Borgonha e propôs reunião presencial. Jussiê respondeu que estava no Brasil. Não estava. Guilherme ia viajar, mas marcaram para dali a duas semanas, tempo suficiente para Jussiê comprar passagem e cruzar o Atlântico.

O mundo do vinho é predominantemente branco, em quem compra garrafas, em quem dirige cozinhas e em quem serve. Foi o prestígio construído em uma década nos gramados franceses que, nas palavras dele, “faz com que a cor da minha pele não atrapalhe nos negócios do vinho”. Quando montava a importadora, ouviu o conselho de que não teria problema com a cor da pele, mas que outros negros teriam. “Um grande amigo me disse, textualmente: você é o Jussiê e por isso não sofre preconceito.”

No fim deste ano, seis produtores da Borgonha — Duroché, Fourrier, Matrot, Jobard, Ballot Millot e Bachelet Monnot — embarcarão para o Brasil para uma série de eventos. Antes disso, em 13 de junho, o campo de Chassagne-Montrachet receberá o torneio de futebol. De um lado do gramado, uma bola. Do outro, fileiras de Chardonnay sobre calcário. Entre os dois, a feijoada de Vanessa.

Almoço com Chiara Pepe

28 de Março de 2026

No começo da década de 1970, Emidio Pepe resolveu viajar aos Estados Unidos para mostrar a revolução iniciada em 1964 em sua vinícola em Abruzzo, região agrícola a leste de Roma, entre o Adriático e os Apeninos e que não despertava nem o interesse da crítica nem dos enófilos. Na sua mala, levou algumas garrafas de seu tinto, feito com a uva local Montelpulciano, considerada por muitos como ruim até para se usar nos molhos.

Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu o Montepulciano, que ganhou centenas de pedidos quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi. O Montelpuciano da safra 1964 foi vendido em leilão a mais de US$ 4 mil por uma loja em Nova York há poucos anos.

um almoço com chiara pepe; história de emidio pepe

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020 e agora em 2026 irá também comandar um dos mais famosos vinhos do planeta – La Chapelle, em Hermitage, conta com um sorriso essa história no almoço de uma terça-feira do fim de março de 2023 (última visita dela ao Brasil) em São Paulo, no Baru Marisqueria, quando questionada se gosta de viajar pelo mundo. “Faz parte da nossa história, assim como a biodinâmica”, diz ela, nascida em 1989. As 80 mil garrafas (45 mil do tinto, 5 mil de um disputado rosé – o Cerasuolo – e o restante de dois brancos – o Trebbiano e o Pecorino) são vendidas para 40 países, entre eles o Brasil, onde os vinhos serão importados a partir de 2026 pela Clarets. Foi sua terceira viagem ao país, a primeira desde que começou a vinificar. Em 2023, veio para um jantar no restaurante italiano Fame, zona oeste de São Paulo, para apresentar seus vinhos, então importados pela Uva Vinhos. “Os brasileiros têm um especial apelo pelo branco feito com a uva Pecorino, que enseja vinhos aromáticos e exóticos.”

Quando Chiara vinificou seus primeiros vinhos em 2020, o primeiro a bebê-los foi Emidio, que hoje assiste à distância aos passos da neta. “Ele ficou orgulhoso.” Não mudou a vinificação. Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, não mudou nada. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado”, fala, abrindo seu branco feito de Trebbiano d´Abruzzo, safra 2015. As safras são vendidas quando a família acredita que os vinhos estejam prontos para serem bebidos. Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural”, diz ela servindo o Montelpuciano 1993, que com três décadas esbanja juventude.

O aquecimento global tem interferido nas datas de colheita (e nas férias), podendo a vindima ser antecipada ou prorrogada em duas a três semanas, o que pode fazer com que ocorra entre metade de agosto e início de setembro. Quando chega o momento a família de sete pessoas e outros 10 trabalhadores locais trabalham colhendo as uvas.

Além da preocupação com o clima, os preços dos vinhos nas regiões mais famosas do mundo têm feito surgirem dezenas de ofertas de compradores de terras do mundo todo. No Piemonte e na Toscana, dois dos mais famosos terroirs italianos, vinícolas foram compradas por americanos, ingleses, franceses, russos e até brasileiros (André Esteves e Galvão Bueno). Em Abruzzo, os preços da terra explodiram. Há 10 anos, um hectare valia 10 mil euros. Hoje pode custar 50 mil euros, um valor considerável, mas ainda muito abaixo dos 1 milhão de euros que podem ser alcançados em Barolo ou Barbaresco, terra onde nascem os melhores nebbiolos do planeta. “Há uma preocupação de que algumas vinícolas não sejam mais de famílias e percam essa essência artesanal.”

Mais sobre a vinda de Chiara em 2023 aqui: https://pisandoemuvas.com/2023/05/19/emidio-pepe-de-nova-york-para-o-mundo/

Os barolos de Luciano Sandrone

13 de Junho de 2025

Quando a unificação italiana ocorreu na metade do século XIX, promovida pela Casa de Savoia, um vinho ganhou projeção à mesa entre os nobres: o barolo, feito com as uvas Nebbiolo, colhidas no Piemonte, norte do país. Escolhido pela dinastia real italiana, foi batizado como o vinho dos reis ou o rei dos vinhos.

Assim como as dinastias, o mais famoso vinho da Itália tem passado por transformações, seja pela emergência de uma nova geração de produtores, seja com os impactos das mudanças climáticas e dos preços cada vez mais elevados das terras, o que tem despertado a atenção de olhares estrangeiros.

Um dos capítulos da história dos últimos 50 anos de barolo e do vinho italiano é escrito pela família de Luciano Sandrone, cuja filha, Barbara, esteve recentemente em São Paulo, em evento da importadora Clarets. Quando a família Sandrone se mudou para a cidade de Barolo, tornou-se vizinha de Giacomo Borgogno, um dos mais famosos produtores da região. O pai de Luciano era carpinteiro, mas alergia ao pó de madeira e horas vendo o vinho sendo feito no vizinho levaram Luciano à enologia.

Aos 18 anos, bateu à porta do vizinho e conseguiu um emprego na linha de frente da produção de Giacamo Borgogno. Começou a guardar dinheiro e em 1977, aos 30 anos, comprou uma parcela de videiras em Cannubi Boschis, um pedaço de terra reputado pelos barolos ali plantados.

Um ano depois, em 1978, na sua garagem, começou a vinificar 1500 garrafas, mantendo em paralelo seu trabalho de enólogo nas vinícolas de Giacomo Borgogno e Marchesi di Barolo. “Ele precisava de dinheiro e queria fazer seus vinhos, seguir um caminho próprio e isso coincidiu com mudanças no cenário”, recorda-se Barbara.  

O vinho italiano no início dos anos 1980 começou a mudar. Em 1981, foi lançada a primeira Vinitaly, feira realizada na Itália com a intenção de reunir produtores de diferentes regiões do país e compradores de todos os países. Os vinhos de Luciano agradaram a compradores dos Estados Unidos e Suíça.

Em paralelo, a nova geração de viticultores adotava novas técnicas. Na maneira tradicional, os produtores usavam grandes toneis de madeira para envelhecer o barolo buscando obter garrafas que evoluíssem por anos. Já a nova geração buscava vinhos mais acessíveis na juventude e mais precisão na colheita e na adega. Luciano se tornou o que a literatura enológica chama de “barolos boys”, um movimento que chacoalhou a região, buscando incorporar novas tecnologias, tornando até hoje difícil definir a tênue linha entre modernistas e tradicionalistas.

Manteve um pé no moderno e outro na tradição. Barolos eram fermentados por até 30-50 dias, o que gerava vinhos extremamente tânicos e duros na juventude. Sandrone reduziu esse tempo para cerca de 10-12 dias, com controle rigoroso de temperatura, preservando o frescor da fruta e suavizando os taninos.  Entre os toneis dos tradicionalistas e as barricas francesas de 228 litros de modernistas, ficou no meio caminho: com barris de 500 litros para envelhecer seus vinhos.

Em 1990, um de seus vinhos recebeu 100 pontos, a nota máxima dada pelo crítico norte-americano Robert Parker. O reconhecimento fez com que pudesse se concentrar apenas em sua vinícola, que em 1999 deixou a garagem e ganhou espaço próprio.

Luciano morreu em 2023. Antes, em 2017, fez uma alteração histórica no seu rótulo mais famoso: Cannubi Boschis foi batizado de Aleste, a junção dos nomes da terceira geração, Alessia e Stefano, filhos de Barbara. Alessia trabalha na vinificação, Stefano estuda economia agrária. Integram a terceira geração da vinícola familiar, cuja produção é de pouco mais de 140 mil garrafas. “Sempre foi uma preocupação manter a produção familiar”, diz. O ambiente mudou nas últimas décadas.

Um hectare de terra em Barolo custa milhões de euros e atrai o olhar de empresários do mundo todo em um ambiente que tradicionalmente estava nas mãos de agricultores. “Por enquanto a região tem conseguido manter suas raízes, mas há muitos empresários que cobiçam a região para fazer vinhos”, diz Barbara.

Não é a única ameaça. O aquecimento global tem mudado não apenas a data das férias da família, mas também trazido outras preocupações: redes de proteção têm sido colocadas para evitar que a irradiação solar provoque manchas nas videiras e traga doenças. Ainda não é possível avaliar a nova técnica. “Nos últimos três anos, foi uma sucessão de eventos, um ano teve muita chuva, em outro, muito sol, em outro granizo”, afirma. A data de colheita em um ano pode ser em outubro, em outro, em novembro.

Com grande potencial de envelhecimento, os barolos são vinhos que ganham com anos ou décadas de adega. A nova geração tem paciência? “Sim, mas temos visto que muitos nos Estados Unidos, depois da pandemia, passaram a dar menos atenção à enogastronomia. O vinho italiano ganha muito com a comida. Já os asiáticos estão cada vez mais atentos a combinar sua culinária com nossos vinhos”, diz Barbara, que depois do Brasil tem viagem marcada para o Japão. A garagem da família Sandrone ganhou o mundo.

Às cegas entre grands crus de Chablis

15 de Junho de 2024

Chablis é um dos mais inconfudíveis vinhos do planeta vitis e talvez o que mais sofra nos últimos anos do aquecimento global. A sutileza, o nervo preciso, os aromas quase etéreos, o sabor pulsante sem ser agressivo. A essência sem máscaras, sem subterfúgios. Se terroir parece algo inexplicável, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território de vinhas.

Localizada no meio do caminho entre Beaune e Paris, a região tem uma particularidade em relação aos vinhos da Côte d´ Or: o clima é mais frio, rigoroso O solo contém uma mistura judiciosa de argila e calcário, culminando no que chamamos Kimeridgiano (Kimméridgien), fosséis marinhos calcinados no marga, característicos das porções de terra dos grands crus da região.

Em 5,8 mil hectares, apenas 1,5% da produção total é destinada aos sete grands crus, que são: Blanchot, Bougros, Grenouilles, Valmur, Preuses, Vaudésir, e Les Clos.


Em relação aos grands crus, segundo Clive Coates e Jasper Morris, dois dos mais profundos conhecedores e historiadores e degustadores da região:


Bougros
O mais a oeste é um vinhedo íngreme, criando vinhos mais suaves e gordos. São mais amigáveis ​​na juventude do que alguns dos Grand Crus.

Preuses
No geral, tendem a ser vinhos elegantes, redondos e com aromas delicados.


Vaudésir
É chamado por alguns de “Vale do Vaudésir”, pois a colina Grand Cru foi erodida para formar um pequeno vale. A erosão significa que partes da vinha têm mais argila no solo do que a maioria dos Grand Crus. O resultado é um vinho de equilíbrio, com elegante mineralidade e concentração de fruta.


Grenouilles
O menor dos Grand Crus, Grenouilles está localizado ao longo da margem do rio Serein; o nome da vinha na verdade significa “rãs”. Como as vinhas estão voltadas a sul, recebem sol o dia todo, criando um vinho maduro e frutado.

Valmur
Situado entre Grenouilles e Les Clos, Valmur está também em um “mini-vale”, esculpido pela erosão. Muitas vezes precisa de tempo para envelhecer, já que esses vinhos ácidos são poderosos e austeros na juventude.

Les Clos
Dos Grand Crus, Les Clos é o maior, mais conhecido e indiscutivelmente o melhor. Tem um declive aberto virado a sudoeste, permitindo que a vinha tenha exposição ao sol quente e abundante da tarde. Isso é importante para o amadurecimento em Chablis frescos e dá aos vinhos Les Clos aquele inebriante empurrão entre opulência e acidez fina.

Blanchot
Mais a leste dos Grand Crus, Blanchot contorna a encosta da colina para o lado sudeste, ao contrário de seus vizinhos. Isso torna os vinhos Blanchot menos frutados e poderosos, mais leves e mais ácidos, com notas cítricas ácidas, esses vinhos amadurecem mais rápido.

Às cegas

No Bistro de Paris, foram selecionados cinco grands crus de safras recentes (apenas um 2021 e quatro da safra 2020, considerada excelente para a região). Participaram da degustação: Vaudesir, do domaine Gautheron, importado pela delacroix e o único 2021 do painel; Valmur e Les Clos do Domaine Moreau, da Sonoma; Droin com seu Hommage a Louis (havia uma disputa entre a aduana francesa e a legislação local em relação se o vinhedo estava mesmo em les Clos, em maio ela foi resolvida e a partir da safra 2023 ele poderá usar o vinhedo grand cru mais famoso no rótulo), trazido pela Mistral; Valmur de Bessin Tremblay, da Clarets. A degustação foi feita em taças riedel wings, importadas pela Mistral, detalhe importante. Grandes vinhos merecem taças apropriadas.



O resultado? A safra 2020 produziu grandes vinhos e o exemplar da 2021 aponta que essa safra tem muitos predicados, apesar de ter sido despercebida pela mídia, que se apaixonou pela 2022. Vamos aos vinhos: às cegas, Valmur de Moreau e o Vaudesir de Gautheron dividiram os dois primeiros lugares. Também são os dois mais baratos no painel, com preços ao redor de 750 reais a garrafa (em um momento em que borgonhas sobem de preço a cada safra e o câmbio chegou perto dos R$ 5,5, esses dois são excelentes qualidade-preços). Às cegas, achei que fossem os dois clos presentes à degustação, que teve o Droin em terceiro lugar, Bessin Tremblay com seu Valmur em quarto, e Moreau com seu Les Clos em quinto. Mas não há perdedores: foi uma degustação de alto nível, com vinhos que pontuariam acima dos 93 pontos, se vinho fosse basquete, e o escritor, estatístico.

Campeão da noite

Os quatro produtores são de destaque na região e estão entre os melhores que circulam os guias fora as duas unanimidades: Raveneau e Dauvissat, cujos vinhos na juventude podem ficar para trás, mas com o tempo ganham camadas e camadas que só os grandes atingem, sejam os premiers crus, sejam os Les Clos de ambos, que às cegas podem se transformar em uma guerra de foice na escuridão, como sempre dizia o mestre Nelson. Eu participei de uma dessas e a cada gole mudava de opinião.

Depois de bebidos solo, foi a vez da harmonização enogastronômica. Primeiro, foram ostras frescas do litoral paulista. O forte caráter iodado das ostras frescas, além da salinidade, exige mineralidade e os chablis são uma alternativa clássica e perfeita, ainda mais nesse tipo de degustação em que se trata de grands crus de primeiro nível. Os grands crus da região ainda são ótimos para ostras gratinadas, cuja textura e sabor são mais ricos. ((As opções à mesa para ostras também podem se estender dos clássicos Muscadets do extremo oeste do Loire (prefêrencia pelos de Sèvre et Maine sur lies), passando por Pouilly-Fumé (outro extremo do Loire), Savennières (Chenin Blanc bem seco), ou para quem prioriza sofisticação, um champagne Blanc de Blancs (elaborado só com Chardonnay)). 

Depois os chablis ainda ganharam a companhia de um ótimo peixe no sal, mostrando toda a versatilidade que a chardonnay do terroir chablisienne oferece nas mãos certas.

Uma noite para repetir a cada safra!