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Trufas e Barolos

2 de Novembro de 2017

Um almoço elaborado pelo Chef Salvatore Loi com um menu de pratos trufados. Trufas brancas de Alba, bem entendido. Foram muitos vinhos testados com vários pratos envolvendo ovos, carne e massas. Neste artigo, trataremos inicialmente dos Barolos servidos, vinhos de maior tanicidade e pujança. No artigo seguinte, trataremos de alguns Barbarescos e Bourgognes envelhecidos que imprimem uma outra conotação ao tema.

carlos massa e trufa

massa e trufas, um clássico

Antes de mais nada, preciso fazer um parêntese imenso sobre um champagne muito especial servido em Magnum, estimulando o paladar dos convivas. Trata-se de um Dom Pérignon Rosé 1988 P3. Uma obra-prima da enologia das melhores borbulhas do mundo. P3 significa terceira plenitude onde outrora era chamada de Dom Pérignon Oenothèque. A ideia aqui é trabalhar com longo envelhecimento sur lies antes do dégorgement, ou seja, para um P3, categoria máxima neste conceito, o champagne deve permanecer em contato com as leveduras por mais de vinte anos. Neste caso, o Rosé 1988 ficou 25 anos sur lies. Com um vinho-base de altíssima qualidade, temos um assemblage com larga proporção de Pinot Noir, inclusive uma parte como vinho tinto da região para fornecer a devida cor ao conjunto. Este contato prolongado com as leveduras promove uma perfeita integração do gás à massa vínica, além de textura e sabores únicos. Seus toques amendoados e de torrefação são sublimes.

carlos dom perignon rose P3

O continente reflete o conteúdo, excepcional!

Outro parêntese imenso para um trio de Monfortinos. Para uma legião de fãs, o melhor Barolo de todos os tempos. Devo admitir numa linha mais ortodoxa no classicismo dos Barolos, Monfortino é o que há de mais profundo e típico. Um Barolo de raça, que não faz concessões.

carlos monfortino 82 88 97

Um trio de respeito

Monfortino está para o Barolo, assim como Biondi-Santi está para o Brunello. Vinhos de grande tradição, história, e de enologia mais tradicional possível. Vinhos de outros tempos, onde o fio do bigode valia uma sentença. Dito isso, a coerência deste vinho com seu terroir é absoluta. Para quem faz Barolos à moda antiga, com longa maceração e longo envelhecimento em botti, Serralunga d´Alba é o local perfeito com seu solo helvético, rico em ferro, produzindo vinhos poderosos, tânicos, e de elevada acidez. As melhores uvas de onze hectares da propriedade são destinadas ao Monfortino. O mosto é fermentado por quatro a cinco semanas, incluindo maceração pós-fermentativa. As temperaturas são relativamente altas, em torno de 32º centigrados, favorecendo acentuada extração de taninos. O vinho então faz malolática e um longo envelhecimento em botti (toneís eslavônios de grande dimensão, aproximadamente seis mil litros cada um) por cerca de 84 meses. A micro-oxigenação  intensa tenta rechaçar o impacto tânico do vinho. São de sete a dez mil garrafas por safra. 

Dos três Monfortinos degustados, uma coerência impressionante neste estilo mais austero. O Monfortino 82, safra de grande potencial, foi o mais prazeroso, provando que este vinho merece longo envelhecimento em adega. Seus aromas de alcatrão, chocolate amargo, especiarias e alcaçuz são marcantes. Sua acidez e riqueza tânica também impressionam. O Monfortino 97, safra de potencial similar a 82, parece seguir o mesmo caminho, mas ainda está no começo da jornada. Potente, austero, precisa ainda ser domado pelo tempo. Por fim, Monfortino 88 ficou no meio do caminho. Já agradável de ser tomado, não tem a potência das safras mencionadas, mas segue a mesma espinha dorsal, ratificando a tipicidade deste vinho.

carlos gaja sperss 89

quando a elegância impera …

Tudo que falamos até agora de Barolo (Monfortino) não vale para o vinho acima, a despeito de ser produzido no mesmo terroir, Serralunga d´Alba. Alguém já disse: o homem faz o terroir, ou o desfaz. Fica muito claro no exemplar acima que Angelo Gaja imprime seu savoir-faire elegante nos vinhos que elabora. Partindo da mesma uva, solo, e clima, seus conceitos de vinificação são claramente modernos, sem perder a tipicidade da região. Os vinhos são menos extraídos, preservando a fruta, e adequando um amadurecimento coerente em botti e barricas francesas. Uma fruta mais vibrante é notável em seus aromas, lembrando cerejas negras, um alcaçuz fino, um defumado elegante, e taninos absolutamente maleáveis. Atrás dessa aparente delicadeza, temos um vinho profundo, vigoroso, e apesar de seus quase 30 anos, absolutamente inteiro, suportando com tranquilidade mais algum tempo em adega. Decantado previamente por duas horas, é extremamente prazeroso. Fazer isso em Serralunga d´Alba é só para quem tem muito talento e carisma.

carlos aldo conterno 71

Aldo Conterno da Velha Guarda

O Musigny acima falaremos no artigo seguinte. Vamos nos ater somente aos Barolos, incluindo este Aldo Conterno 1971. Além de não ser uma grande safra, este é o Barolo mais simples de Aldo Conterno, vinificado com conceitos atrelados à época. Percebe-se uma vinificação mais extraída, com toques mais oxidativos, sem a elegância peculiar desta grande Cantina. Não tem a força dos Monfortinos e nem a elegância de Angelo Gaja. Um Barolo ainda íntegro, a despeito de sua idade extremamente avançada. Um belo exemplo da longevidade deste vinho chamado Barolo, o Rei dos Vinhos, como dizem os italianos.

Quanto à compatibilização com as trufas, um dos requisitos mais importantes são os aromas terciários dos vinhos, relacionados a vinhos antigos. Vinhos novos não têm nada a ver com trufas, mesmo que sejam os famosos tintos piemonteses. Neste sentido, todos os Barolos acima descritos possuem este precedente. No entanto, possuem textura muito robusta e excesso de taninos, sobrepujando de certa forma os pratos. Aqui, um Brasato al Barolo com lâminas de trufas por exemplo, seria um prato mais indicado. Pelo que foi exposto, fica fácil perceber que o Barolo de Angelo Gaja, Sperss 89, foi o vinho mais adequado aos pratos servidos.

Próximo artigo, as trufas se encontram com Barbarescos e  Vins de Bourgogne. Aguardem!

Petrus x Médoc

31 de Outubro de 2017

Mais um belo jantar preparado pelo Chef Laurent Suaudeau, um dos mais clássicos franceses radicado em nosso país, escoltando cinco bordaleses de primeiro escalão num bom momento de evolução em garrafa de safras não tão badaladas. É nessas horas que vemos toda a categoria desses vinhos e sua capacidade de envelhecer longamente em adega. Antes porém, um Champagne e um Meursault fizeram as honras da casa recepcionando os convivas.

champagne e bottarga

Na foto acima, Louis Roederer Cristal Rosé 2005 em Magnum. Um dos diferenciais deste incrível champagne é ser elaborado com maceração pelicular da Pinot Noir, ou seja, um rosé de saignée. Na grande maioria dos champagnes rosés, o método normalmente usado é de assemblage, misturando um pouco de vinho tinto no mosto incolor apenas para tingi-lo devidamente. Além disso, sua categoria Brut está no limite do açúcar residual permitido, entre 11 e 12 gramas por litro. O blend é feito com 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho permanece cerca de quatro anos sur lies antes do dégorgement. O resultado é um champagne de estrutura, macio, com a elegância da Maison acima de tudo. Mousse muito delicada e um final harmônico, mesclando frescor e uma sensação off-dry. Acompanhou bem uma das entradas (foto acima), lâminas de bottarga com purê de batata, mostrando personalidade. 

bisque de camarão e Meursault. Hum !!!

Nesta combinação tem um pequeno detalhe. O Meursault é do Roulot e a bisque, do Laurent. Isso pode fazer uma enorme diferença. Este Premier Cru Le Porusot tem uma diminuta área de 0,42 hectare. Seu estilo é muito mineral, um toque alimonado, e uma textura não tão untuosa como um Lafon, por exemplo. A porcentagem de barrica nova no processo é bem pequena, da ordem de 15 a 20%. Muito equilibrado, super bem acabado e complementou divinamente uma das entradas (foto acima), panelinha de vongole e camarão. 

Nessa altura do campeonato, todos já olhando para os decanters na mesa de apoio com os cinco vinhos devidamente livres de seus sedimentos.

carlos lafite e margaux 79

safra que pode surpreender

Abrindo os trabalhos, lado a lado, Lafite e Margaux com quase 40 anos. O Lafite 79 mostrou toda a evolução de um grande Bordeaux. Aromas terciários plenos, taninos polimerizados, um toque de cedro muito elegante. Enfim, o vinho mais pronto no momento e com incrível prazer. É sem dúvida, o mais delicado e elegante entre os grandes Pauillac. Já o Margaux 79, surpreendeu positivamente. Uma safra que muita gente não dá bola, mas no caso de Margaux apresenta grande estrutura. Seus taninos ainda não estão totalmente resolvidos. Os aromas muito elegantes do Margaux lembram um toque floral e de sous-bois, entre outros. Já pode ser bebido, mas evolui por pelo menos cinco anos. Tem 93 pontos Parker.

carlos mouton 87 e latour 94

a força de Pauillac

Neste segundo flight, a maior disparidade. Tanto em evolução, como diferenças de safra. Mouton 87 numa safra com muitos problemas. Por ser uma safra relativamente precoce e sem muita concentração, seu melhor momento certamente passou. Ainda longe de qualquer indicio de oxidação, não foi tão longo em boca. Já o Latour 94, foi o infanticídio da noite. Outra safra não muito badalada, mas com 94 pontos Parker. Cor ainda escura, aromas um pouco fechado, foi se abrindo aos poucos. Uma montanha de taninos para ser trabalhada ao longo do tempo. Aromas clássicos com um toque de cassis, couro fino, mineral, e tabaco. Longo em boca, precisa dormir pelo menos mais dez anos em adega. Latour é Latour.

carlos bouef bourguignon

boeuf bourguignon comme il faut

Acima, um dos pratos do mestre Laurent, o clássico cozido borgonhês para cutucar um pouco os bordaleses. Sem nenhum problema de harmonização, quando já bem evoluídos, os bordaleses pegam um pouco a delicadeza da Borgonha.

carlos petrus 80

um dos mitos de Bordeaux

Abram alas para sua majestade, Rei Petrus. É mais ou menos assim que pensamos quando ele chega à mesa. Para começar, esta safra mostra uma boa estratégia para aqueles que desejam prova-lo  pelo menos uma vez. Não é tão cara como outras safras badaladas e tem a vantagem de estar pronto, sem muitas arestas. Com seus 37 anos, é muito prazeroso de toma-lo. Ainda com muita fruta, toques terrosos e de adega úmida, seus taninos são sedosos, e um final complexo. Pela expectativa da safra, surpreendeu positivamente. Além disso, título do artigo, enfrentou sozinho os quatro da margem esquerda com altivez.

Ainda deu tempo de dar um pulinho na safra 99 com dois grandes chateaux, Haut-Brion de Graves, e Ausone de Saint-Emilion.

carlos ausone e haut brion 99

já chegando nos seus 20 anos!

Outra safra que muitas vezes passa esquecida em Bordeaux. Os dois chateaux acima ainda muito novos, provando mais uma vez a enorme longevidade desses vinhos. Haut-Brion sempre prazeroso com seus toques terrosos e de estrebaria. Segue o perfil elegante, não muito encorpado, mas extremamente equilibrado. Devidamente decantado por duas horas, pode ser muito agradável no momento. Já o Ausone, foi outro infanticídio. Um vinho com 95 pontos Parker de taninos abundantes e muito finos. Fruta escura concentrada, um toque mineral esfumaçado, faltando claramente integração entre seus componentes. Lembra um pouco os aromas do Troplong Mondot, outro grande St-Emilion. Com a devida paciência, será um dos grandes Ausones, fechando o século passado.

carlos yquem 87

o melhor final de festa bordalês

Falar que Yquem é um grande Sauternes, um vinho maravilhoso, é chover no molhado. O que novamente surpreendeu positivamente neste exemplar foi a safra 87, outra vez pouco badalada. Um vinho pronto, não muito untuoso, mas com aromas delicados e muito harmônicos. Um toque sutil de mel, caramelo e marron glacé. Final não muito longo, mas extremamente prazeroso.

carlos noval vintage 1970

Madelaine, Porto e Latour ao fundo

Na foto acima, o brinde final. Quinta do Noval Vintage 1970 devidamente decantado. A cor é bem mais delicada que o decanter da foto, no caso Latour 94. Noval é uma Casa de elegância impar. Notas balsâmicas e de frutas em compota permeiam seus aromas. Boca ampla, de grande equilíbrio, e terrivelmente persistente. As madeleines não são de Proust, mas do mestre Laurent. Um Gran Finale!    

O Espirito de Champagne

20 de Outubro de 2017

O mundo em Champagne gira em torno de suas variações de safras e seus vinhos de reserva. Num clima instável, quase no limite do cultivo da vinha, a característica e quantidade de cada safra são muito bem pensadas na sua utilização em si, procurando manter um alto padrão de qualidade e tipicidade dos vinhos.

Baseados em estatísticas oficiais recentes da safra 2015, vamos falar um pouco dos champagnes Brut non millésimés, Millésimés, e Cuvées de Prestige. Sabemos que por lei, os champagnes nom millésimés, sem safra, devem passar pelo menos 15 sur lies antes de serem expedidos. Na prática, as grandes Maisons superam com folga este tempo. Mesmo assim, é importante a devida proporção de vinhos de reserva,  mantendo a qualidade e o padrão de cada casa. Faz parte do esteio, da grande produção da região em termos de volume e sobretudo de receita, garantindo a prosperidade do negócio.

Quando a safra é muito boa, fato raro na região, uma parte da mesma é destinada aos millésimés. São champagnes de pequena produção onde não há inclusão dos vinhos de reserva e assim, refletem as características da safra em questão. Para aumentar a complexidade desses vinhos, o tempo mínimo por lei em contato sur lies são de três anos. De fato, o contato prolongado com a levedura acaba gerando uma complexidade aromática maior e uma textura mais macia ao champagne. A maior parte dessas grandes safras é adicionada aos vinhos de reserva, garantindo assim a manutenção da qualidade nos anos menos favorecidos.

Por fim, as suntuosas cuvées de prestige que geralmente são millésimés. Estas são o “crème de la crème” dos melhores vinhos-bases dos melhores vinhedos com alta porcentagem da classificação Grand Cru. Como o contato prolongado com as leveduras tem a ver com a estrutura do vinho-base, pois o ambiente é altamente redutivo, esses vinhos costuma passar pelos menos de cinco a seis anos sur lies.

Tanto os millésimés como as cuvées de luxo são champagnes que podem envelhecer em adega a despeito de perderem um pouco o vigor das borbulhas. Seus vinhos-bases são capazes de compensar a eventual falta de gás. A propósito, falando em formato de taças, este é o caso em que a opção por uma taça de branco por exemplo, é altamente recomendável, liberando com eficiência aromas mais complexos da bebida.

Para aqueles que não abrem mão das borbulhas e exigem complexidade e frescor, neste mercado de luxo existem os champagnes com tempo sur lies extremamente prolongado, acima de dez anos digamos. A proteção e conservação das leveduras em contato com o liquido garantem um frescor inigualável ao produto. É o caso por exemplo dos champagnes Bollinger RD, Krug Collection, e o Dom Pérignon P2 e P3. Não são nada baratos, pois o tempo dispensado para sua elaboração justifica os preços. Tirando este detalhe, é uma maravilha!   

champagne estatisticas 2015

Europa e outros países – ano 2015

Dos números acima, podemos perceber porque os champagnes millésimés são tão especiais. São porcentagens mínimas, até menores que as suntuosas cuvées de prestige. Por outro lado, como é importante para este negócio a venda de seus champagnes non millésimés, a base da produção que sustenta o sonho dos grandes rótulos.

O aumento de procura por vinhos rosés tem sido crescente, e não é diferente para os champagnes, sobretudo para os mercados dos Estados Unidos e Japão. A grande maioria dos champagnes rosés é feita pelo método de assemblage, ou seja, misturando um pouco de vinho tinto no chamado vinho-base, prática condenada na elaboração dos rosés tranquilos.

As exportações de Champagne concentram-se pela ordem em Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Japão e Bélgica. O Brasil ocupa a 22º posição atrás de México, Canadá e Finlândia, por exemplo.   

champagne 2015

distribuição de champagne pelo mundo

Os franceses consumem metade da produção de champagne, mas de valores relativamente modestos, inclusive tendo boa ofertas dos champagnes de vignerons, ou seja, pequenos produtores. Este nicho é muito mais restrito para exportação já que os grandes grupos de champagne dominam este mercado.  

jacquesson 738

sempre uma boa pedida

Como sugestão, o belo champagne Jacquesson disponível no Brasil, importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br), é um dos melhores no mercado, fugindo um pouco das marcas tradicionais. Tem predomínio de Chardonnay sobre as outras uvas (Pinot Noir e Pinot Meunier) com 33% de vinhos de reserva. Alta porcentagem que faz toda a diferença. Esta cuvée passa até quatro anos sur lies. É provar e aprovar!

 

Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!