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O Mundo do Vinho no Brasil

16 de Maio de 2015

Meus caros amigos, aqueles que me seguem há anos, este artigo vai gerar polêmicas, é um artigo duro, mas ao mesmo tempo um desabafo. O mundo do vinho no Brasil é quase uma piada. A grande maioria dos consumidores de vinho entende muito pouco do assunto, de maneira bem superficial. Compram vinhos por indicação de vendedores que por sua vez, têm uma visão limitada do produto, seus argumentos são puramente comerciais, induzindo a vocês consumidores uma expectativa errada do vinho adquirido. Muita culpa está nas próprias importadoras,  que não fazem investimentos em gente qualificada. Simplesmente, apelam para salários baixos, colocando pessoal voluntarioso, mas sem os pré-requisitos básicos para um bom aconselhamento. Ficam apegados em fichas técnicas extremamente duvidosas e sem um conteúdo condizente. A própria internet  é inundada de informações inconsistentes, inclusive os inúmeros sites sobre vinhos, que mais são transmissores de notícias, do que matérias com um mínimo de informação confiável. Muitos “gurus”, ditos conhecedores da matéria, têm relações comerciais com o marketing do vinho para empurrar produtos pouco confiáveis.

Do livro: O Espírito do Vinho

Querem uma importadora de referência, onde você pode falar diretamente com o dono, o qual é um dos maiores conhecedores de vinhos do Brasil. Pois bem, essa importadora é a Cellar (www.cellar-af.com.br) do grande Amauri de Faria. No tenho nenhuma comissão, nenhum acordo comercial, mas os vinhos são altamente confiáveis, a preços justos para o padrão nacional. Ele tem uma linha de franceses e italianos altamente recomendados. E na dúvida, é só falar com o pai da criança. Esta é uma importadora de compra segura onde você pode aprender sempre um pouco mais.

Outra exceção como importadora é a Decanter, com um portfólio amplo e bem selecionado pelo grande sommelier Guilherme Correa, campeão brasileiro, e com forte e sólida formação enológica. Além da consultoria em vinhos, Guilherme ministra vários encontros, eventos e cursos pela importadora ao longo do ano, transmitindo aos clientes seus conhecimentos e ao mesmo tempo, destacando as principais características dos vinhos apresentados e degustados.

Será que todos sabem o significado de provar o vinho no restaurante?

Na realidade, as importadoras, lojas de vinho, deveriam assumir este papel educativo, criando um grupo de atendentes competentes para educar de forma constante e paulatina uma formação enológica em torno do assunto. Isso sem falar em restaurantes, onde boa parte dos “sommeliers” prestam um desserviço ao vinho, indicando produtos comerciais, não verificando vinhos bouchonnés, e outras cositas mas. Falando em restaurantes, só para dar um exemplo positivo, veja o Fasano. A visão de Rogério Fasano não tem paralelos no Brasil. E é por isso que seu restaurante é uma referência em gastronomia e sommellerie. Manoel Beato, o melhor sommelier em atividade no salão do Brasil, é fruto de uma visão a longo prazo do restaurateur Rogério. É lógico que o salário de seu sommelier não tem parâmetros no mercado paulistano, além de muitas vezes estar ausente com outros compromissos que a profissão lhe oferece. Porém, Rogério sabe da importância de um profissional deste quilate em seu quadro de funcionários, e espertamente não abre mão deste investimento de anos a fio. Além disso, Manoel monta e supervisiona uma equipe altamente competente. Fasano é caro? é caro, mas nestes momentos você confirma a diferença abissal com outros restaurantes. Só para completar, outros sommeliers que poderiam enriquecer o trabalho de salão nos restaurantes, estão em outras atividades como consultores, onde a disponibilidade de horários e salários são altamente compensadores. É muito difícil para um sommelier de salão convencer seus patrões a investirem em sua formação e aprimoramento. Infelizmente, eles entendem isso como despesa, além de ter que dispor de uma parte do horário de seu sommelier no salão. Com isso, os sommeliers sentem-se desmotivados a se aprimorarem, agarrando-se em importadoras para a venda e vantagens de determinados produtos.

Guilherme Correa em ação

Diante deste cenário altamente duvidoso, resta ao consumidor informar-se por conta própria, através de leituras confiáveis, críticos credenciados e cursos elucidativos como os ministrados pela ABS-SP. É evidente que tudo isso não é barato, mas para ter algum conteúdo confiável é preciso investimento, o qual lhe trará grandes benefícios em futuras compras de vinho, não comprando gato por lebre. Aliás, a ABS-SP nos últimos anos tem criado inúmeros cursos profissionais em horários bastante flexíveis, dando sua contribuição na formação de sommeliers com conteúdo consistente. Evidentemente, cabe a cada aluno seguir seus estudos individualmente, procurando aprimoramentos e destacando-se neste mercado altamente competitivo.

Frases de vendedores, marketing, como: O melhor vinho é aquele que você gosta, ou não existem vinhos ruins, existem vinhos mal vendidos, são um verdadeiro desrespeito ao consumidor que quer progredir, se informar melhor, e entender realmente o que é um bom vinho. E aí não existe milagre, vinho realmente bom tem seu preço, como tudo na vida.

Finalizando, é bom que se ressalte mais uma vez as exceções. Evidentemente, existem importadoras, lojas de vinho e restaurantes sérios, que prestam um bom serviço ao mundo do vinhos. Porém, são oásis num mercado tão movimentado, com inúmeros estabelecimentos sem critério, sendo criados no dia a dia, que infelizmente são a maioria. Que os consumidores ao longo do tempo, saibam separar o joio do trigo!

Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!

Rotina de um Sommelier

26 de Janeiro de 2015

Nem tudo são flores na rotina de um sommelier, mesmo num evento sofisticado, envolvendo grandes vinhos. É preciso começar cedo, bem antes do glamour de uma grande noite. O aniversário de dois grandes amigos inspirou este texto, mostrando algumas peculiaridades no trabalho de bastidores.

Double Magnum La Grande Dame 1990

Os vinhos escalados para o jantar foram o champagne da foto acima, Jeroboam DRC 2011 (Domaine de La Romanée-Conti), o californiano Opus One 1999 Imperial (seis litros), outra Imperial do Château Margaux 1990 e mais alguns Portos para o final da noite.

Começando pelos tintos, a abertura das duas Imperiais. Trabalho meticuloso, pois o saca-rolhas de alavanca fartamente utilizado pelos sommeliers não funciona neste caso devido ao diâmetro do gargalo destas garrafas. Foi utilizado um saca-rolhas em T de espiral larga, procurando abranger o maior diâmetro possível para esta largura de rolha. Para o Château Margaux foi perfeito, mas nem tanto para o Opus One. A rolha deste último partiu, deixando um terço ainda na garrafa. Posicionando o saca-rolhas  inclinado em relação ao eixo do gargalo, o pedaço foi retirado com sucesso. Neste momento, vinhos perfeitos, sem nenhuma surpresa desagradável.

Esse vinhos estavam na adega dentro de suas caixas de madeira, na posição horizontal. Lembram daquele artigo deste blog onde mencionamos a importância do cesto de vinhos para a abertura e decantação da garrafa? Pois bem, o difícil é achar um cestinho para uma Imperial. Daí, o cavalete, um outro instrumento importante da sommellerie, conforme foto abaixo.

Eis a engenhoca para manter a garrafa deitada

Pois bem, as garrafas foram mantidas deitadas no cavalete com uma inclinação suficiente para permitir a abertura das mesmas, sem perturbar os sedimentos depositados na parede ao longo do eixo. Portanto, a abertura das garrafas foi feita no cavalete. A decantação de cada uma das garrafas se deu através de uma manivela que verte sutilmente o líquido em vários decantadores. O sistema é muito suave, permitindo as sucessivas paradas para a troca dos decantadores. Ao final, com auxilio de uma vela, visualizamos os sedimentos. Por sinal, bem mais na garrafa do Margaux.

Após toda esta decantação, a prova dos vinhos nos dá uma ideia do tempo de aeração. No caso do Opus One, o vinho é mais novo e mais robusto. Tem muita força, cor ainda intensa, mostrando que um certo arejamento lhe fará bem. Já o Château Margaux, estava menos rebelde. Com a elegância que lhe é peculiar, mostrava uma trama tânica muito bem moldada e taninos de uma textura impar. Os aromas já muito sedutores e uma cor pouco evoluída. Mas não se deixe enganar, os aromas terciários ainda irão se desenvolver lentamente, garantindo prazer por décadas. Um leve arejamento lhe fez bem, eliminando alguns aromas redutores.

Este foi a estrela da noite

Decantação feita, é hora de voltar o vinho para as garrafas, utilizando um funil. Evidentemente, as garrafas devem ser totalmente limpas com água mineral, não deixando vestígios de borra. Essa volta é interessante, pois o vinho será servido ao longo do jantar, preenchendo de tempo em tempo os decantadores novamente. Tudo funciona muito bem, além do charme da operação.

Mesa de serviço preparada

Até agora falamos dos tintos, mas o Montrachet DRC 2011 foi um completo infanticídio. É bem verdade que a decantação da Jeroboam (quatro litros e meio) horas antes do evento foi benéfica ao vinho, liberando mais aromas. Contudo, todo seu potencial só será desenvolvido através de longos anos em adega.

Privilégio de abrir  a garrafa nº 2

Parte da Jeroboam DRC em dois decantadores

Conjunto de taças do jantar

A foto acima mostra o conjunto de taças que irão acompanhar o jantar. O copo colorido para água dá um charme ao conjunto, além de evitar confusões com os vinhos. A taça bojuda para o Montrachet, a bordalesa menor para o Opus One e finalmente, a bordalesa Riedel linha Sommelier para o excepcional Margaux.

Voltando aos tintos, sempre que comparo os grandes Bordeaux a outros vinhos de mesmo perfil, lembro da famosa degustação de Paris (1976). Quando novos, dependendo da safra e do château, até posso admitir a supremacia dos norte-americanos. Porém, com o devido tempo de evolução em garrafa, e aqui falamos em mais de vinte anos de safra, a diferença é brutal. Com todo o respeito ao Opus One, um dos melhores californianos, sendo a Califórnia com folga, a região dos melhores tintos do Novo Mundo, a comparação é cruel. A elegância, o equilíbrio, a textura em boca, e o final extremamente bem acabado do Margaux 1990 deixa qualquer tinto desconcertado. A diferença entre as respectivas taças é muito menor do que a percepção sensorial mostra. Seguem abaixo, alguns dados técnicos dos vinhos.

Opus One 1999 84% Cabernet Sauvignon, 7% Merlot, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec, 1% Petit Verdot. 17 meses em barricas francesas novas. Primeira safra em 1979. Chateau Margaux 1990 Propriedade de 262 ha. 80 ha de vinhas. 18 a 24 meses em barricas novas. 130 mil garrafas. Primeira safra listada de 1771 em seu site oficial. Normalmente, temos 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, e o restante entre Cabernet Franc e Petit Verdot.

Portanto, vida longa aos aniversariantes e amigos presentes! Quanto aos Portos no final do jantar, após o café e charutos, já é uma outra história para o próximo artigo.

Sommellerie: Concursos

31 de Março de 2014

Depois de acompanhar vários campeonatos de sommeliers, tanto regionais, nacionais e alguns mundiais, sempre questiono o formato dos mesmos. É claro que trata-se de uma opinião pessoal. Longe de mim, pretender ou influenciar alguma mudança em seus padrões clássicos. Ocorre que certas etapas poderiam ser renovadas, proporcionando outra dinâmica a esses campeonatos. É o caso da degustação às cegas onde geralmente três vinhos são apresentados ao candidato sem nenhuma pista de sua origem quanto às uvas, regiões, denominações, safras, ou quaisquer outros parâmetros. Na prática, torna-se quase impossível adivinhar tais vinhos, mesmo com degustadores experimentados e de largo conhecimento. Além disso, são geralmente escolhidos vinhos de uvas raras, denominações quase desconhecidas, propositalmente para não serem identificados. Fica sendo mais uma diversão aos jurados, analisando os argumentos dos tensos candidatos. Mesmo para os melhores do mundo, não é tarefa fácil.

Paolo Basso: O atual campeão mundial

Na minha ótica, seria muito mais proveitoso, além de testar com lógica e eficiência os candidatos, propor-lhes uma degustação didática com temas interessantes. Por exemplo, três tintos de Bordeaux às cegas, sendo um de cada comuna do Médoc. Digamos, Pauillac, Saint-Estèphe e Margaux. Os candidatos poderiam através das taças, exporem as características específicas de cada comuna com um grau de detalhamento proporcional ao conhecimento técnico de cada um. Os candidatos ficariam mais à vontade para uma argumentação e o julgamento teria dados mais palpáveis para uma avaliação justa.

Vin Jaune do Jura e um velho Comté

Outra proposta interessante, seria pedir para cada candidato citar três vinhos diferentes de sua preferência. Conforme a resposta de cada um, viria a segunda pergunta. Para cada um dos vinhos citados, que tipos de prato o candidato em questão, proporia para seus vinhos escolhidos. Evidentemente, as características dos vinhos escolhidos teriam que ser comentadas, bem como os argumentos enogastronômicos para os pratos escolhidos. Neste tipo de avaliação, o conhecimento técnico e a experiência de cada candidato fariam uma enorme diferença entre os mesmos. Se por um lado, a escolha de vinhos mais simples e compatibilizações mais óbvias empobreceriam o desempenho de certos candidatos, em contrapartida, a escolha de vinhos mais complexos e compatibilizações mais surpreendentes dentro de um perfil técnico por parte de sommeliers mais diferenciados, resultariam em avaliações mais precisas e mais justas, separando claramente o joio do trigo.

Estas são apenas algumas ideias de renovação. O argumento mais citado para a permanência de padrões clássicos dos campeonatos reside no fato de proporcionar condições exatamente idênticas a todos os candidatos. Mesmo assim, continuo achando que a avaliação é imprecisa e amputa a oportunidade de percepção dos vários níveis de conhecimento dos candidatos, os quais estão calcados nas diversas experiências e trajetória de carreira de cada um. É como a seleção de executivos para um determinado cargo. O entrevistador deve ter a perspicácia de explorar pontos interessantes na conversa, de acordo com as experiências do candidato. Sendo assim, as entrevistas são sempre diferentes entre si e muito mais criteriosas.

Voltando aos concursos, esta nova dinâmica obrigaria os jurados a serem mais interativos, proporcionando situações bem menos previsíveis e por que não, por vezes surpreendentes. Neste contexto, a banca de jurados tem experiência e grau de conhecimento suficientes para lidar com situações diferentes e realizar julgamentos precisos e justos dentro do rigor técnico esperado.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) todas as terças e quinta-feiras. Pela manhã, no Manhã Bandeirantes, e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Vinho no restaurante: Posso servir?

20 de Janeiro de 2014

Posso servir? Esta é a pergunta que o sommelier faz ao anfitrião da mesa para prosseguir o serviço do vinho. Pergunta embaraçosa, dependendo do conhecimento do responsável pela mesa. Portanto, vamos esclarecer o assunto.

Quando o anfitrião tem muito pouco conhecimento técnico sobre vinhos, a resposta é geralmente hedonista, ou seja, o sujeito gostou ou não gostou do vinho. Embora, seja uma sensação importante gostar da bebida que será servida, tecnicamente não serve como justificativa para troca do vinho quando a resposta é negativa. É como você pedir uma dobradinha (bucho), detestando este tipo de prato. Em outras palavras, você pode estar diante da melhor dobradinha tecnicamente elaborada e ainda assim será detestável a seu paladar. Portanto, é importante analisar bem os vinhos da carta, procurando a ajuda do sommelier se for o caso, sempre focando no seu gosto pessoal, ou seja, que sensações me agradam quando gosto de determinados estilos de vinho. É evidente que o lado enogastronômico ou de harmonização devem influenciar na sua escolha, contudo não faz parte propriamente da recusa do vinho.

Tecnicamente, devemos recusar um vinho quando o mesmo apresenta-se bouchonné ou quando está oxidado. Bouchonné vem da palavra bouchon que em francês quer dizer rolha. Em outras palavras, o vinho está com gosto de rolha. Para quem nunca experimentou esta sensação, fica um tanto subjetivo explicar em palavras. De qualquer modo, o vinho perde a sensação de fruta, de frescor, e adquiri um aroma de pano molhado, papelão úmido, gaveta ou armário embolorado. Para complicar a questão, há vários níveis de bouchonné. Alguns facilmente perceptíveis, e outros, nem tanto.

O vinho oxidado, geralmente está ligado a um vinho com certa idade em relação à sua safra. Normalmente, passou do ponto de ser consumido e está numa fase decadente. Geralmente, lembra um aroma avermutado (vermute), a sensação de fruta é bem discreta, quase nula, e a boca apresenta uma secura desagradável. Também há vários níveis de oxidação e aqueles mais sutis geram muita polêmica. Outra fator importante, é não confundir um vinho evoluído com um vinho oxidado. O vinho evoluído está numa fase final, mas pode apresentar aromas raros e muito agradáveis ditos aromas terciários tais como: estrebaria, couro, sous-bois (aroma de terra úmida com vegetais em decomposição), cogumelos, entre outros. São aromas de gosto muito pessoal, tendo seus defensores e inimigos fervorosos. 

Paolo Basso: Referência em Sommellerie

Para encerrar a questão, se você não tiver preparado para esta decisão, certifique-se de estar diante de um bom sommelier. De fato, o bom profissional tem a obrigação de provar o vinho, dizimar estas dúvidas e providenciar a troca do mesmo quando for necessário. Com isso, a pergunta posso servir? será um simples protocolo com a sua permissão para a continuidade do serviço.

Enochato: Um estado de espírito

13 de Janeiro de 2014

O termo enochato, muito recorrente nos dias atuais, normalmente é mais um estado de espírito do que uma qualidade ou defeito. Uma pessoa não é enochata, ela está enochata. E esta situação não é restrita somente ao mundo dos vinhos. Qualquer assunto discernido e comentado de maneira inconveniente dentro de um determinado ambiente, pode produzir os mesmos efeitos desagradáveis e constrangedores. Imaginem um cardiologista reputado discorrendo sobre técnicas cirúrgicas com um vocabulário bastante específico ao assunto, numa roda de amigos com profissões completamente distintas da medicina. Portanto, não devemos criticar o conhecimento, quando houver, e sim o contexto e a forma como ele é explanado.

Bela oportunidade para ficar calado

Falar de vinhos de uma forma técnica é mais que natural quando estamos com pessoas do meio, sem nos tornarmos inconvenientes e dispensados de dar pequenas explicações quando nos referimos a um vocabulário bem específico.

Enochato pode ser contagioso

O grande problemas dos enochatos é quando temos falsos conhecedores de vinhos, o que hoje em dia é mais  que corriqueiro. O exemplo clássico é quando a pessoa faz um curso básico de vinhos, viaja para Argentina ou Chile uma única vez, e se diz entendedor de vinhos. Neste caso há um desserviço ao mundo do vinho, e as pessoas que dão ouvidos a este tipo de gente acaba absorvendo conceitos errados ou equivocados sobre degustação, enogastronomia, serviço do vinho, e por aí vai. O mais grave é que essas pessoas podem estar infiltradas nas lojas de vinhos (certos tipos de vendedores) e nos restaurantes com alguém intitulado pelo patrão como sommelier. Desconfie sempre de vendedores  que usam e abusam de adjetivos superlativos para vinhos relativamente simples. Na parte de sommellerie,  o competente chef de cozinha e sommelier Dânio Braga dá a receita: se um sommelier ficar mais de cinco minutos na mesa do cliente, está dispensado!

Lembro-me de um cliente no restaurante muito “detalhista e preocupado” com os vinhos quando solicitou alguns espumantes antecipadamente para um jantar empresarial. Pediu que os gelassem convenientemente para a recepção dos convidados. Na hora H, chegando os convidados, resolver suspender os espumantes alegando que o clima tinha mudado e estava muito frio. Prontamente, aconselhei-o a não suspender o serviço com o seguinte argumento: “Se o problema de servir espumantes estivesse relacionado ao clima, ninguém tomaria champagne em sua região de origem”. Ele pensou um pouco e resolveu dar  sequência ao serviço.

Portanto, fique atento a estas situações. Muitas vezes é melhor fazer como os bons médicos, voltando ao exemplo da medicina. Procure explicar com palavras simples, principalmente àquele de origem humilde e conhecimento restrito, um procedimento médico ou a situação real em que a pessoa se encontra. Deixe seus conhecimentos técnicos e vocabulário específico para um contexto mais apropriado. Em suma, mais uma vez o bom senso é a diretriz da questão.

Vinho Sem Segredo 2013 in review

2 de Janeiro de 2014

Olá amigos de Vinho Sem Segredo! Mais um ano de muitas conquistas, novos seguidores, chegando a quatrocentos artigos postados. Vinho Sem Segredo continua em sua meta dos mil artigos, uma média de cem a cada ano.

O foco continua sendo vinhos, enogastronomia, sommellerie e outros prazeres da boa mesa, sempre com muita seriedade e profissionalismo. Textos objetivos, educativos, sem blá blá blá. O lema é este: para escrever qualquer coisa, melhor não escrever nada.

Mais uma vez, enfatizo a total isenção do blog sobre os assuntos e matérias publicadas. Não temos nenhum vínculo comercial com importadoras, lojas de vinho, vinícolas, ou qualquer outra parceria que imponha alguma matéria encomendada.

Clique abaixo, e veja alguns números de Vinho Sem Segredo em 2013.

Por fim, Vinho Sem Segredo deseja a todos os seus seguidores, amigos e curtidores, um belo 2014, com muita saúde e pleno de realizações!

Continuem mandando sugestões de temas, críticas no bom sentido da palavra, e todo tipo de interação no objetivo de elaborar um blog cada vez mais interessante e com a cara de seus seguidores. Grande abraço a todos!

Click here to see the complete report.

Sommellerie: Two-Prong Cork Puller

1 de Julho de 2013

Já falamos algumas vezes sobre acessórios no serviço do vinho, mencionando inclusive o misterioso abridor de lâminas paralelas, também chamado amigo do mordomo. Este acessório é usado em casos especiais onde temos pela frente garrafas antigas e portanto, rolhas também antigas e fragilizadas pelo tempo. Estamos falando em rolhas com mais de vinte anos a serem removidas. São casos muito específicos que fogem de nosso dia a dia.

 Butler´s Friend (amigo do mordomo)

A maioria dos vídeos e demonstrações sobre a utilização deste tipo de abridor normalmente não refletem a situação real. Geralmente, são abertas garrafas de vinhos jovens e que portanto, nem precisariam deste procedimento. A pessoa introduz primeiramente a lâmina mais comprida e em seguida, a lâmina mais curta. Seus movimentos são rápidos e envolvem uma pressão exagerada na fixação do instrumento. Ocorre que na sua real utilização, a rolha está muito fragilizada, podendo romper com facilidade e normalmente bastante úmida quase em toda sua extensão. Nesses casos, o atrito lateral entre a parede interna do gargalo e a rolha costuma ser bem sútil. Com isso, a introdução mesmo que de maneira delicada, há grandes chances da rolha cair dentro da garrafa e por conseguinte, impossibilitar sua extração. Veja o vídeo abaixo, como podemos eliminar este problema quase inevitável em garrafas muito antigas.

http://youtu.be/2Os08NMUetA

Veja no vídeo, que o primeiro procedimento é travar a possibilidade da rolha cair dentro da garrafa. Com todo o cuidado, é introduzido um saca-rolhas em T até o final. Posteriormente, começamos a utilizar cuidadosamente o abridor de lâminas paralelas com toda a segurança em abraçar a rolha como se deve. Se você não possuir este acessório dois em um, bem acoplado, um saca-rolhas em T de pouca espessura apresenta desempenho semelhante.

É importante nos casos de rolhas muito antigas, remover toda a cápsula para uma total visualização do estado da rolha em todos os ângulos. Em seguida, remover bem todo o mofo de topo de rolha e qualquer outro vestígio impregnado no gargalo. Após a retirada da rolha com todo o cuidado, novamente faz-se necessário mais uma limpeza, principalmente no interior do gargalo. Em casa, é melhor utilizar bons guardanapos de papel não só pela higiene, como também por ser descartável, evitando lavagens demoradas com muitos produtos de remoção no caso dos guardanapos de tecidos.

Maiores informações sobre o vídeo, acessar o site www.durand.com mostrando mais detalhes.

Este artigo foi desenvolvido especialmente para um grande amigo que terá a cruel missão de abrir um Vintage Port 1977 (data de seu aniversário) em breve. Sugira você também um tema em sessão específica neste mesmo blog.

Harmonização: Riesling

17 de Junho de 2013

Voltando ao tema harmonização, muitas vezes temos que ser detalhistas, na medida em que a variedade de estilos de determinados vinhos ou determinadas uvas específicas se fazem presente. É o caso de uma questão da prova escrita no concurso mundial de sommeliers, realizado em Atenas no ano de 2004. Segue abaixo a questão:

Fazer a escolha de quatro vinhos da uva Riesling com diferentes características, para acompanhar quatro pratos descritos abaixo:

  1. Lagosta pocheada com molho levemente cremoso ao sabor de capim-limão
  2. Filé de veado ao ragú de marron-glacé e pera
  3. Suflê de queijo de cabra com molho de marmelo
  4. Frutas exóticas gratinadas com sobert de tangerina

Vinhos a serem harmonizados:

a. Riesling Polish Hill, Grosset, Clare Valley

b. Riesling Grand Cru Muenchberg, Ostertag, Alsace

c. Riesling Eiswein, Ernst Triebaumer, Neusiedlersee Hugelland

d. Riesling, Brauneberger Juffer Sonnenuhr Auslese, Fritz Haag, Mosel-Saar-Ruwer

Grosset: referência em Clare Valley

Começando pela lagosta, trata-se de um prato delicado, sobretudo pelo cozimento em água. O molho também delicado sugere notas cítricas (limão) em seu sabor. Dentre os rieslings propostos, o australiano Grosset de Clare Valley proporciona um exemplar bastante típico com notas de lima. Trazido ao Brasil pela importadora Vinci (www.vinci.com.br).  Portanto, esses sabores vão reverberar na harmonização. Resposta: letra a.

Riesling de longa guarda

O prato seguinte, filé de veado, trata-se de um prato de caça. Sabor pronunciado com molho agridoce baseado em marron-glacé (castanhas portuguesas) e pera. Precisamos aqui de um vinho de presença, com boa concentração e um toque de doçura. Dentre as opções acima, o auslese germânico Fritz Haag parece ser o mais adequado. É um vinho persistente e intenso. O produtor Fritz Haag é importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br). Resposta: letra d.

 

Ostertag: biodinâmico detalhista

Agora temos um suflê de queijo de cabra com molho de marmelo. É um prato delicado, mas saboroso. A acidez do queijo de cabra, aliado ao toque acre, quase cítrico do marmelo, pede um riesling de personalidade com boa mineralidade. O grand cru Muenchberg da Alsácia possui estas prerrogativas. Este produtor é representado no Brasil pela importadora Zahil (www.zahil.com.br). Resposta: letra b.

Grandes vinhos doces da Áustria

Por fim, as frutas exóticas gratinadas com sorbet de tangerina, exige um vinho com certa doçura e um bom suporte de acidez. Acidez essa presente não só nas frutas, como também no sorbert (sorvete à base da própria essência da fruta, água e açúcar, sem adição de leite ou creme de leite). Por exclusão, o Eiswein austríaco cumpre bem esta missão. É um vinho delicado, de presença, doçura muito bem balanceada e suficiente para o prato, por conta de sua marcante acidez tão bem casada com a acidez do prato. Resposta: letra c.

Portanto, esta é apenas uma das oitenta e sete questões propostas nesta prova em treze tópicos com os mais variados assuntos: viticultura, vinicultura, geografia, uvas, personalidades no mundo do vinho, legislação, destilados, bebidas em geral, cerveja, charutos, harmonização, entre outros. Convenhamos, ser campeão mundial com questões deste grau de dificuldade em um curto espaço de tempo para as respostas, é tarefa nada fácil.

Concurso Paulista de Sommeliers: ABS-SP

2 de Julho de 2012

Gerard Basset: atual campeão mundial

Nos dias 20 e 21 deste mês (julho/2012), a ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers) realizará o tradicional concurso paulista de sommeliers. Maiores informações no site da associação (www.abs-sp.com.br).

http://youtu.be/RHFmFKGpYKI

Clique no vídeo acima e observe pontos importantes para decantar um vinho maduro. Para aqueles que pretendem participar do concurso, é sempre bom estabelecer regras e prioridades para esta cena clássica sempre simulada neste tipo de evento e tão tradicional da sommellerie. Em artigos anteriores deste blog, já comentamos a real utilidade do cesto de vinho (sommellerie: wine basket), os principais motivos que nos levam a decantar um vinho (noções básicas de sommellerie), dentre outros procedimentos importantes neste métier.

O concurso engloba inicialmente uma prova teórica eliminatória envolvendo questões diversas sobre vinicultura, viticultura, enogastronomia, serviço do vinho, entre os temas mais importantes. Os classificados para a prova prática no dia seguinte, independente do campeão, teoricamente entram com boas chances no concurso brasileiro a ser realizado neste segundo semestre.

Aos candidatos, boa sorte a todos!