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John Gilman, as reflexões de um crítico de vinhos 2

11 de Dezembro de 2025

O paladar global está caminhando para uma tendência nos vinhos brancos. Vejo muitas pessoas buscando vinhos mais tensos, com acidez mais evidente. Vemos essa tendência na Borgonha e em todo o mundo. Jean-Louis Chave diz que hoje em dia é difícil vender o Hermitage Blanc. Como você vê isso?

A mudança na preferência dos consumidores por vinhos brancos mais frescos e vivos é um ótimo sinal, e é maravilhoso ver que tantos produtores também estão seguindo essa direção, elaborando vinhos com tanta precisão, mineralidade e tensão estrutural.

Concordo que os apreciadores de vinho hoje estão em busca de vinhos brancos mais crocantes, vibrantes e leves no palato, que, simplesmente, funcionam melhor com uma gama mais ampla de alimentos. Às vezes olho para trás e me pergunto como conseguia beber todos aqueles vinhos brancos mais ricos, pesados e macios na juventude, pois realmente os amava nos meus primeiros anos bebendo vinho!

Mas, voltando à declaração de Jean-Louis sobre a dificuldade de vender o Hermitage Blanc hoje, sou velho o suficiente para lembrar o quão difícil era vendê-lo na década de 1980, quando os vinhos eram mais crocantes e frescos do que são hoje, já que o aquecimento global ainda não havia começado a se impor em Hermitage. Gérard Chave, pai de Jean-Louis, fazia Hermitage Blanc absolutamente deslumbrantes naquela época — e ainda assim era praticamente impossível vender seus brancos. Eu frequentemente tinha duas ou três safras de Chave Blanc encalhadas nas prateleiras da loja.

E os preços naquela época eram verdadeiras pechinchas: Hermitage Blanc e Rouge de Chave custavam sempre o mesmo valor, por volta de US$ 35 a garrafa. Mesmo com os preços subindo um pouco no final da década, eu comprei uma caixa de Hermitage Rouge de Chave para minha adega todos os anos entre 1989 e 1997, porque era um dos maiores valores entre os vinhos tintos do mundo. Suspeito que Jean-Louis conseguiria vender todas as garrafas de vinho branco que produz hoje — se fossem vendidas por aqueles preços antigos!

Dito isso, o aquecimento global mudou completamente o Hermitage Blanc desde meados dos anos 1990, e o vinho agora é tão encorpado, opulento e relativamente alcoólico que provavelmente sou uma das poucas pessoas que nem o compraria para minha adega, mesmo a US$ 35 por garrafa. Simplesmente não gosto deles tão pesados e intensos. Antigamente, o Hermitage Blanc de Gérard Chave era tão fechado e estruturado em sua juventude — embora ainda fosse um vinho grande — que precisava ser guardado por no mínimo dez a quinze anos antes que alguém realmente pudesse apreciá-lo. Era simplesmente monolítico e impenetrável antes disso.

Participei de uma degustação vertical de Hermitage da Chave aqui em Nova York alguns anos antes da pandemia, e foi impressionante como os estilos dos vinhos brancos de Jean-Louis e de seu pai eram dramaticamente diferentes. Claro que parte disso se deve ao aquecimento global. Mas também devemos reconhecer que Hermitage Blanc e Hermitage Rouge jamais deveriam ter sido vendidos pelo mesmo preço, pois, para o meu paladar, os tintos são simplesmente vinhos intrinsecamente superiores — e a distância entre a qualidade final do Blanc e do Rouge parece aumentar a cada ano de mudança climática.

Para mim, hoje é em Saint-Péray que se produzem os melhores vinhos brancos do norte do Rhône, pois o clima lá é mais fresco, o que facilita muito a obtenção do corte, da frescor e da tensão nos vinhos — exatamente o que você observou com sabedoria ser a preferência do mercado atual.

Há muitos bons produtores e vinhos bem precificados ao redor do mundo. Qual é o seu conselho? O que você diria aos novos apreciadores? Explorar novas regiões?

Com certeza. Ainda há muitos vinhos excelentes sendo produzidos hoje em dia a preços razoáveis. Então, um jovem apreciador pode construir uma adega brilhante para os próximos anos simplesmente focando nos melhores produtores de regiões que ainda não enlouqueceram nos preços.

Você mencionou a família Chermette em Beaujolais. Tenho muito Cru Beaujolais na minha adega atualmente e gostaria de ter comprado mais no início da minha jornada como colecionador. Comecei a vender os vinhos de Pierre-Marie Chermette na safra de 1988, então os conheço há muito tempo — e sempre foram excelentes, com grande capacidade de envelhecimento. Beber um exemplo plenamente maduro de Cru Beaujolais de um dos principais produtores é algo maravilhoso, e hoje existem muitos deles: a família Chermette, Clos de la Roilette, Jean-Paul Brun, Pauline Passot, Château Thivin, Domaine des Billards, Daniel Bouland, Domaine du Pavillon de Chavannes são apenas alguns dos vignerons e vigneronnes que estão fazendo vinhos absolutamente deslumbrantes, dignos de serem guardados por dez a trinta anos.

E agora também temos algumas das melhores vinícolas da Côte d’Or produzindo Beaujolais. Joseph Drouhin sempre fez um excelente Beaujolais, e ele envelhece muito bem. Ainda estou bebendo os Crus de 2009 e 2010 da Drouhin da minha adega. Louis Boillot, Chantal e Frédéric Lafarge também estão fazendo Cru Beaujolais de alto nível para envelhecer.

Na Espanha, fora dos nomes mais consagrados e antigos, ainda é possível encontrar vinhos com ótimo custo-benefício — especialmente em regiões emergentes como a Galícia e as montanhas da Serra de Gredos. Você mencionou os vinhos de Alberto Nanclares, cujos Albariños são verdadeiramente mágicos e envelhecem facilmente por dez a vinte anos. E há outros grandes produtores de Albariño além de Alberto e sua esposa Silvia Prieto. Adoro os vinhos da Adegas Zárate, Palacio de Fefiñanes, Adegas Gran Vinum, Bodegas La Val, Do Ferreiro e vários outros. Suas cuvées de topo envelhecem lindamente e são excelentes investimentos. E, ao meu ver, os melhores vinhos da Galícia hoje estão sendo feitos em Ribeira Sacra e Bierzo.

Eulogio Pomares, da Adegas Zárate, iniciou um novo projeto em Ribeira Sacra chamado Quinta do Estranxeiro — e os vinhos são impressionantes (tanto os brancos quanto os tintos), com preços bastante acessíveis. Produtores como Envínate e Guímaro já são relativamente bem conhecidos por seus ótimos tintos da Ribeira Sacra — um pouco mais caros, mas ainda assim verdadeiras barganhas se comparados a preços de regiões mais famosas. A Adegas Algueira também faz vinhos excepcionais, mais uma vez, tanto brancos quanto tintos. E gosto bastante dos vinhos de produtores como Adega Damm, Castro Candaz, Divina Clementia e Dominio do Bibei.

Já em Bierzo, há pelo menos tantos bons produtores quanto em Ribeira Sacra — liderados por Raúl Pérez, Ricardo Pérez da Descendientes de José Palacios, Luna Beberide e a Virgen del Galir, vinícola do grupo Cuné em Valdeorras, que também está produzindo vinhos excelentes com preços relativamente muito acessíveis.

Você também mencionou Éric Texier. Adoro os vinhos do Éric e tenho vários na minha adega. Ele sempre foi particularmente atento à relação qualidade-preço, e, em especial, seus vinhos de Brézème estão entre os maiores achados do Vale do Rhône.

E você também citou os vinhos da Schloss Lieser. A Alemanha tem inúmeros grandes produtores hoje em dia e, como mencionei antes, até agora eles têm se saído relativamente bem na corrida contra o aquecimento global. É possível comprar vinhos no estilo clássico meio seco com ótimo preço, de produtores como Weingut Willi Schaefer — ou Rieslings secos ou doces de uma longa lista de vinícolas que estão no auge: Schloss Lieser, Julian Haart, Dönnhoff, Weiser-Künstler, Schäfer-Fröhlich, a família Zilliken, Maximin Grünhauser, entre muitos outros. Com certeza estou esquecendo dezenas que mereciam estar nessa lista.

Os vinhos alemães ainda representam ótimos valores hoje em dia, fora alguns dos nomes mais badalados. Portanto, esses vinhos seriam a base da minha adega se eu estivesse começando agora, jovem. O Riesling envelhece tanto quanto a maioria dos tintos — e melhora drasticamente com o tempo em adega — então há muitos tesouros a serem descobertos no futuro por aqueles que tiverem a sabedoria de comprá-lo agora.

Um dos maiores impactos de Robert Parker no mundo do vinho foi que muitas vinícolas e consultores passaram a fazer vinhos encorpados e potentes para garantir boas notas. Isso acabou? Ou Parker foi substituído pela “ansiedade” — já que no Brasil, por exemplo, muitas pessoas não querem esperar 10, 15 ou 20 anos para beber um grand cru, um Bordeaux ou um Vega?

Essa foi uma fase triste da, de outro modo, muito respeitável carreira de Robert Parker — quando seu paladar se deteriorou a ponto de ele passar a adorar vinhos grandes, alcoólicos e sobremaduros. Tenho uma teoria de que o desenvolvimento da gota teve algo a ver com isso, pois minha intuição me diz que os medicamentos que ele tomava para controlar a gota afetaram negativamente seu paladar na última década de sua atividade como crítico. Não sei se isso é um fato. Mas parece que o início da gota e sua paixão por vinhos mais alcoólicos e maduros coincidem no tempo.

De qualquer forma, não há dúvida de que produtores em regiões onde a influência de Parker era crucial para o sucesso financeiro começaram a moldar seus vinhos unicamente para impressionar esse novo paladar dele. Pessoas como Michel Rolland foram rápidas em capitalizar essas mudanças — e fizeram fortunas atendendo ao gosto de Parker naquela época. Pode-se até argumentar que Bordeaux nunca se recuperou disso. Helen Turley fez algo semelhante na Califórnia, aproveitando-se do apreço de Parker por seu estilo de vinho — e muitos proprietários gananciosos de vinícolas foram rápidos em contratá-la para aproveitar esse favoritismo. Isso funcionou bem para Rolland, Helen, Parker e os donos de vinícolas — mas deixou muitos colecionadores com adegas cheias de vinhos medíocres, na minha opinião.

Indo para a outra parte da sua pergunta, a relutância atual dos consumidores em envelhecer vinhos é uma das grandes questões incertas do nosso tempo. Isso é bom para o mundo do vinho ou é ruim?

Compreendo totalmente o impulso de querer beber vinhos cedo — também abri muito mais vinhos da safra 1985 da Borgonha nos primeiros anos do que deveria. Se eu tivesse guardado esses vinhos até hoje, com certeza estaria em ótima situação! Vou usar como desculpa o fato de que a safra de 1985 foi um ponto de virada na minha carreira no comércio de vinhos. A loja para a qual eu comprava vinhos na época nunca havia oferecido vinhos de alto nível da Borgonha antes de me contratar. Aí veio a safra de 1985 e eu arrisquei: achei que, se comprássemos os vinhos, os amantes da Borgonha encontrariam a loja. E foi exatamente o que aconteceu — embora meus chefes quase me demitissem quando viram os preços!

Mas eles me deram a chance de vender antes — e vendemos rapidamente. Alguns desses novos clientes me convidaram para entrar em um grupo de degustação às cegas. Eram, em sua maioria, médicos vinte ou trinta anos mais velhos que eu (eu tinha 26 anos na época), com adegas profundas, repletas de grandes vinhos. Lembro de alguns dos voos de vinhos do primeiro encontro: uma rodada com BV Private Reserve 1970 ladeado por Mouton e Pétrus da mesma safra; outra com Bonnes-Mares 1969 de Roumier ao lado de Richebourg 1969 de Jean Gros. Aprendi muito com esse grupo.

Mas eu precisava ter algo à altura para servir quando era minha vez de organizar uma degustação. Por isso, muitos dos meus melhores vinhos de 1985 da Borgonha foram servidos a esses médicos, pois eram deliciosos ainda jovens — e me permitiam retribuir a generosidade deles com algo igualmente deslumbrante.

Talvez eu não tivesse desenvolvido a mesma paixão por vinhos plenamente maduros se não tivesse sido incluído nesse grupo de degustação. Muita gente no comércio de vinhos se contenta em beber vinhos jovens — provam vinhos o dia inteiro e sempre sobra alguma garrafa aberta para levar para casa. Mas acho isso uma pena, pois vinhos clássicos, feitos de forma tradicional, são infinitamente mais complexos e gratificantes após dez ou vinte anos de adega. Depois que você tem essa experiência, é difícil voltar e encontrar o mesmo prazer em vinhos jovens — pelo menos para mim.

Mas a equação hoje é mais complicada. Primeiro, o vinho está muito mais caro. É muito mais difícil montar uma adega se você não for rico. O custo de vida subiu drasticamente nas últimas três décadas, e cada vez menos pessoas têm renda disponível para guardar caixas de vinho por 20 anos. Eu cresci na classe média, mas consegui formar uma adega porque, na época, o vinho ainda era acessível. Uma garrafa de Lynch-Bages 1985 custava US$ 18, e o Pichon-Lalande da mesma safra, US$ 22. Mesmo com um salário modesto, eu conseguia guardar algumas garrafas para longo prazo. A primeira garrafa de Chambertin de Rousseau que comprei (e foi um grande esforço!) custou US$ 65. Mas eu economizava em outras coisas — quase não tirava férias e nunca tive um carro novo. Mesmo hoje, dirijo bons carros — mas sempre usados.

Se eu estivesse começando agora, com o mesmo tipo de sacrifícios e salário, provavelmente conseguiria comprar uma fração mínima do que comprei nos anos 1980 e 1990. A não ser que focasse em outras regiões, diferentes de Bordeaux, Borgonha, Rhône e Califórnia.

Por isso faz total sentido que tantos jovens queiram beber seus vinhos especiais logo. Se gastam uma fortuna em uma garrafa, não querem enterrá-la na adega por 15 anos. O problema é que, se o vinho for clássico em estilo, ele foi feito para envelhecer — e não estará nem perto de seu melhor se aberto cedo.

E é importante reconhecer que o número de vinhos clássicos está crescendo nos últimos tempos, pois cada vez mais jovens enólogos querem deixar para trás a era Parker e retornar a vinhos estruturados de maneira tradicional. É por isso que os grandes produtores tradicionais de Rioja prestam um grande serviço aos consumidores — ainda fazem boa parte do envelhecimento em garrafa antes de lançar seus vinhos. Os preços subiram, claro — alguns mais do que outros —, mas ao menos permitem que o consumidor beba vinhos já maduros e entenda do que se trata.

Se voltarmos à máxima de Henri Jayer — de que tudo o que é grandioso em um vinho nasce no vinhedo, e não na adega —, podemos traçar uma linha entre os dois grandes estilos de vinho atuais. Um deles é o vinho feito no vinhedo, geralmente por jovens inspirados que buscam resgatar a era de ouro dos vinhos tradicionais. Um ótimo exemplo é o casal Sean e Joanna Castorani, da Model Farm, na Califórnia — jovens produtores que compreendem o valor dos vinhos clássicos e seguem esse caminho.

O outro grupo são os modernistas, que fazem vinhos na adega, ajustando tudo para que estejam prontos para beber jovens. Penso neles como os “produtores de fast food do vinho” — moldam seus produtos com técnicas de adega da mesma forma que McDonald’s ou Nabisco. São filosofias completamente diferentes. E eu, pessoalmente, acho a abordagem tradicionalista muito mais atraente.

Mas ela exige consumidores que entendam, apreciem e estejam dispostos (e possam) dar tempo ao vinho — porque os vinhos tradicionais são sempre mais estruturados quando jovens. E, sinceramente, não sei quantos jovens consumidores hoje compreendem isso e estão dispostos a esperar que esses vinhos desabrochem. Lembre-se: a maioria dos adultos hoje tem uma atenção de apenas sete segundos… por causa dos celulares!

O jornalismo de vinhos passou por muitas mudanças. O Wine Advocate foi comprado pelo Michelin, o Vinous organiza muitos eventos no X e no Instagram há muitos “críticos de vinho”. Como você vê essa tendência e seu impacto, considerando também que escrever sobre vinhos exige viagens, degustações — ou seja, custa caro? Está se tornando mais difícil manter a imparcialidade?

Mais uma vez, provavelmente não sou a melhor pessoa para responder a essa pergunta agora, já que não leio nenhum outro crítico ou jornalista de vinhos atualmente. Mas eu lia absolutamente tudo que era publicado quando trabalhava como comerciante e sommelier. Então eu sei muito bem como era “naquela época”.

Na verdade, foi a escrita de Robert Parker, no início de sua carreira, que realmente me fez considerar o comércio de vinhos como uma possível profissão. Eu lia The Wine Advocate de capa a capa a cada edição e ficava imaginando como seria provar todos aqueles vinhos históricos e grandiosos que ele descrevia. Vinhos como o Hermitage “La Chapelle” 1961 de Jaboulet, ou o Château Pétrus 1961, sempre mexiam com a minha imaginação. Eu queria experimentá-los.

Mas, como você corretamente apontou, mesmo naquela época já custava caro beber esses vinhos lendários — e hoje está ainda pior. Agora, tudo que é famoso no mundo do vinho tem preço voltado exclusivamente para os oligarcas do Putin ou o LeBron James e seus amigos!

Então, se alguém quiser entrar para o jornalismo de vinhos hoje, ou já vem de uma família rica e não precisa se preocupar com dinheiro, ou precisa criar um modelo de negócios que gere bastante receita para bancar todas as viagens e vinhos caros que precisa provar. Provavelmente tive sorte de nascer na época certa, pois mesmo os vinhos mais famosos não eram tão caros quando comecei na profissão, nas décadas de 1980 e 1990. À medida que fui ganhando experiência e reconhecimento, mais oportunidades surgiram para provar alguns dos maiores vinhos da história.

Hoje em dia, é por isso que vemos mais críticos de vinho organizando “eventos” — é uma maneira de ganhar dinheiro sério. Mas, para isso, é preciso cobrar caro — e muitas vezes os críticos dependem de “doações” das vinícolas para fornecer os vinhos para os eventos. Isso cria um conflito de interesse inerente logo de saída.

Além disso, os preços elevados desses eventos acabam excluindo uma porcentagem significativa de possíveis clientes, de modo que, no fim, você acaba cuidando apenas da elite super rica, pois seu modelo de negócios exige isso. E essa elite endinheirada pode ser facilmente ofendida — especialmente se for dona de vinícolas. Assim, a autocensura acaba se tornando inevitável em certas circunstâncias, caso o crítico escolha seguir esse caminho. Tudo vai bem… até chegar uma safra catastrófica como 2003 em Bordeaux!

De certa forma, fui afortunado por ter me apaixonado pela Borgonha muito cedo na carreira. Na época, a Borgonha era sempre considerada uma região “complicada” — o que, para mim, era parte de sua grande atração. Sempre haveria mais para aprender. E, como havia pouquíssima literatura de qualidade sobre Borgonha nos anos 1980, eu sempre imaginei que havia muito abaixo da superfície que os críticos da época simplesmente não compreendiam o suficiente para captar. E, de fato, isso se confirmou.

Como comerciante, vendi muitos grandes Borgonhas antigos a preços relativamente baixos durante a década de 1990, simplesmente porque a maioria dos profissionais do ramo — e praticamente todos os críticos — não entendiam os vinhos da região ou suas safras. Safras como 1972 foram minas de ouro para mim em meados dos anos 1990, pois ainda havia vinhos circulando nas adegas, e ninguém sabia o quão bons tinham se tornado após mais de vinte anos. O mesmo com os tintos de 1980, e os de 1987 — que eram vinhos médios, belíssimos, completos, mas que o mercado nova-iorquino não conseguia vender. Os importadores então liquidavam esses estoques, esperando compensar com margens maiores nas safras de 1988, 1989 e 1990.

Lembro de ter vendido centenas de caixas combinadas de Rousseau Chambertin e Clos de Bèze 1987 e Drouhin Musigny 1987 por US$ 40 a garrafa por volta de 1992–1993. Imagine conseguir esse volume desses vinhos hoje! Mas os importadores simplesmente não sabiam o quão bons eles eram.

Vender muito Borgonha me abriu as portas para degustações de altíssimo nível naquela época, o que me ajudou a desenvolver um conhecimento profundo de vinhos muito além da minha faixa salarial. Hoje isso seria impossível, a menos que a pessoa já fosse muito rica.

Por isso, realmente não sei qual será o futuro para os jovens que aspiram escrever sobre vinhos. Falar sobre os vinhos mais famosos do mundo — Latour, Lafite, La Tâche, Musigny — será praticamente impossível, a menos que você ou sua família já sejam ricos. Esses vinhos estão simplesmente caros demais. Isso significa que uma parte importante da memória institucional do mundo do vinho está condenada a desaparecer para os novos escritores — e isso já está acontecendo até certo ponto.

Quando conheço jovens críticos em degustações, fica evidente que eles não conhecem muitos desses vinhos. Como poderiam, com os preços de hoje?

Veja os Premier Crus de Bordeaux. Nos anos 1980, custavam cerca de US$ 75 por garrafa nos EUA (menos na Europa). Então dava para se dar ao luxo de comprar uma garrafa jovem e entender por que esses vinhos eram tão famosos. Hoje, uma garrafa de Lafite 2019 custa no mínimo US$ 500 ou US$ 600. Isso está completamente fora do alcance da maioria dos jovens — e o resultado é que eles simplesmente ignoram os vinhos de Bordeaux por completo.

Essa é uma das verdades que percebi ao longo das décadas no comércio de vinhos: se os jovens não conseguem ao menos provar os grandes vinhos de uma região, eles param de prestar atenção em todos os vinhos daquela região. Eles não querem se sentir sentados “na mesa das crianças”, do lado de fora de um restaurante estrelado, sendo servidos com McDonald’s — enquanto veem os ricos saboreando alta gastronomia pelas janelas!

Além disso, devemos lembrar que os Premier Crus de Bordeaux viraram ativos de investimento. Um cara do mercado financeiro compra cem caixas de cada um dos Premier Crus de uma safra badalada como 2010 ou 2019 e simplesmente deixa em um armazém até que se valorizem o suficiente para ele revender com lucro. Ele nem se importa se o vinho é bom ou não!

Nos anos 1990, você estava tão acostumado a beber vinhos do Coche-Dury que chegou a brincar: “Perrières de novo?”. Aqueles eram os bons tempos. Se você pudesse escolher 5 grandes garrafas que bebeu na vida, quais seriam?

Por um lado, essa é uma pergunta muito difícil para mim, já que certamente fui abençoado por ter bebido muitos vinhos verdadeiramente mágicos ao longo da minha longa carreira. Mas, se tiver que escolher um grande vinho que ainda se destaca, seria, sem dúvida, o Musigny “Vieilles Vignes” 1945 do Domaine Comte de Vogüé.

É até uma história curiosa. Na época, eu trabalhava como comerciante em uma loja de vinhos em Manhattan, cujo dono era particularmente mesquinho e corrupto. Esse homem me ensinou muitas lições de vida — e nenhuma delas foi boa! Mas ele gostava de ganhar dinheiro, então me deixava fazer cerca de dois terços das compras da loja. A equipe costumava brincar que havia duas lojas dentro da loja: a loja dele, cheia de vinhos ruins, e a minha loja, repleta de tesouros do mundo do vinho.

Em certo momento, ele recebeu duas garrafas do Musigny 1945 de um fornecedor do mercado cinza em Londres, como compensação por um lote que havia chegado com menos garrafas do que o acordado. Quando as garrafas chegaram, estavam com nível baixo (cerca de 7 cm de ullage). Ele ligou para o fornecedor, recebeu um crédito pelas garrafas — e elas simplesmente ficaram paradas no estoque, sem serem vendidas.

Li a nota apaixonada de Michael Broadbent sobre esse vinho e fiquei curioso. Observei a cor das garrafas — já tinham cerca de 50 anos — e estavam perfeitas: vermelho cereja vibrante, cristalinas. Presumi que estavam em bom estado e ofereci comprá-las. Ele achou que estava me passando a perna e me vendeu as duas por US$ 125 cada.

Não queria abrir um vinho potencialmente grandioso sem amigos para compartilhar, então organizamos uma degustação em grupo com esse tema em Manhattan. Ainda me lembro de alguns dos vinhos que os amigos trouxeram para acompanhar o Musigny 1945: Clos Vougeot 1985 de Dr. Georges Mugneret, Musigny “Vieilles Vignes” 1972 do Comte de Vogüé, Bonnes-Mares 1966 do mesmo produtor, e um Richebourg 1980 da DRC. Nosso grupo sempre servia os vinhos do mais jovem ao mais antigo — então o 1945 foi o último a ser aberto.

O vinho estava perfeito! O perfume era tão doce e vibrante que encheu a sala assim que o vinho foi decantado. Continua sendo, até hoje, um dos maiores vinhos que já bebi. Acabei compartilhando a segunda garrafa com aquele grupo de médicos que me acolhera anos antes, num jantar de Natal alguns meses depois. Foi uma forma de agradecer pela generosidade deles ao longo dos anos — e essa segunda garrafa também estava perfeita.

Outra memória que certamente está entre as maiores foi o meu primeiro Henri Jayer da safra de 1985. O problema é que, nesse jantar, tivemos não apenas um, mas três vinhos de 1985 de Jayer, todos em um restaurante em Gevrey-Chambertin chamado Les Millésimes (hoje fechado). O restaurante tinha o Vosne-Romanée “Les Brûlées”, o Cros Parantoux e o Echézeaux de 1985 na carta — e organizamos um jantar com gente suficiente para provar os três juntos!

Naquele ponto da minha carreira, eu já havia provado vários vinhos de Jayer, mas principalmente de safras como 1987, 1982 e 1980 — que eram mais acessíveis. Todos brilhantes. Mas beber os três 1985 lado a lado foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como apreciador.

Também devo mencionar um jantar de aniversário de 50 anos de um amigo, que organizamos há uns vinte anos. Cada um foi convidado a levar uma garrafa especial para compartilhar. Eu levei um Cros Parantoux 1990 de Méo-Camuzet — então já dá para imaginar o nível das garrafas na mesa.

Mas um dos convidados levou um Cabernet Sauvignon 1974 da Mayacamas, e o vinho foi uma das estrelas da noite! Isso reacendeu minha paixão por esses clássicos cabernets de Napa, que havia ficado adormecida por mais de vinte anos, já que meu foco profissional era a Borgonha. Mas, nos meus primeiros anos, esses vinhos tradicionais de Napa foram minha primeira paixão — e aquele 1974 me lembrou de sua grandeza.

Depois disso, comecei a escrever sobre essa era dourada dos cabernets e passei a comprar muito Mayacamas. Conheci Bob Travers enquanto escrevia sobre seu trabalho, e contei a ele essa história. Ele ficou muito feliz — sempre tive a impressão de que o trabalho dele foi pouco reconhecido pela geração dele. Os holofotes estavam sobre gente como Robert Mondavi, mestre das relações públicas. Já Bob Travers ficou quieto no Mount Veeder, fazendo os maiores cabernets da história da Califórnia — e quase ninguém percebeu.

Outra grande memória foi um jantar em Manhattan só com vinhos antigos da margem direita de Bordeaux, realizado perto do meu aniversário. O jantar era absurdamente caro para mim na época, mas a lista de vinhos era inacreditável: Cheval Blanc 1947 e 1949, Latour à Pomerol 1949 e 1961, Lafleur 1950 e outra safra, e Pétrus 1950 e 1961 — todos servidos em magnum. Para bancar isso, vendi meu pequeno estoque de Musignys jovens do Comte de Vogüé (1990, 1991 e 1993). Foi um ótimo negócio! Foi a única vez que provei o Pétrus 1961.

Mais ou menos na mesma época, organizei um jantar com Christophe Roumier em sua casa, em Chambolle-Musigny. Cada convidado levou uma garrafa especial. Começamos com um Meursault “Perrières” 1990 da Coche-Dury, e eu levei um Chambolle-Musigny “Les Amoureuses” 1962 da Joseph Drouhin. Tivemos vários outros grandes vinhos — e então Christophe abriu suas contribuições: Bonnes-Mares 1945, 1934 e 1928!

E preciso incluir minha lembrança mais recente de um “grande vinho”: foi no final da minha viagem à Borgonha, interrompida em dezembro de 2023. Você talvez se lembre — precisei ser hospitalizado logo após chegar a Beaune, com uma embolia pulmonar. Quase perdi a vida naquele dia — e foram os excelentes médicos do hospital de Beaune que me salvaram.

Eles insistiram que, depois de sair do hospital, eu não fizesse nada além de descansar. Sem degustações, sem jantares sofisticados — só repouso para me recuperar e estar forte o bastante para o voo de volta. Robert Drouhin e sua esposa souberam da minha hospitalização e me convidaram para almoçar com eles no dia anterior ao meu retorno. O filho deles, Philippe, também se juntou.

Robert Drouhin é uma das figuras mais importantes de sua geração na Borgonha. Muito do sucesso atual da região está ligado ao trabalho que ele e seus contemporâneos fizeram para ajudar a Borgonha a se reerguer após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Eu já havia feito uma entrevista com ele no início daquele ano, o que me permitiu conhecê-lo melhor. Já tinha grande apreço pelos vinhos e pela importância da família Drouhin, mas a entrevista me ajudou a compreender como a região era diferente quando ele começou a comandar a maison e como os tempos eram difíceis no pós-guerra.

Foi com eles que almocei, com frango assado e queijos, acompanhados de um Musigny 1962 — um dos meus vinhos favoritos de todos os tempos. Foi um ótimo dia para estar vivo em Beaune.

12) Se você fosse sommelier hoje e fosse convidado a harmonizar vinhos com o menu servido no filme “A Festa de Babette”, quais seriam suas escolhas? (Clos Vougeot, com certeza — de quais produtores? Anne Gros, Mugneret-Gibourg, Hudelot-Noëllat — se li bem… Champagne Blanc de Blancs de quem? Jerez etc.)

Fico muito feliz por você ter feito essa pergunta — porque ela me lembrou que não assisto A Festa de Babette há uns 25 anos! Vou fazer questão de assistir de novo em breve. Sempre amei esse filme.

Considerando que Babette era uma grande chef francesa no filme, eu gostaria de manter a coerência cultural da narrativa e harmonizar os pratos com vinhos franceses, como ela mesma fez. Seria divertido escolher os vinhos mais espetaculares possíveis para acompanhar cada prato, mas isso iria contra tudo o que discutimos aqui sobre o quanto é triste que os vinhos mais famosos estejam hoje absurdamente caros.

Então aqui vai um cenário de harmonizações possível, com vinhos atuais que complementariam lindamente a cozinha da Babette — sem precisar esvaziar completamente a conta bancária:


Potage à la Tortue (sopa de tartaruga)

Champagne Corbon “Brut d’Autrefois” Blanc de Blancs NV

Sei que é servido um Amontillado no filme, mas eu começaria com um Champagne — e com características de envelhecimento. Essa cuvée de base solera feita por Agnès Corbon oferece exatamente isso.


Blinis com caviar e crème fraîche

Louis Roederer Brut Rosé Millésime 2008

Tendo começado com um Blanc de Blancs, agora eu gostaria de trazer mais presença de Pinot Noir para o Champagne. O Rosé Millésime da Roederer é tão elegante e vibrante que funcionaria perfeitamente aqui — e ainda antecipa o Clos Vougeot envelhecido que virá a seguir.


Codornas em massa folhada com foie gras e molho de trufas

Clos Vougeot 2000 – Domaine Georges Mugneret-Gibourg

Sei que esse vinho é caro hoje em dia, mas não queria quebrar o encanto do filme escolhendo um Clos Vougeot que não seja envelhecido. Pelo menos a safra 2000 não está entre as mais caras. E o Clos Vougeot tem que ser das irmãs Mugneret, porque elas fazem, hoje, o maior exemplo desse vinhedo em toda a Borgonha.


Salada de endívias

Sancerre “Monts Damnés” 2008 – Domaine François Cotat

A safra 2008 ainda está disponível no mercado, porque foi um ano menos maduro e, portanto, menos valorizado pelo mercado. Mas eu prefiro essas safras menos quentes para os vinhos do Cotat hoje em dia — e os tons herbáceos e botânicos do Monts Damnés, com a maturidade de 2008, seriam uma harmonização lindíssima com a endívia.


Bolo de rum com figos e cerejas cristalizadas

Château Climens 1988

Os Sauternes e Barsac envelhecidos ainda são relativamente fáceis de encontrar no mercado, então seria um desperdício servir um vinho mais jovem aqui. Adoro a elegância e leveza do Climens — cairia perfeitamente com a sobremesa.


Queijos curados (fromages affinés)

Domaine Huet “Clos de Bourg” Moelleux Première Trie 1989

Depois do Barsac com o bolo de rum, seria difícil voltar a um vinho seco. Então, mudaria de uva — e de região — e optaria por um Vouvray igualmente envelhecido. Os vinhos da Huet têm mais acidez, o que deixaria o paladar mais revigorado e equilibrado para o final do jantar.

Você já bebeu vinhos da América do Sul? Qual é a sua opinião?

É engraçado, porque eu conhecia e vendia razoavelmente bem os vinhos sul-americanos na época em que trabalhava como comerciante de vinhos, mas acabei perdendo o contato com o que vem acontecendo por lá depois que passei para a fase de escritor.

É uma pena, pois só cheguei a ver o início da renascença vinícola da região. Naquela época, eu vendia principalmente vinhos como Los Vascos, Santa Rita e Trapiche. Tive o bom senso de começar a oferecer os vinhos da Bodegas Weinert assim que ficaram disponíveis em Nova York — mas mesmo esses vinhos eram apenas a ponta do iceberg. Tenho certeza de que há muitos vinhos muito mais sérios sendo produzidos atualmente em toda a América do Sul, por parte dos melhores produtores.

Fui convidado para uma viagem ao Chile logo no início da minha carreira com a View From the Cellar, mas acabei pegando uma gripe e não pude ir. E, desde então, nunca mais tive a oportunidade de visitar a região. É uma grande lacuna no meu conhecimento de vinhos, e lamento não ter tido a chance de visitar antes de desenvolver Covid Longa, porque hoje é muito difícil para mim viajar — não consigo me imaginar fazendo uma viagem de degustação à América do Sul nas condições atuais.

Mas quem sabe, um dia, eles descubram um tratamento eficaz para todos nós que ainda sofremos com sintomas de Covid Longa ao redor do mundo — e eu finalmente terei a chance de visitar.

Sopas de Inverno

26 de Junho de 2018

Um dos temas mais consultado ultimamente em Vinho Sem Segredo são sopas. De fato, com noites mais frias e a chegada do inverno, torna-se irresistível um prato quentinho e reconfortante. Sem entrar em receitas complicadas, vamos abordar algumas sopas clássicas do cotidiano paulista, preparada em casa de maneira descontraída. Lógico que a brincadeira é acompanha-las com vinho, o que não é tão simples assim.

A dificuldade da harmonização de vinhos e sopas está relacionada com temperatura do prato, textura incompatível, e pela própria natureza do prato de característica líquida. Em linhas gerais, muitas sopas de sabor substancioso apresentam um caldo relativamente ralo, criando um problema de textura. Quanto à temperatura, a indicação clássica dos vinhos fortificados de Jerez, é que são vinhos mais quentes devido ao teor alcoólico, mais compatíveis com a temperatura da sopa. Além disso, a personalidade desses vinhos criam uma sinergia com caldos mais substanciosos. Inesquecível em Festa de Babette, o Jerez Amontillado acompanhando a exótica sopa de tartaruga. Vide Menu Harmonizado: A Festa de Babette

Voltando ao dia a dia, vamos a três exemplos de sopas de caráter mais frugal, bem presentes nas mesas familiares.

sopa de legumes

Sopa de Carnes e Legumes

Uma espécie de Minestrone adaptado, este tipo de sopa nasce de cortes de carne baratos como músculo, acém, coxão duro, entre outros, que depois de devidamente temperados e refogados, junta-se água e legumes para um não muito longo cozimento em pressão. Acrescenta-se o macarrão na fase final e está pronta para ir à mesa quentinha com queijo parmesão ralado como opção. Receita barata e farta.

Por uma questão de tipologia, não cabe pelo prato e ocasião absolutamente despretensiosas, pensar em vinhos caros e sofisticados. O macarrão, a carne, e os legumes, dão uma certa consistência e textura ao prato. O sabor não costuma ser muito intenso, embora bastante reconfortante. Pelas questões de temperatura e período invernal, o vinho tinto é mais procurado, embora um Chardonnay com leve passagem por barrica possa ser uma opção para brancos. De todo modo, vamos na direção de vinhos tintos jovens, frutados, sem passagem por barrica, e de certa maciez em boca. Malbecs mais simples de boa procedência, Merlots da Serra Gaúcha, Valpolicellas, e alguns Riojas Joven, são opções em conta e extremamente adequadas.

sopa de feijão

Sopa de Feijão

Outra sopa do dia a dia e muitas vezes aproveitando um feijão já feito. Normalmente, o caldo é mais encorpado, criando uma textura mais cremosa. Normalmente, acrescenta-se macarrão no cozimento. Além do próprio sabor do feijão, carnes de porco como linguiça ou bacon, dão mais intensidade ainda ao prato.

Aqui o vinho precisa ser tinto e de maior riqueza aromática. Os tintos alentejanos com relativa passagem por madeira são belas opções. Tintos do sul da Itália e do sul da França também costumam dar certo. Na Espanha, os Tempranillos com passagem por barrica são bem-vindos e especialmente os tintos de Toro com certa rusticidade, bem de acordo com o prato.

sopa de mandioquinha

Sopa-Creme de Mandioquinha

Aqui uma homenagem a Sergio Arno do saudoso La Vecchia Cucina. Uma sopa que pode ser servida fria, mas que pode muito bem ser um prato quente nos dias de inverno. A receita além da mandioquinha, leva a parte branca do alho-poró, caldo de carne, e creme de leite. Na hora de servir, pode ser finalizada com cebolinha francesa e um fio de azeite extra-virgem. Na versão fria do restaurante, havia ovas de salmão na finalização também. Segue link da receita: https://vejasp.abril.com.br/cidades/receita-de-sopa-de-mandioquinha-do-la-vecchia-cucina/

Neste caso, a delicadeza da sopa e dos ingredientes nos direcionam a um vinho branco. O toque adocicado da mandioquinha sugere um branco frutado, eventualmente com um toque off-dry. Voltando aos vinhos fortificados, um Madeira Sercial ou Verdelho pode ser um belo acompanhamento para quem vai ficar apenas numa taça. Para os brancos tranquilos, Chardonnays frutados e sem madeira, Viognier modernos, ou alemães do tipo Spätlese com certa doçura, são belas pedidas. Brancos do Alentejo e alguns Vermentinos bem frutados podem dar certo. O importante é  o lado frutado do vinho com uma textura mais ou menos rica.

IMG_4622.jpgestilo de Madeira seco nada frugal

Enfim, sopas em dias frios são quase irresistíveis. O vinho mais adequado tem a ver com a intensidade de sabor e textura do prato. Na dúvida, os vinhos fortificados como Jerez e Madeira são portos seguros, sobretudo se ficarmos somente numa taça. Essa opção fica reforçada quando este prato é apenas uma entrada de um extenso menu. Bom apetite! 

 

Clos de Vougeot: a escolha de Babette

3 de Maio de 2018

No inesquecível filme “A festa de Babette”, o tinto escolhido para o lauto banquete foi Clos de Vougeot 1845, acompanhando codorna assada com foie gras e trufas. Vide artigo neste mesmo blog: Menu Harmonizado: A Festa de Babette 

Embora a escolha deste Grand Cru fosse extremamente arriscada, no contexto do filme serviu para marcar e homenagear um dos mais antigos e emblemáticos terroirs da Borgonha. Neste sentido, vamos tentar esmiuçar este vasto território de vinhas com 50 hectares, um verdadeira latifúndio em termos de Borgonha.

clos vougeot carte

parcelas do vinhedo

A história do Clos de Vougeot se confunde com a criação da Abadia de Cîteaux, criada em 1098. O início dos vinhedos datam entre os anos de 1109 e 1115. O vinhedo foi aumentando pouco a pouco e terminado em 1336 com suas divisas muradas. Em 1818, a propriedade foi comprada pelo banqueiro Julien-Jules Ouvrard, dono do Domaine de La Romanée-Conti. O próprio mítico Romanée-Conti foi vinficado em Clos de Vougeot entre os anos de 1819 e 1869. Com a morte de Ouvrard, o vinhedo passou a três herdeiros que posteriormente venderam a propriedade a seis novos donos e daí em diante, a subdivisão em famílias continuou, chegando a cerca de 80 proprietários.

Em 1934 foi criada a La Confrèrie des Chevaliers du Tastevin que anualmente entroniza novos membros no Castelo Clos de Vougeot com um lauto jantar. São cerca de 12000 membros em todo mundo. Seu lema: “Jamais en vain, toujours en vin”, ou seja, jamais em vão, sempre no vinho.

A primeira divisão de parcelas neste vasto Chateau foi feita pelos Monges Cistercienses na Idade Média com três sub-zonas principais:

  • La Partie Haut (parte alta) em torno de 260 metros de altitude, englobando os climats: Musigni, Chioures, Garenne, Grand Maupertius, Plante Labbé, Plante Chamel, Montiottes Hautes, Marei Haut, Petit Maupertuis, Baudes Hautes e Montiotes Hautes. São solos argilo-calcários de natureza pedregosa e escura. Vinhos finos, bem equilibrados e de aromas elegantes. Esta blend foi chamado “Cuvée du Pape”.
  • La Partie Centrale (altura mediana) em torno de 250 metros de altitude, englobando os climats: Dix Journaux, Baudes Saint Martin, Baudes Basses. O solo é pedregoso, mas extremamente argiloso em relação ao calcário. Os vinhos são fortes e muito tânicos. Esse blend foi chamado de “Cuvée du Roi”. 
  • La Partie Basse (parte baixa), abaixo de 250 metros de altitude, englobando os climats: Marei Bas, Montiottes Basses, Quatorze Journaux, Baudes Basses (parte inferior), Baudes Saint Martin (parte inferior). Os solos são aluvionais e de argila densa. Os vinhos são pesados, tânicos, faltando elegância. Este blend foi chamado de “Cuvée des Moines”.

clos vougeot parcellesa divisão atual

Nos dias atuais, quando se fala de Clos de Vougeot, mesmo sendo um vinhedo Grand Cru, perde-se um pouco do rigor borgonhês, no sentido de separar micro parcelas, especificando ao máximo um terroir preciso.

Pelo exposto acima, fica claro que os proprietários da chamada parte alta do vinhedo, com vizinhanças ilustres como Grands-Echezeaux e Musigny, levam vantagem nos fatores solos e exposição do terreno (drenagem e insolação). Mas só isso, não resolve a questão. Existem o estilo e talento do vigneron em procurar expressar o terroir da forma mais fiel possível, sem esquecer do fator safra, que pode ir contra à filosofia do produtor, dependendo das características de cada ano. É sem dúvida, uma equação complexa, mas para minimizar o erro, vamos  a alguns nomes de referência desta zona mais alta do vinhedo:

Domaine Leroy, foto abaixo, com um dos melhores Clos de Vougeot na safra 2002. Com pouco mais um hectare de vinhas, Madame imprime seu estilo ultra elegante, taninos de seda, e um final rico e complexo. O vinho ainda pode ser guardado, mas está delicioso para os mais impacientes. 94 pontos pela média da crítica especializada.

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Leroy atropelou seu concorrente ao lado

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esse estava delicioso e no ponto

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Méo-Camuzet: outra grande referência

Méo-Camuzet, sempre respeitando os ensinamentos do mestre Henri Jayer, faz vinhos divinos além destes, como o espetacular Richebourg. Vinhedos perto do Castelo.

Outros no mesmo nível, Domaine Anne Gros, Engel, Domaine de La Vougeraie, Domaine Gros Frère & Souer, todos na parte superior do vinhedo.

Chateau de La Tour é o maior produtor (5,48 ha), localizado no setor mediano do vinhedo. O que vale realmente a pena é sua Cuvée Vieilles Vignes. Maison Joseph Drouhin é sempre confiável também.

Nos setores mais baixos, Domaine Grivot e Domaine Jacques Prieur, fazem a diferença na condução das vinhas e vinificação precisa.

Enfim, algumas referências precisas, de acordo com os maiores especialistas no assunto. É claro que gosto pessoal também conta. Por isso, a omissão de mais alguns Domaines fica a cargo da preferência e experiência de cada um.

Além deste vasto Grand Cru, Vougeot possui outras apelações Premier Cru e Village. Olhando no mapa, todas elas ficam adjacentes no muro a Leste, à direita, do Grand Cru. Os Premiers Crus estão nos Lieux-Dits: Clos de La Perrière, Le Cras, Les Petites Vougeots, para tintos, principalmente. Clos Blanc e Le Clos Blanc, para os brancos. E o Vougeot Village tintos e brancos.

O inesquecível verão de 42

25 de Novembro de 2017

Quem não lembra do filme Summer of ´42 onde a bela atriz Jennifer O´Neill casada na história, encanta um adolescente em suas férias de verão. Pois bem, neste ano estava nascendo um dos maiores La Tâche da história com as últimas parreiras pré-filoxera. A descrição dos vinhos deste ano no livro do Romanée-Conti é a seguinte: “um peu plus foncé”, ou seja, uma cor um pouco mais escura. É exatamente na cor que o mito começou a se revelar. Num dos últimos encontros dos ano, porque o último só Deus sabe, os confrades estavam eufóricos por trazerem e beberem preciosidades. Não podia ser só um belo vinho, tinha que ser algo marcante. Cada qual se vangloriando de sua garrafa, quando nosso super Mário num golpe de mestre, saca duas garrafas e coloca na mesa: La Tâche 1942 e Romanée-Conti 1977. Em seguida, “despretensiosamente” sugere: vamos começar por essas duas para fazer um treino. Quando os vinhos foram servidos, imediatamente lembrei do primeiro tempo na Copa de 2014. Com 25 minutos, Alemanha 5, Brasil 0. Acabou o almoço!. Para não falar de coisas tristes onde em 1942 aconteceram ataques terríveis na Segunda Guerra Mundial,  essas duas garrafas caíram como mísseis teleguiados, não deixando pedra sobre pedra. Lembrou também aquelas lutas do pugilista Mike Tyson, onde o pessoal ainda procurando se acomodar no ginásio, e a luta já acabou. Foi impressionante!

taça de esquerda, 35 anos mais jovem. Inacreditável!

Vamos então falar do La Tache 1942. Felizmente, já tive a sorte de provar alguns vinhos imortais como Margaux 1900, por exemplo. Neste La Tâche temos a mesma sensação. Como pode um delicado Borgonha de 75 anos estar íntegro deste jeito?. Só mesmo a imortalidade explica. A cor é maravilhosa, sem indícios de envelhecimento. O nariz de adega úmida, sous-bois, carne, e incrível mineralidade. Boca perfeita, maravilhosamente frutado, acidez e álcool perfeitos, e taninos de seda. No fundo, todo o La Tâche deseja chegar neste estágio. Mais uma vez, a recorrente frase de Hugh Johnson: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

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1977 – 1993, o tempo revela segredos …

Com tudo isso, não pensem que o Romanée-Conti 1977 ficou para trás. Ao contrário, deu um show de aromas e delicadeza. Sua cor, muito mais evoluída que seu companheiro La Tâche, embora 35 anos mais jovem. Sabe aquela mãe que parece que é irmã da filha, pois é, o exemplo traduz bem a cena. Quem por inúmeras razões, não pode esperar um Romanée-Conti evoluir pelo menos 30 anos, não tem ideia do que este vinho é capaz. Mesmo numa safra delicada como 77, o bouquet de rosas que emana desta garrafa é algo divino. Sua delicadeza em boca tem outra dimensão. Mas repito, é preciso esperar. Pois quando novo, se esconde no casulo, e não vira borboleta de jeito nenhum.

Graças a Deus que neste início fulminante, ainda não tinha comida na mesa. E nem precisava, esses vinhos bastam por si só. Bom, agora vamos virar a chave e descer ao mundo terreno com um desfile de vinhos geniais.

gero montrachet 85 e 2011

o berço espiritual da Chadonnay, Montrachet.

De início, dois Montrachets DRC. Uma magnum 1985 divinamente oxidada com notas de cogumelos e Jerez. Possivelmente com histórico duvidoso, deve ter sido muito judiado em sua conservação. Já o DRC 2011, um bebê ninando no berço. Precisa ser decantando por pelo menos uma hora neste estágio de vida. Um vinho duro, fechado, não querendo acordar. Após um bom tempo de aeração em taça, aromas divinos de pâtisserie.    

Voltando aos tintos DRC, temos o Romanée-St-Vivant 1993 em foto acima. 93 não foi um grande RSV para o Domaine, embora Madame Leroy tenha foi um St Vivant quase perfeito. É um vinho ainda um pouco fechado, num momento de transição onde os aromas terciários estão se formando. Devidamente decantado, já é um vinho prazeroso com a vibração de um autêntico St Vivant.

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diferenças marcantes!

Aqui existe claramente uma superioridade de safra e produtor. 2002 é uma das grandes safras para tintos de guarda e Domaine Leroy dispensa comentários. Numa apelação tão polêmica e tão heterogênea em termos de qualidade, Clos de Vougeot Domaine Leroy seria escolhido com louvor para o filme Festa de Babette. Neste ano, alcançou 96 pontos e é realmente deslumbrante. Com muita vida pela frente, seus taninos são ultra polidos, uma delicadeza de aromas e sabores num equilíbrio perfeito.  Longe de seu auge, será um dos grandes na história do Domaine. Já o La Romanée 2000, um vinhedo de pouco menos de um hectare, cumpriu seu papel sem grandes emoções. Evidentemente, a comparação é sempre cruel, mas faltou um pouco de meio de boca, e a devida persistência aromática que se espera para um Grand Cru da Borgonha.

gero clos vougeot 02 leroy

isso é exclusividade!

Nem só de Romanée-Conti vive o homem, Madame Leroy também tem seus segredos. O contrarrótulo acima, mostra a exclusividade e todo o esmero de uma cultura biodinâmica e uma vinificação impecável.    

gero la tache 42 e 99

a realidade e a promessa

Recentemente, comentei sobre o estupendo La Tâche 1999, um dos maiores da história. Ainda é uma promessa, pois tem muito para evoluir ao longo dos anos, mas já é delicioso. Tudo o que ele quer, é chegar aos 75 anos com o esplendor do 1942. Tarefa difícil e para poucos, que só os realmente grandes conseguem. A previsão de seu auge é para 2060. Tem tudo para isso, se formou em Harvard, fala cinco línguas, tem espírito de liderança, e tudo mais. Contudo, treino é treino, jogo é jogo. O tempo dirá …

gero ravioli de cordeiro

ravioli de cordeiro

Um dos pratos do almoço, foto acima, do excelente Gero do grupo Fasano, sob a batuta do insuperável maître Ismael. Prato de sabores e textura perfeitos para os vinhos acima apresentados. 

Temos ainda um desfile de bordaleses: Mouton, Petrus, Montrose, entre outros. Vamos fazer uma pausa para troca de cenário. Próximo artigo, em breve!

 

Cozinha Libanesa sem GPS

9 de Julho de 2017

Pessoas especiais para se deliciar com a melhor comida árabe de São Paulo em local não identificado, onde o maior restaurateur de São Paulo bateu palmas. E olha que ele é exigente e fiel aos clássicos. Sem mais delongas, vamos ao desfile de grandes vinhos e pratos.

o bem receber …

Como exceção aos tintos, brindando os convivas, o irretocável champagne Cristal 2006. Um assemblage com leve predominância da Pinot Noir sobre a Chardonnay das melhores cuvées da Maison Louis Roederer, lentamente envelhecida sur lies por cinco anos, antes do dégorgement. Elegância, personalidade, e aqueles aromas de praline inconfundíveis. Daqui pra frente, é só manter o nível …

raul cutait decantação

decantação à vela

Acima de tudo, com larga predominância dos tintos bordaleses, foi uma grande aula de como esses vinhos evoluem no tempo, mostrando cada qual em sua época, a incontestável qualidade, tipicidade, e estrutura, de um terroir impar, independente de qual margem estivermos falando.

raul cutait palmer 2005

grande promessa!

Começando com o Palmer 2005 em garrafa double Magnum, 97 pontos Parker, com apogeu previsto entre 2040 e 2050. Um bebê ainda, mas aquele bebê Johnson, lindo e perfeito. Uma estrutura poderosa, taninos de rara textura, uma explosão de frutas, além de longa persistência. Evidentemente, falta integração entre seus elementos, e os fantásticos aromas terciários que certamente virão com o tempo. Daqui a uns vinte anos a gente se encontra …

raul cutait la mission 94

23 anos e muito fôlego

Agora mais dez anos no tempo, vamos ao La Mission Haut Brion 1994 em Magnum. Aqui já vemos um Bordeaux se preparando para o apogeu. Com pouco mais de 20 anos, ainda tem vigor, alguns segredinhos a confessar, mas está delicioso. Foi um convite à mesa, para escoltar as delicadas iguarias da anfitriã.

raul cutait angelus 95

garrafa muito bem adegada

Outro contemporâneo do vinho anterior, o estupendo Angelus 1995 de conservação impecável do mestre Amauri de Faria, comandante da importadora Cellar, uma das mais diferenciadas do mercado. É inacreditável a estrutura tânica deste tinto, um margem direita com proporções iguais entre Merlot e Cabernet Franc. Ainda tímido nos aromas, mas com uma mineralidade incrível. Seus taninos massivos, porem ultra finos, vão precisar de mais uma década de polimerização. Os aromas devem acompanhar esta evolução. Quem viver, verá!

terroirs diferenciados

Agora os adoráveis 89, Chateau Léoville Las Cases e o Premier Chateau lafite. Neste embate, fica muito claro a hierarquia de classificação e o desempenho de cada um nesta safra específica. Começando pelo Léoville em garrafa Magnum, não foi uma grande safra para este chateau, embora esteja longe de desapontar. Pelo contrário, é um Léoville mais delicado, sem aquela pujança habitual. Seus aromas já bem desenvolvidos, mostra uma boca afável e extremamente prazerosa.

e os pratos se sucedem …

Por outro lado, temos o Lafite 89 num desempenho equivalente em termos de safra. Contudo, é um Premier Grand Cru Classe de grande personalidade. É uma espécie de Borgonha de Pauillac com muita elegância e sutileza. Atrás de uma aparente fragilidade, temos uma estrutura de aço, capaz de evoluir por longos anos. Aqui o terroir fala alto, num vinho sempre misterioso e intrigante.

raul cutait latour 64

a nobreza de um vinho

Finalmente, vamos um pouquinho mais longe no tempo. Que tal 1964? aquele tempo em que tínhamos de consultar os livros, e não o google. Para falar deste época, precisamos de um Pauillac de peso, sempre imponente, o todo poderoso Chateau Latour. As duas garrafas abertas com pequenas diferenças, mostraram didaticamente o que é de fato um grande Bordeaux envelhecido. Taninos totalmente polimerizados, os clássicos aromas de cedar box, couro envelhecido, e notas minerais. Equilíbrio perfeito com grande expansão em boca. Outra maravilha para os belos pratos servidos.

raul cutait clos vougeot 89

 o que diria Babette …

Agora os bem-vindos intrusos …

Depois desta avalanche de bordaleses, só mesmo Madame Leroy  e Aldo Conterno para mudar a rota sem sobressaltos. Clos de Vougeot é com certeza o maior e mais polêmico Grand Cru da Borgonha. Não é para menos, 50 hectares de vinhas para cerca de 80 proprietários. Um verdadeiro latifúndio na Terra Santa. Aí você vai neste palheiro e pinça uma agulha chamada Madame Leroy. Além da ótima safra 89, este é um “mise en bouteille au domaine”, o que faz toda a diferença. Luxuriante, sedutor, delicado e ao mesmo tempo profundo, marcante. Seus aromas de sous-bois são de livro. Este merecia estar presente no clássico “A Festa de Babette”.

raul cutait granbussia 90

Granbussia e os Trockenbeerenausleses

Completando a intromissão, Aldo Conterno Granbussia Riserva 1990 em Magnum. Os franceses diriam baixinho: “este vinho é tão bom que nem parece italiano”. Que maravilha de Barolo! Que taninos! Que elegância!. Fica difícil tomar outros Barolos. Embora já delicioso, sua estrutura permite ainda grandes voos. Talvez um Filetto alla Rossini seja uma bela companhia com mais alguns anos de guarda. 

Enfim, chegamos ao final do sacrifício. O que acompanhar “comme  il faut” esses doces maravilhosos e tentadores. Só mesmo um Trockenbeerenauslese 1975 elaborado com as desconhecidas uvas Sieger e Huxelrebe, suscetíveis ao ataque da Botrytis Cinerea, provocando alta concentração de açucares, e ao mesmo tempo, conservando uma acidez notável. Esse palavrão conhecido como TBA, quer dizer literalmente “seleção de bagos secos”, fenômeno inerente à ação do fungo. São vinhos muito raros na Alemanha, só ocorrendo em determinadas sub-regiões e em safras específicas. Costumam ter concentração de açúcar perto de 300 gramas por litro, frente a uma acidez tartárica de mais de 10 gramas por litro, equivalente a vinhos-bases de Champagne.

o paraíso é doce!

Neste exemplar degustado, apresentou-se com uma cor marron escura, própria de vinhos envelhecidos neste estilo. Afinal, são mais de 40 anos de vida. Os aromas denotavam frutas secas escuras como ameixas, figos e tâmaras, um toque de ruibarbo, e a nota de acetona, próprio de vinhos botrytisados. O equilíbrio entre doçura e acidez era notável, além de longa persistência final. Assemelhou-se muito a Tokaji antigos acima de 6 puttonyos, ou seja, Tokaji Eszencia. Um final arrebatador!

raul cutait lembranças

lembranças …

Outro botrytisado notável presente no almoço foi o grande Yquem 1990 com 99 pontos. Vinho decantado em prosa e verso, dispensando comentários e apresentações. Evidentemente, à altura do time bordalês apresentado acima.

Em sala reservada, Behikes à disposição da turma da fumaça. Um pouco mais prosa, cafés e Armagnac. Houve espaço para alguns Single Malts, mas isso já é uma outra história. Abraço a todos, especialmente ao casal anfitrião, proporcionando mais um encontro inesquecível. Que El Masih sempre os abençoem!

Esturjão e Caviar

4 de Junho de 2015

“Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”, frase inesquecível do samba de Zeca Pagodinho. Pois bem, vamos tentar esclarecer o assunto.

Hoje em dia muitas ovas de peixes são confundidas e chamadas genericamente de caviar. Entretanto, o legitimo caviar é oriundo de um peixe pré-histórico, em vias de extinção, restrito a alguns mares específicos no hemisfério norte. Até o final do século dezenove, era normal encontrarmos esturjão na foz do rio Hudson junto a Nova Iorque, assim como, no Tâmisa junto a Londres, do Dordogne e Garonne junto a Bordeaux, do Danúbio na Romênia e até no rio Pó no Piemonte. E o produto era muito barato. Infelizmente, a industrialização e a poluição exterminaram a iguaria ao longo do tempo. Restou assim, o esturjão do mar Cáspio, tanto do lado russo, como iraniano. Ocorre que este curso d´agua está cada vez mais raso, dificultando a permanência do esturjão em suas águas, já que trata-se de um peixe de grandes proporções. A utilização do rio Volga e seus afluentes desviam água do mar Cáspio para projetos industriais.

Esturjão e suas preciosas ovas

Uma das providências para minimizar os problemas foi a abolição da pesca predatória no lado russo. As fêmeas capturadas são operadas em verdadeiros centros cirúrgicos com rigorosa assepsia, e depois de removidas as bolsas de ovos, são devolvidas ao mar vivas. Contudo, no lado iraniano, os peixes continuam a ser sacrificados. Só para se ter uma ideia destes cuidados, uma fêmea adulta ao redor de 18 a 20 anos pode produzir algo como sete milhões de ovas. Na pesca predatória podemos ter números insignificantes ao redor de trezentas mil ovas, ou seja, um crime e um desperdício.

Embora o Irã produza caviar, seu consumo interno é proibido segundo as leis islâmicas por considerar o esturjão um animal impuro. Portanto, o produto é todo exportado. Até metade do século XX, pouco mais da segunda guerra mundial, o caviar iraniano era todo processado pela Rússia através de acordos governamentais.

Os vários tipos de esturjões fornecem ovas diferenciadas e consequentemente, diversos tipos de caviar. No bacalhau por exemplo, ocorre o mesmo, dependendo do tipo de peixe (gadus morua, sarbo, ling, etc …). Concentrando-se no mar Cáspio, temos o Caviar Beluga, proveniente de esturjões que podem chegar a uma tonelada e meia de peso. São as maiores ovas, as mais apreciadas e mais caras, com um diâmetro de 2,5 milímetros. Já o Caviar Osetra, provem de peixes menores com ovas chegando a dois milímetros de diâmetro. Evidentemente, de preço menor que o anterior. Por fim, o Caviar Sevugra, o menor. Suas ovas têm cerca de um milímetro de diâmetro com um perfume característico. São muito apreciadas e custam quase tanto, quanto o Beluga.

Em relação às cores do caviar, as três espécies acima podem produzir o caviar negro, acinzentado e branco, além do dourado. Segundo os especialistas, a cor não tem nada a ver com sabor, aroma ou qualidade. Depende basicamente da forma de preparo. O preparo Malossol é processado com o caviar maduro, fresco e ligeiramente salgado. São preparados por verdadeiros mestres-salgadores com técnica apurada. Combinando tipos, cores e formas de preparo, podemos ter mais de vinte tipos de caviar. Além disso, podem ser comercializados frescos, pasteurizados ou embalados a vácuo.

Beluga: o mais cobiçado

Como curiosidade, temos um quarto tipo de esturjão, muito raro, chamado Sterlet. Ele dá origem ao legendário Caviar Dourado, dificilmente encontrado, de paladar e aromas especialíssimos.

Quanto às harmonizações, as opiniões são diversas e polêmicas. Para alguns, só a Vodca e destilados neutros e de personalidade são capazes de enfrentar a iguaria. Com relação a vinhos, os champagnes são clássicos. Por uma questão de tipologia do prato, não tem sentido pagar uma fortuna por esses diamantes e acompanha-los com um espumante qualquer. Portanto, champagne é obrigatório. Contudo, qual champagne?, qual o tipo mais adequado?. Alguns preferem os champagnes maduros com aromas terciários. Outros dizem que precisam ser champagnes encorpados, estruturados como um Bollinger, por exemplo. Quanto ao nível de açúcar residual, precisam ser pelo menos Brut, de preferência, Extra-Brut ou Brut Nature. Enfim, com bom senso e refinado gosto pessoal, cada um poderá escolher seu predileto.

Festa de Babette: Blinis au Caviar

As alternativas

Num mundo real, nem sempre é possível o acesso ao “ouro negro”. Portanto, algumas alternativas podem ser satisfatórias ou no mínimo, consoladoras. A primeira alternativa, embora não encontrada no Brasil, são as ovas do peixe mugem. Na verdade, nem são ovas, mas o esperma do peixe colhido com redes especiais no mar mediterrâneo. Tem gosto ligeiramente adocicado. Parente do mugem é o atum, com ovas de sabor mais pronunciado e toques picantes. As de salmão, facilmente encontradas em nosso mercado são relativamente grandes, embora o peixe seja bem menor  que o esturjão.

Caviar dinamarquês

Outras alternativas são as ovas do lompo que lembram o caviar fresco. Como são claras, as mesmas são artificialmente escurecidas e comercializadas como “caviar dinamarquês” ou “caviar alemão”. São muito apreciadas, lembrando o caviar Osetra. O conhecido Gadus Morua também fornecem ovas. Entretanto, se não são adequadamente processadas, podem exalar um odor desagradável. E assim por diante, ovas de tainha e também de lagosta. Essas últimas, podem apresentar perfumes e sabores bem agradáveis.

Enfim, este é um mundo de magia e sofisticação. Nem todo mundo gosta da iguaria, mas sem dúvida nosso inconsciente imaginário nos remete a um mundo de luxo, de nobreza e momentos de raro prazer.

Menu Harmonizado: A Festa de Babette

16 de Janeiro de 2011

Apesar de muitos filmes citarem a enogastronomia ou até mesmo, protagonizar o tema inserido num contexto adequado, A Festa de Babette de 1987 continua sendo ¨hors concours¨. Sem querer entrar na parte emocional do filme, podemos perceber claramente, que ela acaba influenciando na própria sequência do menu.

Abaixo, num breve trecho do filme, vemos alguns detalhes da preparação dos pratos e vinhos.

http://www.youtube.com/watch?v=xvHYGv-Ul18&feature=player_detailpage

Sequência do jantar:

  • Soupe de Tortue Géante (Sopa de Tartaruga Gigante)
  • Blinis Demidoff (creme azedo e caviar, se possível Beluga)
  • Cailles en Sarcophage (codornas com trufas e foie gras)
  • Salade de Crudités (salada de folhas e legumes)
  • Fromages (queijos curados variados)
  • Baba au Rhum (bolo embebido em calda de rum)
  • Fruits Frais (frutas frescas variadas)

O início do jantar foi brilhante. A escolha da sopa abrindo o evento, mostra toda a sensibilidade de Babette no intuito de quebrar a tensão dos convivas, que naturalmente estavam acostumados a um caldo reconfortante nas frias noites da Dinamarca. Isso minou a expectativa de algo suntuoso e ofensivo aos rígidos princípios religiosos daquela comunidade de idade avançada. A partir de então, ficou muito menos impactante servir caviar e champagne, com as pessoas embevecidas com toda a riqueza e exotismo da sopa. O Xérès (grafia francesa para Jerez) Amontillado acompanhando o prato, foi outro fator de relaxamento, já que trata-se de um vinho fortificado, sabidamente consumido naquela época.

Continuando a sequência, vejam a sábia alternância entre os pratos, mesclando frescor e delicadeza com maciez e profundidade de sabor. O Blinis entre a sopa vigorosa e as cordornas ricas em sabor tem a importantíssima função de revigorar o paladar, mantendo o mesmo entusiasmo da primeira colherada.

A salada em seguida, faz uma bela pausa antes daqueles queijos intensos de sabor. Já a sobremesa, faz a ligação perfeitas para as frutas frescas, fornecendo um sabor doce contrastante e menos intenso que os queijos. Finalizando o jantar fora da mesa de refeição, foi servido café moído na hora e um destilado praticamente esquecido nos dias de hoje, Marc de Champagne. É uma espécie de grapa com o bagaço das uvas de Champagne. Detalhe: Babette escolheu uma reserva especial extremamente envelhecida.

Quanto aos dois grandes vinhos safrados, Veuve Clicquot gozava de grande prestígio na época, sendo o champagne preferido do pintor Claude Monet. Já o Grand Cru Clos de Vougeot tinha alta reputação e por conseguinte era muito mais confiável frente à incostância da atualidade. As safras 1860 e 1845, respectivamente, apresentavam aromas terciários, de acordo com a data do banquete nos anos 70 daquele século. Principalmente o Clos de Vougeot, por vonta de seus trinta anos, deve ter casado perfeitamente com a textura das codornas, a riqueza do molho e os soberbos sabores do foie gras e trufas.

Realmente, uma lição de enogastronomia! Que os céus a tenha em bom lugar!