Archive for the ‘Vinho em Destaque’ Category

Vinho em destaque: Château du Moulin Rouge

19 de Outubro de 2010

Quem disse que um bom Bordeaux honesto necessariamente é caro? Prova disto é o Château du Moulin Rouge. Por pouco mais de R$60,00 (sessenta reais) é possível adquirí-lo nos supermercados Carrefour, fruto de importação própria. É um Cru Bourgeois da safra de 2005.

Como em todos grandes terroirs, o trinômio produtor, terreno e safra, precisam estar em sintonia. Neste caso, a safra 2005 é excepcional, facilitando sobremaneira, os outros dois fatores. O produtor e terreno, apesar de não serem de primeira linha, apresentam qualidades suficientes para o êxito do conjunto.

A localização do château fica ao sul de St Julien, a caminho de Margaux, região onde comumente falta o famoso cascalho, item importantíssimo do fator drenagem da margem esquerda. Entretanto, algumas localizações pontuais, aliadas a uma proporção maior da casta Merlot, podem fazer a diferença. É o caso deste château. Num solo predominantemente argiloso, com alguma presença de cascalho, é possível fazer um corte com leve predominância da Merlot (50%), seguida de perto com Cabernet Sauvginon (40%) e Cabernet Franc (10%). Este corte propicia boa fruta ao conjunto, além da maciez necessária para contrabalançar a austeridade das Cabernets. Some-se a isto, madeira de segundo uso na medida certa e você terá um vinho equilibrado, típico, com taninos de qualidade inerentes à safra. A safra também é responsável por um meio de boca consistente e relativamente expansivo.

Portanto, por este preço é possível ter uma pequena idéia de um grande Bordeaux e começar a entender porque estes vinhos estão e sempre estarão entre os melhores do mundo.

Este vinho está praticamente pronto, podendo decantá-lo com uma hora de antecedência. Minha harmonização foi escalopes de frango com molho de funghi porcini e creme de leite fresco. A textura do frango ficou muito boa, por se tratar de um bordeaux de corpo médio e estrutura discreta de taninos. Evidentemente, para um autêntico margem esquerda, um cordeiro é sempre perfeito.

 

Destaque de Nuits-Saint-Georges

11 de Outubro de 2010

Quando falamos de Borgonhas, o primeiro cuidado é não generalizar. Afinal, esta abençoada terra foi destinada a especialistas, ou seja, cada comuna conta com alguns poucos produtores que cultivam alguns poucos hectares, e são verdadeiramente, o que chamamos de nata da Borgonha. Neste contexto, problemas de safras tornam-se secundários, já que produtor e terreno são superlativos. É o caso da domaine abaixo, Henri Gouges, trazida primeira vez pela saudosa importadora VVW na vila Madalena. Agora, recentemente, nas mãos da competente importadora Zahil.

Monopólio de 3,5 hectares em Nuits-St-Georges

Trata-se de um Premier Cru de grande tipicidade e enorme longevidade. A comuna de Nuits-Saint-Georges, a mais meridional da Côte de Nuits, é marcada por tintos potentes e um tanto rústicos para os padrões de borgonhas extremamente elegantes. Por esta razão, não existem Grands Crus nesta comuna. Entretanto, de modo algum, devemos subestimá-la, principalmente, diante de produtores como Henri Gouges.

Este Premier Cru, Clos des Porrets, sintetiza a força destes vinhos, com aromas potentes, e de firme estrutura tânica. Evidentemente, não são talhados para serem tomados jovens. Necessitam de bons anos em adega, para domar seus taninos e desenvolverem aromas terciários de rara complexidade. Pode não ser tão fino como os melhores Chambertins, mas possui personalidade própria, por preços sensivelmente menores que os preferidos de Napoleão (famosa frase do imperador: o mundo fica mais bonito através de uma taça de Chambertin).

Por R$ 385,00 a garrafa (importadora Zahil – www.zahil.com.br), sugiro guardar a safra 2007 por mais cinco anos, antes de desfrutá-la. A despeito dos preços no Brasil, é um bom custo/benefício para um Premier Cru de alto escalão.

Harmonização: Galinha d´angola com creme de champignons. Decantá-lo, uma hora antes do serviço.

 

Chenin Blanc: A jóia do Loire

1 de Setembro de 2010

Região clássica de grandes brancos

As extremidades do mapa acima são as exceções para o cultivo da grande uva branca do Loire, Chenin Blanc. No extremo oeste, quem reina é a Muscadet com o vinho homônimo, tradicional parceiro de ostras frescas. Já no extremo leste, temos o predomínio da Sauvignon Blanc, emblematizada nas apelações Sancerre e Pouilly-Fumé.

Nas regiões centrais do mapa, Anjou, Saumur e principalmente Touraine, a Pineau de la Loire (nome local da Chenin Blanc) encontra seu terroir ideal. Solos xistosos e calcários, clima continental com marcante influência atlântica e vinhedos bem posicionados quanto à insolação, são alguns dos segredos de seu sucesso.

A versatilidade desta uva quanto a tipos e estilos de vinho é notável, desde belos espumantes, vinhos secos e vinhos doces, passando por vários níveis de açúcar residual. As melhores bolhas e grandes vinhos doces ficam com a apelação Vouvray. O produtor Didier Champalou representado no Brasil pelo Club Taste Vin tem belos vinhos da apelação (www.tastevin.com.br). Outras apelações para espumantes são: Anjou Fines Bulles (Chenin Blanc – 80% mínimo), Montlouis-sur-Loire (apelação rival de Vouvray), e parcialmente com Chenin; Crémant de Loire, Saumur Brut e Touraine. Aqui faz-se necessário um parênteses para o produtor biodinâmico Huet, com três vinhedos da apelação Vouvray excepcionais: Le Haut Lieu, Le Mont e Clos du Bourg. São vinhos de uma delicadeza ímpar e quase imortais. Importados pela Mistral.

Para o estilo seco, mineral, incisivo, e de grande longevidade, a apelação Savennières é a pedida certa. Agora, se você não abre mão da perfeição, Coulée de Serrant e Roche-aux-Moines são obras primas do craque Nicolas Joly (www.casadoportovinhos.com.br). Esses brancos merecem decantação de pelo menos uma hora. Essas apelações são pequenas parcelas dentro da apelação Savennières, que adquiriram identidade própria.

Os grandes vinhos doces de Chenin, muitos deles botrytizados, estão sob várias apelações além de Vouvray. As mais importantes e representadas no Brasil ficam por conta do Domaine Baurmard da importadora Mistral (www.mistral.com.br) e Château de Fesles da importadora World Wine (www.worldwine.com.br). São elas: Quarts de Chaume, Coteaux du Layon e Bonnezeaux. Normalmente, são mais encorpados que os vinhos doces da Alemanha, mas menos untuosos que os grandes Sauternes. Combinam muito bem com tortas cremosas à base de  frutas frescas.

Bonnezeaux: delicadeza e longevidade

Este é o universo Chenin, com vinhos gastronômicos e surpreendentes. Infelizmente, brancos esquecidos e muitas vezes desconhecidos dos consumidores. Coulée de Serrant é um dos maiores brancos da França, provando através de seu mentor Nicolas Joly, que a biodinâmica é a filosofia mais coerente na elaboração de vinhos artesanais, desde que se tenha talento, amor e dedicação para tanto.

Nova DOCG: Aglianico del Vulture

29 de Agosto de 2010

 

Rótulo de destaque na importadora Decanter

Mais uma região italiana estreia na categoria DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), a Basilicata. Situada no sul da Itália, tem uma área relativamente pequena, encravada entre a Calábria e a Puglia.

A grande uva tinta da região é a Aglianico, de origem grega, muito cultivada também na Campânia, sob outra DOCG famosa, denominada Taurasi.

A DOC Aglianico del Vulture foi criada em 1971 e agora em agosto de 2010 passa a ser DOCG para as categorias Aglianico del Vulture Superiore e Aglianico del Vulture Superiore Riserva. O termo Superiore nesta denominação exige um grau alcoólico mínimo de 13,5º (treze graus e meio). Já o termo Riserva exige que o vinho só pode ser comercializado após o quinto ano em relação à respectiva safra, sendo um amadurecimento mínimo de 24 meses em madeira, além de um mínimo de mais 24 meses em garrafa.

O Aglianico del Vulture Superiore não Riserva só pode ser comercializado após o terceiro ano em relação à sua respectiva safra, sendo um mínimo de 12 meses em madeira, além de um mínimo de 12 meses em garrafa.

Quaisquer dos casos a uva deve ser 100% Aglianico. Portanto, do exposto acima, só teremos o selo DOCG nas garrafas a partir de 2013 para a versão Superiore, e a partir de 2015 para a versão Superiore Riserva.

Para quem quiser sentir a força desses vinhos sulinos, o rótulo acima é uma bela referência(www.decanter.com.br). Vinho de boa coloração, lágrimas presentes e numerosas. Os aromas evocam grande concentração de frutas, especiarias e ervas, além de um fundo resinoso proveniente da madeira. Normalmente, são vinhos encorpados, macios, embora tenham um bom suporte de acidez. Pode acompanhar muito bem uma bela perna de cabrito, guarnecida com batatas assadas e douradas conjuntamente.

Destaque: Uva Mencía

15 de Agosto de 2010

 

Destaque na degustação da ABS-SP

A uva espanhola Mencía é cultivada no extremo oeste da província de León, divisa com a Galícia, sob as denominações Valdeorras, Ribeira Sacra e principalmente Bierzo. Esta última, criada em 1989, foi revitalizada na década de 90, numa situação muito parecida com a denominação Priorato. Por sinal, o grande Alvaro Palacios, aproveitando a experiência das antigas vinhas de Garnacha e Cariñena abandonadas na região, vislumbrou em Bierzo um grande potencial, num cenário semelhante.

Em resumo, temos um lugar montanhoso de clima continental, com alguma influência atlântica. O solo tem base argilosa, com algum calcário e presença de pedras, principalmente a típica Pizarra, espécie de argila laminar (trata-se de uma rocha metamórfica). A mineralidade desses vinhos costuma ser atribuída a este tipo peculiar de solo. As cepas, muitas delas antigas, têm média de idade acima de 60 anos, sendo algumas centenárias, e até pré-filoxeras.

Cepas antigas na denominação Ribeira Sacra

Os vinhos costumam ter boa presença de fruta, especiarias, ervas, notas minerais e madeira discreta. Gustativamente, são macios, acidez correta e tanicidade moderada. A princípio, não são vinhos de longa guarda. Devem ser consumidos até oito a dez anos de safra, salvo algumas exceções de vinhedos muito antigos, cuja  concentração e extrato justifiquem maior longevidade.

Dos rótulos degustados na ABS-SP, destacaram-se Valtuille Cepas Centenárias (importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br), Dominio de Tares Bembibre e Dominio de Tares Cepas Viejas, ambos da importadora D´Olivino (www.dolivino.com.br) . Aliás, este último com o rótulo em destaque acima, tem nariz de margem esquerda. Boa surpresa para colocar às cegas, numa degustação de Bordeaux de bom nível.

Bodega Achaval Ferrer

8 de Agosto de 2010

 

Quimera: Corte altamente confiável

Achaval Ferrer é uma bodega engajada no restrito nicho de vinhos artesanais. Explorando o terroir mendocino, seu objetivo maior é a qualidade, buscando diferenciação e personalidade.

Com vinhas localizadas em zonas mais frescas como Tupungato, as uvas maturam lentamente com grande amplitude térmica. Neste ciclo mais longo, temos maior concentração de sabores, aromas e taninos, que refletirão inexoravelmente nos vinhos.

Basicamente, são três níveis de vinho. O primeiro, elaborado na proporção de uma videira por garrafa, apresenta um Malbec de muito frescor, com pureza de fruta notável. Vinho de boa concentração, equilibrado, sem ser demasiadamente extraído.

O nível mais alto, trabalha na proporção de três videiras por garrafa. Isso dá menos de um quilo por planta. Vinho de grande concentração, normalmente fadado ao infantícidio pelos consumidores compulsivos. Necessita de uns bons anos em garrafa para uma melhor integração de seus componentes, para assim desenvolver aromas terciários. Sem dúvida, um dos grandes Malbecs argentinos em três versões: Finca Altamira, Finca Bella Vista e Finca Mirador. Cada Malbec individualizado destes três vinhedos trabalham em média com redimentos de 12 hectolitros por hectare e parreiras na faixa de 80 anos de idade.

Deixei por último o nível intermediário, inclusive no preço (ao redor de R$ 150,00),  ilustrado no rótulo acima. Aqui, precisamos de duas videiras por garrafa. É o único vinho de corte, mesclando Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot . Vinho de grande concentração e profundidade. Necessita obrigatoriamente de decantação, tanto para aeração, como para separar depósitos, já que não é filtrado. Relativamente jovem, precisa pelo menos de duas horas no decanter. Quimera; fantasia, sonho, utopia, traduz bem seu nome.

Em todos os níveis, a madeira apenas emoldura o quadro, traduzindo com fidelidade toda a essência de seus respectivos terroirs. Todos ainda são importados pela Expand (www.expand.com.br).

Destaque do Alentejo: Mouchão

22 de Julho de 2010

Aqui vale o ditado: Quanto mais velho, melhor!

Não há dúvida que vinhos como Barca Velha e Pera Manca são ícones incontestáveis de Portugal, mas nem todos sabem do grande terroir que existem há mais de um século na Herdade do Mouchão. Se levarmos em conta seu preço, é o melhor vinho de Portugal.

Este é um alentejano diferenciado em todos os quisitos que perfazem o conceito de terroir (casta, solo, clima e homem). A casta predominante é o Alicante Bouschet, uma casta praticamente abandonada na França  e adotada no Alentejo. Na Herdade do Mouchão, encontrou clima e solo ideais para sua difícil maturação. É um solo específico de várzea com subsolo argiloso, que permite armazenar água suficiente para os períodos de seca. O clima relativamente frio para os padrões alentejanos na subregião de Portalegre, junto a serra de São Mamede, propicia uma maturação lenta e gradual, para que esta casta extremamente exigente desenvolva aromas e taninos de rara qualidade. Complementada pela casta Trincadeira, também conhecida no Douro como Tinta Amarela, torna o blend macio na medida certa , sem perder a estrutura e espinha dorsal deste grande tinto. Neste momento entra a sabedoria humana em lapidar este tesouro, com uma vinificação absolutamente tradicional, começando com a pisa a pé em lagares, seguida de longa maceração das cascas. Terminada esta fase, o vinho estagia em grandes tóneis antigos de dois mil litros por dois ou três anos, e mais dois antes do engarrafamento, sem filtração. O tamanho dos tóneis aliado à idade avançada da madeira, permite a devida oxigenação e estabilização do vinho, sem perder as preciosas características de terroir.

O resultado é um vinho retinto, rico em aromas de grande mineralidade. Pode e deve envelhecer por pelo menos dez anos. Deve ser obritoriamente decantado por todos os motivos: tenra idade, ausência de filtração e consequente depósitos (borras).

Por tudo que foi exposto, não apresenta um perfil alentejano corriqueiro, com aromas abertos, taninos dóceis, relativamente quente (álcool) e pronto para beber. É um vinho com identidade própria, capaz de evoluir no tempo como poucos. É importado pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br) por menos de R$ 200,00 (vale cada centavo).

Barca Velha e seu segundo vinho

11 de Julho de 2010

Costumamos dizer que o tinto Casa Ferreirinha é o segundo vinho do mítico Barca Velha, obra prima do grande “cheirista” Fernando Nicolau de Almeida, logo após a segunda guerra mundial.

Aproveitando o ensejo do post anterior, é bom esclarecer que a conotação de segundo vinho neste caso, é bem diferente da situação bordalesa. O Reserva Ferreirinha dependendo do ano, pode disfarçar-se de um mini Barca Velha, obviamente de custo bem menor.

A longa trajetória do Barca passou por algumas transformações em vinhedos localizados no Douro Superior, notadamente Quinta da Leda e Quinta do Vale Meão. Contudo, sempre um propósito, selecionar lotes de qualidade e acompanhar sua evolução ao longo dos anos, até sua liberação ao mercado. A responsabilidade é tremenda, qualquer que seja a decisão, pois não se pode liberar um Barca Velha que não o é, e nem refutá-lo se realmente o for.

Obstinação de Fernando Nicolau de Almeida

A idéia de concepção do Barca Velha nasceu com o objetivo de elaborar um tinto de classe na região do Douro, onde até então, primava-se pela elaboração dos grandes Portos.

Alguns desafios deveriam ser vencidos, tais como: perfeito equilíbrio da uvas numa região tão quente e seca como o Douro Superior, com Quinta da Leda e Quinta do Vale Meão. Outro grande problema seria controlar a temperatura de fermentação com a tecnologia da época.

O primeiro obstáculo foi resolvido buscando uvas em várias altitudes e diferentes exposições com relação ao sol. Portanto, um leque interessante de opções, principalmente quanto à acidez das uvas. O segundo problema foi uma solução bem lusitana. Trazer caminhões carregados de blocos de gelo de Matosinhos (lugarejo próximo à cidade do Porto) até o Alto Douro, onde ocorria a fermentação. Foram feitos anéis periféricos nos grandes tanques de madeira da época para armazenar os blocos de gelo, controlando assim a temperatura de fermentação.

Após longa maceração, o vinho parte para o estágio em barricas de carvalho e começa um severo monitoramento até o engarrafamento. Passado este estágio, não se pode afirmar ainda que estamos diante de um Barca Velha. É preciso pelo menos alguns anos em garrafa com mais uma série de provas, para o veredito.

 

Safra 1997: quase 10 anos para uma tomada de decisão

Desta concepção rígida, beirando a perfeição, é que pode surgir o Casa Ferreirinha, ou seja, quando não se tem absoluta certeza do pedigree de um Barca, tem a possibilidade de surgir um Ferreirinha. Portanto, numa mesma safra, só existe um com a exclusão do outro. Este conceito dá credibilidade ao Barca Velha e ao mesmo tempo, valoriza sobremaneira o Casa Ferreirinha.

Portanto, para aqueles que não têm acesso ao Barca Velha, o tinto Casa Ferreirinha pode ser uma ótima opção. Atualmente, está a cargo do enólogo Luís Sottomayor e sua equipe, o destino dos futuros vinhos. Parece que a lição de seus antecessores, inclusive senhor Fernando, foi bem aprendida. Que esta filosofia em busca da perfeição e tipicidade perpetue por longa data!

Esses vinhos são importados pela Zahil (www.zahil.com.br).

Destaque: Porto Quinta do Noval LBV Unfiltered

28 de Junho de 2010

Quinta do Noval: Um mito entre os grandes Portos

O inascessível Quinta do Noval Vintage Nacional dispensa comentários, sendo a safra de 1931, uma das doze garrafas da caixa do século pela Wine Spectator. As safras de 1963 e 1994 são também soberbas e consideradas perfeitas. Contudo, nosso exemplar em questão é absolutamente tangível, e não menos espetacular, considerando seus justos R$120,00 a garrafa. Trata-se do Quinta do Noval LBV Unfiltered.

Pela foto acima, podemos comprovar a legislação atual que exige da categoria LBV (Late Bottled Vintage) ou SET (Safra de Engarrafamento Tardio), a declaração do ano da colheita e a data de engarrafamento expressa no rótulo. Pela lei, o LBV deve envelhecer de quatro a seis anos antes do engarrafamento.

A idéia em tese na categoria LBV é envelhecer o vinho por um período referente ao dobro de tempo em relação à categoria Vintage, embora nos dois casos sejam vinhos de uma só colheita. Esta lógica baseia-se no fato das colheitas relativas à menção LBV não serem espetaculares como no caso dos Vintages. Isso não quer dizer que as mesmas não sejam muito boas, pelo contrário, em anos  que não se declaram Vintages, muitas vezes a colheita pode ser extremamente atraente, a ponto de serem elaborados grandes LBVs, quase como “falsos” Vintages. É o caso da safra 2001 disponível na importadora Grand Cru, de ótima qualidade (www.grandcru.com.br).

Este vinho deve ser obrigatoriamente decantado pelos dois motivos básicos: depósitos por não ser filtrado e aeração por sua tenra idade. Meu conselho é decantá-lo de duas a quatro horas no mínimo. Sua cor é retinta, impregnando as paredes da taça. Os aromas exibem uma concentração intensa de geléia de frutas escuras, além de toques defumados, balsâmicos, florais, ervas e especiarias. Ótimo corpo, musculoso, quente sem ser excessivamente alcoólico, apresentando um belo nível de acidez e estrutura tânica notável. Longa persistência e muito expansivo.

Neste inverno, finaliza bem com queijos potentes (o Serra da Estrela é a glória), charutos e aquele chocolate com alta porcentagem de cacau, apresentado em post passado na categoria harmonização.

Um último conselho: não sirva vinhos do Porto desta categoria naquelas taças minúsculas que parecem mais um dedal. Os grandes Portos, como qualquer grande vinho, precisam de espaço para se expressarem. Se você não possui a taça Riedel específica para Porto, pode servir numa boa taça de vinho branco de sua cristaleira.

Domaine Breton: A consciência de um Terroir

1 de Abril de 2010

 

Varietal impresso em rótulo francês

Estava escrito nas estrelas. Catherine et Pierre Breton nasceram para cultivar Cabernet Franc no Loire, uma das regiões francesas mais diversificadas em tipos e estilos de vinhos. A razão é óbvia. O nome desta uva no Loire é exatamente o sobrenome do casal.

Sob as apelações Chinon e Bourgueil localizadas na sub-região de Touraine, a Breton (Cabernet Franc) encontra sua melhor expressão como varietal, já que na região de Bordeaux, ela é sempre utilizada em cortes de maneira minoritária.

O vinho provado ontem em degustação temática na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers), apesar do infanticídio cometido, é a feliz conjunção de um grande produtor, um vinhedo diferenciado e uma safra perfeita. Tradução: Domaine Breton Bourgueil Clos Sénéchal 2005 (preço: R$ 120,00 – importadora World Wine – www.worldwine.com.br)

Catherine e Pierre Breton são biodinâmicos, o que em linhas gerais, podemos traduzir como total respeito à natureza. Portanto, não usam qualquer produto químico em toda a elaboração de seus vinhos, tanto no campo, como na adega. A fauna e flora locais precisam estar em harmonia para que as vinhas, parte deste ecossistema, possam produzir frutos de grande qualidade e pureza. É lógico que só esta filosofia não basta. É preciso ter talento para fazer vinhos. E isso eles têm de sobra.

Clos Sénéchal é um vinhedo de aproximadamente 1,3 hectares em solo argiloso com forte presença de calcário. Isso faz com que as uvas gerem vinhos de boa acidez, estruturados e aptos ao envelhecimento. A safra de 2005 na Europa de uma maneira geral foi perfeita, com todos os fatores climáticos sintonizados às respectivas estações do ano. Portanto, com uvas perfeitas nas mãos de quem entende, o sucesso decorre de maneira natural.

Fermentação com leveduras naturais, as quais fornecem personalidade própria ao vinho, utilização baixíssima de SO2 e muito pouca manipulação com ausência de filtração, são alguns dos detalhes deste belo vinho.

Cor concentrada e muito pouco evoluída. Aromas tipicos da casta com toques florais de violeta, destacada mineralidade e um núcleo extremamente frutado lembrando framboesas. Para desfrutá-lo nesta tenra idade é imperativo duas horas de decantação. Para os mais conscientes, esqueça-o na adega ao menos cinco anos.