Posts Tagged ‘sémillon’

África do Sul: Parte III

26 de Novembro de 2012

Retomando os vinhedos sul-africanos, vamos agora nos fixar em Paarl (pronuncia-se pérol) que significa pérola em holandês. Esta região começa em Simonsberg mountain, apresentada em post anterior e caminha no sentido norte ao interior do continente. É uma região mais quente comparada à Stellenbosch, já que não há uma influência marítima direta sobre a mesma. Contudo, o terroir continua excelente tanto para brancos, como principalmente para tintos. Muitas vinícolas famosas como Veenwouden, Glen Carlou, Rupert & Rothschild (o lado Lafite desta aristocrática família), La Motte, a tradicional Nederburg e a  impronunciável Boekenhoutskloof, entre outras. Muitos nomes de origem holandesa devem-se ao fato da colonização e origem deste país.

Dentro da área de Paarl, há um famoso e tradicional vale denominado Franschhoek (esquina francesa), com forte tradição francesa. A origem desta imigração são os chamados huguenotes, denominação dada aos calvinistas franceses que foram expulsos nos séculos XVI e XVII por motivos religiosos, fortalecendo a expansão do protestantismo.

File:PaarlWC-Aerial.jpg

Paarl: vales e montanhas em harmonia

Como destaque de tintos, temos o corte bordalês da vinícola Rupert & Rothschild, o Merlot da Veenwouden e o Shiraz da vinícola Boekenhoutskloof. Os vinhos de sobremesa da Nederburg, principalmente os baseados em Chenin Blanc, merecem destaque, com preços bastante acessíveis. São importados no Brasil pela Casa flora (www.casaflora.com.br). A grande estrela neste cenário é o mítico Edelkeur da própria Nederburg, de produção bastante reduzida. Favor consultar artigos neste mesmo blog sobre os vinhos doces da Nederburg, inclusive um artigo especial sobre o grandioso Edelkeur.

Constantia nos arredores de Cape Town

Para completar a nata dos vinhos sul-africanos, temos a antiga e tradicional região de Constantia. Berço da viticultura deste país, duas vinícolas destacam-se com vinhos singulares. A primeira, Klein Constantia, com cortes bordaleses elegantes, mas principalmente, por revitalizar o imortal Vin de Constance, um dos vinhos emblemáticos das principais cortes européias no século dezoito. Baseado na uva Muscat à Petits Grains é um vinho de sobremesa de colheita tardia, delicado e de muita classe. Foi o vinho escolhido por Napoleão em seu exílio na ilha de St Helena.

A segunda vinícola é Steenberg, a mais antiga vinícola da África do Sul, fundada em 1682. Seu Sauvginon Blanc e Sémillon são grandes destaques e estão entre os melhores brancos sul-africanos. Aliás, a Sauvignon Blanc em Constantia é a uva mais plantada desta região. O clima frio devido à forte influência marítima e solos de origem granítica propiciam uvas de boa acidez e vinhos com destacada mineralidade. Estes vinhos são importados pela Winebrands (www.winebrands.com.br).

Château Gilette: Origininalidade em Sauternes

13 de Agosto de 2012

Este château completa a trilogia em Sauternes, juntamente com Yquem e Climens. Se Yquem é a opulência, Climens a delicadeza, certamente Gilette, é a originalidade de um grande terroir. Falando neste conceito, aqui não é a cepa, o clima ou o solo, os fatores determinantes, e sim, o homem. A filosofia na vinificação e sobretudo no amadurecimento do vinho, transforma Gilette num vinho único.

Num terreno pedregoso na comuna de Preignac, de solo arenoso com subsolo calcário, quatro hectares e meio são cultivados com uvas Sémillon, complementadas por Sauvignon Blanc e uma pitada de Muscadelle. O vinho é fermentado em aço inox e amadurecido em cubas de cimento por quinze a dezoito anos em média. Eu disse anos, não meses. Completando mais dois anos em garrafa, é então comercializado.

Normalmente, os vinhos doces na região de Sauternes são fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho por longos meses. Château Gilette não tem qualquer contato com madeira, preservando integralmente todo o potencial aromático da fruta e dos efeitos da Botrytis. Um detalhe importante para quem for degustá-lo, é que imperativamente deve ser decantado por pelo menos uma hora. O ideal seria mais de duas horas. A explicação é simples. Além de um longo período nos tanques de cimento, há muitas vezes um longo período em garrafa. Portanto, nestes dois ambientes, há um forte caráter redutivo, ou seja, ausência de oxigênio. Daí, a necessidade da decantação para que a aeração devolva com o tempo toda a riqueza aromática deste grande vinho.

Terroir Barsac: Château Climens

6 de Agosto de 2012

Neste mesmo blog, já falamos em outras oportunidades sobre os vinhos de Sauternes, a região de Bordeaux, a influência da Botrytis Cinerea na elaboração de vinhos doces, e alguns outros assuntos correlacionados. Contudo, desta feita trataremos de um terroir específico na região de Sauternes denominado Barsac. O château abaixo está para esta comuna, assim como Yquem está para Sauternes.

A safra 2001 na região foi excepcional

Os châteaux Climens e Gilette (este da comuna de Preignac) são tecnicamente dois grandes rivais do todo poderoso Yquem, embora a fama e glamour deste último, seja inquestionável. Falaremos oportunamente, das peculiaridades do Château Gilette.

Detalhes geográficos de comunas famosas

Dentro do mágico território bordalês dos grandes vinhos botrytisados, apelações satélites como Sainte-Croix-du-Mont, Loupiac, Cérons e Cadillac, foram abordadas na série Bordeaux em cinco partes, neste blog.

A região de Sauternes, a mais famosa neste tipo de vinho, é desmembrada em cinco comunas clássicas, conforme mapa acima do lado esquerdo, ou seja, Barsac, Sauternes, Fargues, Preignac e Bommes. Notem que o rio Ciron, um importante afluente do Garonne, corta a região, separando a comuna de Barsac à esquerda, das demais comunas à direita. Outra peculiaridade, é que Barsac possui denominação própria, conforme rótulo acima do Château Climens, Appelation Barsac Controlée. As outras comunas são englobadas na apelação Sauternes. Contudo, a grande diferença de Barsac para as demais comunas em termos de terroir está na geologia, referente à formação de seus respectivos solos.

Em Barsac, o subsolo predominantemente calcário, apresenta várias fissuras, proporcionando uma drenagem excelente. A parte mais superficial, é composta de argila, areia e óxido de ferro, dando um aspecto avermelhado. O calcário além de fornecer finesse, agrega mineralidade e alto índice de acidez nas uvas, proporcionando vinhos equilibrados e elegantes. Numa comparação genérica com os vinhos de Sauternes, Barsac molda vinhos com maior frescor, transmitindo uma sensação menos untuosa que seu concorrente.

Em particular, Château Climens localiza-se próximo aos rios Ciron e Garonne a vinte metros acima do nível do mar, uma das mais altas da região conhecida como Haut-Barsac, com exposição sudeste. Essas condições proporcionam um ataque precoce da Botrytis Cinerea com ótimo nível de atuação, antecipando sempre a colheita no château com relação a seus concorrentes. A facilidade da botrytisação é um dos motivos para que Climens seja um varietal de Sémillon (100%), dada a afinadade desta cepa com o nobre fungo. A forte presença de fósseis marinhos no subsolo calcário indica a existência de mar no local em outras eras geológicas, transmitindo uma mineralidade adicional, além da destacada acidez. Tudo isso é potencializado pela proximidade da rocha-mãe, já que o solo é relativamente raso. Esses fatores são extremamente importantes para o belo equilíbrio de um vinho 100% Sémillon. Normalmente, em muitos châteaux, uma certa proporção de Sauvignon Blanc é necessária para garantir o frescor do vinhos.

Os châteaux Coutet e Doisy-Daëne são belas referências em Barsac, após o soberano Climens. Estes châteaux como todos os bordeaux, não têm exclusividade em importadoras, mas Doisy-Daëne elaborado pelo mestre Denis Dubourdieu, é importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br).

Harmonização: Vatapá

21 de Julho de 2011

Dentre os pratos da riquíssima cozinha baiana está o Vatapá, receita dada magistralmente na música do eterno Dorival Caymmi (clicar vídeo). Além disso, serve como recheio de outra especialidade baiana, o Acarajé (massa à base de feijão fradinho, frito em óleo de dendê).

Miniatura

http://youtu.be/WjXTXrZsSX8

 A receita leva farinha de rosca ou fubá, amendoim, castanha de cajú, pimenta malagueta, gengibre, cebola, coentro, tomate, leite de coco, azeite de dendê, camarões secos e alguns outros ingredientes que são segredos de cada autor. Tudo é triturado, mexido lentamente em fogo baixo formando um purê, conforme figura abaixo.

Vatapá: Textura cremosa

Na harmonização, devemos pensar num vinho branco saboroso, pois o prato exige sabor, além de uma textura espessa, pois o prato tem cremosidade. Neste contexto, os clássicos chardonnays passados em barrica de carvalho são a primeira opção. De fato, seu aroma intenso de fruta tropical, com toques tostados, e sabor amanteigado, vão muito bem com o prato. Se for borgonha, um Meursault apresenta a textura mais adequada. Sua acidez equilibra a gordura do prato, sem contar os aromas lembrando cajú dos grandes borgonhas.

No Novo Mundo, chardonnays californianos, chilenos, australianos e sul-africanos, com passagem por barrica, podem ser bem interessantes. Brancos com as uvas Sémillon, Viognier e Pinot Gris, podem ser belas alternativas, sempre com sabores intensos e boa textura. Gewurztraminer pode dar certo, embora sua crônica falta de acidez, pode tornar a harmonização um tanto cansativa.

Quanto mais novos forem esses vinhos, melhor. Terão mais fruta, mais frescor, combatendo principalmente, o lado que pode ser quente do prato, a pimenta. Se o abuso for para o lado do dendê, um toque de evolução no vinho, ajuda. Se o gosto pelo coentro falar mais alto, um Sauvignon Blanc de boa textura pode dar certo. Um Cloudy Bay da Nova Zelândia (Grupo LVMH – www.lvmh.com) ou um Steenberg Reserve da África do Sul (www.expand.com.br) ou também (www.winebrands.com.br).

Harmonização: Culinária Árabe

28 de Julho de 2010

Líbano: culinária árabe mais delicada

Falar de culinária árabe num sentido mais amplo, englobaria vários países do Oriente Médio, com inúmeras peculiaridades e variações. Nosso foco está mais para o que conhecemos de cozinha árabe no Brasil, como esfihas, quibes, kafta, homus, tabule, entre outros pratos, com ênfase na culinária sírio-libanesa.

A cozinha de um modo geral é delicada, inclusive as especiarias, notadamente a pimenta síria. Ingredientes como iogurte, cebola e limão devem ser considerados, principalmente quando temos a autonomia de dosá-los em nossos pratos.

De um modo geral, brancos de boa acidez e relativamente frutados, sem passagem por madeira, são os ideais, principalmente com as saladas como o tabule, por exemplo. Evite vinhos extremamente frutados e encorpados. Eles podem ser um tanto dominadores. Chardonnays sem madeira, Sauvignons frescos e jovens do Chile e África do Sul, são mais aconselháveis.

Os pratos leves de carne, como quibes, esfihas e kaftas vão bem com tintos frescos e de boa fruta. É importante calibrar adequadamente o corpo do vinho para não sobrepujar os pratos. Tintos do Loire à base de Cabernet Franc são os mais indicados, sob as apelações Bourgueil e Chinon, já abordadas em posts passados. Pinot Noir também do Loire ou Beaujolais (uva Gamay) de boa procedência são as opções imediatas. Receio que vinhos do Novo Mundo, mesmo jovens e sem passagem por madeira, possam ser um pouco dominadores, tirando o brilho da harmonização.

Pratos quentes à base de frango e principalmente o carneiro, podem prescindir de tintos mais estruturados, sem estes jamais perderem a elegância e sutileza. Syrah do Rhône do Norte sob as apelações Crozes-Hermitage e Saint-Joseph parecem ter frescor, estrutura e elegância na medida certa. As opções do sul do Rhône, embora tenham ressonância aromática, muitas vezes carecem de frescor. O mesmo ocorre com os tintos da Provence, exceto os rosés, que podem surpreender favoravelmente, desde o início da refeição.

Do lado italiano, Dolcettos, Barberas e Chiantis, todos simples e frescos são benvindos. Tempranillos espanhóis no estilo joven (quase ou totalmente sem passagem por madeira) são opções a considerar.

Os tintos libaneses disponíveis no Brasil como Chateau Musar e Chateau Kefraya podem apresentar a crônica falta de frescor. Para pratos mais estruturados como o carneiro podem surpreender, sobretudo se calibrarmos bem a temperatura de serviço. 

Homus: uma entrada aparentemente inocente

O gosto apesar de não muito intenso, apresenta uma textura pastosa, com um final levemente adstringente e pouco habitual em outras pastas. Além disso, existem o limão e o gergelim presentes na receita. O famoso branco grego Retsina (que muitos torcem o nariz) e o Tokay na versão seca (Szamorodni quase sempre se enquadra nesta versão) são combinações perfeitas. Eles têm acidez, personalidade e afinidade de sabores para o prato. Um Sémillon australiano do Hunter Valley é uma saída original do Novo Mundo. Este mesmo Sémillon, com uns bons anos em garrafa, adquire um toque defumado que ficará perfeito com outra especialidade sírio-libanesa, o babaganuche (pasta de beringela assada).

Bordeaux: Parte III

13 de Fevereiro de 2010

Região de Graves

Completando a chamada margem esquerda abordada no último post, detalharemos a seguir a região de Graves, a qual começa a sul das imediações da cidade de Bordeaux, percorrendo toda a margem esquerda do Garonne até a cidade de Langon. É uma vasta região com brancos e tintos interessantes.  Dentro desta área estão duas apelações muito famosas: Pessac-Léognan a norte e Sauternes a sul.

Podemos dizer que Pessac-Léognan é o filé mignon deste pedaço, englobando os melhores brancos e tintos, inclusive o majestoso Château Haut-Brion. Esta apelação relativamente nova data de 1987. Até então, todos os vinhos eram engarrafados sob a apelação Graves, esclarecendo possíveis confusões com châteaux mais antigos.

Aqui nos deparamos com outra importante e antiga  classificação de Bordeaux denominada classificação de Graves, iniciada em 1953 e completada em 1959. Permanece imutável a exemplo da classificação de 1855. A lista completa com 16 châteaux entre tintos e brancos está no site www.bordeaux.com.  Só para ratificar, todos os châteaux classificados estão dentro da apelação Pessac-Léognan, confirmando seu terroir diferenciado.

Os tintos são moldados dentro do corte bordalês com leve predominância da Cabernet Sauvignon sobre a Merlot fugindo um pouco do estilo mais austero do Médoc. Um dos motivos é a composição do solo onde a proporção de areia é maior do que a argila, mantendo a presença de cascalho que dá nome à região (Graves). Portanto, os vinhos não são tão encorpados como no Médoc e costumam amadurecer mais cedo com uma mineralidade notável (um toque terroso).

Châteaux de destaque

Château Haut-Brion é a exceção  que ostenta as duas importantes classificações de Bordeaux, 1855 e a de Graves. A explicação por ser o único vinho fora do Médoc incluso em 1855 vem do fato de seu enorme prestígio na época e também ser o mais antigo dos grandes châteaux de Bordeaux. De fato, é soberbo. Muitas vezes acessível na juventude, mas com muita profundidade e sutileza, podendo envelhecer por décadas em grandes safras. Localiza-se em Pessac, praticamente dentro da cidade de Bordeaux.

Château La Mission Haut-Brion, vizinho e rival do grande Haut-Brion, na verdade são parceiros desde 1983, pertencendo ao mesmo proprietário (família Dillon). Numa sintonia fina, podemos dizer com relação a seu parceiro que há uma certa exuberância e potência em detrimento à sutileza. Contudo, é igualmente magnífico. Isso é o que podemos chamar de concorrência em alto nível.

Se você não quiser correr riscos para os grandes tintos de Pessac-Léognan além dos dois rivais acima, a opção mais segura é o Château Pape-Clément. Não tão caro como os dois acima, mas igualmente consistente. Elegante e sutil, suas notas terrosas vão se misturando a tabaco na evolução em garrafa, sugerindo alta gastronomia baseada em cogumelos e trufas.

Para os outros châteaux classificados sempre corre-se um certo risco em termos de tintos. Além dos classificados, Pessac-Léognan pode oferecer boas ofertas como o Chãteau de France e mesmo a vasta região de Graves tem bons vinhos para o dia a dia como o Château Cantegril. É uma questão de pesquisar o produtor.

Encerrando os tintos, passemos aos brancos com alguns tesouros esquecidos. Dentre os classificados, novamente a mesma parceria de tintos transfere-se para os brancos, ou seja,  Château Haut-Brion branco e Château Laville-Haut-Brion (o grande branco do La Mission). Qualquer um dos dois são espetaculares e envelhecem muito bem.

Se você não quiser gastar uma fortuna, há ótimas opções dentre os classificados. Os châteaux mencionados a seguir são mais uma questão de gosto, sem nenhuma ordem hierárquica: Domaine de Chevalier (denso e complexo), Château Carbonnieux (muito delicado e elegante), Château de Fieuzal, Château Olivier e Château Smith-Haut-Lafitte.

Fora dos classificados, tanto Pessac-Léognan como Graves, oferecem boas opções mais frugais. Château Reynon, Château Haut-Bergey e Clos Floridène são pedidas seguras.

Por úlitmo, cabe esclarecer que os brancos secos de Bordeaux são baseados principalmente na Sémillon e Sauvignon Blanc. Enquanto a Sémillon aporta estrutura, corpo e profundidade, a Sauvignon Blanc fornece acidez, frescor e leveza. Pode haver uma pitada neste blend de uma terceira uva chamada Muscadelle, que fornece notas florais e certa graciosidade ao conjunto.

Com isso, encerramos os grandes brancos secos de Bordeaux. A região de Sauternes e suas imediações ficarão para o post dos grandes doces de Bordeaux.