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Gamay ou Pinot Noir?

26 de Setembro de 2014

O título deste artigo é culpa do amigo Roberto Rockmann, alucinado por borgonhas. A safra não tem desculpa. 2009 foi uma das melhores dos últimos tempos. A proposta desta vez era encontrar o Pinot Noir da Côte d´Or, mais especificamente de Beaune, entre dois Gamays de grande prestígio, no seleto grupo dos Crus de Beaujolais. Produtores especialistas em suas apelações, Moulin à Vent e Fleurie. Os trabalhos foram abertos com o delicado e macio Auxey-Duresses do produtor Montille, gentilmente oferecido por outro grande amigo, doutor Cesar Pigati. Safra 2005, no mesmo nível de 2009. Apesar de seus nove anos, está em plena forma para uma apelação Villages. Todos os tintos acima citados foram degustados às cegas e são importados pela primorosa Cellar (www.cellar-af.com.br) do expert Amauri de Faria.

Auxey-duresses 2005

Estilo entre Meursault e Puligny-Montrachet

O primeiro vinho degustado entre os tintos foi o Beaune Premier Cru. A cor e os aromas sugeriam esta apelação. Sua coloração esmaecida e seus aromas terrosos, sous-bois e um fundo floral, credenciavam-no a um autêntico Pinot Noir da Borgonha. Foram os taninos mais finos da degustação, embora os demais fossem de alta qualidade. Bom momento para ser tomado, mas ainda vislumbrando bons anos em adega. O Domaine Fargues é super artesanal. Este vinhedo “Les Aigrots” fica ao lado do reputado Clos des Mouches que por sua vez, faz divisa com Pommard. A parcela do domaine é menos de um hectare de vinhas. As uvas são vinificadas de forma clássica com maceração delicada em cubas de madeira. Sua passagem por barricas é sutil tendo no máximo 30% de madeira nova. Aliás, a perfeita integração com a madeira, além da imperceptível presença do álcool, foram recorrentes em todos os vinhos.

domaine fargues beaune premier cru

Cores e aromas da Côte d´Or

Beaune premier cru

A foto confirma a descrição acima

O segundo tinto deu trabalho. Inicialmente, muito fechado em aromas, boca tensa, taninos firmes, mas de grande potencial. Um pequeno infanticídio para o momento. Trata-se de um grande Moulin-à-Vent do Domaine Gay-Coperet. Um vinho amadurecido durante nove meses em toneis de carvalho de Tronçais, uma das melhores florestas da França. Os aromas de frutas escuras, leve floral, um toque tostado muito sutil e taninos presentes em abundância eram o seu perfil. Pelo menos, mais cinco anos em adega. Degustá-lo, preferencialmente decantado.

moulin à vent domaine gay-coperetEstrutura e profundidade

moulin à vent 2009

A cor confirma as impressões acima

O último tinto era o instigante Fleurie do Domaine Chignard. Balançou entre um Beaujolais e um Beaune. A cor tinha intensidade intermediária, respeitando a hierarquia do imponente Moulin-à-Vent. Embora com boa estrutura tânica, sua acidez, seu frescor, eram prevalentes. Aroma mais delicado e menos sisudo que seu parceiro de apelação. Aqui a delicadeza não tem nada a ver com fragilidade. Pelo contrário, este vinhedo (Les Mories) de oito hectares de vinhas antigas, com mais de sessenta anos e altamente adensadas (cerca de dez mil pés por hectare), tornam este vinho profundo e com belo extrato. Pode já ser degustado com prazer, mas alguns anos em adega devem lhe fazer bem. Seus treze meses em toneis antigos foram perfeitos para uma correta micro-oxigenação.

Fleurie chignard

Elegante e profundo

Fleurie 2009

Cor didática para um Cru de Beaujolais

Como sempre, uma degustação extremamente prazerosa. Evidentemente, as provocações do jornalista Roberto geram algumas discussões, mas tratando-se de Borgonha, é algo inevitável. Que venham mais provocações doutor Roberto! Afinal, o aprendizado é sempre bem-vindo e o bate-papo não tem preço.

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Chambolle-Musigny pelo maestro Mugnier

21 de Agosto de 2014

Mais uma aula de Borgonha inspirada pelo amigo e aficionado no assunto, Roberto Rockmann. Juntamente com Lucas Gavião e o onipresente doutor Cesar Pigati, formamos o quarteto para a orquestração. Tema: Chambolle-Musigny. Maestros: Mugnier e Roumier. Safra: a abordável 2009. Degustação às cegas, sem partituras.

mugnier 2009

Mugnier: A essência de Chambolle-Musigny

Finalmente, a degustação fez-me entender o que é um Mugnier. Embora fosse um vinho comunal, pude vislumbrar seus tintos de maior quilate como Les Amoureuses ou o enigmático Musigny Grand Cru. Este exemplar é o típico vinho didático, de sala de aula. Expressa com perfeição o que é a delicadeza e feminilidade de um autêntico Chambolle-Musigny. A boca é fresca, sedosa, toda em sutileza. Os aromas florais, de frutas vermelhas delicadas e um bouquet garni de especiarias doces, formam um triunvirato em perfeita harmonia. Muito cuidado na harmonização para não destoar nenhuma nota.

roumier 2009

Roumier: Tipicidade confusa

Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos, não tendo sustentação com os demais componentes. Faltou algo mais sedutor e sua tipicidade ficou em xeque.

chambolle na taça

Mugnier: cor tênue na taça A

As considerações no que diz respeito à interpretação do terroir são importantes para entendermos a degustação. Frédéric Mugnier utiliza parte das uvas de um de seus vinhedos classificado como Premier Cru, mas ele resolveu vinifica-las como Village, o que confere mais personalidade ao conjunto. Outro ponto importante é o desengaço total das uvas para posterior vinificação. A extração de taninos é a mais suave possível e a madeira procura ter um mínimo de interferência. Já Roumier, imprime uma extração mais potente e pratica um desengaço parcial das uvas. A própria diferença de cores entre as duas taças evidencia estas observações.

louis carillon puligny

A elegância de Puligny-Montrachet

Para complementar e enriquecer a harmonização do jantar, tínhamos também um  belo branco de Puligny-Montrachet, do produtor Louis-Carillon. Trata-se de um Premier Cru 2006 Les Perrières. Este vinhedo confunde-se na comuna de Meursault, proporcionando diferenças sutis. No lado de Puligny, predominam a elegância e sutileza. Já os Meursaults, a intensidade e potência tornam-se mais presentes. Cometemos um pequeno infanticídio, pois o vinho tem muita vida pela frente.

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Borgonha: Terroir, tipicidade e dúvidas

24 de Julho de 2014

O intrincado mosaico borgonhês deixa qualquer aficionado pelos seus vinhos de cabelos em pé. Por mais estudos, teorias, e uma certa racionalidade em entender seus vinhos, a Borgonha desafia enófilos, enólogos, críticos e apaixonados pela região, caindo por terra todas suas convicções. E este é certamente, um dos motivos, talvez o principal, pela fascinação e admiração por este desafio quase intransponível. Foi o que aconteceu numa degustação às cegas proposta pelo amigo Roberto Rockmann, viciado e alucinado por estes tintos sutis e misteriosos.

Na mesa com as letras A, B e C, três tintos da Côte de Nuits de comunas diferentes. Chambolle-Musigny, Vougeot e Nuits Saint-Georges, interpretadas por produtores de respeito, tentando passar a tipicidade de seus vinhos. A safra 2007 foi comum a todos. Safra sabidamente de característica precoce, acessível em tenra idade, e já com seus sete anos podendo proporcionar alguns aromas de evolução. Todos também estão na categoria Premier Cru, bastante restrita em termos de produção e que é capaz de expressar com clareza a respectiva tipicidade de sua comuna.

Feita essas considerações e apresentações, vamos aos detalhes de cada um dos vinhos abaixo:

chambolle-musigny

O fator humano pesou neste rótulo

Na minha modesta opinião sobre a comuna de Chambolle-Musigny, a primeira sensação esperada nestes vinhos é a elegância, a delicadeza, a sutileza. Infelizmente, o produtor abusou da madeira neste exemplar. Erro crucial para ofuscar os predicados descritos acima. Mesmo assim, um bom vinho, mas nunca um verdadeiro Chambolle-Musigny.

Vougeot premier cru

Elegância: marca inconteste da Borgonha

Pouca gente sabe que existem outros vinhos nesta comuna, além do emblemático Clos de Vougeot, o maior Grand Cru da Borgonha com cerca de cinquenta hectares de vinhas distribuídas dentre inúmeros produtores. O rótulo acima, um belo Premier Cru “Les Cras”, numa localização pouco privilegiada na colina, demonstrou finesse, própria de sua comuna e sua nobre vizinhança. É bem verdade, que sua persistência aromática não é tão expansiva, mas o competente produtor Bertrand Ambroise soube extrair com astúcia a essência de seu terroir.

les saint georgesFaltou elegância neste rótulo

Este produtor, Thibault Liger-Belair, reverenciado pelos melhores críticos da região, inclusive o papa Clive Coates, acabou me decepcionando, sobretudo no quesito elegância. E não há contradição nesta afirmação. Explico melhor, nesta região de Nuits-Saint-Georges, os vinhos costumam ser mais rústicos, evidentemente dentro de uma sintonia fina com o que há de melhor na sagrada sub-região de Côte de Nuits. Entretanto, neste Premier Cru Les Saint Georges, trata-se de mais uma exceção, entre tantas quando se trata da capciosa Borgonha. Os vinhos deste vinhedo costumam ser elegantes e longevos. No exemplar acima, não contesto a longevidade, pois o mesmo possui uma estrutura tânica invejável. Contudo, dentro do alto padrão de Les Saint Georges, e por tratar-se de um produtor de alto nível, seus taninos são relativamente rústicos, provocando uma secura e uma adstringência desagradáveis no final de boca. Repito, na minha modesta opinião. E esta opinião não foi nem de longe unanimidade entre os degustadores desta noite.

Não é preciso dizer que errei todos os exemplares, mas degustação às cegas é sempre um ato de humildade. É mais um incentivo e motivação para continuarmos os desafios desta fascinante região. Como dizem os entendidos, Borgonha é sempre o estágio final da longa jornada do degustador persistente e inquieto. Que venham mais desafios, meu caro Roberto!

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Vosne-Romanée: Premier ou Grand Cru?

22 de Maio de 2014

A recorrente frase “Em Vosne não existem vinhos comuns” vai além da emoção e nostalgia. Alguns Premiers desta comuna batem de frente com os venerados Grands Crus, balançando seriamente a suposta hierarquia. O mítico Premier Cru Cros Parantoux (artigos específicos já citados neste blog) elaborado pelo mestre Henri Jayer talvez seja o exemplo mais taxativo.

Recentemente, o amigo e grande entusiasta dos mistérios e detalhes do intrincado mosaico borgonhês, Roberto Rockmann, mostrou mais uma vez a força desta frase. Trata-se do Premier Cru “Aux Brûlées” do conceituado produtor Michel Gros, sobrenome incontestável nos melhores caldos desta sagrada terra, conforme foto abaixo:

Vizinho do imponente Richebourg

O nome “Aux Brûlées” sugere um terreno quente no verão, queimando toda a pequena vegetação espontânea pelo sol no vinhedo de pouco mais de meio hectare (0,63 hectare). O solo extremamente pedregoso com forte base calcária, gera vinhos elegantes e de bela acidez. A safra 2004, provada na ocasião confirma um vinho elegante, vivaz e com boa estrutura tânica para envelhecer, além da cor muito pouco evoluída. Seus aromas são o ponto de destaque, com toques florais, ervas finas, especiarias e notas minerais. Pouco a pouco, o alcaçuz revela-se entremeado a toques de caça (carne, animal). 

Cros Parantoux: vinhedo bem próximo

Localizado nas partes mais altas da colina, respeitando a faixa dos grands crus, Aux Brûlées beneficia-se de boa amplitude térmica, o que em anos mais quentes, pode ser um diferencial.

Após uma rigorosa seleção das uvas, as mesmas são desengaçadas. A fermentação ocorre em temperaturas não mais que 32°C com contínuas remontagens. O pigeage (processo mecânico através de um bastão com placa na extremidade) é utilizado nas remontagens para uma extração mais natural. O amadurecimento em madeira compreende as seguintes fases: seis primeiros meses em tonéis grandes e usados, estabilizando o vinho. Em seguida, o vinho passa mais doze meses em tonéis novos e usados em porcentagens variadas. Para os Villages, 30 a 40% de madeira nova. Para os Premiers, 50 a 80% de madeira nova. Já para os Grands Crus, 100% de barrica nova.

Outros crus de destaques deste produtor são Vosne-Romanée Premier Cru Clos des Réas e o Grand Cru Clos Vougeot. Este último, são apenas 0,2 hectares de vinhas, ou seja, dois mil metros de terreno localizados na parte superior das terras de Vougeot, bem próximo ao vinhedo Grands-échezeaux, uma das melhores localizações para este polêmico e heterogêneo Grand Cru.

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Marquis d´Angerville: Volnay Clos des Ducs

25 de Março de 2014

Toda comuna famosa da Borgonha tem seu vinho de sonhos, às vezes mais de um. É o caso de Volnay, reputada por seus tintos delicados e profundos, bem ao estilo Côte de Beaune. Domaine Lafarge, já comentado em artigo específico neste mesmo blog, é um dos devaneios. Seu rival, no bom sentido, é Domaine Marquis d´Angerville com o monumental Clos des Ducs, estrela deste artigo. 

Volnay clos des ducsSafra 1990: longa permanência em adega

A história do domaine começa no início do século dezesseis com seu vinhedo mais famoso, o monopólio Clos des Ducs, um Premier Cru de rara distinção. Seu solo pedregoso, com forte presença de calcário formando o que se chama de “marne blanche”, mistura equilibrada entre argila e calcário, própria dos grandes terroirs na Borgonha. São apenas 2,15 hectares neste monopólio, correspondentes a 52 ouvrées (24 ouvrées equivalem a um hectare). Como curiosidade, ouvré foi uma antiga medida de terra onde em média um lavrador era capaz de cultivá-la num dia de trabalho.

Clos des Ducs: Vinhedo ao lado do vilarejo de Volnay

O domaine é totalmente biodinâmico desde 2006. Os rendimentos são controlados naturalmente não ultrapassando 35 hectolitros por hectare. Nas vinhas mais antigas como Clos des Ducs, esses rendimentos são inferiores. Vale salientar o trabalho minucioso quanto à seleção clonal dos vinhedos durante décadas, culminando num Pinot Noir diferenciado de baixíssimos rendimentos denominado “Pinot d´Angerville”.

Vinhas antigas no Domaine Marquis d`Angerville

Vinhas antigas no Domaine

Na sucessão familiar, Guillaume d´Angerville dirige o domaine atualmente. São quinze hectares de vinhas prioritariamente voltadas a Volnay com onze hectares dedicados à apelação Premier Cru, a mais alta dentro desta comuna. Quanto à vinificação, o processo é o mais natural possível, respeitando as leveduras naturais e não ultrapassando temperaturas entre 30 e 32°C. Assim a extração de taninos acontece de forma correta e não exagerada. Em seguida, o vinho é conduzido por gravidade para a sala de barris. A proporção de barricas novas em média não ultrapassa 20%, posto que a delicadeza de um Volnay precisa ser respeitada. O tempo de permanência nas mesmas fica entre quinze e dezoito meses. Após total estabilização, os vinhos são engarrafados sem colagem e sem filtração, preservando todos os elementos naturais.

Aí é só esperar pelo menos dez anos para abrir a primeira garrafa. Se a safra for excepcional, tenha um pouco mais de paciência. Lembre-se: o apressado come cru.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) nas terças e quintas nos programas Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Tributo à Maison Bollinger

7 de Novembro de 2013

No final de ano fica quase impossível não falar de champagne, o vinho mágico, das festas, das celebrações e por que não, da alta gastronomia. Existem maisons maravilhosas neste mundo de contemplação e luxo, mas se eu tivesse que escolher entre os cinco grandes champagnes, não hesitaria em colocar em um dos dedos da mão a Maison Bollinger. Champagne sobretudo da refinada gastronomia, com profundidade e muita personalidade, conforme este belo vídeo abaixo:

http://youtu.be/NX3_RvaPaRc

Quando bebemos um Bollinger não devemos esperar apenas um bom champagne, mas algo de extremo refinamento, próximo à perfeição. Para isso, existem alguns detalhes imprescindíveis ao longo de sua elaboração, como veremos a seguir. Primeiramente, a Maison possui vinhedos próprios, perto de 164 hectares de vinhas, fato absolutamente atípico na região. Outra premissa importante é que praticamente seus vinhedos são todos Grands Crus e Premiers Crus (80 a 90%) a cada colheita. Somado a estes fatores, há um bom arsenal de vinhas antigas, as quais transmitem com precisão a essência de seu terroir.

Quanto ao estilo, Bollinger é um champagne encorpado, gastronômico, com mais de dois terços da cuvée com as tintas Pinot Meunier e Pinot Noir sobretudo, uva que fornece estrutura ao champagne. Mesmo em sua cuvée básica, non millésimé, o que é quase um sacrilégio chamá-la de básica, mais de oitenta por cento, são vinhedos grand cru e premier cru. Quando entramos em suas cuvées de luxo, Grande Année, Bollinger RD e Vieilles Vignes Françaises, estamos falando somente das uvas Pinot Noir (predominante) e Chardonnay com vinhedos Grands Crus e Premiers Crus, exclusivamente.

James não deixava por menos

A foto acima exemplifica uma vinificação exclusiva e severa nos seus mínimos detalhes, a famosa Bollinger RD, preferida de Bond. A propósito, RD significa Récemment Degorgé (recentemente degolado), ou seja, champagne com grande contato sur lies (sobre as leveduras mortas). Na média, por volta de dez anos. Este tempo só é possível para champagnes de grande estrutura, fornecendo aromas e textura únicos. Para termos esta destacada estrutura, precisamos partir de vinhos-base especiais, outro detalhe importante desta Maison. A vinificação e amadurecimento de seus vinhos é feito em barricas de carvalho, promovendo uma micro-oxigenação  adequada para um envelhecimento futuro de extrema longevidade. São três mil barricas de carvalho usadas (não novas, pois a ideia não é passar aromas da madeira ao vinho) que garantem este procedimento.

Outro procedimento exclusivo desta Maison é a cada ano escolher os melhores vinhos da colheita para serem guardados em seiscentas mil garrafas Magnum, separando cada vinhedo, cada parcela, em lotes específicos. Este procedimento garante com grande eficiência o contato quase nulo com o oxigênio, preservando estas reservas para serem utilizadas quando solicitadas.

Quanto ao açúcar residual dado pelo licor de expedição, as doses são as mínimas possíveis, sem camuflagens de possíveis defeitos de qualidade do produto final, permitindo sentir o alto padrão de seus vinhos-base. Essas doses não passam de sete a nove gramas por litro de açúcar residual.

A novidade mais recente é reprodução da garrafa de 750 ml no formato Magnum, ou seja, o gargalo mais afunilado e a base mais larga. Além do aspecto estético, este novo formato é o ideal para concentrar o mínimo de ar dentro da garrafa, entre o líquido e a rolha definitiva, preservando ainda mais a oxigenação nociva ao vinho, conforme foto abaixo:

Nova garrafa: Petit Magnum

Por fim, a homenagem abaixo a Lily Bollinger, figura marcante do século passado, que exprimiu como ninguém o verdadeiro savoir-vivre em apreciar um bom champagne: “Bebo champagne quando estou feliz, ás vezes bebo também triste. Eu o bebo quando estou sozinha, mas considero obrigatório quando estou acompanhada. Aprecio quando estou sem fome, mas com a comida não o dispenso. De outra maneira não o toco, a menos que esteja com sede”.

  Je le bois lorsque je suis joyeuse et lorsque je suis triste. Parfois, je le prends quand je suis seule. Je le considère obligatoire lorsque j’ai de la compagnie. Je joue avec quand je n’ai pas d’appétit, et j’en bois lorsque j’ai faim. Sinon, je n’y touche jamais, à moins que je n’aie soif .

Quase todas as considerações acima citadas valem também para seu grande rival, o excepcional champagne Krug, também de origem alemã. Qual o melhor? Acho que até no par ou ímpar é capaz de dar empate técnico.

Domaine Lafarge: A essência de Volnay

2 de Setembro de 2013

Neste blog falamos várias vezes, exaustivamente, que Borgonha é terra de especialistas. Definitivamente, não existe clínico geral de grande competência. Se você quiser sonhar com Borgonha, determine a comuna de sua preferência e vá para domaines que tenha total sintonia com o terroir em questão. Foi o caso de um belo jantar na companhia dos amigos Roberto Rockmann (profundo conhecedor da região) e doutor César Pigati (meu grande parceiro na ABS-SP). A estrela da noite é o exclusivo rótulo abaixo do Domaine Lafarge, ícone da comuna de Volnay, não encontrado no Brasil.

Safra 1999: em plena forma com bons anos pela frente

Sabemos que a comuna de Volnay, situada na Côte de Beune, elabora tintos delicados, características intrínsecas ao tipo de solo e clima da região. Entretanto, delicadeza com profundidade é competência para poucos. E quando isso ocorre, é como penetrar na alma de um autêntico borgonha. Foi o que aconteceu com este belo tinto chegando ao seus catorze anos de vida, e vida longa por sinal. A cor com leve tendência ao atijolado e intensidade acima da média. Os aromas com predominância de toques terciários mantinham uma fruta presente, de bom frescor e muita vivacidade. O sous-bois (mistura de terra e cogumelos), o alcaçuz, o floral, as especiarias finas, estavam bem presentes. Na boca, um equilíbrio notável, com componentes bem balanceados e grande harmonia. A presença de taninos ainda a serem polimerizados garante boa longevidade. E que qualidade de taninos! textura agradável e bastante finos. Enfim, o melhor Volnay que já provei, por enquanto. Entre 92 e 94 pontos, parece ser uma avaliação segura. Nada mau para um vinho desta comuna.

Comuna de Volnay e seus Climats

Quanto ao domaine, atualmente conta com doze hectares de vinhas em cultivo biodinâmico (cultura orgânica com influência dos astros). Este exemplar degustado vem de um monopólio (um único produtor) com pouco mais de meio hectare. As vinhas possuem idade entre 16 e 55 anos num solo de predomínio argiloso sobre uma camada de pedras. Lafarge costuma utilizar no máximo 25% de madeira nova em seus vinhos para maturação, dependendo da potência da safra e as características da madeira disponível na ocasião. O tempo de maturação varia entre 15 e 20 meses. A vinificação com leveduras nativa conta com maceração em torno de catorze dias e temperatura entre 28 e 33°C. Isso permite uma boa extração de polifenóis, sobretudo os taninos. As uvas são desengaçadas entre 80 e 100%, conforme a qualidade de taninos na safra em questão.

Concluindo, um domaine exemplar que merece ser degustado ao menos uma vez na vida. Fique de olho nas oportunidades e nas raras ofertas no exterior.

Domaine de Courcel: A essência de Pommard

23 de Maio de 2013

No frenético marketing do mundo do vinho, os lançamentos em várias importadoras multiplicam-se. Na maioria das vezes, um estardalhaço bem acima do vinho comercializado. Já a importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com um portfólio enxuto e vinhos “didaticamente” escolhidos, mantém a discrição e sobriedade de seu proprietário, o expert Amauri de Faria. Um de seus últimos lançamentos é nada mais, nada menos, que Domaine de Courcel, um dos ícones da Borgonha. Juntamente com Comte Armand (produtor já comentado em outros artigos deste blog), espelha toda a nobreza da apelação Pommard, uma das mais famosas comunas da Côte de Beaune. Só para nos situarmos, segue abaixo um mapa ilustrativo desta comuna.

Melhores vinhedos: Rugiens e Epenots

Já comentamos em artigos anteriores sobre a dificuldade de acerto em comprar vinhos da Borgonha. É um campo minado, onde todo o cuidado é pouco. Primeiro passo, escolher uma comuna e saber de suas características. No caso de Pommard, sabemos que seus tintos são potentes, musculosos, principalmente tratando-se de Pinot Noir e da sub-região de Beaune que prima por tintos mais leves. Segundo passo, escolher os especialistas da respectiva comuna. É nesta hora, que Domaine de Courcel é referência absoluta, ou seja, se você não gostar de seus vinhos, mude de comuna.

Falando agora dos vinhos propriamente ditos, Courcel elabora dois excepcionais: Les Rugiens (1,07 hectares) e  Le Grand Clos des Epenots (4,89 hectares). Esses dois Premiers Crus apresentam uma tanicidade marcante, lembrando um pouco os grandes Barolos no melhor sentido da palavra (que os franceses não me ouçam). Numa sintonia fina, Rugiens é mais elegante e Clos des Epenots é mais potente e viril. São vinhos de longa guarda, desenvolvendo aromas terciários fascinantes. As vinhas são sexagenárias com rendimentos em torno de 25 hectolitros por hectare. O controle de temperatura na fermentação, bem como a extração de cor e taninos, são precisos.

Mesmo seu Village, simplesmente apelação Pommard, é de grande categoria. Trata-se do vinhedo Les Vaumuriens de ínfimos 0,35 hectares, praticamente um jardim. Suas vinhas têm quarenta anos de idade, e estão suficientemente adaptadas a expressar todo seu terroir. Não tem a estrutura e longevidade dos vinhos anteriormente descritos, mas são autênticos e prazerosos.

Domaine de Courcel adota a cultura biológica em suas vinhas, deixando seu terroir expressar-se da forma mais natural possível. Os vinhos passam cerca de vinte meses em barricas não totalmente novas. A ideia principal é proporcionar uma micro-oxigenação e estabilização para seus vinhos, jamais sobrepujando a fruta.

A importadora Cellar dispõe das belas safras 2009 e 2010 a preços bastante convidativos em relação à categoria de seus vinhos. Compra certeira para grandes borgonhas.

Vinhos que vencem o tempo

11 de Abril de 2013

Dos muitos ditados sobre vinhos, um dos mais ilusórios é o que diz: “Vinho, quanto mais velho, melhor”. Na prática, isso vale para cerca de dois porcento dos vinhos produzidos no planeta. Poucos passam dos dez anos em plena forma, sem sinais de declínio. Portanto, quando nos deparamos com essas raridades, vale a pena comentá-las.

Didier Dagueneau Silex 2005

Morto há poucos anos em um acidente de ultraleve, Didier Dagueneau foi um dos mais talentosos vinicultores do Loire, notadamente da apelação Pouilly-Fumé, que ele fazia questão de nominá-la Blanc Fumé de Pouilly. Sua cuvée Silex faz menção a um dos famosos terroirs da apelação com solo pedregoso de nome homônimo. Apesar de seus oito anos de safra, a fruta delicada estava bem presente, envolta num mineralidade extremamente elegante. O equilíbrio é seu ponto alto, com final persistente, harmônico e em plena forma. Vinhas antigas, uma grande safra e um vinicultor brilhante, geralmente culminam nestas maravilhas.

Vega-Sicilia Valbuena 5º Año 1999

Este é um daqueles segundos vinhos que só dignifica o grand vin que está por trás. Geralmente, são vinhas mais jovens, partidas que não estão à altura do grande Vega, pois a exigência é cruel. Mas é com este rigor, que grandes nomes são feitos, mesmo em seus exemplares mais humildes. Nesta safra, foram mescladas as uvas Tempranillo (80%), Merlot e Malbec (20%). Seu amadurecimento em madeira, extremamente peculiar, deu-se com cinco meses em tonéis de 20.000 litros, seguido em barricas novas de carvalho americano e francês por dezesseis meses, e voltando aos tonéis até o ano de 2002, antes do engarrafamento. Só começou a ser comercializado em 2004.

Esta amosta, com seus catorze anos de safra, diga-se de passagem, não foi uma grande safra, não mostrou sinais da idade. Aliás, esta é uma marca registrada da bodega Vega-Sicilia. Nunca tente adivinhar um Vega pela cor. Deve haver alguma magia no amadurecimento longo em madeira. Voltando à cor, ainda tinha traços violáceos. Os aromas finos mesclavam com maestria fruta e madeira num final balsâmico. Novamente, o equilíbrio de boca notável. Nada era muito potente, mas extremamente fino.

Henri Gouges Nuits-St-Georges Premier Cru Clos des Porrets 1998

Para muitos, guardar borgonhas tintos pode ser uma temeridade. São muito frágeis, delicados e com pouca estrutura tânica. Porém, nunca duvide de um Nuits-St-Georges, principalmente um Henri Gouges. Este exemplar com uma cor impressionante tinha taninos de um autêntico Barolo. Firme, musculoso e profundo. Seus aromas terrosos, de cerejas escuras e alcaçuz eram os mais destacados. Grande equilíbrio e persistência, mostrando outras facetas da Pinot Noir.

Sedimentos deixados pelo tempo

Pela foto acima, não há como deixar de decantar um vinho desses. Mais um contradição para aqueles que dizem que borgonhas não se decantam. Produtores e terroirs diferenciados nunca seguem regras. Eles caminham longe da padronização, por isso são únicos.

Os números da Borgonha

26 de Abril de 2012

Segundo dados de 2010 do site oficial dos vinhos da Borgonha (www.vins-bourgogne.fr), seguem abaixo algumas atualizações sobre produção e vinhedos.

Das pouco mais de 185 milhões de garrafas, temos 60% de vinhos brancos, 32% entre tintos e alguns rosés, e 8% de Crémants (espumante elaborado pelo método champenoise ou tradicional).

Esta produção em termos de apelações corresponde a 1,5% de Grands Crus, 47,5% de apelações comunais e Premiers Crus, e 51% de apelações regionais.

Estes números correspondem a 3,3% de toda a produção francesa. As vendas dos vinhos borgonheses geram cerca de um bilhão de euros, sendo 46% destinados à exportação para aproximadamente 160 países.

Das 100 apelações de origem na Borgonha, 33 são Grands Crus, 44 são comunais incluindo 645 climats com desginação Premier Cru, e 23 apelações regionais. Apesar de uma área relativamente pequena, praticamente 28.000 hectares, as sutilezas de todas essas apelações são segredos guardados pelos melhores produtores em cada comuna, passados de geração para geração. A rigor, Vinho Sem Segredo deveria postar um artigo para cada apelação. Contudo, ficaria um pouco cansativo. A idéia em dividir os artigos sobre a Borgonha em dez partes é mostrar as principais características de suas mais relevantes apelações e sub-regiões.

Considerando-se pouco mais de 10% entre Grands Crus e Premiers Crus, não é tão difícil entender as muitas decepções com borgonhas, principalmente os tintos, elaborados com a caprichosa Pinot Noir. O forte conceito de terroir, as peculiaridades de cada comuna e a diversidade das safras, diminuem ainda mais a chance de acerto. Talvez todos estas dificuldades, fazem da Borgonha uma das mais fascinantes regiões vinícolas do planeta.

Por enquanto, encerra-se o ciclo sobre vinhos da Borgonha. Evidentemente, voltaremos ao assunto para analisar pormenores de apelações e vinhos específicos.