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Champagnes: Final de Ano 2014

4 de Dezembro de 2014

Como sempre, a ABS-SP encerra suas atividades do ano com a tão esperada degustação de champagnes. A mesma foi um sucesso com mais de cem pessoas na sala. Champagnes de vários estilos, destacando-se os famosos Blanc de Blancs com três exemplares distintos. Outras duas mais encorpadas, mesclaram as nobres Pinot Noir e Chardonnay.

Pessoalmente, discordo em parte do notável entusiasmo pelos vinhos servidos, embora toda a experiência sensorial seja extremamente enriquecedora. Contudo, tenho algumas ressalvas nos vários champagnes degustados, confome relato abaixo:

De Sousa: Estilo ousado

Esta Maison de origem portuguesa optou nesta “Cuvée des Caudalies” por amadurecer seu vinho-base em madeira, sendo 15% de barricas novas. Esta opção também é feita por casas de enorme categoria como Krug e Bollinger, só para citar dois exemplos. Neste exemplar degustado, percebi um champagne evoluído com nítidos toques de butterscotch. Como trata-se de um champagne não safrado, não temos referências seguras de sua idade. Apesar de uma boa acidez, penso que talvez seu vinho-base não tenha estrutura suficiente para esta micro-oxigenação em madeira, sobretudo com algum aporte de barrica nova. Não ousaria em guarda-lo na adega por mais tempo.

Aromas típicos de um autêntico champagne

Uma boa safra em Champagne (2004) com vinhos bem equilibrados. Os aromas de brioche, frutas secas e confitadas, além de toques empireumáticos, marcaram este exemplar com notável tipicidade. Em resumo, nariz de champagne. Boca extremamente fresca, denotando finesse no estilo e boa evolução em garrafa. Seu contato sur lies de quatro anos é bastante compatível com a estrutura do vinho, fornecendo aromas e texturas na medida certa. Bom momento para desfrutá-lo, mas com perspectiva para mais alguns anos de guarda. Equilibrado e de final extremamente agradável.

Didática na evolução de um champagne

O tipo Blanc de Blancs além de delicado, elegante, pode envelhecer com propriedade. E é isso que aconteceu neste exemplar de safra 1999. Seus quinze anos de idade chegaram ao limite. Com nítidos sinais de evolução, perlage e mousse já deficientes, chegou o momento de toma-lo. Não como aperitivo, falta-lhe o frescor necessário, mas sim à mesa, preferencialmente com pratos que envolvam cogumelos e se possível, as belas trufas. Para seu extrato e estrutura, a evolução está completa.

Grande pedida nas Cuvées de Luxo

Sabemos o quão difícil é escolher uma Cuvée de Luxo das casas mais famosas de Champagne. Evidentemente, refiro-me aos preços, já que a alta qualidade é fator inerente ao produto. Para quem não quer gastar uma fortuna, o champagne acima é uma ótima pedida. Foi o mais jovem da noite no sentido de prontidão, inclusive na cor, extremamente luminosa. Palha claro, brilhante e com ótimo perlage. As vinhas são antigas e o contato sur lies prolongado. Sete anos antes do dégorgement comprovado no rótulo datado. Aqui se faz presente a contribuição da Pinot Noir fornecendo a devida estrutura ao blend, complementado pela elegante Chardonnay. O nariz apesar de delicado, fresco, com notas de pera, flores, cítricos, além de um comedido traço de leveduras, mostra em boca, um vinho estruturado, gastronômico e marcante. Foi a melhor persistência aromática do painel com final extremamente fresco e bem acabado. Já pode ser apreciado com prazer, porém com muitos anos de vida em adega.

Tradição e Elegância numa bela safra

Maison Pol Roger, sempre no time de cima dos grandes champagnes. A safra 2002 é a melhor do painel e talvez a melhor depois de 1996. Portanto, confesso que esperava um pouco mais deste champagne, embora esteja delicioso e muito elegante. Este também é uma mescla de Pinot Noir e Chardonnay num contato sur lies de aproximadamente oito anos. Cor um pouco mais intensa que o champagne anterior. Os aromas tostados, de frutas secas, toques empireumáticos e amanteigados, predominam no conjunto. Em boca, mousse agradável, delicada, com final macio e persistente. É também um champagne gastronômico e até numa evolução mais acelerada. Esta é a ressalva quanto à sua longevidade levando-se em conta a potência da safra. De qualquer forma, um belo final. Seguem alguns dados dos champagnes degustados:

Pol Roger Brut Vintage 2002

60% Pinot Noir e 40% Chardonnay.  Açúcar residual: nove gramas por litro.

Champagne Pierre Moncuit Blanc de Blancs Cuvée Millésime Brut 1999

100% Chardonnay de vinhas antigas. O melhor terroir da Côte des Blancs: Le Mesnil-sur-Oger. 20 hectares de vinhas Grand Cru na sua maioria.

Drappier La Grande Sendrée 2006

55% Pinot Noir 45% Chardonnay. vinhas antigas. Açúcar residual: 5 gramas por litro.

De Sousa Cuvée des Caudalies Blanc de Blancs Brut Grand Cru

Blanc de blancs 100% em carvalho (15% novos). vinhas velhas + de 50 anos. 32% do vinho fermentado em carvalho. Dosage 5 g/l.

Pierre Gimonnet & Fils Champagne Fleuron 2004 Blanc de Blancs Premier Cru Brut

Vinhas antigas – as mais velhas de 1911 e 1913. 80% mais de 30 anos e 55% mais de 40 anos -28 ha – (11 cramant e chouilly – 1 Oger – Cuis 14 e Vertus 2 há). Cuis e Vertus (1º Cru) e os demais villages, Grand Cru.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II

13 de Outubro de 2014

Continuando o relato da França, após uma viagem de vários “sacrifícios”, chegamos à Borgonha, em Dijon. À noite, fomos jantar no restaurante William Frachot, duas estrelas no guia Michelin, do hotel Chapeau Rouge. Evidentemente, bons pratos, mas foi o menos emocionante de viagem. O serviço de sommellerie deficiente, bem abaixo para um padrão estrelado. Contudo, vamos ao que interessa, os vinhos degustados.

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Charme é tudo que esse vinho tem

Começamos com um Chablis sugerido pelo restaurante que não vale a pena comentar, sobretudo quando o seu vinho sucessor é o Domaine Comtes Lafon Meursault-Charmes Premier Cru 2011. Pessoalmente, meu produtor preferido desta apelação mostrando aromas extremamente elegantes e de uma textura singular em boca. Em seguida, o panorama ficou mais sério. Degustação de três Grands Crus de Vosne-Romanée e um super Premier Cru de Nuits Saint Georges.

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Um autêntico Nuits St Georges

Começando pelo Premier Cru acima, do produtor Prieuré-Roch, o monopólio Clos des Corvées 2008 é vinificado sem desengaço das uvas perfazendo somente três mil garrafas. Vinho de força, personalidade, mas surpreendentemente acessível neste momento. Textura de taninos excelente com bom potencial de guarda.

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Grand Cru ao lado de Vougeot e Musigny

Aqui entramos nos vinhos do Domaine mais famoso, DRC Grands Échézeaux 2002. Grande safra com grande potencial. Degustar vinhos DRC nesta tenra idade (12 anos) é como provar um assado ainda cru. Aromas ainda tímidos, boca fechada com taninos preguiçosos para uma devida polimerização. Sabemos que será grande, mas só o tempo irá comprovar. Quem o tiver na adega, não pense nele por pelo menos dez anos.

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Jardim com menos de um hectare

Este Grand Cru La Romanée Monopole 2006 tem vizinhos ilustres ao seu redor: Romanée-Conti e Richeburg. Para sua idade, safra 2006, apresentou-se surpreendentemente abordável. Aromas finos com toques florais e sous-bois, taninos de ótima textura e acidez refrescante. Evidentemente, vislumbra bons anos de adega. Minha grande dúvida é se sua longevidade é páreo para o próximo vinho, o enigmático e temperamental Romanée-Conti.

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Personalidade multifacetada

Toda vez que degusto este vinho me pergunto: Será que não tenho capacidade para entende-lo?. Os realmente espetaculares, fazendo jus a todo seu glamour foram as duas grandes safras com mais de vinte anos, 85 e 90. Este por exemplo, DRC Romanée-Conti 2006, é um completo infanticídio a tal ponto, que perdeu para seus dois concorrentes. Aroma fechado, boca extremamente equilibrada, taninos bem moldados, mas sem a expansão que faz dele um mito. Com certeza daqui a pelo menos quinze anos, estaremos falando de outro vinho. E assim, perpetua-se a lenda.

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O vinho botrytisado da Borgonha

Para encerrar a brincadeira, provamos o mais famoso e talvez único produtor da Borgonha a fazer um branco doce a partir da uva Chardonnay, Domaine Thévenet. Este vinho de apelação Mãcon Villages, Domaine de La Bongran Cuvée Botrytis 2001,  valeu pela curiosidade, mas não faz frente aos botryitsados clássicos franceses de Sauternes, Vale do Loire (Quart de Chaume e Bonnezeaux) e Alsace (Sélection des Grains Nobles).

Com isso, encerramos nosso primeiro jantar na Borgonha, após um dia cansativo. Amanhã tem mais. Almoço no Marc Meuneau. Ufá!

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Gamay ou Pinot Noir?

26 de Setembro de 2014

O título deste artigo é culpa do amigo Roberto Rockmann, alucinado por borgonhas. A safra não tem desculpa. 2009 foi uma das melhores dos últimos tempos. A proposta desta vez era encontrar o Pinot Noir da Côte d´Or, mais especificamente de Beaune, entre dois Gamays de grande prestígio, no seleto grupo dos Crus de Beaujolais. Produtores especialistas em suas apelações, Moulin à Vent e Fleurie. Os trabalhos foram abertos com o delicado e macio Auxey-Duresses do produtor Montille, gentilmente oferecido por outro grande amigo, doutor Cesar Pigati. Safra 2005, no mesmo nível de 2009. Apesar de seus nove anos, está em plena forma para uma apelação Villages. Todos os tintos acima citados foram degustados às cegas e são importados pela primorosa Cellar (www.cellar-af.com.br) do expert Amauri de Faria.

Auxey-duresses 2005

Estilo entre Meursault e Puligny-Montrachet

O primeiro vinho degustado entre os tintos foi o Beaune Premier Cru. A cor e os aromas sugeriam esta apelação. Sua coloração esmaecida e seus aromas terrosos, sous-bois e um fundo floral, credenciavam-no a um autêntico Pinot Noir da Borgonha. Foram os taninos mais finos da degustação, embora os demais fossem de alta qualidade. Bom momento para ser tomado, mas ainda vislumbrando bons anos em adega. O Domaine Fargues é super artesanal. Este vinhedo “Les Aigrots” fica ao lado do reputado Clos des Mouches que por sua vez, faz divisa com Pommard. A parcela do domaine é menos de um hectare de vinhas. As uvas são vinificadas de forma clássica com maceração delicada em cubas de madeira. Sua passagem por barricas é sutil tendo no máximo 30% de madeira nova. Aliás, a perfeita integração com a madeira, além da imperceptível presença do álcool, foram recorrentes em todos os vinhos.

domaine fargues beaune premier cru

Cores e aromas da Côte d´Or

Beaune premier cru

A foto confirma a descrição acima

O segundo tinto deu trabalho. Inicialmente, muito fechado em aromas, boca tensa, taninos firmes, mas de grande potencial. Um pequeno infanticídio para o momento. Trata-se de um grande Moulin-à-Vent do Domaine Gay-Coperet. Um vinho amadurecido durante nove meses em toneis de carvalho de Tronçais, uma das melhores florestas da França. Os aromas de frutas escuras, leve floral, um toque tostado muito sutil e taninos presentes em abundância eram o seu perfil. Pelo menos, mais cinco anos em adega. Degustá-lo, preferencialmente decantado.

moulin à vent domaine gay-coperetEstrutura e profundidade

moulin à vent 2009

A cor confirma as impressões acima

O último tinto era o instigante Fleurie do Domaine Chignard. Balançou entre um Beaujolais e um Beaune. A cor tinha intensidade intermediária, respeitando a hierarquia do imponente Moulin-à-Vent. Embora com boa estrutura tânica, sua acidez, seu frescor, eram prevalentes. Aroma mais delicado e menos sisudo que seu parceiro de apelação. Aqui a delicadeza não tem nada a ver com fragilidade. Pelo contrário, este vinhedo (Les Mories) de oito hectares de vinhas antigas, com mais de sessenta anos e altamente adensadas (cerca de dez mil pés por hectare), tornam este vinho profundo e com belo extrato. Pode já ser degustado com prazer, mas alguns anos em adega devem lhe fazer bem. Seus treze meses em toneis antigos foram perfeitos para uma correta micro-oxigenação.

Fleurie chignard

Elegante e profundo

Fleurie 2009

Cor didática para um Cru de Beaujolais

Como sempre, uma degustação extremamente prazerosa. Evidentemente, as provocações do jornalista Roberto geram algumas discussões, mas tratando-se de Borgonha, é algo inevitável. Que venham mais provocações doutor Roberto! Afinal, o aprendizado é sempre bem-vindo e o bate-papo não tem preço.

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Chambolle-Musigny pelo maestro Mugnier

21 de Agosto de 2014

Mais uma aula de Borgonha inspirada pelo amigo e aficionado no assunto, Roberto Rockmann. Juntamente com Lucas Gavião e o onipresente doutor Cesar Pigati, formamos o quarteto para a orquestração. Tema: Chambolle-Musigny. Maestros: Mugnier e Roumier. Safra: a abordável 2009. Degustação às cegas, sem partituras.

mugnier 2009

Mugnier: A essência de Chambolle-Musigny

Finalmente, a degustação fez-me entender o que é um Mugnier. Embora fosse um vinho comunal, pude vislumbrar seus tintos de maior quilate como Les Amoureuses ou o enigmático Musigny Grand Cru. Este exemplar é o típico vinho didático, de sala de aula. Expressa com perfeição o que é a delicadeza e feminilidade de um autêntico Chambolle-Musigny. A boca é fresca, sedosa, toda em sutileza. Os aromas florais, de frutas vermelhas delicadas e um bouquet garni de especiarias doces, formam um triunvirato em perfeita harmonia. Muito cuidado na harmonização para não destoar nenhuma nota.

roumier 2009

Roumier: Tipicidade confusa

Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos, não tendo sustentação com os demais componentes. Faltou algo mais sedutor e sua tipicidade ficou em xeque.

chambolle na taça

Mugnier: cor tênue na taça A

As considerações no que diz respeito à interpretação do terroir são importantes para entendermos a degustação. Frédéric Mugnier utiliza parte das uvas de um de seus vinhedos classificado como Premier Cru, mas ele resolveu vinifica-las como Village, o que confere mais personalidade ao conjunto. Outro ponto importante é o desengaço total das uvas para posterior vinificação. A extração de taninos é a mais suave possível e a madeira procura ter um mínimo de interferência. Já Roumier, imprime uma extração mais potente e pratica um desengaço parcial das uvas. A própria diferença de cores entre as duas taças evidencia estas observações.

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A elegância de Puligny-Montrachet

Para complementar e enriquecer a harmonização do jantar, tínhamos também um  belo branco de Puligny-Montrachet, do produtor Louis-Carillon. Trata-se de um Premier Cru 2006 Les Perrières. Este vinhedo confunde-se na comuna de Meursault, proporcionando diferenças sutis. No lado de Puligny, predominam a elegância e sutileza. Já os Meursaults, a intensidade e potência tornam-se mais presentes. Cometemos um pequeno infanticídio, pois o vinho tem muita vida pela frente.

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