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Caminhos da Enogastronomia

11 de Julho de 2013

Em artigo recente, falei de algumas combinações clássicas que estão sendo esquecidas em certas publicações, mas também comentei que a prospecção de novas harmonizações não devem ser descartadas, sempre dentro de um raciocínio lógico que inclui em última análise o chamado bom senso. Para dar alguns exemplos, vamos ao primeiro deles:

Foie Gras Grillé aux Pommes

A peça de foie gras crua cortada em pedaços e posteriormente levemente grelhada é um prato de grande refinamento, acompanhado pelo clássico vinho doce de Sauternes. Entretanto, podemos eventualmente mudar este cenário para um Porto Tawny com declaração de idade ou melhor ainda, um grande Colheita (há vários artigos neste blog sobre vinho do Porto). A combinação com vinho de Sauternes também já foi comentada em artigos deste blog. A mudança fundamental para o vinho do Porto é basicamente trocar álcool por açúcar (componentes do vinho). Para aqueles que incomodam-se com a evidente doçura e untuosidade (alto nível de glicerol) de um autêntico Sauternes, podem optar pelo Porto, menos doce e untuosidade mais comedida. Ele continua ter a mesma presença e força aromática do Sauternes, mas o açúcar residual sensivejmente menor é compensado pelo álcool, já que trata-se de um vinho fortificado. E por que a escolha Tawny e não Ruby? 

Primeiramente, os Tawnies tem um componente de acidez mais relevante que os Rubies e taninos mais polimerizados e menos evidentes. Os aromas terciários do Tawny com toques empireumáticos (caramelo), além de frutas secas e frutas em calda (laranja, cidra, damascos) têm muito mais a ver com os aromas do prato. É uma bela experiência com Tawnies preferencialmente de 20 anos de idade declarada ou um Colheita equivalente. Temperatura de serviço em torno de catorze graus. 

Culinária Japonesa

O segundo exemplo é a consagrada harmonização entre espumantes, champagnes, com a comida japonesa. De fato, a leveza, o frescor, a textura, são fatores importantes neste casamento. Ocorre que originalmente, a bebida indicada e continua sendo, para acompanhar estes pratos é o saquê (bebida elaborada com a fermentação de arroz, atingindo teor alcoólico em torno de dezesseis graus). A velha máxima vale aqui também: pratos locais com bebidas locais.

No mundo do vinho, o que mais se aproxima do saquê é tradicional vinho de Jerez, especialmente os da categoria Fino. Dentro desta especialidade, a Manzanilla é ainda mais indicada, sobretudo com sashimis. Ele apresenta o mesmo frescor dos espumantes, com uma personalidade bastante própria. Seu teor alcoólico é semelhante ao saquê, e os preços podem ser convidativos. Servi-los gelados, em torno de oito graus, mesma temperatura recomendada aos espumantes.

Risoto de Abóbora com Carne Seca

Este terceiro exemplo também já foi comentado neste blog como uma das mais surpreendentes harmonizações. Trata-se de um prato regional elaborado com técnica italiana (efeitos da globalização). Portanto, aqui não existe ainda uma harmonização clássica. Contudo, um Tokaji três Puttonyos elaborado de maneira tradicional (característica oxidação) é algo que vale a pena experimentar. O vinho tem personalidade para a carne seca e seu toque oxidado casa-se muito bem com o sabor da carne. A acidez combate bem a eventual gordura e a doçura do vinho é perfeita com o toque adocicado da abóbora.

A bela opção para quem não abre mão de um tinto são os vinhos de Rioja elaborados pela escola tradicional, sobretudo Reserva e Gran Reserva. Os taninos costumam ser bem domados e acidez é o ponto alto de seu equilíbrio. Os aromas levemente oxidados, as frutas em compota e seus toques empireumáticos e de baunilha equilibram a sutil doçura do prato. O eventual excesso de sal, se houver (a carne deve ser devidamente dessalgada), não incomoda a leve tanicidade do vinho. O corpo do vinho também é bem adequado à textura do risoto.

Enfim, é isso. Podemos sempre procurar novas alternativas, descobertas, calcadas nos verdadeiros princípios da enogastronomia baseada em atitudes de bom senso. Sempre é bom lembrar que estas experiências devem ser testadas previamente para que seus convidados e amigos não sirvam de cobaias. 

Terroir: Alsace II

7 de Julho de 2011

A comparação dos brancos alsacianos é quase inevitável com seus vizinhos germânicos. Normalmente, o lado francês gera vinhos mais encorpados, mais opulentos e mais potentes em relação ao lado alemão. Como tudo é relativo, a Alsácia é uma região quente para padrões alemães. Por isso,  essas características são refletidas em seus vinhos. Entretanto, as versões Trocken dos atuais vinhos alemães aproximam-se muito do padrão alsaciano, a  ponto de confundirmos estes  exemplares numa degustação às cegas.

Tratando-se de vinhos varietais expressos nos rótulos, vamos detalhar a seguir, as principais uvas:

Riesling

Longe de menosprezar o alto padrão do Riesling alemão, a Alsácia talvez seja a única região fora da Alemanha a elaborar vinhos com esta caprichosa cepa, capazes de confrontar a excelência alemã. Seus aromas são típicos, mostrando com elegância sua trilogia aromática com aspectos florais, minerais e cítricos. A perfeição da mineralidade fica por conta da domaine Trimbach (os espetaculares Cuvée Frederic Emile e Clos Sainte Hune), com vinhos capazes de envelhecer por décadas. Já o lado mais opulento e exuberante está a cargo do produtor Zind-Humbrecht, com vinhos aromaticamente elegantes, macios e expansivos.

Na gastronomia, a Riesling acompanha muito bem pratos defumados, receitas com carne de porco e o clássico alsaciano Choucroute Garnie.

Domaine Trimbach – importadora Zahil – www.zahil.com.br

Zind-Humbrecht – Expand – www.expand.com.br

Pinot Gris e Gewurztraminer, respectivamente

É importante salientar que as uvas acima são rosadas, gerando vinhos de cores mais acentuadas,  tendendo ao dourado, principalmente com o envelhecimento em garrafa. Trata-se sempre de uma vinificação em branco, sem a presença das cascas.

Pinot Gris

Na Itália, Pinot Grigio. Na Áustria ou Alemanha, Ruländer ou Grauer Burgunder. Seja como for, nos vários países onde é cultivada, com vários outros sinônimos, em nenhum outro lugar além da Alsácia, esta uva gera vinhos de tamanha complexidade e sofisticação. Em terroir alsaciano, seus vinhos lembram o lado floral mais discreto da Gewruztraminer com nuances de talco. Gustativamente, apresentam a textura e maciez de um chardonnay de bom corpo. Nas versões adocicadas, costuma ser o parceiro ideal para o autêntico foie gras alsaciano.

Gewurztraminer

Apesar de seus aromas florais intensos, além de lichias e especiarias, não há paralelos mesmo do lado alemão, para o estonteante “Gewurz” da Alsácia. Sua acidez costuma ser deficiente, mas quando não há este inconveniente, são vinhos exóticos e apaixonantes. Parceiro número um para o poderoso queijo local Munster. Culinária indiana com pratos mais aromáticos que picantes é outra pedida certa.

Muscat

As variedades Muscat à petits grains e Muscat Ottonel geram os convidativos moscatéis da Alsace. São vinhos leves, delicados e aromáticos, muito apropriados para aperitivos e pratos vegetarianos, inclusive com aspargos.

Em resumo, se você quer um ótimo moscatel seco, se você quer o melhor riesling além da Alemanha, se você quer os melhores Pinot Gris e Gewurztramminer do mundo, escolha a Alsácia. Terra dividida tantas vezes ao longo da história entre França e Alemanha, soube com maestria tirar proveito deste conflito, praticando de forma singular, um dos mais belos exemplos em vitivinicultura.

Menu Harmonizado: A Festa de Babette

16 de Janeiro de 2011

Apesar de muitos filmes citarem a enogastronomia ou até mesmo, protagonizar o tema inserido num contexto adequado, A Festa de Babette de 1987 continua sendo ¨hors concours¨. Sem querer entrar na parte emocional do filme, podemos perceber claramente, que ela acaba influenciando na própria sequência do menu.

Abaixo, num breve trecho do filme, vemos alguns detalhes da preparação dos pratos e vinhos.

http://www.youtube.com/watch?v=xvHYGv-Ul18&feature=player_detailpage

Sequência do jantar:

  • Soupe de Tortue Géante (Sopa de Tartaruga Gigante)
  • Blinis Demidoff (creme azedo e caviar, se possível Beluga)
  • Cailles en Sarcophage (codornas com trufas e foie gras)
  • Salade de Crudités (salada de folhas e legumes)
  • Fromages (queijos curados variados)
  • Baba au Rhum (bolo embebido em calda de rum)
  • Fruits Frais (frutas frescas variadas)

O início do jantar foi brilhante. A escolha da sopa abrindo o evento, mostra toda a sensibilidade de Babette no intuito de quebrar a tensão dos convivas, que naturalmente estavam acostumados a um caldo reconfortante nas frias noites da Dinamarca. Isso minou a expectativa de algo suntuoso e ofensivo aos rígidos princípios religiosos daquela comunidade de idade avançada. A partir de então, ficou muito menos impactante servir caviar e champagne, com as pessoas embevecidas com toda a riqueza e exotismo da sopa. O Xérès (grafia francesa para Jerez) Amontillado acompanhando o prato, foi outro fator de relaxamento, já que trata-se de um vinho fortificado, sabidamente consumido naquela época.

Continuando a sequência, vejam a sábia alternância entre os pratos, mesclando frescor e delicadeza com maciez e profundidade de sabor. O Blinis entre a sopa vigorosa e as cordornas ricas em sabor tem a importantíssima função de revigorar o paladar, mantendo o mesmo entusiasmo da primeira colherada.

A salada em seguida, faz uma bela pausa antes daqueles queijos intensos de sabor. Já a sobremesa, faz a ligação perfeitas para as frutas frescas, fornecendo um sabor doce contrastante e menos intenso que os queijos. Finalizando o jantar fora da mesa de refeição, foi servido café moído na hora e um destilado praticamente esquecido nos dias de hoje, Marc de Champagne. É uma espécie de grapa com o bagaço das uvas de Champagne. Detalhe: Babette escolheu uma reserva especial extremamente envelhecida.

Quanto aos dois grandes vinhos safrados, Veuve Clicquot gozava de grande prestígio na época, sendo o champagne preferido do pintor Claude Monet. Já o Grand Cru Clos de Vougeot tinha alta reputação e por conseguinte era muito mais confiável frente à incostância da atualidade. As safras 1860 e 1845, respectivamente, apresentavam aromas terciários, de acordo com a data do banquete nos anos 70 daquele século. Principalmente o Clos de Vougeot, por vonta de seus trinta anos, deve ter casado perfeitamente com a textura das codornas, a riqueza do molho e os soberbos sabores do foie gras e trufas.

Realmente, uma lição de enogastronomia! Que os céus a tenha em bom lugar!

Harmonização: Champagnes – Parte III

12 de Janeiro de 2011

Aqui entramos num mundo de exclusividade. São champagnes de pequena produção, muitas vezes, só elaborados em anos excepcionais. A produção de rosés, millésimés e cuvées de luxo gira em torno de dez porcento  do total. Grande parte deste total é dedicada ao nom millésimé, o qual imprime o estilo da maison, além de garantir a sobrevivência e estabilidade do negócio.

 Rosés

Normalmente são requintados e caros por sua baixíssima produção. Em sua elaboração, pode ser adicionado um pouco de vinho tinto da região no chamado vinho-base, ou pode-se obter um vinho-base de Pinot Noir por exemplo, pelo método de sangria, tingindo levemente o mosto.

Dependendo do estilo da casa e da proporção de Chardonnay, podemos ter champagnes de médio a bom corpo. Os aromas de frutas vermelhas e uma textura mais macia, nos leva a pratos com maior profundidade de sabor e eventualmente com alguma tendência adocicada. Cozinha chinesa ou indiana à base de aves e carnes brancas (lombo de porco) podem ser bastante sugestivas, desde que não se abuse da pimenta e que o agridoce seja comedido. Já os toques de especiarias, ervas e gengibre são muito benvindos.

Millésimé

As grandes safras em Champagne são muito importantes em termos estratégicos para garantir um estoque seguro de vinhos de reserva, compondo a cuvée básica de cada maison, principalmente nos anos menos favoráveis. Como consequência, uma pequena parte dos vinhos-bases destes anos excepcionais são direcionados à elaboração dos chamados champagens safrados.

Fica difícil generalizar harmonizações para estes champagnes, pois a característica da safra, o estilo da maison e a idade do champagne, podem mudar totalmente a escolha. Normalmente, estes champagnes são projetados para envelhecer, adquirindo aromas terciários singulares, advindos de vinhos-bases de excelente qualidade. Portanto, é muito diferente um Salon (Blanc de Blancs sempre safrado) de um Krug millésimé. As diferenças de corpo e principalmente de característica aromática, são gritantes. Afinal, num Krug sempre participam as três uvas (Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier).

Portanto, os mais leves e delicados, baseados sobretudo em Chardonnay,  irão bem com camarões, lagostas, vieiras, elaborados com molhos elegantes e de textura delicada. Já os mais encorpados, calcados na casta Pinot Noir, cairão bem com aves nobres (faisão, codorna, perdiz, galinha d´angola), eventualmente acompanhadas de cogumelos diversos.

Bollinger: excelência na elaboração

 

Cuvées de Luxo

O rótulo acima exemplica o trio de ferro irrepreensível de Champagne: Bollinger, Krug e Louis Roederer, com suas cuvées de luxo, incluindo a sofisticada Cristal.

Neste patamar, não há espaço para simplicidade. É como vestir Armani com sapatos de supermercado. Temos que buscar a alta gastronomia. Ingredientes como trufas, caviar, foie gras, lagosta, faisão, entre outros, terão perfeita sintonia.

Como esses champagnes envelhecem de forma magnífica, os mais minerais, irão bem com as trufas. Os de textura mais cremosa e não tão secos penderão para o foie gras. Já os extremamente secos e com longo tempo sur lies, podem encarar o legítimo caviar. Gosset Celebris e Bollinger RD, são belos exemplares para esta quase extinta iguaria (caviar do mar Cáspio). Apesar de redundante, é bom frisar.