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A casa das negociações sem fim

31 de Outubro de 2026

Às vezes quando encontrava Mino Carta eu lhe perguntava sobre vinhos e de vez em quando a conversa chegava aos Estados Unidos e se havia algum rótulo de lá de que ele gostava. Mino torcia o nariz. Tinha especial predileção pelos vinhos franceses e italianos. Um produtor chamava sua atenção: Gaja. Era essa a razão pela qual frequentava o restaurante Massimo, que tinha um punhado de rótulos de Angelo Gaja no Piemonte.

Um dia mudei a pergunta. O que ele achava da Cabernet Sauvignon, dos vinhos italianos feitos com uvas internacionais, plantadas na Califórnia ou na França. Que ele achava dos vinhos que Gaja produzia na Toscana com castas francesas? Mino respondeu que em Bolgheri havia a influência do mar Tirreno. E havia o toque italiano.

A resposta guardava uma ironia. Mino gostava da comparação de Gaja: se a nebbiolo fosse ator, seria Marcello Mastroianni; a cabernet sauvignon, John Wayne. Lembrei-me dessas conversas numa degustação de nove safras do Camarcanda, principal tinto da Ca’Marcanda, realizada em São Paulo na última segunda-feira. A propriedade dos Gaja em Bolgheri, próximo à costa da Toscana, completa 30 anos em 2026. A primeira garrafa servida, da safra 2000, mostrou como um vinho pode sobreviver não apenas ao tempo, mas também às previsões de quem o avaliou.

Angelo Gaja já havia desafiado tradições muitos anos antes. Em 1978, plantou Cabernet Sauvignon num vinhedo de barbaresco, em pleno Piemonte, terra da Nebbiolo. Seu pai lamentou em dialeto piemontês: darmagi, que pena. O filho batizou o vinho com o lamento paterno. A primeira safra foi a de 1982.

Depois dos 50 anos, o pai vivia sua crise de meia idade e procurava alguma coisa diferente para fazer, diz o filho, Giovanni, que veio essa semana para o Brasil. Não se tratava de abandonar o Piemonte, mas de começar outra história. Em 1994, Angelo comprou a propriedade de Pieve Santa Restituta, em Montalcino, onde passou a produzir Brunello. Dois anos depois, chegou a um outro lado da Toscana, Bolgheri, conhecida por vinhos com uvas internacionais, como cabernet sauvignon e merlot. Nascido em 1940, já havia transformado a reputação de barbaresco, desafiado convenções locais e introduzido novas práticas de vinificação.

Em Bolgheri, enfrentou uma negociação que parecia não acabar. Angelo identificara, a partir de estudos de zoneamento, terrenos de argila e calcário ao pé de colinas onde pretendia plantar variedades francesas. Os proprietários relutavam em vender. Giovanni conta que o pai precisou fazer 19 viagens até concluir a compra, no fim de 1996. As ausências eram tantas que Lucia, sua mulher, chegou a perguntar se ele tinha arranjado uma amante na Toscana. Angelo estava apaixonado pela possibilidade de criar em um novo local. O nome escolhido para a propriedade, Ca’Marcanda, vem do dialeto piemontês e remete à casa das negociações intermináveis. Depois de tantas viagens, a barganha havia se tornado parte da identidade do lugar.

A primeira safra do vinho foi a de 2000. Reunia Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, variedades que haviam feito a reputação dos tintos de Bordeaux e, mais recentemente, de Bolgheri. Foram produzidas apenas 665 caixas. A Wine Advocate, publicação fundada por Robert Parker, deu-lhe 91 pontos em abril de 2004 e recomendava bebê-lo entre 2005 e 2016.

Pontos funcionam no basquete e no vôlei. No vinho, servem para alimentar rankings, organizar prateleiras e influenciar preços.  Muitas vezes, as notas envelhecem pior do que os vinhos. Foi o que sugeriu o Camarcanda 2000. O 2007, também servido na degustação, pertencia à fase em que o Merlot ainda integrava o corte. A variedade permaneceu até a safra 2013. Não houve Camarcanda em 2014 e, a partir de 2015, o vinho passou a ser elaborado com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, hoje nas proporções de 80% e 20%.

Giovanni apresenta duas razões para a mudança. A primeira está no clima. O Merlot amadurece cedo, e os verões cada vez mais quentes de Bolgheri passaram a dificultar o equilíbrio que a família procurava. A segunda é uma escolha de estilo. Os Gaja queriam produzir um vinho mais “misterioso”, mais Marcello Mastroianni.

As mudanças não pararam nas uvas. A partir da safra 2021, o sobrenome Gaja desapareceu da frente do rótulo de Camarcanda. O nome da família, tão associado ao Piemonte, acabava ofuscando a identidade da propriedade toscana e o trabalho da equipe, uma decisão pouco habitual para quem construiu uma das marcas mais reconhecidas do vinho italiano.

Angelo parece não se incomodar com a passagem do tempo, desde que possa se antecipar a ela. Nascido em 1940, diz que está chegando aos 87 anos, idade que só completará em 2027. “Meu pai pensa no futuro até no aniversário próximo”, diz Giovanni, que conta que, nos últimos anos, o pai delegou mais responsabilidades aos três filhos, Gaia, Rossana e Giovanni. Mas continua acompanhando suas decisões.

Segundo o filho, Angelo mantém no computador um arquivo intitulado “Eu te disse”, no qual reúne escolhas equivocadas da família ao longo dos últimos vinte anos. A história, contada com humor por Giovanni, sugere que a transferência de responsabilidades não encerrou as discussões familiares.

Os filhos, por sua vez, continuam a procurar novos caminhos. Em Trezzo Tinella, nas terras mais altas das Langhe, a família construiu uma cantina dedicada aos vinhos brancos. O projeto começou em 2015, com a aquisição de cerca de 30 hectares, em terrenos que chegam a 750 metros de altitude, em busca de onde produzir brancos capazes de preservar a acidez e amadurecer lentamente num clima mais quente. Chardonnay e Sauvignon Blanc têm papel central, mas a família também experimenta Riesling, Timorasso, Pinot Bianco, Incrocio Manzoni e outras variedades.

Parte das uvas de Alta Langa já é utilizada em vinhos históricos da casa, como Alteni di Brassica e Rossj-Bass. O Gaia & Rey, Chardonnay criado por Angelo a partir de vinhedos plantados no fim dos anos 1970 e na década seguinte, continua associado às parcelas históricas de Treiso e Serralunga d’Alba. Giovanni contou que a próxima novidade de Alta Langa deve ser lançada em 2027: um branco elaborado com Pinot Bianco e Incrocio Manzoni. A produção inicial será de 13 mil garrafas. Ainda não decidiram se o vinho será comercializado também fora da Itália. Também não bateram o martelo sobre o nome a ser estampado no rótulo.

A passagem de Giovanni por São Paulo revelou outra paixão do pai, Angelo. Otavio Lilla, presidente da Mistral, que importa seus vinhos no país, enviou-lhe pelo filho uma caixa de mangas. Angelo sempre adorou a fruta, saboreando-a nos hotéis, almoços e jantares de suas vindas ao país, uma paixão que levou até mesmo a filha Gaia a tentar, em vão durante a pandemia, o envio postal da fruta rumo ao Piemonte.

Gostaria de saber o que Mino Carta diria do Camarcanda 2000, com seus 26 anos de idade e os aromas de evolução de uma bela garrafa. No Massimo, diante de uma carta repleta de Gajas, ele tinha certeza de que certas coisas não cabiam numa escala de cem pontos, mas deviam ser contempladas em silêncio.

O tempo em uma taça: a história da família Gaja

16 de Abril de 2026

Há marcas italianas que ultrapassam fronteiras. Os bólidos da Ferrari cruzam estradas mundo afora, executivos assinam cheques vestidos de ternos de Giorgio Armani com gravatas Marinella, mulheres calçam sapatos Sergio Rossi e carregam bolsas Gucci. No mundo do vinho, o nome que carrega o mesmo peso simbólico é Gaja — quatro letras que se tornaram sinônimo de elegância, precisão e personalidade.

A história começou em 1859, quando Giovanni Gaja, produtor de uvas em Barbaresco, fundou uma pequena vinícola para abastecer o restaurante da família. O vinho era feito para acompanhar os pratos simples servidos à mesa, mas logo se percebeu que era melhor que a comida.

A saga ganhou densidade em 1935, quando o neto, também chamado Giovanni, assumiu a direção. Dois anos depois, em 1937, tomou uma decisão que parecia trivial: colocou o nome da família em letras grandes no rótulo. Num tempo em que os vinhos piemonteses e até franceses eram anônimos, vendidos a granel, esse gesto foi quase uma revolução silenciosa.

Quando o jovem Angelo Gaja chegou à vinícola em 1961, o Piemonte ainda seguia a tradição. Trouxe o inconformismo dos novos tempos. Determinou que só vinificaria uvas de vinhedos próprios, cortando a dependência de terceiros. Nos anos 1950, a vinícola vendia vinhos de Barolo https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/da-garagem-para-o-mundo/  produzidos com uvas compradas, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja, que esteve no Brasil esta semana em evento da importadora Mistral.

Pouco depois, Angelo viajou aos Estados Unidos, onde trabalhou brevemente em restaurantes e conheceu produtores que faziam vinhos no nível dos franceses. Voltou impressionado com a forma como o vinho era comunicado — com clareza, orgulho e emoção — e decidiu que os rótulos italianos também precisavam ter voz, história e identidade. A viagem reforçou ensinamentos recebidos aos 11 anos.

Ainda menino, Angelo brincava no pátio da casa da família, quando a avó Clotilde Rey — que fora professora na Savoia e que todos chamavam de Tildìn — o chamou de lado. De temperamento forte e olhar severo, Clotilde o fitou e perguntou:
“Angelo, o que você vai fazer na sua vida?”
O garoto, sem saber responder, ficou em silêncio. Clotilde esperou, depois completou:
“Você tem de se tornar um artesão.”
Essas palavras ficariam gravadas em sua memória. Mais tarde, ela explicou o que queria dizer com isso:
“Fare, saper, far fare, far sapere — fazer; saber como fazer; ensinar os outros a fazer; e comunicar o que se faz.”
Para ela, o vinho era um gesto de arte, mas também de ética e transmissão. Décadas depois, Angelo diria que cada garrafa que produziu foi, de alguma forma, uma tentativa de honrar aquela conversa.

Clotilde também conheceu, nessa mesma época, um menino curioso que perambulava pelos vinhedos vizinhos: Mino Carta https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/as-memorias-gustativas-e-olfativas-de-mino-carta/ . A família Carta havia se refugiado, no início dos anos 1940, no Piemonte, durante os bombardeios da guerra. Mino perambulou pelos vinhedos locais e guardou a lembrança da mulher de voz firme que lhe falava da terra e da paciência do vinho. Anos mais tarde, já no Brasil, Mino se tornaria um dos maiores entusiastas dos vinhos Gaja. Frequentava o restaurante Massimo, em São Paulo, muito mais pela carta de vinhos do que pela comida, e sempre se emocionava ao recordar as colinas de Barbaresco.

Nos anos 1960, Angelo começou a colocar em prática a filosofia herdada da avó. Em 1964, comprou o vinhedo Sorì San Lorenzo, cuja primeira safra, em 1967, inaugurou uma nova era no Barbaresco. Depois viria o Sorì Tildìn, homenagem à própria Clotilde, e mais tarde o Costa Russi. Com eles, Gaja reforçou no Piemonte a ideia de vinhos de vinhedos únicos, até então algo típico da Borgonha.

No final da década de 1970, Angelo ousou novamente: plantou Cabernet Sauvignon em solo de Nebbiolo. O pai, Giovanni, ao saber da novidade, suspirou: Darmagi! — “que pena”, em dialeto piemontês. O filho transformou o lamento em batismo: o novo vinho se chamaria Darmagi. “Os rótulos buscam destacar histórias da família, como Darmagi ou como Sorì Tildìn”, contou Francesco Giardino, diretor de vendas da Gaja. “Cada vinho carrega um fragmento de memória, uma emoção transformada em garrafa.”

Nos anos 1980, Angelo decidiu realizar um sonho antigo do pai. Em 1988, comprou dois vinhedos em Serralunga d’Alba — Marenca e Rivette —, áreas de Nebbiolo de grande prestígio que dariam origem ao Sperss. O nome, em dialeto piemontês, significa “saudade”, e traduzia um sentimento que seu pai, Giovanni, carregara por toda a vida. Quando jovem, Giovanni trabalhara por alguns dias na vinícola da família, em Barbaresco, sob o olhar severo da mãe, Clotilde Rey. Ali, tudo era disciplina: horários rígidos, silêncio à mesa, longas jornadas de colheita e toque de recolher antes das 20 horas. Respeitava a mãe, mas sentia falta de leveza. Por isso, ao ter a chance de trabalhar por algumas semanas em Serralunga d’Alba, em uma propriedade vizinha, a experiência foi libertadora.

Ele lembrava com carinho daquelas quinze noites em que, após o trabalho, os jovens colhedores se reuniam para rir, cantar e beber o vinho da casa até tarde, sob o ar fresco das colinas. Longe da rigidez de Barbaresco, Giovanni descobriu que o trabalho com a terra também podia ser alegria.

Décadas depois, Angelo ouviu tantas vezes o pai contar essas lembranças que decidiu transformá-las em vinho, relembrou Angelo em entrevista a Levi Dalton no podcast “I´ll drink to that”. Comprou o mesmo pedaço de terra que inspirara o pai e lançou o primeiro Sperss em 1988. “Foi o vinho que fiz por ele”, diria mais tarde. Por trás da potência e dos taninos firmes, há uma história simples: a de um filho que devolveu ao pai um lugar de felicidade.

Depois vieram os brancos, Gaja & Rey e Rossj-Bass, dedicados à avó Clotilde e à filha Rossana, reafirmando a ideia de que o vinho, em Gaja, é sempre uma forma de contar histórias familiares. Em 2015, a família deu mais um passo em direção ao futuro com a compra de vinhedos em Alta Langa, região de altitude e clima frio, onde ergueram uma vinícola dedicada exclusivamente a brancos. É a visão de que o aquecimento global traz desafios e necessidade de se buscar geografias mais adaptadas, mas o saldo dos efeitos das mudanças climáticas tem sido positivo, com melhor maturidade das uvas a cada safra. “A safra 2021 é histórica”, diz Giardino. “Ela mostra o equilíbrio perfeito entre frescor, elegância e maturação.”

Do Piemonte, a visão se expandiu ainda mais para o sul. Em 2017, Angelo e sua filha Gaia Gaja anunciaram o projeto IDDA, parceria com o produtor Alberto Graci no Etna, na Sicília, um terreno influenciado pela presença do maior vulcão ativo da Europa. “IDDA”, no dialeto siciliano, significa “ela” — uma referência à montanha e à força feminina da natureza. Lá, a Nebbiolo dá lugar às uvas Nerello Mascalese e  Carricante, em vinhos que traduzem energia, mineralidade. O projeto, ao mesmo tempo moderno e ancestral, é o novo capítulo da saga Gaja.

Mais de 160 anos depois, a vinícola fundada para acompanhar pratos simples tornou-se um ícone global, uma marca que sintetiza o espírito italiano de unir tradição e vanguarda. Um vinho Gaja carrega a essência do luxo discreto: o domínio do tempo. E, como lembrava Mino Carta, que atravessou a vida com uma taça de Barbaresco nas mãos, sempre que podia, “há vinhos que não se bebem — se contemplam.”