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Alejandro Vigil: desafios incessantes

4 de Maio de 2026

Alejandro Vigil pretende escrever um livro de contos. Um deles começa com uma garrafa de Saint Felicien 1997, bebida, no fim dos anos 1990, com sua esposa, Maria, e um casal de amigos, em um restaurante em Mendoza, sua terra natal.

A Argentina vivia a dolarização da sua economia: um peso equivalia a um dólar. Na carta de vinhos, a garrafa saía por cerca de 80 pesos. Resolveram se apertar no orçamento e comprar o vinho. Era um vinho histórico: no início dos anos 1960 foi o primeiro na Argentina a ser feito com uma única uva e destacar no rótulo a variedade.

Quando terminaram a garrafa, Vigil brincou dizendo que um dia iria trabalhar na vinícola. Era a brincadeira de quem ainda não sabia exatamente o que queria, mas já sabia o que admirava. Em 2001, foi contratado pela Catena Zapata, cuja história no mundo enológico ajudou a revolucionar a viticultura sul-americana e posicionar o vinho argentino da Europa aos Estados Unidos, da Ásia ao Oriente Médio.

Vigil chegou ao trabalho com histórico de ter liderado no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária, a Embrapa argentina, um projeto de laboratório de análise de solo. Começou a mapear como altitude e composição mineral se traduziam em características distintas no Malbec; à época, uma uva tratada como trivial, sem o prestígio posterior. Foi essa expertise técnica que o levou à Catena Zapata, contratado para desenvolver um trabalho de caracterização de parcelas, como os franceses havia séculos faziam.

Mendoza é uma terra de extremos, onde a cordilheira dita as regras e o granizo pode acabar com o patrimônio em minutos. Vigil mostra o braço arrepiado ao recordar-se de estar em casa, quando tinha oito anos e o céu desabou no momento do jantar em um dia do fim de dezembro. O som das pedras de granizo batendo no teto de chapa de zinco era ensurdecedor, um prenúncio de ruína. Até hoje o som volta quando ele se recorda da noite maldormida. A família plantava tomates e batatas principalmente; aquela era a subsistência do ano, a dez dias de ser colhida. Enquanto o menino Vigil se desesperava diante da destruição branca que cobria o campo, seu avô manteve-se calmo.

“Aprendi o que era resiliência sem saber que a palavra existia no dicionário”, conta Vigil, emocionado. No dia seguinte à tempestade, o avô levantou-se como se nada tivesse ocorrido. A avó lhe disse que era um dia de trabalho como outro. Não houve lamento ou paralisia. Eles simplesmente caminharam até o campo devastado e começaram a preparar o solo novamente. A terra criava e também destruía. A lição mostrou que seu destino estava ligado a ela: a terra o atraía tanto que ele, que jogou rugby profissionalmente em adolescente, trocou os campos por vinhedos.

No início dos anos 2000, o mercado internacional estava dominado pelo estilo que Robert Parker havia consagrado e Michel Rolland propagava: vinhos concentrados, com extração máxima e muito carvalho novo. Vigil conhecia pouco de vinho, mas tinha contato com vários produtores por seu trabalho no estudo do solo. Sabia que a Argentina podia trabalhar vinhedos como os franceses ressaltando diferenças de altitudes e solos. Suas referências se ampliaram na Catena, quando o dono, Nicolás Catena, reservou um orçamento para que Vigil pudesse beber rótulos de diversos países para ampliar suas referências. A dolarização da economia ajudava nisso. Vigil ainda gastava parte do salário para buscar ainda mais novidades.

Bebia naquele momento muitos vinhos dos Estados Unidos e de Bordeaux, depois vieram os Borgonhas e aí seu mundo se abriu. “Eu tinha a referência de vinhos encorpados, depois vi que havia elegância e sutilezas que eu desconhecia. Isso contribuiu para a ideia de caracterizar as diferenças do solo argentino.”

O salto na carreira veio no fim dos anos 2000. Nicolás Catena pediu a alguns dos colaboradores que fizessem um corte de cabernet sauvignon e malbec para que ele experimentasse. Seria a primeira vez que um vinho de mescla de uvas ganharia tratamento especial de madeira e lançamento badalado no exterior: um vinho elegante com ares de Bordeaux. Catena bebeu às cegas dez vinhos e escolheu a amostra de Vigil. O rótulo chegou ao mercado, ficou na preferência de críticos em uma degustação às cegas com rótulos franceses famosos e levou Vigil ao cargo de enólogo chefe de Catena.

Nos anos 2000, após uma viagem à Borgonha com a família Catena, mais uma guinada em sua carreira. Ao visitarem produtores famosos de brancos, Vigil compreendeu que o Chardonnay não era sobre madeira, mas sobre a capacidade da uva de traduzir as características de um solo específico. Na volta, resolveu escolher sete parcelas diferentes de solo e altitudes e plantar com a uva Chardonnay. Cinco anos depois do plantio, duas parcelas deram resultados. Dali nasceram ícones como o White Bones e o White Stones.

Simultaneamente, mudava a filosofia com o Malbec. Menos intervenção, colheitas que respeitavam o frescor e um abandono progressivo da madeira nova. “Menos era mais”, resume. O ano de 2011 aparece como o ponto de inflexão, quando a vinícola parou de homogeneizar as parcelas e passou a tratá-las como únicas.

Vigil tem hoje duas tatuagens nos braços — uvas e os nomes dos seus dois filhos. Percorre até 700 quilômetros por dia durante a colheita para provar uvas em campo. Tem 25 anos de dados das mesmas parcelas anotados na cabeça. Não usa computador? Não anota num bloco de notas? “Assistentes anotam, quando precisa.”

Além de pensar em um livro de contos, está escrevendo um livro técnico, mas recusa o título de que escreverá sobre o terroir argentino. “Terroir precisa de 500 anos”, argumenta. Prefere falar em identidade.

Mantém a curiosidade como método e a negação do impossível. “Quando entrei na Catena, ouvi muitos falarem que nunca poderíamos fazer um Chardonnay importante,  nunca sairia um Cabernet Franc de qualidade. Hoje me dizem que não é possível fazer um Nebbiolo. Isso me motiva.”

No Vale de Uco, Nebbiolo, uma uva do norte da Itália, já está plantado a 1.600 metros. Vigil admite que provavelmente não verá o resultado final de muitos dos experimentos em sua plenitude, já que podem levar décadas. Mas ele sabe que as raízes das videiras, que hoje estão a 50 centímetros, chegarão a quatro metros de profundidade em algumas décadas. Como o avô que plantava tomates no dia seguinte ao granizo, Vigil trabalha para o futuro. “A raiz vai ficando”, diz ele. “É o que fica.”

Ficou famoso em 2018, quando a publicação de Robert Parker deu duas notas cem pontos para dois de seus vinhos. Foi o primeiro sul-americano a conquistar essa menção. Ele estava dirigindo pelas estradas do interior de Mendoza com sua esposa, quando recebeu a mensagem do importador da Dinamarca felicitando. O celular não pegava bem. Ele só entendeu quando conseguiu uma área com sinal. Chorou por uma hora relembrando sua história. “Pontos não são nada, mas mostram um vinho que provocou emoção em alguém em um momento”, diz ele, que já ganhou vários prêmios internacionais. Quando entrou em 2001, metade da produção era de cabernet sauvignon, 30% de chardonnay e o restante de malbec. Hoje, a malbec predomina, com 50%.

Além de produzir vinhos em sete regiões da Argentina e estar ao lado da mulher em dois restaurantes estrelados em Mendoza, resolveu se aventurar do outro lado do Atlântico. Seu projeto na Espanha, o El Reventón, é onde ele “tira férias trabalhando”. “É uma vinícola pequena, eu então uso as mãos na colheita, tenho uma relação ainda mais próxima com os vinhedos e estou perto de Madrid, onde percorro restaurantes e pratos, essa busca de harmonias me atrai.”

Ele dorme? “Pouco, mas ontem dormi sete horas”, diz na manhã da segunda-feira da entrevista. Vem para São Paulo seis vezes por ano, mais que Buenos Aires. Pretende agora tirar férias no Brasil em julho e levar a família para Fernando de Noronha. Talvez o livro de contos comece a ser escrito ali.

Gaja e os Cabernets

6 de Julho de 2019

Em uma de suas explanações, Angelo Gaja faz uma analogia interessante entre as uvas Nebbiolo e Cabernet Sauvignon com os atores John Wayne e Marcello Mastroianni. Diz ele: se John Wayne (Cabernet Sauvignon) entrasse numa sala, ele ocuparia o centro da mesma em uma posição de destaque, sendo o centro das atenções numa figura muito carismática. Já Marcello Mastroianni (Nebbiolo), ficaria no canto da sala, meio introspectivo, sem se promover muito. De fato, apesar de grande ator, Marcello tinha o mérito de realçar as mulheres com quem trabalhava, deixando elas brilharem, enriquecendo as cenas. Assim é a Nebbiolo, uma uva que faz pensar, meio misteriosa, mas de grande brilho na enogastronomia, enaltecendo os pratos que a acompanha.

Foi exatamente este cenário que se apresentou num belo almoço com alguns Cabernets famosos do mundo e uma das joias de Gaja, seu vinhedo Sori San Lorenzo da ótima safra 97. Todo mundo só falou dos Cabernets que de fato eram maravilhosos sem darem muito bola para o estupendo Gaja. Comentaremos os vinhos oportunamente.

A propósito, Gaja faz um ótimo Cabernet no Piemonte chamado Darmagi. Um vinhedo escondido do seu pai durante certo tempo que quando descoberto, o velho Giovanni exclamou: Darmagi, em dialeto piemontês, que pena!

ótimo prato de inverno

Como sempre, aqueles branquinhos para aquecer os motores. Dois belos exemplares da Borgonha tanto em produtores, como em vinhedos e safras. Roulot é um monstro em Meursault. Seus vinhos estão cada vez mais valorizados e com toda a justiça. Esse exemplar do vinhedo Perrières 2009 tem 96 pontos mais do que justos. Um Premier Cru com caráter de Grand Cru. Uma elegância, uma sofisticação, e personalidade, marcantes. O vinho tem uma tensão e mineralidade incríveis sem perder aquela textura amanteigada dos Meursaults. Já o Chevalier de Niellon, excelente produtor, estava um pouco prejudicado, um pouco cansado. Vinho de grande elegância e presença, num equilíbrio perfeito com aquela textura mais delgada dos Pulignys. Talvez seja um problema de garrafa, mas seus aromas estavam evoluídos demais pelo tempo de safra. Essa polentinha com frutos do mar (foto acima) caiu muito bem para acompanhar a dupla de brancos.

img_6288um Cabernet de respeito!

Esse foi o vinho mais comentado do almoço, lembram, John Wayne, pois é. Pouca gente sabe que esta linha Estiba Reservada não tem nada de Malbec. É um corte de 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc com 18 meses em carvalho francês novo. Um vinho servido às cegas que lembrou alguns franceses, americanos, australianos, chilenos, e tantos outros palpites. O fato é que Catena nesta alta gama de vinhos colocou a Argentina no pódio dos grandes tintos do mundo. Um vinho elegante, de grande personalidade, taninos finos, numa safra histórica na Argentina. Este vinhedo Agrelo faz parte de Lujan de Cuyo, zona alta do rio Mendoza, uma das mais prestigiadas e tradicionais do terroir mendocino. Solo pedregoso e aluvial tão propício ao cultivo dos Cabernets.

outro Cabernet de respeito

Saindo de Mendoza, vamos para Bolgheri, litoral toscano onde o marquês Mario Incisa dela Rocchetta realizou seu sonho de fazer um Bordeaux na Toscana com mudas de Cabernet Sauvignon trazidas do Chateau Lafite. Em 1968, sua primeira safra, Sassicaia mostrou ao mundo um vinho toscano de grande refinamento sem uma classificação oficial. Nascia assim o termo “super tuscan” ou  “supertoscano”. 

Nos exemplares acima, o 2008 com 97 pontos é um dos melhores Sassicaias já elaborados com muita maciez e taninos ultrafinos. Bom corpo, belo equilíbrio e um final persistente. No caso de 2005, a comparação chega a ser cruel. Não que 2005 não seja bom, mas perde para seu concorrente em refinamento. Seu taninos são mais duros e sua persistência é menor. Deve evoluir bem por mais alguns anos, tornando-se mais macio. De toda forma, Sassicaia segue sendo um dos grandes Cabernets do mundo.

belos pratos para tintos

O almoço no restaurante Gero seguiu na sequência de belos pratos para acompanhar os tintos como este Paccheri, espécie de rigatoni gigante, com um molho reduzido de carne com muito umami, saborosíssimo. O risoto de parmesão com pato desfiado também estava muito bem executado. Sempre contando com a gentileza e fidalguia do maître Ismael. 

Chateau Palmer em Magnum

Safra muito prazerosa e precoce, Palmer 98 esbanja elegância. Elaborado com 52% Merlot, 43% Cabernet Sauvginon, e 5% Petit Verdot, o vinho é macio em boca, taninos bem trabalhados, e um final bastante harmônico. Talvez sua nota não seja tão alta devido à persistência aromática não muito longa. Bom momento para bebe-lo, sobretudo acompanhando um lombo de cordeiro no próprio molho e purê de mandioquinha. Mais um belo prato do almoço. 

uma das joias de Gaja

Finalmente, chegamos ao esquecido Nebbiolo, lembra do começo, Marcello Mastroianni. Pois é, poucos comentaram deste belo tinto com 98 pontos e uma elegância impar. O melhor da década de 90. Sorì San Lorenzo faz parte da trilogia de vinhedos de Angelo Gaja em Barbaresco (Sori Tildin e Costa Russi são os outros dois). Notem que no rótulo a partir de 96, a denominação Barbaresco muda para Langhe, pois Gaja introduziu uma pitada de Barbera no blend de seu Nebbiolo. Para que isso fosse permitido, precisou mudar a denominação para Langhe, uma legislação mais moderna e mais branda para eventuais mudanças. De fato, o nome Gaja fala mais alto do que a pomposa denominação Barbaresco. 

Neste exemplar, um aroma refinado lembrando alcaçuz, notas tostadas, defumadas, e um toque terroso. Em boca é muito equilibrado com uma acidez refrescante. O vinho está vivo, sem sinais de decadência e taninos finíssimos. Acompanhou muito bem o cotechino com lentilhas, um embutido italiano dos mais refinados. Um tinto muito distinto lembrando vinhos franceses, especialmente os Côte-Rôtie do norte do Rhône, talvez com uma carga de taninos maior. Seguramente, um dos cinco melhores vinhos italianos. Gaja não brinca em serviço!

creme de mascarpone e chocolate para encerrar

Na foto acima, temos um Passito do mestre Quintarelli, talvez a maior referência na zona de Valpolicella. A partir de um blend de uvas Garganega, Sauvignon Blanc, Trebbiano di Soave, colhidas tardiamente e postas para secar (appassimento), o mosto fermenta lentamente, deixando um importante teor de açúcar residual. O vinho passa entre cinco e seis anos em pequenas barricas francesas. Um vinho já evoluído, inclusive na cor, com notas de frutas secas, mel e toques tostados. Pronto para ser tomado. Já seu oponente, o todo poderoso Yquem 89, esbanja frescor, exuberância, sem nenhum sinal de decadência. Vinho untuoso, muito equilibrado, e final extremamente longo. Belo fecho de refeição!

Só me resta agradecer aos confrades pela excelente companhia, boa conversa, e imensa generosidade. Com dois dos confrades de notável carinho pela Itália, o painel não poderia ser melhor. Que Bacco sempre nos guie nesta longa jornada de prazeres!