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Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

A DOCG Aldo Conterno

1 de Junho de 2018

No reputado terroir de Barolo, um clássico DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) do Piemonte, existe um Barolo à parte de nome Aldo Conterno, especialmente sua cuvée especial, Granbussia. Com vinhas localizadas em Monforte d´Alba, Granbussia nasce da mescla das vinhas Romirasco (70%), Cicala (15%) e Colonnello (15%), somente nas grandes safras.

e9959437-0890-4434-8296-db257fb448aca cúpula reunida em Magnum 

As vinhas Romirasco, espinha dorsal do blend, são plantadas em solo argilo-calcário rico em ferro, um dos terroirs mais austeros para Barolos de grande longevidade. A idade das vinhas gira entre 50 e 55 anos.

As vinhas Cicala e Colonnello complementam o blend, onde Cicala confere mais músculo, mais potência ao vinho, enquando Colonnello fornece certa delicadeza, finesse ao conjunto.

Normalmente, um Granbussia passa cerca de três anos em botti (toneis grandes) e mais seis anos em garrafa, antes de ser liberado ao mercado. A herança de Aldo Conterno é de manter a tradição dos grandes Barolos sem perder de vista a dosada modernidade que o tempo exige. Percebe-se em seus vinhos, a austeridade e estrutura de seus grandes Barolos, mas ao mesmo tempo, uma fruta bem presente, taninos bem trabalhados, e um equilíbrio somente encontrado nos grandes vinhos.

onze anos sur lies

Num belo almoço realizado na Fazenda Sertão, o champagne acima, um Dom Pérignon Oenothéque 1995, abriu os trabalhos. Ele equivale atualmente à nomenclatura P2, conhecida também como segunda plenitude. Trata-se de um envelhecimento prolongado sobre as borras (sur lies) antes do dégorgement. Um champagne complexo, muito fresco, mesclando aromas de brioche, frutas tropicais, e fino tostado. O contato sur lies conserva as borbulhas e uma intensa mousse de maneira admirável, além de conferir uma textura macia ao conjunto. Acompanhou bem ovos levemente cozidos com gema mole e caviar.

harmonização de delicadeza

Para manter o alto nível das borbulhas, em seguida foi servido um champagne Cristal safra 2005. Já com toques envelhecidos, mas com incrível frescor, a maciez e as notas adocicadas do Cristal deram as mãos para um prato de vieiras levemente chapeadas com manteiga e ervas. Aí sim, já estávamos prontos para os Barolos …

img_4703Angelo Gaja não podia faltar

Já estava esquecendo de Angelo Gaja, imperdoável. Um dos melhores brancos italianos, se não for o melhor. De estilo francês e extrema elegância, esse Chardonnay prima pelo equilíbrio e acabamento fantásticos. Embora já com mais de dez anos, seu frescor é incrível. As vinhas de Gaia & Rey localizam-se em Treiso, região do Barbaresco, em solo calcário com 3,6 hectares de área, plantadas em 1979. A fermentação ocorre com leveduras naturais e o vinho amadurece num mix de barricas francesas por seis a oito meses. O resultado é um branco de fruta delicada com perfeita conjunção com a madeira. Esta no nível dos bons Puligny-Montrachet da Borgonha. 

img_4711diferentes momentos de evolução

O trio acima deu o pontapé inicial. O mais antigo, safra 1985, já estava no seu limite de evolução. Não foi das grandes safras deste ícone, mas manteve a classe de sempre. Seus aromas alcatroados e de chocolate escuro (cacau) imperavam num conjunto harmonioso. Não tinha grande persistência, mas seu equilíbrio e final de boca bem acabado eram notáveis.

Agora o 99 e 2005 eram vinhos de grande estrutura em momentos diferentes de evolução. O 99 tinha taninos extremamente finos e lindos toques de alcaçuz. Um Barolo de alta costura. Já o 2005, um tanto arredio, inquieto, próprio de sua juventude. Melhorou muito na taça, necessitando de decantação. Será certamente, um dos grandes Granbussia nas próximas décadas.

img_4712o ponto alto da degustação

Aqui, o ponto alto da degustação. O Granbussia 1989 é considerado pelo Gambero Rosso, o melhor Granbussia de toda a história. De fato, quando fizeram este vinho, jogaram a fórmula fora. Sua juventude se equipara ao 99 degustado acima. Um fresco, uma riqueza de fruta, taninos de rara textura para um Barolo. Enfim, uma maravilha. 

Já o 1990, outro grande vinho, ficou um pouco prejudicado com a comparação, além de uma garrafa de evolução um pouco avançada. De todo modo, outro Barolo de destaque. Taninos finos, aromas terciários bem delineados, e um final marcante e etéreo. Estávamos neste momento, no auge dos pratos e dos vinhos.

img_4713irmãos de estilos diferentes

Briga de titãs e dois gênios do Piemonte, os dois irmãos Aldo e Giacomo Conterno. O Granbussia 1988 é um monstro de vinho ainda não totalmente pronto. Muita estrutura, camadas de taninos, mas uma finesse que só Angelo Gaja consegue nessas terras. Monfortino é a personificação da mais austera tradição piemontese, cheio de virilidade, tensão, uma acidez incrível, e uma montanha de taninos. Seu processo de construção passa por longa maceração na vinificação e longo envelhecimento em botti (grandes toneis). O resultado é um Barolo indestrutível. Embate sem vencedores, a despeito do gosto pessoal que deve ser sempre respeitado.

pratos de resistência

Para enfrentas essas feras, um menu reforçado se fez necessário. Entre vários pratos como Rabada, cabrito, polenta, lasanha, a foto acima, ilustra uma polenta com molho de calabresa e um cabrito com batatas. Aqui se separam os homens dos meninos …

img_4714Alsace em alto nível

Para celar este magnifico almoço, somente um vinho exótico, de presença marcante, como o Vendange Tardive do excepcional produtor alsaciano Zind-Humbrecht. No caso, um Pinot Gris do vinhedo Heimbourg safra 1994. Este é um dos melhores vinhedos de Zind-Humbrecht com ótima exposição solar e grande declividade. Na parte alta do vinhedo de solo pedregoso e de natureza argilo-calcária são somente 1,6 hectare de vinhas da cepa Pinot Gris com baixíssimos rendimentos (menos de 20 hl/ha). O amadurecimento das uvas é lento e de grande concentração. Um vinho de ótima textura em boca e um equilíbrio fantástico entre açúcar e acidez. As notas delicadas de frutas brancas maduras, de flores e de mel, são notáveis. Um final de tarde delicioso!

Mais uma vez, os agradecimentos a todos os confrades, em especial ao nosso Maestro, que proporcionaram esse encontro com vinhos tão distintos e de safras maiúsculas. Depois deste banquete nababesco, é hora de temperança, já pensando nas próximas orgias. Saúde a todos!

Importadora Clarets e Domaines Delon

27 de Maio de 2018

São pouquíssimas as importadoras que a pessoa pode comprar um vinho qualquer do portfólio sem conhecer muito sobre o mesmo. Uma delas é a Clarets com vinhos muito bem selecionados pelo sommelier Manoel Beato, o mais ativo e experiente no ramo da restauração, origem clássica da profissão. No comando da Clarets está à frente dos negócios o belo casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Maiores informações, http://www.clarets.com.br 

Em mais um convite da importadora, conhecemos as novidades trazidas pela família Delon, onde seu mais famoso ícone é o Chateau Léoville Las Cases, um super Deuxième da comuna de Saint-Julien. Antes porém, um belo início com três Cavas da família Juvé & Camps, numa ordem crescente de tempo em contato sur lies (sobre as leveduras). Intermediando a degustação, partimos para alguns tintos da Puglia da nobre Tenute Rubino. 

img_4681Familia Juvé & Camps

Situada em Sant Sadurní d´Anoia, a melhor região de Cavas, Juvé & Camps controla todo o processo de elaboração, desde vinhedos próprios, até todas as fases de vinificação.

Começamos a degustação com um Cava de entrada por R$ 132 reais, já um Reserva, chamado Cinta Púrpura em versão Brut. Elaborado com as castas brancas tradicionais em iguais proporções, temos a Xarel-lo, Macabeo (conhecida também como Viura em Rioja) e Parellada. Esta última, dando um toque gracioso ao conjunto, enquanto a Xarel-lo aporta estrutura. O vinho passa cerca de 24 meses em contato sur lies antes do dégorgement. 

Em seguida, passamos a um Cava mais estruturado, gastronômico, chamado Reserva de Familia Gran Reserva na versão Brut Nature safra 2014. A alta proporção de Xarel-lo fornece mais corpo e estrutura ao vinho. Além disso, uma certa austeridade pela secura elegante deste Cava completa o conjunto. O vinho passa cerca de 36 meses sur lies, aportando maior complexidade. Este exemplar, na faixa de R$ 183 reais.

Finalizando as borbulhas, mais um Gran Reserva, desta vez Brut, chamado Gran Juvé & Camps safra 2013. A novidade é que aqui temos 25% de Chardonnay no blend tradicional, além  das três uvas já citadas. Esse fator, confere mais elegância ao conjunto. Conferindo ainda mais complexidade, o vinho passa cerca de 42 meses sur lies, antes do dégorgement. Seu preço fica na faixa de R$ 332 reais.

img_4679Tenute Rubino

Partindo agora para Puglia, região sul da Italia, temos três exemplares da Tenute Rubino, todos tintos. Começando pelo Oltremé IGT Salente 2016, elaborado pela uva autóctone 100% Susumaniello de baixa produtividade, sem passagem por madeira. Um vinho de entrada por R$ 115 reais com notas de frutas maduras, especiarias, e um traço de mineralidade.

Em seguida, temos o Jaddico DOC Brindisi Riserva 2013 saindo por R$ 199 reais. Um vinho já mais estruturado com um blend de 80% Negroamaro e 20% Susumaniello. Vinificação com maceração mais longa e afinamento de 8 a 9 meses em barricas francesas de primeiro uso. Tinto bem equilibrado, madeira bem dosada, e muito gastronômico.

Finalizando o trio italiano, temos o Cru Torre Testa IGT Salento 2015 por 299 reais. Voltamos agora à uva 100% Susumaniello de baixíssimos rendimentos de videiras antigas. Vinho de longa maceração com amadurecimento em barricas francesas de primeiro uso por 12 meses. Um vinho potente de álcool, bela estrutura tânica, e notas marcantes de licor de frutas (cerejas, amoras). De certo modo, lembra um Amarone. Vinho bom para uma lareira.

Domaines Delon

O gran finale ficou para os vinhos do grupo Delon que entre outros, elabora o grande Léoville Las Cases, um dos mais reputados tintos bordaleses da comuna de Saint-Julien. Começando pelo Chateau Potensac, uma das referências em Cru Bourgeois de tradição, foi servido inicialmente seus segundo vinho, Chapelle de Potensac 2014. Um vinho de R$ 165 reais que já entrega muito prazer para quem aprecia os aromas e sabores de um Bordeaux. Taninos macios, toques terciários elegantes, e muito bem equilibrado. Uma bela compra para o dia a dia.

img_4677prazer sem ferir o bolso

Já o Potensac 2012, um tinto mais estruturado, mais fechado em aromas, mas com bom potencial de guarda. Deve ser obrigatoriamente decantado, onde as notas de cassis, ervas, e tostados, vão se abrindo pouco a pouco. Sai por R$ 325 reais na importadora.

img_4678elite do Haut-Médoc

A última dupla fica por conta do Chateau Léoville Las Cases, começando pelo seu segundo vinho, Le Petit Lion 2012, saindo por R$ 570 reais. Um vinho ainda em evolução, mas menos estruturado que o Grand Vin. Devidamente decantado, já pode ser apreciado, sobretudo acompanhando pratos de carnes vermelha, notadamente o cordeiro. Pode ser adegado por alguns anos ainda, sem problemas.

A apoteose ficou reservada mesmo para o grande Léoville Las Cases safra 2013, uma safra bem problemática. Mesmo assim, este exemplar tem 92 pontos de Parker com apogeu previsto para 2030. Um tinto super elegante com taninos finíssimos de rolimã. Muito equilibrado, percebe-se o cassis, a madeira nobre, e os traços de tabaco que ainda estão por vir. Um vinho que vai evoluir bem em adega mas que neste momento, pode ser prazeroso pelos aromas primários ainda muito presentes. Sai por R$ 1930 reais na importadora com a vantagem de ficar pronto mais cedo para o consumo.

Agradecimentos à importadora Clarets por mais esta oportunidade, pela bela recepção e apresentação dos vinhos. Sempre no aguardo de mais novidades. Abraço a todos!

Espanha x Italia, será?

21 de Maio de 2018

Lamentavelmente nas vésperas da Copa na Rússia, não teremos este embate, já que a esquadra Azzurra vacilou em sua classificação. Contudo, no restaurante Parigi, foi show de bola com direito à prorrogação. Os Ais do lado  italiano e Vegas do lado espanhol, mediram forças num jogo cheio de variações. Ao final, a plateia (nós confrades) é que se deliciou em várias fases da partida num confronto de gigantes, um verdadeiro clássico.

times em campo

Logo de cara, Pingus x Masseto da calorosa safra 2003. Que embate de titãs! Os dois com uma força e conservação incríveis. Masseto com um frescor vibrante, 100% Merlot, mas com a marca da Itália. Não tem o perfil dos granes Pomerols, pelo menos nesta safra, mas ainda com muito vigor e se soltando e crescendo a cada instante na taça. Já o Pingus, um Tempranillo puro sangue de Ribera del Duero do craque dinamarquês Peter Sisseck com a primeira safra em 1995. Um vinho musculoso, elaborado a partir de parreiras muitos antigas de baixíssimos rendimentos (em  torno de 15 hl/ha). Da mesma maneira que mostrava potência, tinha uma suavidade em boca e taninos de rolimã. Grande persistência aromática, sendo de fato, um dos mitos da Espanha. Os dois com notas altíssimas, em torno de 94 pontos. A torcida ficou dividida, mas Masseto encantou por estar mais pronto.

IMG_4649.jpgdisputa acirrada

Em um nível um pouco abaixo de potência, os Aias da Toscana se confrontaram. Um da Itália central, Solaia, região do Chianti Classico, e outro de Maremma, Ornellaia, região litorânea da Toscana, ambos supertoscanos. Os dois foram vinhos do ano na revista Wine Spectator. Solaia no ano 2000, e Ornellaia no ano seguinte, 2001.

Um embate equilibrado, mas com vantagem para o Solaia, tendo mais vigor e vida pela frente. Ornellaia é um típico corte bordalês de Bolgheri, terra também do grande Sassicaia. O vinho atingiu seu apogeu com toques e nuances de belos Bordeaux. Naturalmente, não tem a força de um Premier Grand Cru Classé, mas briga bem no time de cima de margem esquerda. Já o Solaia, tem a espinha dorsal baseada na Cabernet Sauvignon, mas com o charme da Toscana onde 20% de Sangiovese entram no blend. Belo frescor, taninos bem moldados, e boa presença em boca. Deve evoluir bem por mais dez anos em adega, embora possa  ser provado no momento com a devida decantação. Solaia desta vez mostrou-se superior.

IMG_4650.jpgdois vinhos premiados em anos seguidos

Nesta sucessão de partidas, a boa mesa deve estar presente. Nada melhor que a clássica cozinha do Fasano para nos confortar em um de seus restaurantes, no caso, Parigi. Risoto de Codorna no vinho tinto e o emblemático Filé Rossini, fotos abaixo. A delicadeza e sabores dos pratos casaram bem com a complexidade dos vinhos. Destaque também para o sommelier Fábio Lima, pelo belo serviço de todos os vinhos com precisão e eficiência.

pratos para vinhos finos

Neste último confronto entre Vegas, o nível subiu absurdamente. São Reservas Especiais antigas, mesclando as melhores safras de suas épocas respectivas em lindas garrafas foscas. É um trabalho longo em cantina, mais de dez anos, até a comercialização. A comparação é sempre cruel, os dois estavam espetaculares. O vinho da esquerda na foto abaixo, é uma mescla das safras 91, 94, e 95, com apenas 15298 garrafas. A safra 91 aporta complexidade, a 94 em maior quantidade, a estrutura, e a 95, a elegância. O vinho tem 99 pontos Robert Parker e bem merecidos. Seu apogeu está previsto para 2035, mas já está uma maravilha. Seus aromas balsâmicos, rico em especiarias, cedro, quase uma loja da L´Occitane. Boca maravilhosa, componentes perfeitamente integrados, não sobrando, nem faltando nada, e uma persistência longa e expansiva.

IMG_4653.jpgnovamente, a escolha de Sofia

Agora, o que falar do vinho à direita, uma poesia liquida de apenas 9880 garrafas. Segundo o site cellartracker, este release de 1987 engloba as safras de 65, 73, e 75, com uma pontuação acima de 95. De fato, é um vinho de silenciar. Tem um aroma muito fino de grãos de café, alcaçuz, cardamomo, algo de curry, é sensacional. São aromas etéreos e de difícil identificação. Na boca, o vinho é um deslumbre, totalmente macio e harmônico. Não dá par dar nota neste caso …

Soldera: apresentação Solo

Como a conversa estava muito boa, resolvemos fechar a tarde com o Brunello de pureza extrema, o grande Soldera Riserva 2000. É considerado com méritos, o Borgonha da Toscana. Cor clarinha, aromas etéreos, mas com uma força e presença extraordinárias. Um vinho de muita tradição, trabalhado com longa maceração e envelhecido em Botti (grandes toneis eslavônios). O chamado “vino di meditazione¨. Com este queijinho Grana Padano da foto, o entardecer ficou mais bonito …

Agradecimentos a todos os presentes nesta tarde memorável, lamentando sempre a falta dos demais confrades que por razões diversas não cumpriram suas orações com Bacco. Que Deus os perdoem!