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Bordeaux: Château Pape Clément

31 de Outubro de 2013

pape clement2003: Safra atípica

O mais antigo vinhedo de Bordeaux, com mais de setecentas colheitas, uma história que começou em 1305. Seu mais ilustre proprietário, Pape Clément, dá o nome ao château. Atualmente, seu dono é Bernard Magrez, apaixonado por vinhos e proprietário de vários châteaux espalhados pelo mundo.

Este artigo foi inspirado num almoço com meu grande amigo, doutor César Pigati, bordalês de carteirinha, onde dividimos o vinho abaixo (foto) na polêmica safra de 2003. Este château tem evoluído muito desde a ótima safra de 1998, colecionando com facilidade notas acima de 90 pontos. Nesta safra degustada, Parker julgá-o com notas entre 93 e 94 pontos. Concordo com esses números e não daria menos que 92 pontos.

pape clement livro

Almoço seguido de Porto e o incenso dos “Puros”

O vinho realmente é macio, dado sua baixa acidez com relação à média de outros anos em Bordeaux. Taninos densos, bem delineados, muita fruta, o característico toque terroso (mineral), cogumelos, especiarias e ervas finas. Realmente, apesar de estar na margem esquerda, Pessac-Léognan apresenta um terroir diferenciado, tendo algo de Saint-Émilion, margem direita. Daí a necessidade de uma classificação específica, a famosa classificação de Graves em 1959, separada dos Grans Crus Classés do Médoc.

pape clementVizinhança de grandes châteaux

Pessoalmente, considero Pape Clément como terceiro vinho na hierarquia de Graves, atrás somente das feras Haut-Brion e La Mission Haut-Brion. O grande enólogo do século XX em Bordeaux, professor Émile Peynaud, tinha especial carinho por este chãteau e foi seu consultor após a segunda grande guerra mundial. O vídeo abaixo conta um pouco da hístória do chateau.

http://youtu.be/_JY3wGU0tfw

O vinhedo possui área de 53 hectares, sendo 51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. As vinhas têm idade média de 27 anos e a densidade do vinhedo é de 7300 pés por hectare. O solo mescla as famosas graves (pedras), argila e areia. A filosofia de trabalho é orgânica com tração animal (cavalos) nos vinhedos. A vinficação tem longa maceração (30 a 40 dias) com redimentos de 37 hectolitros por hectare. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho novas por dezoito meses.

Safras como 1998, 2005 e 2010, estão entre as mais destacadas. Curiosamente, um 2002 acima da média com 92 de Parker. Talvez, o melhor de Graves neste ano.

Château Pape Clément possui um segundo e terceiro vinhos, Le Clémentin du Château Pape Clément e Le Prélat du Château Pape clément, respectivamente. Da mesma forma acontece com os brancos, sendo o Grand Vin de qualidade destacada. Um assemblage de Sauvignon Blanc e Sémillon em parte iguais com fermentação em barricas e posterior bâtonnage (movimentação das borras períodicas na massa vínica). 

Enfim, um vinho abençoado pelo Papa e uma das pedidas certas quando falamos em grandes châteaux em Bordeaux.

Château Palmer 1999: Rondando a Perfeição

8 de Agosto de 2013

Quando falamos de grandes Bordeaux, falamos de grandes Châteaux e grandes safras. Os anos de 1982, 85, 89. 90, 95, 96, 2000, 2005 e 2009 estão neste contexto. Porém, existem safras relativamente boas que normalmente apresentam a vantagem de serem devidamente apreciadas num espaço de tempo mais curto, principalmente para os mais impacientes. Contudo, neste perfil de safra, vez por outra nos deparamos com alguns Châteaux excepcionais, os quais por motivos bem específicos, locais, e muitas vezes inexplicáveis acabam gerando tintos muito acima da média da safra em questão. É o caso deste Palmer na safra de 1999, uma das melhores de todos os tempos deste Château. Somente o grande Lafite foi capaz nesta safra de ombrear-se a este grande vinho de Margaux, segundo o especialista em Bordeaux, o venerado Robert Parker. 

Tive o prazer de degustá-lo recentemente na companhia de grandes amigos e grandes conhecedores neste tipo de vinho, os médicos Antônio Cesar Azevedo Pigati e Sylvio Gandra. Iniciamos os trabalhos pelo grande branco do Loire, Coulée de Serrant, já comentado em post específico neste mesmo blog. Mas chega de conversa, vamos aos fatos.

 taça palmerCor surpreendente para um vinho de quatorze anos

A primeira constatação começa pela cor. Notem na foto acima que não há nenhum sinal de evolução, com um rubi ainda bastante intenso, praticamente sem halo aquoso de borda. Apesar dos aromas iniciais um pouco fechados,  nota-se que ainda não atingiu seu platô que por sinal, será de muito anos. Seguramente até 2025, se bem adegado. Com o passar do tempo, os aromas florais, minerais (mina de lápis ou grafite), de alcaçuz e uma profusão de frutas escuras (mirtilo, cassis, ameixas) tomaram conta da taça. Aromas muito finos e bem delineados. A boca é um caso à parte, encorpado sem ser agressivo, equilíbrio fantástico (apenas 12,5° de álcool), e uma estrutura tânica invejável, tanto em quantidade, como principalmente em qualidade. E este é seguramente, o grande componente que permitirá sua evolução por décadas.

palmer 1999Bordeaux de gente grande

Concordo fielmente com Mr. Parker que deu noventa e cinco pontos para este tinto, beirando a perfeição. Ele pode ser polêmico em vários tipos de vinho, mas em grandes Bordeaux, sua sensibilidade é notável. Como  já provou praticamente todos os Grands Crus Classés em todas as safras do século passado, ele tem a noção exata até onde cada um destes grandes Bordeaux são capazes de chegar. Eu não tenho dúvida, o Château Palmer 1999 é digno de qualquer painel dos melhores Bordeaux do século passado, incluindo os Premiers Grands Crus Classés. É um vinho para a caixa dos sonhos.

O Mito Vega-Sicilia: Parte II

22 de Março de 2012

A foto abaixo faz parte de uma vertical de Vega com muitas das melhores safras deste grande vinho. Por ordem cronológica, os anos foram: 1942, 1964, 1967, 1968, 1970, 1975, 1982, 1989, 1991, 1994, 1998, 2000 e um Reserva Especial com a mescla das safras 91, 94 e 98.

As safras de 1975, 1989 e 1998

A degustação foi conduzida em quatro módulos, começando com os mais evoluídos, seguidos dos mais maduros, continuando com os mais emblemáticos e finalizando com os mais jovens. Como sempre, muita polêmica quanto às safras, com alguns preferindo os mais jovens, mais modernos e mais robustos. Outros, reverenciando o estilo tradicional de safras mais antigas, com elegantes toques oxidativos.

Pessoalmente, a degustação agradou bastante, provando que o Vega é um dos grandes vinhos do mundo, tendo lugar cativo nas melhores adegas. A safra 1942 com setenta anos foi o Vega mais elegante e um dos mais expansivos em boca. Não é a toa que é a preferida de Parker com 98+ pontos. Alguns sinais da idade, mas ainda bastante prazerosa.

Outro destaque foi a safra de 1968 com 98 pontos de Parker. Ainda bastante robusta pela idade, com taninos presentes, vigor surpreendente, merece lugar de destaque entre todos os Vegas. A safra de 1970, degustada há muitos anos, voltou a impressionar mais uma vez. Vinho hedonista, aromas de torrefação, madeira integrada, macio, muito equilibrado e finamente bem acabado.

A safra de 1967, sem nenhuma referência na literatura, inclusive de Parker, surpreendeu favoravelmente. Não é potente, nem muito expansivo, mas esbanja elegância com extremo equilíbrio e final muito bem delineado. Uma grata surpresa.

Os Vegas mais novos, principalmente a partir de 1991, ainda são adolescentes, com uma vinificação mais moderna, taninos mais marcados, e mais potentes, porém sem perder a elegância. Demonstram um futuro promissor.

Todas essas considerações além de pessoais, envolvem a experiência, o gosto pela pluralidade dos vinhos e o respeito por ícones que mexem com o imaginário dos apaixonados por vinho. Portanto, as opiniões sobre estas safras sempre têm um fundo de incerteza e subjetivismo. Afinal, em safras antigas, não existem grandes anos. Existem grandes garrafas!

Château Gruaud Larose

29 de Agosto de 2011

Cada uma das comunas do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux, elege ao longo do tempo, seus mais destacatos Grands Crus Classés. Em Saint-Julien,  os Châteaux Ducru-Beaucaillou, Léoville-Las-Cases e Gruaud Larose, formam o trio de ferro dos melhores deuxièmes desta comuna. A consistência destes vinhos mostra de forma enfática a regularidade de Saint-Julien apesar de na média, não serem tão brilhantes como Pauillac.

Gran Vin e seu Segundo Vinho

São 82 hectares de vinhas plantadas em terreno pedregoso (graves) com densidade de dez mil pés por hectare. A idade média é de 45 anos com evidente predomínio de Cabernet Sauvignon (57%), seguido por Merlot (30%), Cabernet Franc (8%), Petit Verdot (3%) e Malbec (2%). O vinho amadurece por cerca de dezoito  meses em barricas de carvalho, sendo 5O% novas. O segundo vinho, Sarget de Gruaud Larose, é elaborado desde 1979. A composição do vinho e o tempo de barrica apresentam pequenas variações de safra para safra.

Comuna de Saint-Julien vizinha à Pauillac

Na degustação da ABS-SP em 24 de agosto de 2011, ficaram reforçadas minhas impressões sobre Gruaud Larose. Embora seja um Bordeaux elegante, típico e bem equilibrado, exceto em safras muito especiais como 61, 82 e 90, por exemplo, onde é grandioso, eu o coloco numa categoria abaixo dos dois grandes vinhos de Saint-Julien, já citados no trio de ferro acima.

As safras degustadas na ABS de 2006, 2005 e 2004, estão num patamar abaixo da grande dupla de Saint-Julien (Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases). Mesmo a safra de 2005, claramente superior às demais, não apresenta a profundidade dos grandes de Bordeaux. Que fique bem claro; é um vinho muito bem feito, equilibrado e elegante, mas num rigor bordalês, estamos falando de vinhos quase perfeitos. E este, não é o caso.

As impressões de Robert Parker ficam refletidas em suas notas, abaixo de 90 pontos para as três safras. Ele pode ser questionado  em quaisquer outros vinhos e regiões, mas para Bordeaux, não há ninguém tão imparcial e justo como Parker.