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Vale do Rhône: Parte X

4 de Junho de 2012

Neste último artigo, falaremos dos números atuais do Rhône. Segundo nosso site oficial (www.rhone-wines.com), a colheita de 2010 mostra os seguintes dados abaixo:

Dê um zoom no mapa acima

O Vale do Rhône é atualmente o segundo maior vinhedo da França. Em 2010, foram elaborados mais de dois milhões e oitocentos mil hectolitros de vinho numa área  de quase setenta e quatro mil hectares. A maior apelação de longe, é Côtes-du-Rhône. Com praticamente hum milhão e quatrocentos mil hectolitros, responde por quase metade de todo o vinho produzido no Vale do Rhône, conforme gráfico abaixo:

Vale do Rhône – Produção total: 2.833.154 hectolitros

Notem no gráfico acima que a apelação Côtes-du-Rhône Villages tem produção bem menor. Chamamos de principais apelações, aquelas mais famosas como Hermitage, Côte-Rôtie, Cornas, entre outras. Dentre estas, destaquei a apelação Châteauneuf-du-Pape com a maior produção entre as chamadas principais apelações, com somente três porcento de todo o total produzido.

As chamadas outras apelações incluem as seis últimas apelações citadas no último post (Vale do Rhône: Parte IX), destacando-se em produção, Costières de Nîmes, Luberon e Ventoux.

A porcentagem na elaboração de vinhos tintos em todo o Vale do Rhône é de 80%, ficando os rosés com 14% e os brancos com 6%. Evidentemente, conforme a apelação e os vários grupos de apelações, essas porcentagens variam um pouco, mas não há dúvida  que trata-se de uma região fundamentalmente de tintos.

Por hora, fazemos uma pausa neste importante vale, retomando o assunto em ocasiões e artigos oportunos.

Vale do Rhône: Parte V

17 de Maio de 2012

Deixando o Rhône Setentrional a caminho da Provença, chegamos ao chamado Rhône do Sul, onde tudo muda. Clima, solos e principalmente relevo são fatores decisivos para esta mudança. Aqui não mais a Syrah, e sim a Grenache passa ser a grande casta. Contudo, os vinhos costumam ser de corte, com predomínio da Grenache e participações coadjuvantes da Mourvèdre, Cinsault e Syrah, entre outras.

 

Rhône Sul: Topografia menos acidentada

A apelação mais popular e uma das maiores de toda a França é Côtes-du-Rhône, competindo em números com apelações como Bordeaux genérico e Beaujolais. Num grau de hierarquia superior, temos a apelação um pouco mais restritiva chamada Côtes-du-Rhône Villages. Enquanto a primeira pode ser elaborada em todo o Vale do Rhône, embora seja amplamente difundida no Rhône do Sul, Côtes-du-Rhône Villages é exclusivamente do Rhône Meridional. Todas as duas baseiam-se no famoso corte do Ródano com a Grenache sendo majoritária, e as castas Mourvèdre, Cinsault e Syrah, principalmente, como coadjuvantes. Falaremos com mais detalhes num próximo post.

Apelações como Gigondas, Vacqueyras, Rasteau e Beaumes de Venise, serão abordadas oportunamente com algumas outras não tão conhecidas. Aqui estamos bem próximos do terroir provençal, sendo muitas vezes, confuso para impor limites.

Galets: solo típico da apelação Châteauneuf-du-Pape

O grande destaque do Rhône Meridional é a famosa apelação Châteauneuf-du-Pape com seus típicos solos de galets (pedras arredondas, conforme foto acima). Não é em toda a apelação, mais este solo pedregoso tem capacidade de escoar água com grande eficiência, além de reter calor para as uvas no período de amadurecimento. O vento mistral funciona como um ar condicionado refrescando as vinhas, e secando-as se for o caso, de uma boa chuvarada.

As castas que podem participar de sua composição muitas vezes são citadas como “A sinfonia das treze cepas”. Contudo, na prática temos a Grenache como espinha dorsal, fornecendo muita fruta, força alcoólica e maciez. A Mourvèdre fornecendo taninos e estrutura, enquanto a Syrah contribui com sua elegância. Tintas como Cinsault, Muscardin, Counoise, Picpoul, Terret Noir, Vaccarèse, e brancas como Clairette, Roussanne, Picardan e Bourboulenc, além das três principais, primeiramente citadas, formam o famoso grupo das treze uvas. Poucos châteaux obedecem este corte e quando o fazem, muitas delas apresentam porporções ínfimas.

Châteauneuf-du-Pape

Pouco mais de 3100 hectares de vinhas com redimentos próximos de 27 hectolitros por hectare. Os solos são constituídos pelas famosas pedras e proporções variáveis de argila e areia. São solos sedimentares formados a partir do leito do rio Rhône em outras eras geológicas.

Além do famoso tinto, temos uma pequena produção do Châteauneuf-du-Pape branco. Não são tão atrativos como os tintos, além de não envelhecerem bem, salvo raras exceções. Produtores como La Nerthe (importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br), Château de Beaucastel (www.worldwine.com.br), Château Rayas (www.mistral.com.br), Domaine de Marcoux (www.cellar-af.com.br), são nomes altamente confiáveis.

Evite comprar vinhos desta apelação sem a devida referência do produtor. Há muitos comerciantes e produtores sem escrúpulos, que se aproveitam da fama deste vinho para lançarem no mercados verdadeiras zurrapas, com álcool desequilibrado e bastante diluídos.

Vale do Rhône: Parte I

3 de Maio de 2012

Uma das regiões clássicas francesas mais antigas, o Vale do Rhône, é berço de famosos vinhos como Hermitage, Châteauneuf-du-Pape e os triviais Côtes-du-Rhône.

Para enterdermos esta bela região é fundamental separarmos desde já, o chamado Rhône Norte do chamado Rhône Sul, conforme mapa abaixo:

Norte e Sul do Rhône: disposição diferente dos vinhedos

No mapa acima, a região do Rhône localiza-se abaixo da Borgonha, sempre tendo o rio Rhône como linha mestra, rio este que nasce na Suiça, alimenta o famoso lago Léman, entra em território francês de leste para oeste, fazendo um curva acentuada para o sul. Neste caminho, o indolente vento Mistral vai varrendo os vinhedos na trajetória do rio até chegar à ensolarada Provence.

Voltando ao mapa,  reparem como há uma faixa estreita de vinhedos na porção norte do vale, onde a topografia extremamente acidentada, faz com que as vinhas espremam-se em encostas bastante íngremes, semelhantes ao vale do Mosel, na Alemanha.

Já a porção sul do vale, os vinhedos espalham-se ao redor do rio Rhône, pois a topografia bem menos dramática, permite tal avanço das vinhas.

Além das diferenças topográficas entre Norte e Sul, há diferenças de solos, clima e composição das uvas. Enfim, fatores básicos de terroir que serão esmiuçados nos próximos artigos. Não percam!

Harmonização: Filé à Monegasca

21 de Novembro de 2011

Muitos que estão lendo este artigo nem havia nascido quando o prato da figura abaixo fazia sucesso no saudoso Danton, um dos clássicos restaurantes franceses da década de 80, citado em outro clássico da gastronomia paulistana, o livro “Os Prazeres da Mesa” do carismático Saul Galvão, falecido há dois anos.

Homenagem a Saul Galvão

Este prato refere-se a um medalhão de filé mignon preparado à moda de Mônaco, o famoso principado. Ele tem um caráter provençal e portanto, bastante aromático.

O molho consiste em derreter um pouco de manteiga com azeite na frigideira (se quiser, pode ser só azeite), juntar alho picado, berinjela em rodelas, salsão picado, louro e tomilho. Refogar um pouco e depois flambar com brandy de boa qualidade. Em seguida, juntar o caldo de carne, um pouco de vinho branco e temperar com noz moscada, refogando um pouco mais. Por fim, retirar a folha de louro, juntar tomates picados e ajustar o sal,  fazendo uma última redução.

A montagem do prato começa com as rodelas de berinjelas, os filés grelhados e o molho já reduzido. Como guarnição, batatas cozidas ou as de sua preferência, conforme foto acima.

Como harmonização, proponho um belo Châteauneuf-du-Pape ou um Bandol. O primeiro é o mais emblemático tinto do Rhône Meridional e o segundo, um dos melhores tintos provençais. O prato rico em ervas e especiarias (tomilho, noz moscada, louro, salsão) encontra eco nestes vinhos. Corpo e estrutura tânica são adequados ao prato, além da madeira nunca ser excessiva. Esta aliás, é o grande problema da maioria dos vinhos do Novo Mundo.

Tintos do sul da Itália podem dar certo, especialmente Taurasi da Campania ou Cannonau da Sardenha. Um bom Garnacha de parreiras antigas como o espanhol Atteca Old Vines 2009 da Mistral (www.mistral.com.br),  ou um bom português do Alentejo são belas opções.

Sugestões

La Nerthe: Um parêntese a Châteauneuf-du-Pape

13 de Junho de 2011

Uma das mais famosas apelações francesas, Châteauneuf-du-Pape, é quase sempre sinônimo de decepção para muitas pessoas. Vinhos diluídos, alcoólicos, muitas vezes de negociantes, são o preço pago pelo glamour da região. Portanto, principalmente nestes casos, a importância do produtor é fundamental. Só ele é capaz de garantir qualidade e tipicidade da apelação. É o caso do Château La Nerthe, um dos ícones desta AOC (Appellation d´ Origine Controlée), importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Neste começo de milênio, os bons anos para Châteauneuf-du-Pape são os ímpares como: 2001, 2003, 2005, 2007 e 2009. Todas as grandes pontuações coincidem com esses anos, inclusive o Clos de Papes 2005, o vinho do ano em 2007 pela Wine Spectator com 98 pontos.

Voltando ao La Nerthe, a safra 2007 disponível na Grand Cru está deliciosa e muito propícia para o inverno que se aproxima. Apesar das famosas treze cepas na composição do Châteauneuf, o emblemático trio GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre) é quem garante belos aromas, boa estrutura e o devido equilíbrio. Como todo bom tinto do sul do Rhône, a Grenache sempre predomina no corte, gerando vinhos quentes (bom teor alcoólico) e bastante frutados. Neste exemplar temos aproximadamente, Grenache (50%), Syrah (30%) e Mourvèdre (10%), sobrando 10% para outras cepas. O vinho amadurece parte em barricas, parte em tonéis, nunca novos, para sempre priorizar a expessão de seu terroir.

Safra 2007: 93 pontos de Parker

Como se não bastasse este belo tinto, está disponível também a jóia da coroa, o espetacular Cuvée des Cadettes, elaborado com as melhores uvas da propriedade e amadurecido em barricas, 100%  carvalho novo. O que realmente impressiona neste exemplar da safra 2005 é sua potente estrutura tânica, pouco usual para a apelação. E que taninos! bastante finos, garantindo longa guarda em adega. Pelo menos até 2015, onde provavelmente começará a atingir seu platô. Muito equilibrado, com o álcool fornecendo a devida maciez e proporcionando uma sensação calorosa na medida certa. Um grande vinho para este inverno que aliás, promete.

Nesta safra, 96 pontos de Parker.

A safra 2001 já é sensacional, e pessoalmente já acharia difícil atingir tal nível. Contudo, provando a safra 2005, resgatei aquela velha frase: ninguém é insubstituível!

Sabemos que Parker é um tanto emotivo com vinhos do Rhône. A prova são as belas notas dadas a estes dois exemplos acima. Entretanto vale a ressalva: nessas notas em particular, deve haver um ou dois pontos de emoção, no maxímo.

 

Brettanomyces: Aromas Polêmicos

28 de Fevereiro de 2011

Em post recente, mencionei o palavrão Brettanomyces. Para os mais íntimos, Brett. É uma levedura de baixa fermentação que pode modificar o padrão aromático dos vinhos afetados por sua presença, e até mesmo, destruí-los.

Esta levedura pode estar presente na cantina em tanques de fermentação, dutos de trasfegas, ou qualquer outro equipamento de manipulação de mostos e vinhos. As barricas também são outro foco importante, principalmente as novas, por serem ricas em celobiose, substância que alimenta esta levedura e a torna altamente reprodutiva.

Os vinhos tintos são os mais afetados, mas os brancos não ficam incólumes, principalmente se passarem por barricas. A infecção pode ser branda, originando o chamado “bom brett”. Contudo, o homem ainda não tem controle após a infecção instalada. Com isso, o brett pode dominar totalmente o vinho e então, destruí-lo.

Mas então, como esta levedura ataca o vinho e quais são suas possíveis consequências?

Beaucastel: o chamado bom Brett!

Após a fermentação do mosto, transformando açúcares em álcool e dando origem ao vinho, o Brett se instalado na cantina, começa agir sobre o mesmo. Baixa acidez no vinho, açúcares residuais, baixa sulfitação nas diversas fases de elaboração e pouca manipulação (ausência de filtração por exemplo), são fatores favoráveis ao ataque do Brett. Por isso, a elaboração de vinhos artesanais deve ser feita com cuidados de higiene redobrados, para evitar ao máximo o ataque indesajado do Brett.

As consequências do Brett depois de instalado no vinho são sobretudo olfativas. No aspecto visual, pode ocorrer uma certa turvação ou opacidade na cor, além de nítida evolução (perde os reflexos violáceos e muitas vezes adquire tons granada) para um vinho relativamente jovem.

Voltando ao aspecto olfativo, é como se o vinho adquirisse aromas terciários ou de evolução, sem a devida idade para tanto. No caso do bom Brett, são percebidos toques animais (estábulo), defumados, de especiarias e aromas medicinais. Apesar de alguns especialistas abominarem qualquer tipo de ataque do Brett, seu efeitos de maneira branda podem adicionar complexidade aos vinhos, fazendo até parte do terroir de grandes ícones, conforme foto acima do Château de Beaucastel, um dos mais célebres da apelação Châteauneuf-du-Pape (sul do Rhône). Importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

O chamado “mau Brett” advém da total falta de controle do homem diante de seu ataque. Se o Brett desenvolver-se de forma descontrolada, destruindo os aromas primários e consequentemente seu lado frutado, o vinho adquire aromas sobretudo animais, muitas vezes nauseantes, o chamado pau de galinheiro (merde de poule para os franceses).

Já que não se tem controle, o melhor é evitá-lo através de bons procedimentos de higiene, sulfitação adequada e rigoroso controle das barricas, especialmente as novas.

Depois de instalado, para remover o Brett, precisamos praticamente destruir o vinho através de filtrações e esterilizações severas. Se forem as barricas, elas devem ser chamuscadas (ação de fogo), comprometendo seu correto grau de tostadura. Praticamente, a barrica fica destruída ou fortemente comprometida.

Exemplo clássico da África do Sul

O rótulo acima é um bom exemplo do Novo Mundo, elaborado pela vinícola Neil Ellis. Este Syrah tem muito admiradores, mostrando-se elegante e até com um estilo lembrando o Velho Mundo. Era importado pela Expand.