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Bacchianos em ação

28 de Junho de 2017

Esse neologismo faz alusão ao Deus do vinho e ao mesmo tempo uma homenagem a um grande amigo e maestro do encontro. Num agradável almoço onde fui convidado, pudemos desfrutar de belos vinhos numa turma bem animada. O menu foi baseado em frutos do mar escoltados por grandes brancos, sobretudo franceses.

bacchi louis roederer e margaux

elegância e refinamento de ambos

Na recepção dos convivas, Louis Roederer Brut Premier em Magnum dava o tom da festa. Um champagne com as três cepas clássicas maturado pelo menos três anos sur lies, o mesmo período exigido para os raros millésimes. Champagne de padrão alemão, preciso em todos os detalhes.

bacchi menu chef rouge

menu afinado com os vinhos

O grande branco do Chateau Margaux em Magnum, Pavillon Blanc 2006, foi um show à parte. Que classe! que delicadeza de vinho! um Sauvignon Blanc fermentado em barrica à moda bourguignonne, com muita elegância, fina textura, e longa persistência.

bacchi puligny chassagne e leroy

flight extremamente didático

Iniciando pela Borgonha, as diferenças claras entre um Puligny-Montrachet e um Chassagne-Montrachet. O primeiro, mais leve, mais gracioso, bem de acordo com um terreno mais pedregoso. Já o segundo, mais encorpado, mais denso, refletindo um terroir mais argiloso. Para completar, um Chassagne Montrachet comunal da Maison Leroy, numa classificação hierárquica inferior aos dois primeiros Premier Cru.

É bom enfatizar as diferenças dos vinhos Leroy. A chamada Maison Leroy trabalha como “Négociant”, comprando uvas ou vinhos recém-vinificados para educa-los em seus domínios. Já o chamado Domaine Leroy são os vinhos “mise en bouteille au domaine”, ou seja, vinhos de alta costura. Daí a razão deste Chassagne-Montrachet em questão não possuir uma guarda tão longa. Tratava-se de um vinho cansado que já passou por seu apogeu.

bacchi criots ermitage chapoutier e guigal

 ponto alto do almoço

Continuando com os Borgonhas, este Criots-Batard-Montrachet no centro da foto, trata-se do mais raro entre a família Montrachet. São apenas 1,57 hectares de vinhas para todos os produtores. Este Henri Boillot provado esbanjou delicadeza, classe, mas com muita profundidade, e seu característico toque cítrico. Acompanhou muito bem a vieira gratinada em bechamel, foto abaixo.

bacchi vieira gratinada bechamel

 delicadeza entre vinho e prato

Quanto aos dois Ermitages, cada qual brilhou em seu estilo próprio. O Guigal Ex-voto safra 2010, um vinho perfeito, 100 pontos Parker. As vinhas muito antigas (entre 50 e 90 anos) com rendimentos muito baixos, geram vinhos elegantes e concentrados. Apesar de 30 meses trabalhado em barricas novas, não se sente o impacto das mesmas. Pelo contrário, a fruta é exuberante com toques de funcho e anis. Ainda jovem e muito prazeroso, tem pernas para muitos anos em adega. Ficou muito bem com o prato de polvo e arroz negro. Os sabores um tanto exóticos de ambos casaram perfeitamente. As uvas são Marssane (90%) e Roussanne (10%).

No segundo Ermitage safra 1999, uma seleção parcelar do Chapoutier chamada “De ´L´Orée” com vinhas entre 60 e 70 anos (inteiramente Marssane), o vinho não tem um trabalho de barrica tão intenso. Mesmo assim, seus aromas já de vinho envelhecido, mostram um lado resinoso, lembrando favo de mel e algo floral. Denso e longo em boca.

bacchi corton charlemagne tondonia e dom perignon

um espanhol no meio da França

Encerrando o almoço, o trio acima manteve o alto nível. Para acompanhar este lindo camarão com a sopa de frutos do mar (foto abaixo), nada menos que o Corton-Charlemagne Jacques Prieur safra 2008. Um Grand Cru que alia elegância e personalidade como poucos. Já delicioso e longo, mas podendo alçar outros voos.

bacchi camarão e sopa do mar

prato de rara delicadeza

O branco espanhol Viña Tondonia Gran Reserva safra 1994 por incrível que pareça, ainda jovem, cor clara e brilhante. Sua elaboração requer precisão e paciência, pois o mesmo é fermentado em barricas de carvalho americano e posteriormente, sofre diversas trasfegas para outras barricas, se oxigenando e se clarificando de forma natural por cerca de 10 anos (este foi engarrafado em 2005). Com seus sabores marcantes, acompanhou bem uma seleção de queijos franceses, mostrando toda sua versatilidade.

chef rouge assiette fromage

finalizando à francesa “comme il faut”.

Ao final, brindando um aniversariante da confraria com Dom Pérignon safra 2004, uma cuvée de luxo de grande prestigio, ficando cerca de oito anos sur lies antes do dégorgement. Ainda jovem, apesar de seus 13 anos, seus aromas e textura cremosa são envolventes, encerrando com fecho de ouro o encontro.

Obrigado a todos pela oportunidade! abraços,

 

Montrachet e Le Montrachet

18 de Janeiro de 2016

Este é o melhor vinho branco seco da Terra! É a frase mais dita sobre o grande Montrachet. Respeito esta opinião, mas outras preferências bem escolhidas também são válidas. Enfim, não há dúvida que trata-se de um grandíssimo vinho. No mapa abaixo, podemos ver detalhes de seus diversos produtores que trabalham com parcelas reduzidas, dando seu toque pessoal na lapidação desta joia. No site, abaixo da figura, podemos ter uma visualização melhor.

Map credit: Fernando Beteta, MS

A Chardonnay em seu esplendor

http://www.tenzingws.com/blog/2016/1/12/interactive-map-of-le-montrachet-vineyard

Para entender este terroir é preciso entender seus vizinhos ilustres: Bâtard-Montrachet e Chevalier-Montrachet, sem contar com os diminutos em área plantada, Criots-Bâtard-Montrachet e Bienvenues-Bâtard-Montrachet. A altitude do vinhedo Montrachet parece-me o ponto chave da questão. Fala-se muito da perfeita insolação no vinhedo ( o sol no verão vai até às 21:00 hs), fruto da também perfeita declividade do terreno. De fato, Montrachet fica no meio dos outros dois Grands Crus (Bâtard a sul, e Chevalier a norte). A seguir, seguem algumas descrições sobre esses fabulosos vinhos de caráter fundamentalmente pessoal, embora embasadas em relatos e livros de fonte confiável.

Bâtard-Montrachet é um Grand Cru por volta de doze hectares de vinhas. Em seu solo a presença de argila é mais destacada do que nos demais Grands Crus, embora haja uma certa proporção de calcário. Este fator aliado a uma altitude mais baixa, gera vinhos mais encorpados, mais intensos e de destacada maciez. É como se fosse um Meursault com mais finesse. É esta finesse a mais que falta para um Meursault tornar-se Grand Cru.

Chevalier-Montrachet é pura elegância, mas uma elegância com profundidade. É exatamente esta profundidade que falta aos grandes Puligny-Montrachet para tornarem-se Grands Crus. Como aqui você tem uma altitude mais elevada, um solo pedregoso, rico em calcário, esta elegância, esta sutileza, são perfeitamente justificadas. E quando você pega um produtor como Domaine Leflaive neste terroir! Sua filosofia de trabalho priorizando  a delicadeza dos vinhos é absolutamente compatível com os terroirs de Chevalier-Montrachet e Puligny-Montrachet. Pessoalmente, não vejo concorrentes à altura. Resta saber, se a morte recente de Anne-Claude Leflaive não abalará esta precisa filosofia.

montrachet leflaive

estilo elegante

Agora sim, vamos ao grande Montrachet! Este é um vinho capaz de unir os dois Grands Crus acima descritos. Ao mesmo tempo que ele é forte, denso, encorpado, há um lado delicado, sutil e misterioso. Capaz de envelhecer por décadas, sua estrutura é monumental. A brincadeira maior em torno dele é comparar o estilo, a personalidade dos vários produtores desta obra-prima. Assim como Bâtard-Montrachet, o vinhedo Montrachet é partilhado exatamente em áreas iguais entre as duas comunas famosas: Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet. Neste contexto, chegamos ao título do artigo. Os vinhedos pertencentes a Chassagne costumam ser chamados de “Le Montrachet”  e os vinhedos de Puligny, simplesmente “Montrachet”, embora este detalhe não seja grafado e respeitado em vários rótulos.

montrachet drc

Taça Riedel para Montrachet

Nas sutilezas que este Grand Cru nos mostra, temos uma tendência em enfatizar um perfil mais encorpado, mais denso, nos Montrachets elaborados no lado de Chassagne. De fato, os vinhos do Domaine de La Romanée-Conti são Montrachets mais densos, mais musculosos. Os Montrachets do Domaine Lafon, da mesma forma. A exceção fica por conta do Domaine Leflaive, onde a imposição de sua filosofia é mais forte do que as características do terreno. Neste mesmo raciocínio, os Montrachets do produtor Ramonet costumam ser mais elegantes, de acordo com o terreno da porção de Puligny-Montrachet, embora seja um grande produtor de Bâtard-Montrachet, um vinho mais denso.

Novamente, falando do lado pessoal, Baron de Thénard é o menos interessante dos Montrachets. Falta um pouco de personalidade em seus vinhos. Já Marquis de Laguiche, propriedade de Joseph Drouhin, Montrachet de maior área plantada (dois hectares), é um Grand Cru confiável, consistente, e um bom começo no desbravamento deste fantástico Grand Cru.

Corton-Charlemagne: A montanha mágica

30 de Dezembro de 2015

Em minhas aulas sobre Terroir, a montanha de Corton é um exemplo inconteste que este conceito existe e é palpável. A composição de solo neste caso, determina criteriosamente o plantio de Chardonnay e de Pinot Noir em porções bem definidas. Hugh Johnson em seu livro diz que há uma espécie de Alice no País das Maravilhas permeando esta montanha, capaz de mudar repentinamente o cenário e nossas percepções.

A parte mais alta da montanha, rodeando seu cume, é rica em fragmentos de calcário, fazendo um terroir perfeito para a Chardonnay. Abaixo desta zona, no meio da montanha, a argila ganha força na composição do marga (mistura judiciosa de argila e calcário), tornando o solo mais frio e propicio ao cultivo da Pinot Noir. Deste raciocínio saem dois vinhos mágicos, ambos Grand Cru, o branco Corton-Charlemagne e o tinto simplesmente Corton, o único Grand Cru em Pinot Noir da Côte de Beaune. Especialmente neste artigo, falaremos do branco Corton-Charlemagne de um produtor de destaque, referência para a apelação.

Bosque de Corton ao fundo

A primeira vez que provei um Bonneau du Martray, o vinho estava num período de latência, sem grande expressão, mas ao mesmo tempo, dava para perceber o grande potencial de guarda do mesmo. A safra era de 1985, grande ano na Borgonha, como de modo geral em toda a Europa. Este branco Corton-Charlemagne, é um dos Grands Crus da Côte Beaune com características totalmente distintas.

Se Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault, são vinhos que falam entre si, o branco de Corton tem personalidade diferente, mais próxima aos Grands Crus de Chablis. Seus aromas lembram a mineralidade do Chablis, mas a textura tem um Q de Beaune, sem perder a semelhança com um Les Clos, o mais vigoroso entre os Grands Crus de Yonne.

bonneau du martray

veja a luminosidade desta cor no decanter

No exemplar acima com onze anos de idade, a cor se destaca pela jovialidade e o brilho dos grandes vinhos. Os aromas têm sempre algum mistério, mas notas sutilmente cítricas, florais e um fino boisé, são claramente percebidos. Em boca, impressiona como um autêntico Grand Cru. Percebe-se de início aquela tensão e mineralidade do Chablis, mas ao mesmo tempo uma maciez, uma densidade, com aquele Q de Beaune. O frescor, a vibração, a persistência e o equilíbrio, são notáveis. Pelo seu vigor, podemos vislumbrar pelo menos mais dez anos de guarda.

Alguns dados sobre Bonneau du Martray Corton-Charlemagne: vinhas de 45 anos divididas em 16 parcelas. Fermentação com leveduras naturais. Utilização de carvalho na fermentação e amadurecimento por 12 meses, sendo somente 30% novo. Trabalho judicioso de bâtonnage (contato sur lies revolvendo as borras).

Os grandes brancos da Borgonha

  • Bâtard-Montrachet – textura semelhante a Meursault com mais complexidade
  • Chevalier-Montrachet – elegância de um Puligny-Montrachet beirando a perfeição
  • Montrachet – (Bâtard + Chevalier)²
  • Corton-Charlemagne – Chablis Les Clos com textura de Beaune
  • Chablis Grand Cru – mineralidade e intensidade

Brancos da Borgonha

9 de Fevereiro de 2015

Os brancos da Borgonha baseados na uva Chardonnay estão entre os melhores do mundo. Estamos falando de vinhos secos, mas aromáticos e de grande equilíbrio em boca. É bom lembrar que os realmente bons e que vale a pena procura-los estão restritos a uma diminuta produção de vinhateiros diferenciados, cerca de 5% no máximo de toda a produção de brancos. Por isso, não adianta sair por aí a esmo, comprando a primeira garrafa que encontrar, sem nenhum critério.

Os cinco Grands Crus de Beaune

A Borgonha, apesar de composta por várias sub-regiões, os melhores brancos concentram-se nas comunas de Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault. Evidentemente, o ápice desses caldos está personificado no lendário Le Montrachet, um branco para milionários e de baixa produção. Contudo, uma linha-mestra conduz este tipo de vinho. São brancos fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho. A porcentagem de barricas novas é proporcional à qualidade, estrutura e corpo destes vinhos. Outro detalhe importante é que as leveduras estão sempre em contato com o vinho, fornecendo uma notável proteção oxidativa, inclusive na preservação da cor. Além disso, o revolver periódico das mesmas depositadas no fundo das barricas (o que o francês chama da bâtonnage) enriquece os aromas e sabores do vinho. A textura também é modificada, proporcionando agradável maciez. A influência da madeira neste processo fica atenuada, resultando num equilíbrio mais harmônico entre as matizes de frutas, ou seja, o tostado, a baunilha, as especiarias, que normalmente a madeira fornece ao vinho são muito mais sutis.

Todo este processo somado a outros fatores de terroir como clima, características de solo, manejo no vinhedo, fazem dos brancos borgonheses um modelo perfeito para as inúmeras cópias mundo afora. A Chardonnay é uma uva fácil, versátil e globalizada, sendo cultivada sem grandes dificuldades nas principais regiões vinícolas, sobretudo no chamado Novo Mundo. A dificuldade nas cópias é manter um bom nível de acidez e de frescor nos vinhos, uma carga de madeira bem dosada, e proporcionar vinhos capazes de envelhecer. O progresso dos últimos anos é sensível, mas somente poucas exceções são capazes de obter pleno sucesso. Os Estados Unidos estão um passo à frente, mas Chile, Austrália e Nova Zelândia caminham com entusiasmo.

chablis_carte_grand_cru

Os sete Grands Crus de Chablis

Se este estilo de Borgonha já não é fácil de ser reproduzido, o temperamental Chablis é quase impossível. Apesar da região de Chablis estar inserida na Borgonha, sua distância das comunas citadas a sul da Côte de Beaune é proporcional à diferença no estilo de vinho. Enquanto um autêntico Chablis é ereto, firme, cortante, mineral e marcante em acidez, o estilo anterior é macio, envolvente, e mais aconchegante. Essas diferenças estão ligadas a fatores de terroir como solos, vinificação e sobretudo, clima. O clima em Chablis é bem mais frio, quase no limite de cultivo da versátil Chardonnay. Somado à característica única de seu solo, Chablis é praticamente irreproduzível em outras paragens. Este solo argilo-calcário entremeado por fosseis marinhos é capaz de fornecer ao vinho sabores únicos, entre os quais, a incrível mineralidade, palavra hoje em dia polêmica e quase proibitiva.

Outro detalhe importante nos vinhos de Chablis é sua vinificação. Para preservar estes aromas sutis, esta mineralidade evidente, os vinhos não devem ser fermentados em barricas novas como acontece muitas vezes nos brancos de Beaune. Os aromas cedidos pela madeira, ofuscariam estas particularidades aromáticas tão autênticas de um Chablis, que são quase impressões digitais de seu terroir. Os mais tradicionalistas fermentam seus vinhos em barricas, porém usadas, apenas para permitir uma micro-oxigenação. Outros fazem uso do aço inox, ou de um misto de barricas com inox. Outros poucos, felizmente, ousam colocar uma certa porcentagem de barricas novas no processo, para deixar os vinhos mais “atraentes”. É importante citar também que o contato com as leveduras é necessário no processo. Pelos motivos já citados, este contato enriquece o vinho de uma maneira positiva, quebrando de certo modo sua dureza natural. Para aqueles consumidores que têm oportunidades em viagem ao exterior, não deixem de provar Raveneau e Dauvissat. Produtores de referência quando se trata de Chablis no mais alto nível.

Próximo artigo, degustação às cegas. Um Borgonha no meio de vários Chardonnays.