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Harmonização: Virado à Paulista

27 de Fevereiro de 2012

Este prato é a cara de São Paulo. Principalmente, por ser servido tradicionalmente às segundas-feiras no tempo em havia uma certa disciplina no cardápio semanal dos restaurantes e botecos para restaurar os paulistanos no seu árduo dia a dia. Segunda-feira, trabalho e virado. Nada mais paulistano.

Evidentemente, naqueles tempos não se falava em vinho. Uma cerveja bem gelada resolvia o problema. E ainda hoje resolve. Não queremos de forma nenhuma quebrar esta tradição. Ocorre que atualmente, o Virado ficou chique. É servido em restaurantes finos com a bandeira de resgatar as boas tradições. Neste contexto, há espaço para o vinho, ator principal dos assuntos deste blog.

Virado: tem algo da feijoada e de cozinha mineira

Os ingredientes são: tutu de feijão, arroz branco, couve refogada, bisteca de porco, banana à milanesa, torresmo, linguiça e ovo frito (de preferência com a gema mole). Um prato rústico e bastante saboroso, mesclando o amarguinho da couve, o doce da banana, o defumado da bisteca e da linguiça, a untuosidade do tutu, o sal do torresmo e a gordura que envolve as preparações.

O vinho em primeiro lugar deve ser simples. Nada de medalhões. Eles ficarão constrangidos com a simplicidade do prato. Se for tinto, procure um vinho de corpo médio, jovem, com poder de fruta, pouco tânico e de bom frescor. A fruta vai compensar o lado doce da banana e amenizar o amarguinho da couve. O frescor, a acidez vai dar vivacidade ao prato, além de combater o lado gorduroso do torresmo, da bisteca e da linguiça. Será benvinda uma discreta passagem por madeira no vinho a fim de encontrar eco no toque defumado das carnes. Um aspecto importante no vinho é a maciez equilibrando a textura do tutu de feijão.

Do exposto acima, um Merlot nacional de um bom produtor para ficarmos com um vinho também regional, parece ser uma boa escolha. Mais uma vez insisto, nada de Merlots topo de gama, com muita madeira, extremamente encorpados e amadeirados. Um bom Merlot de linha média como o Merlot Salton da linha Volpi, por exemplo. Um Malbec argentino neste raciocínio, também cairia bem.

Se for um vinho branco, um Chardonnay do Novo Mundo jovem, frutado e com leve passagem por barrica, é o mais adequado. Um Sémillon australiano ou um Viognier do Languedoc (sul da França) são boas alternativas. A propósito, a importadora Zahil (www.zahil.com.br) tem um Viognier da Domaine François Lurton bem adequado ao nosso tema.

Se tudo isso não der certo, peça uma cerveja bem gelada e encare a semana que está só começando.

Enogastronomia: Parte VI

23 de Fevereiro de 2012

Neste último post sobre técnicas culinárias, vamos abordar os procedimentos de grelhar e assar. Basicamente, a diferença está no tamanho da peça. Costeletas de cordeiro são grelhadas, enquanto um pernil do mesmo animal deve ser assado.

Grelhar

Podemos traçar um paralelo com as frituras, já que a idéia é deixar pequenos pedaços do alimento tenros e suculentos por dentro. Entretanto, grelhar usa somente uma fonte de calor que pode ser o carvão ou nosso próprio fogão, enquanto a fritura utiliza geralmente gordura em alta temperatura, como vimos em artigos anteriores.

Comumente, esta fonte de calor é relativamente intensa, procurando selar o alimento em sua superfície, formando uma camada tostada. Isso além de agregar uma certa crocância, confere um sabor tostado, preservando suculência no interior do alimento. No caso de um corte nobre de carne bovina, não há melhor situação para agradar os temidos taninos de certos vinhos tintos. O lado amadeirado muitas vezes incisivo, principalmente nos tintos do Novo Mundo, acomoda-se perfeitamente nesta situação, proporcionando uma sinergia de sabores com o tostado da grelha.

Se a carne for branca (frango por exemplo) ou peixe, os brancos com passagem por barricas podem harmonizar bem, desde que haja um equilíbrio na intensidade do tostado em ambos os lados (vinho e carne).

Grelhados: Superfície crocante e tostada

Evidentemente, a natureza do alimento e seu potencial de sabor vão calibrar a escolha do vinho, seja ele tinto ou branco. Além disso, não devemos esquecer dos molhos e guarnições de acompanhamento. Conforme o impacto, a influência na escolha do vinho pode ser determinante.

Assar

Esta técnica prevê a ação do calor de forma lenta e constante, na maioria dos casos. O princípio é o mesmo de grelhar, ou seja, através do calor desidratar o alimento, concentrando mais seu sabor. O sabor do assado privilegia como nenhuma outra técnica a apreciação de vinhos elegantes, sutis e muitas vezes envelhecidos, com os famosos aromas terciários. Dependendo do alimento, poderemos ter vinhos brancos ou tintos. Novamente, molhos e guarnições deverão ser considerados. Quanto mais delicado e sutil for o vinho, menos riscos devemos correr com esses dois fatores citados.

O sabor do assado realça vinhos elegantes

Em assados onde há forte tendência no ressecamento das carnes como peru ou lombinho de porco, por exemplo, procure vinhos de textura mais rica e espessa. Merlots, alentejanos ou chardonnay passado em barrica, cumprem bem esta função. Evite vinhos tânicos e/ou ácidos que costumam reforçar esta sensação de secura.

Por enquanto, chega ao fim esta série de artigos sobre enogastronomia. Retomaremos novos tópicos em breve, intercalando-os a outros assuntos.

Harmonização: Steak Tartare

30 de Janeiro de 2012

Eis uma bela opção para o verão, principalmente para aqueles que não abrem mão de carne bovina. Embora o original seja semelhante à foto abaixo, existem inúmeras variações de ingredientes e temperos, inclusive sem a gema de ovo crua, a qual complica muito a harmonização. 

Outra observação importante é que tartare ou tartar (grafia muito comum hoje em dia) tornou-se um processo pelo qual, qualquer tipo de carne crua picada ou moída, agregada a molhos e outros ingredientes, recebe esta denominação. Mas atenção, a carne picada na ponta da faca apresenta sempre textura incomparável à mesma carne passada no moedor.

Atualmente, muitas variações do original

Voltando ao nosso Steak Tartare original, teremos alguns problemas de harmonização com vinhos tintos, apesar de estarmos falando em carne vermelha. Ingredientes que acompanham o prato como alcaparras, cebola crua, cornichons (pepino em conserva), azeite, tabasco e/ou molho inglês e a temida gema de ovo crua, desencorajam a maioria dos vinhos tintos com taninos presentes. De fato, a gema crua desossa qualquer vinho tânico, além da acidez do molho inglês e demais ingredientes que potencializam a sensação de amargor. Portanto, o vinho tinto ideal é o Beaujolais (uva Gamay), sobretudo um Villages, com mais concentração de sabor. Seu poder de fruta, sua acidez equilibrada e principalmente, sua baixa tanicidade, acomoda-se melhor às armadilhas do prato. Um borgonha simples, de preferência da Côte de Beaune, também apresenta características semelhantes.

Os brancos não devem ser descartados. Pelo contrário, podem ser belas alternativas. Um borgonha mais simples como um Saint-Véran (na prática, a versão branca do Beaujolais) ou um Macôn-Villages, apresentam textura e acidez adequadas ao prato com força aromática suficiente. Não desperdicem brancos ou tintos complexos com esta entrada. As sutilezas do vinho serão abafadas pela rusticidade dos ingredientes.

Quanto a brancos e tintos do Novo Mundo, a opção por Chardonnay sem madeira (unoaked) é sempre mais adequada, enquanto tintos de médio corpo com as uvas Tempranillo, Pinot Noir e alguns Malbecs, sempre sem madeira, também fazem sucesso.

Se a carne mudar para salmão ou atum, o branco costuma ser a primeira opção, embora a Pinot Noir com atum apresente uma empatia natural.

Em resumo, preste sempre atenção ao tipo de carne e a prevalência de algum ingrediente marcante. Esses itens vão definir com maior precisão o vinho mais conveniente. De resto, é curtir o momento.

Champagne em destaque: Cuvée William Deutz 1998

12 de Dezembro de 2011

Nesta última degustação na ABS-SP sobre champagnes de luxo, o rótulo abaixo brilhou entre feras já citadas e comentadas em post anterior. Resolvi destacá-lo em artigo específico por se tratar de um champagne envelhecido, de uma bela safra, e em grande forma.

A maison Deutz de origem alemã goza de grande reputação entre os melhores champagnes. Adquirida pela maison Roederer também de origem germânica, responsável pelo mítico champagne Cristal, os champagnes Deutz primam por sua elegância, equilíbrio e personalidade.

Um dos melhores rótulos no mercado

Como a maison Krug, as cuvées da Deutz fazem questão de incluir a uva Pinot Meunier em seu corte, além das nobres castas Chardonnay e Pinot Noir. Na cuvée acima, temos a seguinte proporção de uvas: 55% Pinot Moir, 35% Chardonnay e 10% Pinot Meunier.

Os vinhedos localizam-se em Aÿ, sede da maison, e também na Côte des Blancs, onde pelo menos 80% são da categoria Grand Cru e Premier Cru. Os champagnes não costumam ser encorpados, mas possuem estrutura e caráter para envelhecer. Para esta cuvée, o vinho permanece pelo menos cinco anos sur lies antes do dégorgement.

Na degustação,  apresentou-se com cor palha claro dourado de média intensidade e muito brilho. Os aromas finos denotam frutas secas e cítricas cristalizadas bem mescladas, lembrando um pouco os doces mineiros. Toques tostados, de gengibre e brioche também fazem parte do conjunto. No boca, mostrou-se medianamente encorpado, com uma acidez viva e revigorante de início, caminhando paulatinamente a uma maciez própria dos grandes champagnes, moldada por uma mousse delicada, mas de grande presença. Nas sensações finais, o equilíbrio é notável, além de todos os sabores fundirem-se harmoniosamente. Final fresco, elegante e marcante. É incrível sua vivacidade após treze anos de safra.

Importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br)

Harmonização: Vatapá

21 de Julho de 2011

Dentre os pratos da riquíssima cozinha baiana está o Vatapá, receita dada magistralmente na música do eterno Dorival Caymmi (clicar vídeo). Além disso, serve como recheio de outra especialidade baiana, o Acarajé (massa à base de feijão fradinho, frito em óleo de dendê).

Miniatura

http://youtu.be/WjXTXrZsSX8

 A receita leva farinha de rosca ou fubá, amendoim, castanha de cajú, pimenta malagueta, gengibre, cebola, coentro, tomate, leite de coco, azeite de dendê, camarões secos e alguns outros ingredientes que são segredos de cada autor. Tudo é triturado, mexido lentamente em fogo baixo formando um purê, conforme figura abaixo.

Vatapá: Textura cremosa

Na harmonização, devemos pensar num vinho branco saboroso, pois o prato exige sabor, além de uma textura espessa, pois o prato tem cremosidade. Neste contexto, os clássicos chardonnays passados em barrica de carvalho são a primeira opção. De fato, seu aroma intenso de fruta tropical, com toques tostados, e sabor amanteigado, vão muito bem com o prato. Se for borgonha, um Meursault apresenta a textura mais adequada. Sua acidez equilibra a gordura do prato, sem contar os aromas lembrando cajú dos grandes borgonhas.

No Novo Mundo, chardonnays californianos, chilenos, australianos e sul-africanos, com passagem por barrica, podem ser bem interessantes. Brancos com as uvas Sémillon, Viognier e Pinot Gris, podem ser belas alternativas, sempre com sabores intensos e boa textura. Gewurztraminer pode dar certo, embora sua crônica falta de acidez, pode tornar a harmonização um tanto cansativa.

Quanto mais novos forem esses vinhos, melhor. Terão mais fruta, mais frescor, combatendo principalmente, o lado que pode ser quente do prato, a pimenta. Se o abuso for para o lado do dendê, um toque de evolução no vinho, ajuda. Se o gosto pelo coentro falar mais alto, um Sauvignon Blanc de boa textura pode dar certo. Um Cloudy Bay da Nova Zelândia (Grupo LVMH – www.lvmh.com) ou um Steenberg Reserve da África do Sul (www.expand.com.br) ou também (www.winebrands.com.br).

Corton Blanc: Um branco para o inverno

27 de Junho de 2011

Em artigos anteriores, já mencionei a estranha associação que as pessoas fazem entre as estações do ano e as cores dos vinhos. Branco no verão e tinto no inverno, independente dos pratos que serão servidos. Mesmo neste raciocínio, é possível escolhermos brancos com alma de tintos. Os grandes brancos com passagem por madeira elaborados com a uva Chardonnay são exemplos clássicos. São calorosos, aromáticos e encorpados.

Nosso vinho de hoje é o raríssimo Corton Blanc, conhecido por poucos, pois Corton é sinônimo do único Grand Cru tinto da chamada Côte de Beaune, na famosa montanha de Corton. O clássico branco da apelação é o grande Corton-Charlemagne, um dos maiores de toda a Borgonha. Contudo, dentro da apelação Corton, existe uma ínfima parcela produzindo menos de dezesseis mil litros por ano do chamado Corton Blanc, também um Grand Cru. Ele só perde em exclusividade para o raríssimo Criots-Bâtard-Montrachet, com apenas sete mil e quinhentos litros por ano.

Este raridade está disponível no Brasil através da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). É o Chandon de Briailles Corton Blanc Grand Cru 2004. Apesar de seus sete anos de vida, encontra-se em tenra idade. Sua cor não aparenta nenhum sinal de evolução, além de um brilho intenso. Seus aromas, um tanto fechados de início, pede uma decantação obrigatória. Com a devida oxigenação, revela toda a elegância e mistério dos grandes brancos da Borgonha. Na boca, é estonteante. Acidez dos grandes vinhos, equilíbrio notável e uma persistência aromática bastante expansiva. Madeira absolutamente integrada numa profusão de aromas. Vinho de gente grande!

Harmonização: Sopas de inverno

23 de Junho de 2011

Nas noites de inverno, um prato de sopa é sempre reconfortante e acolhedor. Muitas pessoas até preferem fazer da sopa seu prato único, sem nenhum acompanhamento, além de um pedaço de pão.

Para aqueles que não abrem mão de uma taça de vinho, também bastante convidativo nesta época, é possível a convivência harmônica entre sopas e vinhos?

Quando não se quer pensar muito sobre o assunto, a resposta clássica é o tradicional Jerez (o mais emblemático fortificado da Espanha), imortalizado no clássico da enogastronomia, o filme Festa de Babette.

As sopas de uma maneira geral apresentam dois inconvenientes em termos de harmonização: alta temperatura e textura incompatível. Neste contexto, não desperdiçe uma grande garrafa com sopas. Vinhos complexos, elegantes e delicados, se perderão entre as colheradas de um caldo fumegante. Vinhos de bom teor alcoólico resistem mais à alta temperatura remanescente na cavidade bucal, justificando a opção pelos fortificados.

O problema da textura é muitas vezes complicado, principalmente pelo antagonismo quanto à intensidade de sabores. É comum termos sopas de caldos ralos, com sabores bastante marcantes. Nestes casos, vinhos que tenham a mesma intensidade de sabor, geralmente apresentam maciez e corpo excessivos, criando um conflito entre texturas. No sentido contrário, muitas vezes, sopas de textura cremosa, acabam tendo um sabor delicado. Neste caso, a solução de textura do vinho é mais fácil, porém geralmente seu sabor acaba dominando a harmonização.

Para ficar mais claro, vamos a dois exemplos de sopas clássicas européias, muito difundidas entre nós, que denotam as questões acima expostas.

Caldo Verde: Típico do norte de Portugal (Minho)

Caldo Verde, um clássico português adorado pelos brasileiros, elaborado à base de batatas, couve e pedaços de chouriço (pode ser linguiça ou paio). O caldo deve ter uma textura levemente cremosa, a crocância da couve finamente cortada e inserida no caldo momentos antes do consumo, e o sabor substancial dos chouriços. Quanto maior a participação dos chouriços no caldo, maior deve ser a intensidade do vinho. Um toque mineral ou amadeirado no vinho ressaltará a defumação do embutido. Um bom alentejano, com intensidade de sabor, frutado, e taninos delicados para não conflitar com a couve, geralmente têm  força e textura (maciez) compatíveis com o caldo. Um Malbec ou Tempranillo, também cumprem bem o papel. Todos esses tintos devem ser relativamente simples e não muito encorpados.

Creme de Abóbora: Sabores delicados

Os italianos a chamam Crema di Zucca, com inúmeras variações de ingredientes. Podemos incorporar caldo de legumes ou frango, leite, ou água em sua elaboração, além de temperos como cebola, ervas, especiarias e um pouco de pimenta. A textura costuma ser bem cremosa e o sabor predominante da abóbora apresenta uma tendência adocicada. Aqui, temos um cenário mais para brancos, de preferência, Chardonnays. Escolha um tipo bem frutado como um típico australiano. Ele terá sintonia com o sabor da abóbora e textura untuosa para o creme. Um leve toque de madeira fará eco com as especiarias e seu lado abaunilhado enriquecerá o conjunto.

As inúmeras sopas clássicas ou inventadas e adaptadas por nós devem ser analisadas caso a caso. O importante é termos vinhos com aromas que não se volatilizem com facilidade (bom teores de álcool) e de textura e intensidade de sabores compatíveis com o prato.

Harmonização: Fondue e Vinho

16 de Junho de 2011

Com a aproximação do inverno, em restaurantes, hotéis e nas próprias residências, as pessoas mobilizam-se para realizar o famoso ato de espetar um pedaço do pão crocante naquela panelinha com queijo fumegante e derretido. Estamos falando da Fondue, particípio passado feminino do verbo fundir em francês. Há controvérsias sobre a origem suiça, pendendo para o lado francês nas regiões de Savoie e Jura. Contudo, a receita mais antiga encontra-se num livro escrito em Zurique no ano de 1699.

Ficheiro:Swiss fondue 2.jpg

Fondue de queijo: Receita clássica

A harmonização clássica para a tradicional fondue de queijo é o vinho branco suiço Fendant da região do Valais, elaborado com a uva Chasselas. É um vinho elegante, relativamente discreto, mas com ótima acidez, componente suficiente para combater a gordura do prato. Seu corpo adequado e sua tipologia relativamente simples completam a harmoniosa convivência.

Se a opção for por um tinto, para aqueles que ainda pensam que vinho é só tinto, pode-se tentar um vinho de corpo médio, com taninos bem moderados e de relevante acidez. Nada de vinhos muito complexos e sofisticados, pois o prato é relativamente simples. Podem ser tintos do Loire, Pinot Noir novo e sem passagem por madeira, Barbera ou Valpolicella, tintos do Dão, tintos e rosés espanhóis de Navarra. Todos novos e relativamente simples. Geralmente, os vinhos básicos de cada uma dessas apelações.

Voltando aos brancos, além do clássico suíço, brancos de corpo médio, boa acidez (componente essencial) e aromas discretos e não dominadores, podem ser belas opções. Chardonnay sem madeira (Chablis), Riesling e Chenin Blanc, são as uvas mais imediatas. Sempre com vinhos simples, novos e de bom frescor.

Saindo da fondue clássica de queijo, o ritual encanta tanto as pessoas, que o prato virou nome de um processo, onde vários alimentos e ingredientes podem ser aquecidos e apreciados com uma série de molhos e acompanhamentos. Portanto, a criatividade não tem limites, e a harmonização deve ser conduzida caso a caso. Vamos a seguir, comentar dois casos bem típicos do nosso dia a dia.

Fondue de carne

Aqui sim, devemos pensar num tinto, mas esqueçam os chamados Blockbusters do Novo Mundo, que certamente irão atropelar seu prato. É importante também pensarmos nos molhos que irão envolver os pedacinhos de carne. Isso pode ser fundamental, sobretudo se for um molho picante  e/ou agridoce. Nestes casos, parta para vinhos novos, frutados e sem madeira. Geralmente, são vinhos simples e de muito frescor. Portanto, você terá acidez presente e taninos discretos para combater a picância, além do lado frutado acompanhando uma eventual doçura. Malbec, Tempranillo ou um bom alentejano podem cumprir bem o papel.

Fondue de chocolate

Pedaços de maçã, pera, uvas, morangos, envoltos numa camada de chocolate derretido, são irresistíveis para muitas pessoas. Um Asti Spumante (Itália), Moscato d´Asti ou nossos moscatéis espumantes, muito bons por sinal,  são escolhas extremamente adequadas  e de custo baixo. A doçura destes vinhos é suficiente para o chocolate, além dos aromas e sabores combinarem perfeitamente com as frutas frescas. Complementando a harmonização, o frescor e a mousse dos espumantes contrastam muito bem com a gordura e untuosidade do chocolate, deixando o palato revigorado. Não esqueça que a receita leva chocolate e creme de leite fresco. Portanto, o chocolate é diluído, para não ter uma untuosidade muito pesada.

Vinhos fortificados como Porto ou Moscatel de Setúbal podem ser um tanto dominadores e cansativos, a não ser um bom Muscat de Rivesaltes (sul da França) bem fresco. Prefira sempre vinhos de sobremesa com açúcar suficiente para o chocolate, com muita fruta, frescor, evitando os mais alcoólicos e untuosos.

É bom esclarecer que pessoalmente prefiro vinhos mais frutados e de maior frescor. Tecnicamente, Porto ou Moscatel de Setúbal são clássicos companheiros de chocolate. Contudo, num inverno mais ameno como o nosso, depois de provavelmente termos pratos vigorosos durante a refeição, acompanhados de vinhos tintos também de bom corpo, finalizar a refeição com algo mais fresco e frutado parece-me mais revigorante.

Enfim, qualquer que seja a receita de sua fondue, é sempre um ritual relaxante, romântico e acolhedor. O importante na harmonização é saber exatamente o que espetar e em que será mergulhado o espeto. De resto, é curtir o momento.

 

Piemonte: Nova DOCG Alta Langa

29 de Janeiro de 2011

Realmente, o Piemonte quer disparar frente às demais regiões italianas com relação ao número de DOCGs (Denominazione di Origine Controllata e Garantita). A partir da safra de 2011, a denominação Alta Langa passar ser DOCG.

Alta Langa, ainda DOC, é uma denominação para espumantes do Piemonte elaborados pelo método clássico (segunda fermentação na garrafa), com as uvas Chardonnay e Pinot Noir em porcentagem de pelo menos 90% (juntas). As províncias piemontesas autorizadas são Cuneo, Alessandria e Asti. As eventuais uvas complementares são uvas autóctones autorizadas na região. As versões podem ser spumante bianco, rosato (rosé) ou rosso.

Nova DOCG a partir da safra 2011

O rótulo acima é um dos bons produtores da região, comercializado no Brasil pela importadora World Wine (www.worldwine.com.br).

Com esta nova designação, Alta Langa forma um seleto grupo de espumantes italianos DOCG elaborados pelo método clássico, juntamente com os ótimos Franciacorta e os recentes Oltrepò Pavese Metodo Classico.

Harmonização: Vitello Tonnato

26 de Janeiro de 2011

Mais uma boa opção no verão para aqueles que não dispensam carne, e fazem questão que não seja crua (carpaccio). É um prato típico do Piemonte, tradicionalmente servido como entrada e de fácil execução.

A harmonização com vinhos está muito mais ligada ao molho do que propriamente à carne, já que seu sabor é relativamente neutro, sobretudo se for de vitela. A carne (lagarto ou girello em italiano) é levemente marinada com algumas ervas, legumes e especiarias, e depois cozida lentamente em água com um pouco de vinho branco. Fica com o aspecto de nossa carne louca sem os temperos.

Entrada clássica do Piemonte

Já o molho é que vai dar sabor ao prato. Basicamente, é uma maionese incorporada com atum sólido, um pouco de alici e alcaparras. Com esses ingredientes e lembrando que a maionese tem como base ovos e óleo, os brancos são o caminho natural. A carne fria reforça ainda mais esta tese.

O vinho precisa ter certa textura, boa acidez sem exageros, e presença aromática de fruta, própria de brancos jovens. As escolhas locais ficam entre duas DOCG importantes de vinho branco, Roero Arneis (Arneis é uma uva autóctone) e Gavi (outra uva autóctone chamada Cortese). É evidente que um Chardonnay moderno e fresco, sem presença de madeira, pode harmonizar com sucesso. Entretanto, um leve toque de madeira, não chega a comprometer o conjunto. Um Sauvignon Blanc do Novo Mundo, de boa textura e com a força da juventude é outro opção segura.

Se você não abre mão de um vinho tinto, tente um  típico Dolcetto, com muita fruta e baixa tanicidade. Um Valpolicella ou um Chianti Colli Senesi são alternativas interessantes. O importante é a acidez do vinho estar presente, na qual os italianos são mestres.

Em resumo, tanto brancos como tintos, devem ser jovens, frescos e relativamente simples. Sempre temos que ter em mente, que trata-se de uma entrada. Os pratos de fundo sim, precisarão naturalmente de vinhos mais complexos e estruturados. Mesmo que não tenhamos outros pratos na sequência por ser verão, e optarmos por uma refeição mais leve, a lógica deve ser mantida. Afinal, todos esses vinhos sugeridos são a cara desta estação ensolarada.