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O nome da uva

27 de Março de 2026

Em 1985, o cineasta francês Jean-Jacques Annaud precisava de um mosteiro histórico para filmar seu próximo longa-metragem – Nome da Rosa, baseado no livro homônimo do escritor italiano Umberto Eco. Fez sua equipe vasculhar a Europa à procura de um que tivesse sido construído havia séculos antes. Detalhes faziam a diferença. Para se preparar, Annaud leu centenas de livros e contratou Jacques Le Goff, um historiador especialista na época medieval, como consultor histórico de produção.

Depois de muita procura, chegaram ao Kloster Eberbach, abadia cisterciense fundada em 1136 às margens do Rheingau, um pedaço de terra hoje famoso pelos rieslings. Sean Connery – o eterno James Bond – chegou pouco depois da seleção da locação, para encarnar Guilherme de Baskerville, o religioso que investiga mortes misteriosas num mosteiro beneditino no século XIV. As câmeras filmavam os interiores da abadia. Do lado de fora, estavam os vinhedos. Mas eles não eram de riesling.

O ano em que passa a trama é 1327. A uva Riesling tem sua primeira documentação registrada em 13 de março de 1435. Entre o ano da trama de Eco e a primeira prova documental da existência do Riesling há um intervalo de mais de um século.

Na abadia, os monges seguiam rigorosamente a regra de São Bento, focada na oração, silêncio e trabalho manual e intelectual. Cada um recebia uma hemina de vinho por dia — cerca de 0,27 litros. O que os monges do Kloster Eberbach bebiam era Elbling, uma cepa de origem provavelmente romana e que foi a uva mais cultivada na Alemanha por muitos séculos. Hoje a principal produção é de Riesling, a uva que fez a fama da Alemanha no mapa múndi enológico. (Os vinhos de Kloster Eberbach chegam ao Brasil pela importadora Weinkeller, que receberá em breve novos rótulos da safra 2022, como esse ótimo riesling trocken).

Eco, que não escolheu o cenário, nunca comentou a ironia. O autor sempre manteve uma postura de prazer à mesa. À revista italiana Gambero Rosso, Stefano Delfiore, dono de uma enoteca histórica, em Bolonha, que fechou as portas no início de 2026 depois de décadas no mesmo ponto, contou recentemente que Eco chegava ali por volta do meio-dia e quinze, logo após as aulas na universidade. Preferia uma taça de vinho branco a tinto. Mas não abria a carta. Deixava-se guiar pela sugestão da casa, preferindo uma taça de vinho branco e a boa conversa ao rigor técnico das safras. (Uma sugestão é o roero arneis de Bruno Giacosa, importado pela Mistral e já resenhado em algumas resenhas ao longo dos anos no site).

Entre vinhedos históricos da Alemanha e o balcão de uma enoteca em Bolonha, a trajetória de Umberto Eco revela que, na literatura como na mesa, a verdade nem sempre está no rótulo e na conta de um hotel... Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/blogs/pantagruel/o-nome-da-uva/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos

Semiólogo, Eco investigava a cultura e hábitos. Tinha uma teoria do café ruim. Em uma de suas crônicas à imprensa italiana, dedicou seu texto ao café que se assemelhava a uma lavagem. Mapeou os lugares onde era servido em quantidade: prisões, vagões-leitos, hotéis de luxo. Aplicou Max Weber à receita: o bule de porcelana projetado para derramar metade do café nos croissants e o restante nos lençóis.

Se na ficção Eco lidava com pergaminhos, pêndulos, labirintos, na vida real travava batalhas contra a pressa e as falhas da modernidade.  No mesmo ano em que Annaud filmava no Kloster Eberbach, Eco lançou Como viajar com um salmão, um livro com curtas crônicas que passeiam por diversos temas – de comida de avião a futebol. Na crônica que dá nome ao livro, relata a compra de um salmão defumado em Estocolmo. O peixe é embalado em plástico. A missão é fazer com que chegue a Londres, onde ele ficaria por três até voltar à Itália. 

Quando chegou ao hotel de luxo reservado pelo seu agente literário, Eco desconfiou que o plano seria mais difícil que o previsto inicialmente. Famílias inteiras estavam acampadas no saguão, viajantes enrolados em cobertores dormiam em meio às suas bagagens. Um sistema computadorizado foi instalado e, antes que todas as falhas pudessem ser eliminadas, ele sofreu uma pane de duas horas.

Quando a confusão se desfez, foi ao quarto. Retirou tudo do mini refrigerador e colocou o salmão que tinha comprado. Achou que tudo estava certo. No dia seguinte, ao retornar ao quarto depois de andar por Londres, se deparou com o peixe em cima de uma mesa e garrafas de bebidas dentro da geladeira. Repetiu o procedimento tirando tudo de dentro e recolocando o salmão. No dia seguinte, voltou a ver o peixe sobre a mesa, dessa vez com um aroma que já denunciava má conservação.

Reclamou na recepção, mas ninguém entendeu nada. Eco entendeu menos ainda ao receber a conta. Havia garrafas de whisky, gin, águas, três meias-garrafas de champanhe, latas de cerveja e garrafas de vinho branco e tinto. O computador o tinha cobrado como se ele tivesse bebido tudo aquilo, mesmo ele apontando que tinha sido erro do sistema de computador. “Agora meu editor está furioso e pensa que sou um aproveitador crônico. O salmão não está comestível. Meus filhos insistem para que eu reduza a bebida.”

Na crônica “Como Comer num Avião”, cataloga com rigor as comidas admissíveis e inadmissíveis durante turbulência — costeleta empanada, carne grelhada, queijo, frango assado do lado permitido; espaguete ao molho de tomate, parmegiana de berinjela, consommé quente do lado proibido. Eram outros tempos de viagens aéreas.

Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016. Em fevereiro desse ano, dez anos depois, a Antica Drogheria Calzolari, sua enoteca favorita em Bologna, fechou as portas. A concorrência vitimou o estabelecimento comercial do autor. Ficaram as histórias, as crônicas e os livros.

Comidinhas e Vinhos

27 de Abril de 2017

Nos últimos goles e garfadas, alguns momentos interessantes na enogastronomia. Em Uberlândia, destacada cidade de Minas Gerais, o restaurante Akkar com ênfase em pratos de acento árabe, propõe esfirras originais tendendo para uma espécie de pizza. A foto abaixo, elucida melhor o fato.

a chamada esfirra / pizza

estilos e texturas diferentes

O branco da esquerda, Roero Arneis, é uma das mais tradicionais denominações do Piemonte. Arneis a uva, Roero o terroir, região a norte de Alba, do outro lado do rio Tanaro que corta as principais denominações. O detalhe deste vinho é seu produtor Bruno Giacosa, um dos pilares da viticultura piemontesa. Vinho de muito frescor, elegância, fruta exóticas e toques florais bastante harmônicos. Embora sem passagem por madeira, mostra certa textura e maciez. Bela pedida com a esfirra margherita, foto acima à esquerda. O manjericão, os tomates, dão leveza ao prato, bem de acordo com o caráter do vinho.

Já o segundo branco, é uma proposta diferente da bodega chilena Undurraga no Vale Limari, bem ao norte de Santiago, aproximadamente 400 quilômetros. A linha T.H. (Terroir Hunter) propõe vinhedos e solos específicos ligados a determinadas uvas no mais puro conceito de terroir. Neste caso, o vinhedo com destacado calcário no solo, se beneficia das brisas frias advindas do Pacifico, devido à sua proximidade. O vinho passa parcialmente por barricas, num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras). A fruta é bem balanceada com a madeira, apresentando textura interessante, com certa untuosidade, sem perder o frescor. Vai bem com a esfirra da direita (foto acima), onde o frango e palmito cremosos pedem mais textura no vinho. O frescor do palmito fica na medida para a acidez do vinho.

costela de chão

fogo de chão

Mudando a conversa, agora numa festança (casamente de minha filha), costela de boi assada lentamente em fogo de chão. Prato de muito sabor, textura, e gordura condizente com a carne. Os tintos mais robustos, um tanto rústicos conversam bem aqui.

Carignan em ação

O tinto da esquerdo é o segundo vinho da bodega Cims de Porrera, uma das lendas da denominação de origem Priorato, região montanhosa ao sul da Catalunha. Neste blend, temos 70% Cariñena e 30% Garnacha. Apesar de seus quase dez anos de idade, o vinho mostra-se com muito vigor, potente, taninos muito bem delineados, e grande persistência aromática. Agradavelmente quente, é um tinto típico de inverno. Seus aromas concentram fruta, toques minerais e defumados. Muito elegante para castas naturalmente rústicas. Passa cerca de 14 meses em barricas francesas de segundo uso, as quais integram-se perfeitamente na essência do vinho.

No vinho da direita, outra bela expressão de Carignan, no caso italiano, Carignano. Um vinho diferenciado da melhor vinícola da Sardenha em termos de tinto, Santadi, haja vista seu topo de gama, o aclamado Terre Brune, Carignano de parreiras muito antigas. Neste caso, as videiras não são tão antigas, mas o vinho mostra muita personalidade com a típica rusticidade italiana, envolvida num vinho de presença e muito bem balanceado. Sob a denominação Carignano del Sulcis, este tinto passa entre 10 e 12 meses em barricas francesas de segundo uso. Novamente, muito bem balanceado entre fruta e madeira, seus toques defumados, balsâmicos e de ervas secas, resultam num vinho extremamente gastronômico, moldado para pratos substanciosos como rabada, carnes de longo cozimento com molhos bem temperados.

corrientes carmenere e rioja

tintos para churrasco

Para finalizar, dois belos tintos para acompanhar carnes bem grelhadas, evento na casa de carnes Corrientes 348. O Carmenère Winemaker´s Lot é um dos belos Carmenères elaborados pela gigante chilena Concha Y Toro. Seu frescor e taninos potentes são muito bem rechaçados pela suculência de um bife de chorizo devidamente grelhado ao ponto. A fibrosidade deste tipo de carne é um dos melhores contrapontos aos taninos mais presentes. Em contrapartida, o elegante Rioja da direita, Luis Cañas, baseado na casta Tempranillo, apresenta a acidez e frescor necessários para driblar a gordura entremeada de um belo ojo de bife (parte nobre do bife ancho). A delicadeza da carne casa muito bem com os Riojas da sub-região Alavesa, destacada pela elegância de seus Tempranillos. A madeira no caso dos dois vinhos acima é bem proporcionada com a estrutura de seus respectivos vinhos.

Vegetarianos ou ainda mais complicado, veganos, fica para uma próxima. Abraços,

Harmonização: Vitello Tonnato

26 de Janeiro de 2011

Mais uma boa opção no verão para aqueles que não dispensam carne, e fazem questão que não seja crua (carpaccio). É um prato típico do Piemonte, tradicionalmente servido como entrada e de fácil execução.

A harmonização com vinhos está muito mais ligada ao molho do que propriamente à carne, já que seu sabor é relativamente neutro, sobretudo se for de vitela. A carne (lagarto ou girello em italiano) é levemente marinada com algumas ervas, legumes e especiarias, e depois cozida lentamente em água com um pouco de vinho branco. Fica com o aspecto de nossa carne louca sem os temperos.

Entrada clássica do Piemonte

Já o molho é que vai dar sabor ao prato. Basicamente, é uma maionese incorporada com atum sólido, um pouco de alici e alcaparras. Com esses ingredientes e lembrando que a maionese tem como base ovos e óleo, os brancos são o caminho natural. A carne fria reforça ainda mais esta tese.

O vinho precisa ter certa textura, boa acidez sem exageros, e presença aromática de fruta, própria de brancos jovens. As escolhas locais ficam entre duas DOCG importantes de vinho branco, Roero Arneis (Arneis é uma uva autóctone) e Gavi (outra uva autóctone chamada Cortese). É evidente que um Chardonnay moderno e fresco, sem presença de madeira, pode harmonizar com sucesso. Entretanto, um leve toque de madeira, não chega a comprometer o conjunto. Um Sauvignon Blanc do Novo Mundo, de boa textura e com a força da juventude é outro opção segura.

Se você não abre mão de um vinho tinto, tente um  típico Dolcetto, com muita fruta e baixa tanicidade. Um Valpolicella ou um Chianti Colli Senesi são alternativas interessantes. O importante é a acidez do vinho estar presente, na qual os italianos são mestres.

Em resumo, tanto brancos como tintos, devem ser jovens, frescos e relativamente simples. Sempre temos que ter em mente, que trata-se de uma entrada. Os pratos de fundo sim, precisarão naturalmente de vinhos mais complexos e estruturados. Mesmo que não tenhamos outros pratos na sequência por ser verão, e optarmos por uma refeição mais leve, a lógica deve ser mantida. Afinal, todos esses vinhos sugeridos são a cara desta estação ensolarada.