(publicado originalmente em outubro de 2017 na última visita ao domaine)
A vida do Domaine Roulot sofreu uma reviravolta em 1982, quando Guy Roulot morreu precocentemente aos 53 anos de idade. Jean Marc, seu filho e o natural herdeiro, queria ser ator e tinha deixado Meursault e partido para Paris para estudar no Le Conservatoire. Naquele mesmo ano, quando seu pai estava de cama, ele tinha participado da colheita, mas, com a morte do seu pai, a família decidiu nomear Ted Lemon como o diretor do Domaine. Duas safras depois, Franck Gux, primo de Jean Marc, assumiu os vinhedos até que, em 1989, Jean Marc Roulot decidiu deixar a atuação de lado e resolveu voltar à origem. Queria provar que sabia fazer vinhos.
As mudanças foram feitas aos poucos. O tempo de afinamento nas barricas subiu de 11 meses para 18 meses, incluindo-se aí o Bourgogne branco, feito com vinhedos atrás do Domaine, um vinho de jardim. A biodinâmica foi sendo adotada aos poucos. O percentual de madeira foi sendo ajustado para cada vinho; grosso modo, o Bourgogne branco recebe cerca de 10%, os villages, 15% a 20%, os premiers crus 25% a 30%. Batônnage pode ser feita, mas depende de julgamento, não é ciência.
O Domaine expandiu seu portfólio no fim dos anos 2000, quando o Domaine Seguin Manoel foi vendido para investidores americanos, que financiaram a aquisição para Roulot e Lafon, que dividiram parcelas. Foi assim que Jean Marc oferece há cinco anos o Clos de Bouchères, o Meursault village, o R, um premier cru com assemblage de vinhedos da região, e ainda abriu um braço negociante com dois grands crus: o Corton e o Chevalier-Montrachet. Desses dois pouco se vê no mercado, já que boa parte das garrafas é dos investidores que financiaram a aquisição. “Não sei o que fazem com seus vinhos”, brinca Roulot, que diz receber dezenas de novas ofertas de expansão do Domaine. “Mas é preciso crescer com inteligência.”
O Bourgogne é um Bourgogne de jardim, um vinho que bate grande parte dos Meursaults existentes, com uma grande capacidade de envelhecimento e uma elegância rara. Um cartão de visita de gente grande. Vem de 4 hectares. Clos de Bouchères é um monopole de 1,37 hectares que chegou às mãos de Jean Marc há pouco tempo, mas já se mostra como um dos melhores terroirs dessa cidadela que não tem grands crus na legislação, por um capricho da complexa legislação francesa e bourguignonne. Esse 2019 é uma criança de berço, mineral, com uma leve especiaria e a complexidade que exige o melhor da culinária.
No livro de @khiemle com perfis de alguns dos melhores domaines da Borgonha, Jean Marc é questionado sobre a arte de harmonizar comida e vinho. Refere-se a um episódio com o mítico Alain Senderens, que por anos manteve uma mesa estrelada quase de frente à Igreja de Madeleine, onde anos antes Steven Spurrier fez história. Na metade dos anos 1990, Jean Marc foi convidado por Senderens para testar algumas harmonizações com a lagosta à baunilha, um dos pratos que trouxeram fama ao chef, considerado na França como o mestre da enogastronomia por longos anos. “Eu fiquei estupefacto porque ele conseguiu ter êxito em fazer transcender o Meursault 1984, que bebido sozinho, não era grandioso.”
Os últimos anos têm trazido vários desafios climáticos. Além dos baixos rendimentos, o Domaine teve de tomar a difícil decisão de tirar as videiras de Tillets em 2015, que tinham sido plantadas em 1970, por constatar que elas estavam cansadas e mais aptas a sofrerem com o clima. O replantio tem sido feito aos poucos, o que fará com que o vinho só seja produzido na próxima década. “Essa é uma das decisões mais dolorosas que um produtor tem de tomar, mas é preciso pensar no longo prazo”, diz.
Roulot também busca se dedicar à atuação e ao cinema, do qual participou de dois filmes recentes, “Diplomacia”, sobre a tentativa fracassada de um general alemão de explodir Paris nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, e “Ce qui nous Lie”, uma história de uma família bourguignone de Meursault que perde o pai viticultor e começa a discutir se mantém a tradição e continua vinificando ou vende a propriedade de olho na oferta astronômica. A história condiz bem com o futuro da Bourgogne.
Pouco mais de 25 anos depois de ter assumido o comando do Domaine, Jean Marc Roulot provou que sabe fazer vinho. Mais: está entre os melhores produtores de vinhos brancos do planeta. Torturado fosse a nomear cinco produtores da Bourgogne, ele estaria na minha lista. Todos seus vinhos são brilhantes, do Bourgogne branco, que vale por um Meursault, ao Perrières, um grand cru em tudo, menos no rótulo. Se um dia vir uma garrafa, com mais idade no restaurante, não hesite: abra a carteira. Roulot faz vinhos de emoção. Não à toa Frédéric Mugnier, quando decidiu fazer um vinho branco, foi conversar com Jean Marc. “Faz tempo que não o vejo”, diz Roulot. Os amantes da sétima arte e de Baco torcem para que Roulot continue atuando e vinificando.























uma das joias do Domaine Huet


