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Vale do Rhône: Parte IV

14 de Maio de 2012

Finalizando o chamado Rhône do Norte, vamos falar das demais apelações, além das já mencionadas Côte-Rôtie e Hermitage. Podemos começar por duas alternativas ao grande Hermitage: Crozes-Hermitage e Cornas.

Crozes-Hermitage

As uvas permitidas são as mesmas do Hermitage, tanto para tintos, como para brancos. Contudo, as diferenças de solo, altitude e exposição do terreno, podem ser quase abissais. É só comparar os 130 hectares de Hermitage contra 1500 hectares de Crozes-Hermitage que cercam os vinhedos de Hermitage. Mais uma vez, o produtor é fundamental. Alguns nomes certeiros: Alain Graillot da importadora Mistral em primeiro lugar. Chapoutier da mesma importadora, e Yann Chave da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br) são escolhas confiáveis.

Cornas

No sul do Rhône Setentrional, logo abaixo da apelação Saint-Joseph, encontramos um terroir diferenciado, num amplo anfiteatro de excelente exposição solar e totalmente protegido dos ventos. Não é à toa que Cornas significa “terra queimada”. Elaborado exclusivamente con Syrah, esta apelação de 130 hectares  é considerada maldosamente como “Hermitage dos pobres”. Tem lá uma certa rusticidade, mas é um tinto musculoso, longevo e impactante, por um preço bem mais acessível que seu primo rico.

Produtores como Domaine Clape da importadora Mistral, é o primeiro nome da lista. Jaboulet também da Mistral e Colombo da importadora Decanter (www.decanter.com.br) são belas referências.

Rhône Setentrional

Saint-Joseph

No mapa acima, percebemos uma vasta área referente à apelação Saint-Joseph. Esta seria a resposta a um Côte-Rôtie mais acessível, também baseada na uva Syrah, embora seja permitida a adição em até 10% das brancas Marsanne ou Roussanne. O grande problema é que esta área foi aumentada em demasia, perdendo muitas vezes, o verdadeiro conceito de terroir, com vinhos diluídos e descaracterizados. Para se ter uma idéia, a área original em torno de Mauves e Tournon não passava de 100 hectares. Atualmente, temos pouco mais de 1200 hectares. Portanto, a escolha do produtor e consequentemente os melhores locais, é fundamental para o sucesso da compra. Aqui no Brasil, fique com os produtores Chapoutier e Jaboulet, ambos da Mistral (www.mistral.com.br). Os brancos desta apelação, embora mais raros, costumam ser gratas surpresas.

Condrieu

Uma apelação exclusivamente de branco elaborada com a perfumada e exótica uva Viognier. Nos anos 60 esta apelação beirou a extinção com apenas 12 hectares. Nas últimas décadas, houve um renascimento da casta, contando atualmente com algo perto de 170 hectares.

Reparem que no mapa acima, ao norte, a apelação confunde-se com Côte-Rôtie e ao sul, observamos trechos descontínuos na apelação Saint-Joseph. Os locais mais frescos e com forte presença de mica no solo xistoso é fator determinante para o bom cultivo da Viognier, casta que exige além de tudo, baixos rendimentos. Dentro da apelação, existe um terroir diferenciado chamado Château-Grillet. Propriedade de apenas 3,8 hectares com apelação de origem exclusiva, mostrando um Viognier diferenciado, além de amadurecido em carvalho. Para a apelação Condrieu, produtores como Guigal, Jaboulet, Delas e Vernay, são referências da apelação. Domaine Georges Vernay e Delas Frèresm são encontrados na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br), enquanto Guigal é trazido pela Expand (www.expand.com.br) e Jaboulet pela Mistral (www.mistral.com.br).

Vale do Rhône: Parte III

10 de Maio de 2012

Nesta terceira parte, falaremos do imponente Hermitage. Um vinho poderoso, de grande estrutura e apto a longo envelhecimento. Outrora, reforçou os vinhos bordaleses, chamados de Clarets, fornecendo mais força e vigor. É um dos mais antigos vinhos franceses, mencionado na antiga Roma por Plinio, o Velho.

A majestosa montanha de Hermitage ao longo do Rhône

Passando pelas encostas da Côte-Rôtie, o rio Rhône segue seu curso na direção sul percorrendo aproximadamente 50 quilômetros. Neste ponto, o rio muda de direção a leste, formando um pequeno braço, antes de retornar seu caminho ao sul. Exatamente neste braço (vide foto acima), está a espetacular montanha de Hermitage, com vinhedos escarpados, voltados para a direção sul e protegidos dos fortes ventos. Na verdade, é um grupo de vinhedos contíguos, cada qual com suas pecualiaridades de solo e altitude. Nomes como Le Méal, Les Bessards, Les Gréffieux, às vezes são vinificados e engarrafados separadamente. Contudo, os grandes Hermitages são mesclas dos vários vinhedos onde a somatória das características individuais, enriquece o conjunto. Neste raciocínio, os maiores nomes da apelação ficam por conta de Jean Louis Chave e Paul Jaboulet Aîné com seu espetacular La Chapelle. Estes produtores detêm parcelas num maior número de vinhedos, gerando vinhos mais estruturados e complexos. São importados pela Mistral (www.mistral.com.br). Delas Frères da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e Marc Sorrel da importadora Premium (www.premiumwines.com.br) são também belas referências.

Chave: Grandes vinhos em grandes safras

Hermitage

Apelação com pouco mais de 130 hectares em sub-solo granítico e solos variados de xisto, pedras e micaxisto, conforme terroirs específicos, já mencionados acima.

Os tintos são elaborados com Syrah e eventualmente até 15% de Roussanne e Marsanne, brancas locais. Essas mesmas uvas brancas compoêm o Hermitage branco, que pode ser surpreendente. Muitas vezes um vinho meio sem graça na juventude, mas que pode evoluir de forma magnífica por longos anos.

Os rendimentos destes vinhos são bastante baixos, não passando dos 30 hectolitros por hectare. Os Côtie-Rôtie também obedecem este preceito.

Não tenha pressa em abrí-los. Um grande Hermitage pode evoluir por décadas. O La Chapelle 1961 está na caixa do século da Wine Spectator como um dos maiores vinhos de todos os tempos.

Vale do Rhône: Parte II

7 de Maio de 2012

Nesta segunda parte, vamos começar detalhar o chamado Rhône do Norte com duas apelações fantásticas: Côte-Rôtie e Hermitage. Outras serão mencionadas e comentadas, mas nada se compara a estes dois grandes vinhos baseados na casta Syrah.

As dramáticas encostas da Côte-Rôtie

Quando o rio Rhône caminha em território francês na direção norte sul passando pela cidade de Vienne, temos a oeste uma série de encostas de origem granítica extremamente íngremes. Aqui começa a famosa apelação Côte-Rôtie. Literalmente, encosta tostada, devido à perfeita incidência solar em relação à inclinação da montanha.

Côte-Rôtie

Apelação de 230 hectares em solos de xisto com base granítica. O relevo acidentado apresenta altitudes entre 180 e 325 metros com declividades muitas vezes acima de 60%. A uva dominante é a Syrah com permissão de no máximo 20% da branca local Viognier. Na prática, ou é 100% Syrah, ou 5 a 10% da exótica branca.

Dois terroirs famosos são denominados Côte de Brune e Côte de Blonde. O primeiro, com um solo argiloso mais escuro devido à presença de óxido de ferro. O segundo, de solo mais claro com presença de calcário e sílica.

São vinhos elegantes, estruturados e longevos. Em comparação com o rival Hermitage, é considerado um vinho feminino pela sutileza de seus aromas e sedosidade em boca.

Eis a trilogia dos cem pontos

Produtores de destaque: Étienne Guigal, sobretudo pelas três pérolas acima: Côte-Rôtie La Turque, La Mouline e La Landonne. Estão seguramente entre os melhores de toda a França e consequentemente, do mundo. Outro grande produtor é  René Rostaing, importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Já o produtor Vidal-Fleury é trazido pela Vinea (www.vinea.com.br).

Crozes-Hermitage: Domaine Graillot

24 de Novembro de 2011

Alguns produtores são referências em determinadas denominações ou apelações, termo utilizado nas leis francesas. É o caso de Alain Graillot para Crozes-Hermitage, famosa apelação do chamado Rhône do Norte, conforme artigos específicos neste blog, intitulados Vale do Rhône.

O mapa acima mostra a apelação Crozes-Hermitage rodeando toda a área da apelação mais nobre denominada Hermitage, localizada em Tain l`Hermitage. As comunas mais ao norte como Gervans, Erôme e Serves, apresentam um clima mais fresco e úmido, além de solos graníticos, propiciando vinhos mais austeros e fechados. Já as comunas ao sul, como La Roche de Glun e Pont de l´Isère, apresentam clima mais seco e presença marcante do vento Mistral. Os solos de origem aluviais (proximidade do rio Rhône) são pedregosos e mais quentes, propiciando vinhos mais abertos e macios. Este é o terroir de nosso vinho em questão.

Recentemente, o seleto grupo Top Ten da Wine Spectator de 2011 consagrou mais uma vez o excelente Alain Graillot Crozes-Hermitage La Guiraude 2009 com 94 pontos em nono lugar. La Guiraude é a seleção das melhores barricas, ficando o restante com o segundo vinho que também é ótimo.

Grande tipicidade e consistência

São 18 hectares de vinhas com idade ao redor de trinta anos destinadas à Crozes-Hermitage, três hectares à versão em branco com as uvas Marsanne e Roussanne, e um hectare e meio para a apelação Saint-Joseph. Os tintos são 100% Syrah em solos aluviais pedregosos sob cultivo orgânico. A vinificação é feita em cubas de cimento com longas macerações de 18 a 20 dias. O amadurecimento dá-se em barricas relativamente novas por um ano, mesclando criteriosamente as diversas idades.

O vinho mostra-se equilibrado, com boa concentração de frutas escuras, traços minerais, defumados e de especiarias. Um Syrah tipicamente do norte do Rhône. É importado pela Mistral na versão básica e também a cuvée La Guiraude (www.mistral.com.br). Convém decantá-lo uma hora antes de ser servido. Pode envelhecer por pelo menos cinco anos em adega.

Nesta década, os tintos do Rhône nas safras ímpares são excelentes, tendo inúmeras premiações em anos como 2001, 2003, 2005, 2007, e 2009.

Harmonização: Trufas e vinhos

15 de Outubro de 2010

 Está se aproximando a época das trufas, e com elas os famosos festivais que ocorrem em outubro e novembro. As mais badaladas e caras são as brancas de Alba (vide foto abaixo), que alcançam preços acima de quatro mil euros o quilo (para este ano podem atingir cinco mil euros). As negras também são muito prestigiadas, tendo em Périgord, no sudoeste francês, seu grande reduto.

O preço, a despeito de seu refinamento e singulares aromas, obedece a lei de oferta e procura, mas principalmente, a dificuldade e estratégias guardadas a sete chaves para encontrá-las. Como não podem ser cultivadas, a caça às trufas são feitas com cães devidamente adestrados e por caçadores com larga experiência no assunto.

Trufa branca de Alba: a mais cobiçada

Os melhores pratos para apreciá-las são relativamente simples, exatamente para realçar seus delicados sabores. Geralmente, elas são raladas em lâminas sobre massas, risotos ou pratos à base de ovos, sendo muitos vezes, o próprio ovo com a gema mole o único ingrediente.

Dois princípios fundamentais devem ser respeitados na escolha dos vinhos a serem harmonizados. O primeiro é quanto à tipologia do prato. Não tem sentido você pagar um fortuna por um prato de trufas e querer economizar no vinho. Portanto, precisa ser um vinho importante e com um bom nível de sofisticação.

O segundo quesito diz respeito aos aromas de evolução do vinho, ou seja, os chamados aromas terciários. Notem, que uma coisa puxa a outra. Só teremos belos aromas terciários em vinhos que podem envelhecer dignamente. Daí, a razão de escolhermos vinhos importantes, que naturalmente apresentam estes predicados.

Quanto ao tipo de vinho, podemos optar por brancos ou tintos, porém sempre evoluídos.  Vai depender muito do gosto pessoal e também do corpo e intensidade do prato. Para os pratos citados acima (ver foto abaixo), especialmente os de ovos, os brancos podem ser surpreendentes. Os grandes borgonhas brancos são os carros chefes desta categoria. Porém, um Pinot Gris da Alsácia, um Chenin Blanc do vale do Loire, ambos de bom pedigree, são belas alternativas.

Quando lidamos com caças, ou carnes de sabor mais acentuado, os tintos entram em ação. Para as aves, os borgonhas e barbarescos parecem imbatíveis. Já para as carnes vermelhas, Barolos, Bordeaux e Syrahs do norte do Rhône, apresentam corpo ideal.

Em resumo, escolha um grande vinho de sua preferência, elegante, refinado e evoluído. As denominações clássicas do chamado Velho Mundo apresentam inúmeras e belíssimas opções. 

Tajarin: massa típica do Piemonte

Quem nunca provou trufas e nem ao menos sentiu seus aromas, torna-se quase indescritível tentar explicá-las. Os aromas são etéreos, lembrando gás de cozinha. Pode parecer estranho, mas são sensacionais. A textura é extremamente delicada pela própria forma de consumo (em lâminas), permanecendo em boca um final longo e refinado. Portanto, não percam tempo com vinhos jovens e potentes. Eles não têm nada a ver com as trufas e certamente aniquilarão essas etéreas sensações.

Para não errar, procurem grandes vinhos com mais de dez anos de safra, ou certifiquem-se que seus aromas estejam devidamente evoluídos.

Manteigas, azeites, patês, e outros produtos tartufados, obedecem os mesmos critérios de harmonização. No entanto, as trufas in natura são incomparáveis e merecem lugar de honra na elite da gastronomia.

Harmonização: Culinária Árabe

28 de Julho de 2010

Líbano: culinária árabe mais delicada

Falar de culinária árabe num sentido mais amplo, englobaria vários países do Oriente Médio, com inúmeras peculiaridades e variações. Nosso foco está mais para o que conhecemos de cozinha árabe no Brasil, como esfihas, quibes, kafta, homus, tabule, entre outros pratos, com ênfase na culinária sírio-libanesa.

A cozinha de um modo geral é delicada, inclusive as especiarias, notadamente a pimenta síria. Ingredientes como iogurte, cebola e limão devem ser considerados, principalmente quando temos a autonomia de dosá-los em nossos pratos.

De um modo geral, brancos de boa acidez e relativamente frutados, sem passagem por madeira, são os ideais, principalmente com as saladas como o tabule, por exemplo. Evite vinhos extremamente frutados e encorpados. Eles podem ser um tanto dominadores. Chardonnays sem madeira, Sauvignons frescos e jovens do Chile e África do Sul, são mais aconselháveis.

Os pratos leves de carne, como quibes, esfihas e kaftas vão bem com tintos frescos e de boa fruta. É importante calibrar adequadamente o corpo do vinho para não sobrepujar os pratos. Tintos do Loire à base de Cabernet Franc são os mais indicados, sob as apelações Bourgueil e Chinon, já abordadas em posts passados. Pinot Noir também do Loire ou Beaujolais (uva Gamay) de boa procedência são as opções imediatas. Receio que vinhos do Novo Mundo, mesmo jovens e sem passagem por madeira, possam ser um pouco dominadores, tirando o brilho da harmonização.

Pratos quentes à base de frango e principalmente o carneiro, podem prescindir de tintos mais estruturados, sem estes jamais perderem a elegância e sutileza. Syrah do Rhône do Norte sob as apelações Crozes-Hermitage e Saint-Joseph parecem ter frescor, estrutura e elegância na medida certa. As opções do sul do Rhône, embora tenham ressonância aromática, muitas vezes carecem de frescor. O mesmo ocorre com os tintos da Provence, exceto os rosés, que podem surpreender favoravelmente, desde o início da refeição.

Do lado italiano, Dolcettos, Barberas e Chiantis, todos simples e frescos são benvindos. Tempranillos espanhóis no estilo joven (quase ou totalmente sem passagem por madeira) são opções a considerar.

Os tintos libaneses disponíveis no Brasil como Chateau Musar e Chateau Kefraya podem apresentar a crônica falta de frescor. Para pratos mais estruturados como o carneiro podem surpreender, sobretudo se calibrarmos bem a temperatura de serviço. 

Homus: uma entrada aparentemente inocente

O gosto apesar de não muito intenso, apresenta uma textura pastosa, com um final levemente adstringente e pouco habitual em outras pastas. Além disso, existem o limão e o gergelim presentes na receita. O famoso branco grego Retsina (que muitos torcem o nariz) e o Tokay na versão seca (Szamorodni quase sempre se enquadra nesta versão) são combinações perfeitas. Eles têm acidez, personalidade e afinidade de sabores para o prato. Um Sémillon australiano do Hunter Valley é uma saída original do Novo Mundo. Este mesmo Sémillon, com uns bons anos em garrafa, adquire um toque defumado que ficará perfeito com outra especialidade sírio-libanesa, o babaganuche (pasta de beringela assada).