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Sardegna: Produção de Vinho 2011/2012

17 de Outubro de 2013

Já comentamos algumas vezes neste blog  a evolução das regiões sulinas na Itália em termos de qualidade de vinho. Outrora, eram regiões de grande produção, mas de vinhos toscos, mal elaborados, para satisfazer um mercado ávido por quantidade e baixo preço. Isso tem mudado substancialmente ao longo do tempo com mais cuidado tanto no campo, como na cantina. Os chamados Vino da Távola estão dando lugar os IGTs (Indicazione Geografica Tipica) e aos DOCs (Denominazione di Origine Controllata), conforme mapa abaixo:

A qualidade aumentando em números

Atualmente, a Sardenha conta com uma produção de 673 mil hectolitros em 2012, a qual já chegou perto de um milhão de hectolitros em outros tempos. Tendo em vista os vinhos de Denominação de Origem (DOCG e DOC), o quadro abaixo atualiza os números de denominações de toda a Itália até janeiro de 2013. Estamos cansados de saber que sempre existem  novas denominações a serem publicadas, mas ainda no forno.

DOCG-DOC-IGT-2013Quadro atualizado (janeiro/2013)

Voltando á Sardenha, o quadro abaixo mostra as principais denominações de origem em produção. Algumas muito tradicionais, outras nem tanto. Veremos em seguida, detalhes dessas denominações importantes da ilha.

Brancos e tintos com muito equilíbrio na produção

Principais denominações da ilha

Vermentino di Sardegna

A denominação de origem mais produtiva da ilha elaborada com a uva branca Vermentino nas versão seco, amabile, frizzante e spumante. Vinho fresco, frutado, delicado, com ligeiro final de boca amendoado. Pode ser elaborado em toda a ilha. Comumente, é elaborado na versão seco, mas podemos ter as versões rosado, passito e licoroso (uma espécie de Porto local).

Cannonau di Sardegna

É o tinto mais conhecido na ilha e pode ser elaborado em toda a parte da mesma. A uva Cannonau é a mesma uva internacional conhecida como Grenache ou Garnacha (mínimo de 85% no corte, de acordo com a legislação vigente). A menção ¨Classico¨ no rótulo implica em pelo menos 90% de Cannonau no corte. É um vinho de bom corpo, quente, frutado, macio, como todo bom Grenache.

Vermentino di Gallura

Este vinho branco elaborado com a uva homônima é o único da ilha a ter a menção DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita). É elaborado nas versões seco, amabile, frizzante, spumante, passito e Vendemmia Tardiva. Pode eventualmente ter alguma passagem por madeira. A versão passito implica num grau de maturação da uva superior à versão Vendemmia Tardiva. Sua produção concentra-se no extremo nordeste da ilha.

Alghero

Denominação ampla para brancos e tintos nas mais diversas versões. A região de produção concentra-se na província de Sassari, ao norte da ilha. As uvas são as mais diversas possíveis com alguns exemplares varietais, além dos cortes. Só para citar algumas, temos Pinot Grigio, Moscato, Malvasia, Garganega, Pinot Bianco, Primitivo, Pinot Nero, Montepulciano, Marzemino, entre outras. Nesta imensidão de uvas temos as versões seco, frizzante, spumante, passito, licoroso, e outras mais específicas. Neste tipo de denominação de muitas variações, a escolha de produtores de destaque é fundamental.

Carignano del Sulcis

Uma denominação relativamente recente, mas de muito respeito. A versão seco é a mais respeitada, embora haja o rosato e o passito. Deve conter pelo menos 85% de Carignano ou Grenache no corte. Sua zona de produção encontra-se no sul da ilha. É um tinto encorpado, aveludado e apto ao envelhecimento. Produtores como Santadi e seu vinho Terre Brune, além do belo Barrua (em parceria com os donos do Sassicaia, Toscana), são vinhos ícones desta denominação. Ver foto acima.

Principais Uvas Européias

15 de Abril de 2013

Estudos recentes mostram o panorama atual do vinhedo europeu, destacando-se os principais países como Espanha, França e Itália. O quadro abaixo mostra as principais uvas plantadas em milhares de hectares. 

Uvas espanholas no topo da lista

Para quem já sabia, a uva branca espanhola Airén reina absoluta no vinhedo espanhol, sobretudo nas regiões de La Mancha e Valdepeñas. Embora com produção bem mais modesta que de outros tempos, ainda se presta para vinhos baratos,  para misturas com outras castas, e também para destilação na elaboração de Brandies, inclusive no famoso Brandy de Jerez. Esta uva sozinha apresenta o dobro de área plantada de toda a Alemanha.

Outra espanhola no topo da lista é a onipresente Tempranillo. Com vários sinônimos por toda a Espanha, ganhou fama e prestígio sobretudo nas regiões de Rioja e Ribera del Duero. Nos últimos tempos, ganhou força nas regiões de La Mancha e Castilla y Léon.

A Merlot continua sendo a grande tinta francesa, inclusive na região de Bordeaux, embora a Cabernet Sauvginon tenha sua força. Aliás, estas duas castas bordalesas ganham prestígio na Itália, principalmente na região da Toscana com os famosos e badalados supertoscanos.

A Grenache ou Garnacha divide sua fama entre Espanha e França. Belos exemplares espanhóis são elaborados com vinhas velhas, enquanto do lado francês, o Rhône Sul e Languedoc respondem por sua expansão.

A insípida Trebbiano ou Ugni Blanc vem caindo cada vez mais em território italiano. Do lado francês, o firme cultivo está baseado no grande destilado do país, o todo poderoso Cognac.

Dentre as tintas italianas, a Sangiovese continua absoluta não só na Toscana, bem como em toda a Itália Central. Emilia-Romagna e Marche principalmente, são regiões de grande cultivo.

Pinot Noir e Gamay fecham a lista em disputa acirrada não só na Borgonha, berço das duas cepas, como em várias apelações no vale do Loire.

Este prato é o Massimo!

1 de Abril de 2013

Não é erro de grafia não. O restaurante Massimo foi um dos ícones da gastronomia paulistana, sobretudo nos anos oitenta. É uma homenagem também a Saul Galvão, recentemente falecido, que adorava este restaurante.

Massimo

Livro Prazeres da Mesa (Saul Galvão)

Este prato envolve vários ingredientes, tais como: Brócolis, tomates em molho e em tiras, azeitonas, parmesão, manjericão e os famosos polpetini (espécie de almôndegas bem pequenas, do tamanho de um brigadeiro de festa). Para as almôndegas, cada um tem sua receita, mas é bom incorporar farinha de rosca para dar liga. Na mesma panela após a fritura das mesmas, adicionar alho, as tiras de tomate, o molho de tomate (vejam na foto, que a massa não fica nadando no molho). Em seguida, adicionar a massa al dente, as flores de brócolis cozidas (os cabinhos mais tenros do vegetal), o manjericão, as azeitonas partidas ao meio e o parmesão ralado. Acertar o sal e servir.

O parmesão, as azeitonas e o tomate, preferencialmente, pedem um vinho italiano. Baseado em algumas ofertas da importadora Vinci (www.vinci.com.br), seguem duas indicações não muito conhecidas do grande público para este prato: um Rosso di Montepulciano da cantina Dei, uma das referências para esta denominação de origem; e um Cannonau di Sardegna, denominação famosa da ilha homônima, da reputada vinícola Argiolas.

O primeiro é um tinto toscano elaborado em Montepulciano fundamentalmente com a uva Sangiovese, acrescida por pequenas parcelas de Canaiolo e Merlot. Breve passagem por madeira de grandes dimensões, antes do engarrafamento. Corpo e acidez adequados ao prato.

Para quem gosta de um vinho mais macio, a segunda opção é bastante convidativa. Este tinto sardo é elaborado com Grenache ou Garnacha (conhecida localmente como Cannonau) e pitadas de Carignano e Bovale. A passagem por madeira é um pouco mais intensa, mas sempre no sentido da micro-oxigenação. 

As duas safras disponíveis na importadora são do ano 2009, mantendo o lado frutado e um bom frescor.

Harmonização: Filé à Monegasca

21 de Novembro de 2011

Muitos que estão lendo este artigo nem havia nascido quando o prato da figura abaixo fazia sucesso no saudoso Danton, um dos clássicos restaurantes franceses da década de 80, citado em outro clássico da gastronomia paulistana, o livro “Os Prazeres da Mesa” do carismático Saul Galvão, falecido há dois anos.

Homenagem a Saul Galvão

Este prato refere-se a um medalhão de filé mignon preparado à moda de Mônaco, o famoso principado. Ele tem um caráter provençal e portanto, bastante aromático.

O molho consiste em derreter um pouco de manteiga com azeite na frigideira (se quiser, pode ser só azeite), juntar alho picado, berinjela em rodelas, salsão picado, louro e tomilho. Refogar um pouco e depois flambar com brandy de boa qualidade. Em seguida, juntar o caldo de carne, um pouco de vinho branco e temperar com noz moscada, refogando um pouco mais. Por fim, retirar a folha de louro, juntar tomates picados e ajustar o sal,  fazendo uma última redução.

A montagem do prato começa com as rodelas de berinjelas, os filés grelhados e o molho já reduzido. Como guarnição, batatas cozidas ou as de sua preferência, conforme foto acima.

Como harmonização, proponho um belo Châteauneuf-du-Pape ou um Bandol. O primeiro é o mais emblemático tinto do Rhône Meridional e o segundo, um dos melhores tintos provençais. O prato rico em ervas e especiarias (tomilho, noz moscada, louro, salsão) encontra eco nestes vinhos. Corpo e estrutura tânica são adequados ao prato, além da madeira nunca ser excessiva. Esta aliás, é o grande problema da maioria dos vinhos do Novo Mundo.

Tintos do sul da Itália podem dar certo, especialmente Taurasi da Campania ou Cannonau da Sardenha. Um bom Garnacha de parreiras antigas como o espanhol Atteca Old Vines 2009 da Mistral (www.mistral.com.br),  ou um bom português do Alentejo são belas opções.

Sugestões

Terroir: Rioja DOCa

8 de Agosto de 2011

Rioja é sinônimo dos mais emblemáticos vinhos da Espanha. Possui a mais alta classificação nas leis espanholas como Denominación de Origen Calificada (DOCa) ou em catalão DOQ (Denominació d´Origen Qualificada) . Os tintos são famosos, mas os brancos podem ser surpreendentes. As designações Crianza, Reserva e Gran Reserva são comumente mencionadas em seus rótulos.
Localizada na porção centro-nordeste da Espanha, goza de um clima de transição (entre o Atlântico e o Mediterrâneo), com solos diferenciados em três sub-regiões, conforme mapa abaixo:

Rioja Alta e Alavesa são as porções mais nobres

Conforme foto abaixo, observamos o solo mais claro, rico em calcário, na sub-região de Rioja Alavesa, protegida ao fundo pela cadeia de montanhas da Serra Cantabria. No mapa acima, vemos que Rioja Alavesa está localizada na margem norte do rio Ebro num solo argilo-calcário, muito propício ao cultivo da cepa Tempranillo, gerando vinhos elegantes e de boa acidez. Já em Rioja Alta, as variações de solo são constantes, apresentando muitos locais de solo aluvial, ora com presença maior de calcário, ora com presença marcante de argila rica em ferro, gerando Tempranillos mais austeros e taninos mais marcados. Por último, na sub-região de Rioja Baja (baixa), predomina os solos de argila ferruginosa, porém  em altitudes mais baixas e clima mais quente. Nessas condições, a cepa Garnacha consegue seu amadurecimento ideal, gerando vinhos macios, de bom teor alcoólico, embora sem grande complexidade. Mesclada devidamente aos lotes de Tempranillo, pode-se encontrar o equilíbrio ideal dos grandes Riojas. Além da Garnacha, existem outras tintas como Mazuelo (Carignan na França) e Graciano, em pequenas porcentagens. Contudo, o cultivo da Tempranillo nas três sub-regiões é marcante, respondendo por 85% ( pouco mais de 50.000 hectares) do cultivo entre as uvas tintas.

Nas uvas brancas, o predomínio da Viura (Macabeo na Catalunha) é amplo com mais de 90% (cerca de 3.700 hectares), complementado pelas uvas Malvasia e Garnacha Blanca, entre outras.

Rioja Alavesa com Sierra Cantrabia ao fundo

Os vinhos de Rioja normalmente passam em barricas, mas existe também a categoria joven ou sin crianza, que conserva os aromas primários, muitas vezes sem nenhum contato com a madeira. A maciça maioria é de tintos, respondendo por cerca de 90% da produção, ficando o restante entre brancos e rosados (dados de 2010).

Cosecha

É a designação para os vinhos chamados de joven ou sin crianza. Devem ser lançados no primeiro ou segundo ano e respondem por mais de 40% da produção, incluindo praticamente todos os brancos e rosados.

Crianza

Esta é a primeira categoria de amadurecimento com passagem por madeira e garrafa. É necessário a passagem por barrica por no mínimo 12 meses, sendo o restante em garrafa. O vinho só pode ser lançado no mercado a partir do terceiro ano. Para os brancos, o tempo mínimo é de seis meses em barricas. Quase 40% da produção total dos riojas é representada pela categoria Crianza.

Reserva

Praticamente a mesma exigência mínima da categoria crianza, só que deve ser completado inteiramente o terceiro ano. Na prática, fica um pouco mais de tempo tanto em barrica, quanto em garrafa. Os brancos só são liberados a partir de dois anos, sendo pelo menos seis meses em barrica.

Esta categoria responde por pouco mais de 15% de toda a produção da denominação Rioja.

Gran Reserva

Devem permanecer pelo menos dois anos em barricas e mais três anos em garrafa. Para os brancos, o tempo mínimo de barrica continua sendo seis meses, porém só podem ser lançados a partir do quarto ano, já devidamente amadurecidos em garrafa. Apenas cerca de 2% de toda a produção de Rioja respondem por esta categoria.

Para as categorias Crianza, Reserva e Gran Reserva são utilizadas mais de um milhão e duzentas mil barricas de 225 litros no amadurecimento de seus vinhos. É importante salientar que as características especiais de cada lote de vinho são fundamentais para dar origem a uma determinada categoria, ou seja, um Gran Reserva não é um crianza que passou mais tempo em barrica e garrafa. De fato, as exigências de tempo mínimas em cada categoria visa promover o amadurecimento adequado, de acordo com o extrato e estrutura de cada lote de vinho.

Os dados estatísticos deste artigo referem-se ao ano de 2010 e foram extraídos do site oficial www.riojawine.com . As demais informações são baseadas neste mesmo site.

Terroir: Priorato

1 de Agosto de 2011

Priorato ou Priorat (em catalão) compartilha com Rioja a classificação máxima nas atuais leis espanholas, como Denominación de Origen Calificada (DOCa). Situada na porção nordeste da Espanha, sub-região da Catalunha, dentro da província de Tarragona. Abaixo, mapa dos principais municípios que formam o Priorato.

11 municípios formando a famosa denominação

Esta região foi inspiração para outra denominação espanhola chamada Bierzo, apresentada em artigos anteriores enfatizando a uva local Mencía. De fato, há muitas características em comum, tais como: solos ricos em pizarras (espécie de argila laminar), orografia acidentada e revitalização de vinhedos antigos com cepas autóctones. Pizarra ou llicorella em catalão, são solos pedregosos de origem metamórfica, ou seja, modificação de argilas ricas em mica e quartzo por ação de temperatura e pressão ao longo das eras geológicas.

Voltando ao Priorato, na década de oitenta do século passado, houve uma recuperação dos vinhedos plantados com antigas cepas de Garnacha (Grenache) e Cariñena (Carignan), motivada por enólogos famosos (sobretudo, René Barbier e Álvaro Palacios) que perceberam o potencial da região. Com rendimentos muito baixos e uma bela concentração nos mostos gerados a partir de videiras antigas, foi possível elaborar vinhos musculosos e com incrível mineralidade, advinda deste solo particular. São vinhos potentes, calorosos e bem apropriados para este nosso período invernal.

Relevo montanhoso: altitude entre 300 e 700 metros

Apesar de existirem pequenas quantidades de vinhos brancos, rosés e até fortificados (generosos), estamos ressaltando os tintos, que efetivamente deram fama à região. Os tradicionais tintos do Priorato são elaborados à base de Garnacha e Cariñena de videiras antigas, em proporções variadas. Podem ser até varietais. Nos Prioratos mais modernos, há uma mescla com castas internacionais (francesas) como Cabernet Sauvginon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Syrah, Ull de Lebre (Tempranillo) e Picapoll Negro, em pequenas proporções, sem uma definição rigorosa.

Solos de pizarras (Llicorella em catalão)

A graduação alcoólica mínima para esses tintos é de 13,5º e o tempo de permanência em barricas é de seis, doze e vinte e quatro meses para as designações crianza, reserva e gran reserva, respectivamente. Para vinhos de tal concentração, o rendimento máximo é de 39 hectolitros por hectare, sendo que na prática, mostra-se bem menor (muitas vezes, abaixo de 20 hl/ha). Os vinhedos de Garnacha e Cariñena respondem por mais de 60% da área de cultivo.

Nas principais importadoras  (Mistral, Vinci, Grand Cru, Decanter) podem ser encontrados belos exemplares. Evidentemente, os vinhos de alta gama dos produtores mais famosos têm seu preço. A produção é muito pequena e os rendimentos são baixíssimos. Pratos à base de carnes vermelhas ou caças com molhos densos e condimentados costumam harmonizar muito bem.

Destaques: Clos Mogador (Mistral), Alvaro Palacios (Mistral), Mas Martinet (Grand Cru) e Roquers de Porrera (Decanter). As respectivas importadoras estão entre parênteses.