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Bordeaux e outros grandes 85 – Parte II

24 de Dezembro de 2016

Continuando a saga dos grandes tintos de 1985, vamos agora aos dois belos flights de Bordeaux, sempre acompanhados de cortes de carne exclusivo do mestre Renzo Garibaldi.

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o grande assador do momento

Tentamos separar os flights entre elegância e potência, além colocar lado a lado vinhos que possam competir em termos de estilo.

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Comunas de elegância

Neste flight houve uma disputa linda entre Haut Brion e Cheval Blanc. Muito bem pontuados nesta safra, um esbanjava mais elegância que o outro. Haut Brion sempre consistente com seus toques terrosos, couro, ervas finas e um tabaco de Vuelta Abajo. Cheval Blanc, uma delicadeza encantadora com seus toques florais, especiarias delicadas, algo de incenso. Enfim, espetacular. Chateau Margaux, o rei de sua comuna, não tem um desempenho espetacular nesta safra, embora estivesse muito elegante, integro, e bem equilibrado. É que sempre esperamos deste ícone, sensações superlativas. O pomo da discórdia de toda a degustação foi o Pomerol deste flight, Chateau L´Eglise Clinet. Parker confere uma das maiores notas da safra a ele com 95 pontos. Particularmente, achei-o destoando do painel. Pode ser problema desta garrafa específica. Apesar de potente, seus aromas e taninos guardavam uma certa rusticidade. Que me perdoem, meus queridos confrades, se alguém discordar desta avaliação. Volta a dizer, é uma impressão pessoal.

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disputas de hierarquia

Neste último flight, tivemos duas duplas rivalizando-se entre si. De um lado, Pichon Lalande e Mouton Rothschild numa briga acirrada. Pichon, com uma lado mais elegante e uma proporção maior de Merlot em seu corte. Mouton, puxa um pouco mais para a potência, tendo mais Cabernet Sauvignon na mistura. Uma questão de gosto, mas o Premier Mouton respeitou muito seu concorrente Deuxième Cru. Do outro lado, uma briga de vizinhança entre comunas. Léoville Las Cases (Saint-Julien) e Latour (Pauillac). Não é fácil ser vizinho de um monstro chamado Latour, mas Léoville brigou bonito sendo nesta safra, até mais potente que seu oponente. Latour estava brando, delicado, mas com seus toques de couro, pelica, e cassis profundo, inconfundíveis. Grande Final!

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taças Riedel Sommelier à mesa

Durante toda a degustação e jantar, tivemos taças Riedel Sommeliers à mesa e dupla decantação de todos os vinhos, ou seja, passar ao decanter e voltar para a garrafa, depois de devidamente lavada, eliminando os sedimentos. Afinal, os vinhos tinham mais de 30 anos, naturalmente com depósito. Além disso, a dupla decantação imediata não permitiu um arejamento em demasia, evitando qualquer risco de aeração exagerada.

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parreiras pré-filoxera

Esta escrito no rótulo, parreiras pré-filoxera. Num pedacinho da Quinta do Noval, existe um solo intocável onde a filoxera não chegou. Portanto, estamos falando de parreiras do século dezenove que produzem muito pouco a cada ano, devido à sua idade avançada. Disto, resulta um néctar fabuloso que se transforma quase num Borgonha, tal a delicadeza e toques florais que permeiam seus aromas e sabores. Magnifico! Imortal!

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Madeiras de outros tempos …

Por falar em imortais, olha eles aí em cima. Madeiras do século XIX encerraram brilhantemente a última degustação do ano, acompanhando Puros do mais alto nível com os Behikes de várias bitolas. Confesso que não deu tempo de provar O Terrantez 1870, tal as preocupações com o serviço e o desenrolar do evento. Confio plenamente que meus confrades se deliciaram com ele e seus aromas etéreos e quase medicinais. Entretanto, namorei bastante o Malvazia 1895. Quel vitalidade! Que equilíbrio! Seu balanço entre acidez, açúcar e álcool era perfeito. As frutas secas, os toques balsâmicos, de incenso, cogumelos, flores secas, e outros tantos indescritíveis eram extasiantes. A persistência aromática, interminável.

Terminável mesmo foi a noite, passando como um vendaval neste desfile de vinhos magníficos e inesquecíveis. Vida longa aos confrades, na certeza de que muito mais dessas virão em 2017. Grande Ano a todos!

Bordeaux 1982

16 de Agosto de 2016

Logo de cara, um painel com oito Bordeaux 82 parece ser um paraíso, além de um porto seguro. Não foi exatamente o que ocorreu, embora como experiência, sempre prazerosa. Para começar, logo dois tintos bouchonée, um Léoville-las-Cases e um Lafleur. Uma pena, pois são dois belos 82. Outra decepção foi o Mouton 82, um pouco oxidado, cansado, longe do esplendor de uma boa garrafa.

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Bordeaux 82: rótulos de respeito

Felizmente, nem tudo é problema. Chega um Cheval Blanc divino, roubando a cena do almoço. Um margem direita delicado, elegante, soberbo, com todas as notas terciarias de um grande Bordeaux. Equilíbrio, taninos ultra finos, numa sinfonia de ervas finas, tabaco, couro, e incenso. Delicioso e talvez no seu melhor momento.

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a nobreza de um grande Cheval

Outro que fez bonito foi o altivo Haut-Brion. Sempre elegante, agradavelmente evoluído, mesclando frutas, ervas, especiarias, notas terrosas e o característico toque animal. Bem próximo do grande Cheval. É um grande parceiro para pratos com trufas.

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sempre espetacular

Fechando o trio do almoço, o consistente, o aristocrático, o imponente, Chateau Latour. Personifica com maestria toda a essência de um Pauillac. O cassis impressionante, as notas de couro e tabaco, e uma estrutura de taninos portentosa. E sempre com a marca Latour, quase atingindo seu apogeu. Extremamente prazeroso de ser tomado, mas com uma guarda ainda de pelo menos mais dez anos. Um monumental margem esquerda.

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o imponente Latour

Um destaque dentre os pratos do Maní é esta leitoa com abóbora num sabor bem brasileiro. Um prato saboroso pelo assado e os toques adocicados do molho, cebolas e abóbora cambotcham. Ficou muito bem com o grande Cheval, o qual tinha acidez para combater a gordura e não necessitava de taninos na harmonização, e sim delicadeza, o que tinha de sobra.

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Maní: leitoa com abóbora

Para encerrar o almoço, nada menos que um Climens 1990, com seus 27 anos de plena juventude. Que equilíbrio! que delicadeza!. É o grande nome de Barsac, moldando um estilo elegante e menos opulento que os demais Sauternes. O poder de fruta, os toques de botrytis e o ponto certo entre açúcar, acidez e álcool. Agradavelmente macio, intenso, e longo, num final lindo com notas de marron-glacê.

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a delicadeza em forma de Botrytis

A sobremesa abaixo do restaurante Maní é uma releitura do quindim. Proporcionou um contraste de texturas muito interessante com o Sauternes, além da sintonia de sabores. O vinho com sua delicada untuosidade caiu como uma calda para a sobremesa, valorizando a sensação de ambos, prato e vinho.

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Maní: a releitura do quindim

Falando um pouco das decepções, Petrus 82 novamente uma surpresa. É bem verdade, que 82 não foi um grande ano para este enigmático chateau. Normalmente, o rei de Pomerol está sempre aquém de seu apogeu e muitas vezes, irritantemente fechado, não quer conversa. Neste caso não, estava sem graça. Agradável para beber, mas sem a complexidade esperada. Em algum momento, ainde pego ele de jeito.

Quanto aos dois Pichons, um supostamente falso, nenhum agradou em cheio. E olha que Pichon 82 para muitos, é o melhor 82 de todos, o que não é pouca coisa. O mais interessante é que o supostamente falso, estava melhor que o sem grandes predicados verdadeiro. De certo modo tem lógica. Ninguém vai fazer uma falsificação barata com este tipo de vinho. Não tem dúvida que o falsário é um grande degustador.

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a grande surpresa do almoço

Terminando pelo início, o vinho acima da Niepoort, notável casa do Douro, reputada pelos seus magníficos Colheitas, mostrou que agora existe o grande branco de Portugal. Ele foi servido às cegas ao lado de um Meursault-Perrières Leroy 1998. Deu um banho de elegância e sutileza, mostrando que as castas brancas do Douro quando bem trabalhadas, são capazes de fazer maravilhas. Fermentado em barricas francesas, essas vinhas entre 60 e 100 anos, geram vinhos profundos e sutis. Esse Dirk Niepoort sabe fazer vinho! E o nome Coche é de uma irreverência ímpar. Parabéns!

Agradecendo a companhia de todos presentes e lamentando a ausência de alguns, espero ve-los em breve para novos desafios e o bom papo de sempre. Abraço a todos!

Cheval Blanc x Ausone

7 de Julho de 2015

Os nobres  châteaux, Cheval Blanc e Ausone, desde sempre foram considerados Classe A na tradicional apelação Saint-Émilion, margem direita dos bordaleses. Recentemente, juntaram-se aos mesmos, Château Pavie e Château Ângelus. Voltando aos dois astros, vamos falar um pouco de seu terroir e consequentemente suas respectivas expressões nos vinhos engarrafados com o lento envelhecimento em adega. Só para situarmos os châteaux, segue o mapa abaixo.

Terroirs diferentes

Pelo mapa acima, observamos que Cheval Blanc situa-se nos chamados vinhedos de planalto, bem próximos a Pomerol, e de solos pedregosos, misturados a argila e areia. Já Ausone, encontra-se nas chamadas Côtes, declives relativamente acentuados nos arredores da cidade de Saint-Émilion, de solos com forte presença do calcário, em meio argiloso. Contudo, as proporções entre Cabernet Franc e Merlot são semelhantes, mas com propostas diferentes quanto ao estilo de vinho.

Cheval Blanc

São aproximadamente 37 hectares de vinhas divididas em três tipos de solo. 40% deles são provenientes de pedras em meio à argila. Outros 40% são solos também pedregosos misturados à argila e areira com traços de ferro. Os 20% restantes são solos com predomínio de areia, misturados com argila e ferro. O vinhedo é plantado com 58% de Cabernet Franc e 48% Merlot. A idade média das vinhas alcançam 45 anos, sendo algumas centenárias. A densidade do vinhedo gira em torno de oito mil pés por hectare. Todo o vinhedo é dividido em 45 parcelas com micro-terroir próprio e são colhidas e vinificadas separadamente. O vinho em média é amadurecido em carvalho novo (100%) por dezoito meses.

Graves: solos pedregosos

Muitas das safras são altamente pontuadas, sendo o Cheval Blanc 1947 considerado por críticos e especialistas experimentados, como um dos grandes Bordeaux de todos os tempos. O estilo Cheval costuma ser abordável mesmo quando jovem. Apesar de sua incrível capacidade de envelhecimento, seus aromas primários imersos em madeira elegante agrada em cheio mesmo degustadores principiantes. Em termos de solo, a pedregosidade do terreno e alguns traços arenosos conferem ao vinho uma certa leveza, uma certa elegância. A presença de ferro em boa parte do terreno costuma concentrar e conservar sua cor ao longo do envelhecimento em garrafa. A boa micro-oxigenação com madeira nova aporta aromas elegantes e de grande complexidade.

Château Ausone

Propriedade bem menor que seu rival com apenas sete hectares de vinhas muito antigas. Em média 50 anos, mas com algumas centenárias. Densidade de plantio, de seis a doze mil pés por hectare. O terroir divide-se em duas partes principais: um hectare e meio junto ao château, na parte mais alta, de solo argilo-calcário e com presença de pedras calcárias (à astéries). Os outros 5,5 hectares são argilo-calcários e um pouco de areia, com certa declividade (15 a 20% de declive). O plantio entre as castas segue praticamente o mesmo do Cheval Blanc, 55% Cabernet Franc e 45% Merlot. A vinificação dá-se em seis cubas de madeira, as quais recebem parcelas setorizadas do vinhedo. O vinho amadurece em carvalho novo, praticamente 100%, dependendo da safra. O tempo em barricas pode chegar a 24 meses, de acordo com a potência do vinho.

Ausone: Calcário em destaque

As distintas características de solos e declividades entre os rivais, explica em parte o estilo distinto dos vinhos. Sobretudo a Cabernet Franc em solos com predominância calcária, caso do Ausone, vai gerar vinhos mais austeros e com maior acidez. A parte do vinhedo com predomínio da argila, proporciona solos mais frios, bem ao gosto da Merlot. Portanto, Ausone mostra vinhos mais austeros na juventude, com fruta mais contida e uma destacada mineralidade. Só o longo tempo em garrafa é capaz de revelar todos seus segredos. Em contrapartida, os solos pedregosos e mais secos encontrados no Cheval Blanc favorece na maioria dos anos uma maturação mais adequada para a Cabernet Franc, gerando vinhos mais abertos e prazerosos, com mais poder de fruta. Esses são os principais motivos para uma maior inclinação pelo Cheval Blanc, principalmente em safras mais recentes, mais jovens.

Painel: safras 82, 86, 90, 98 e 2000

Em recente painel, foram degustadas as safras acima com preferência ampla para o Cheval Blanc, por tudo que já foi exposto. 82 e 90 são safras excepcionais do Cheval, onde os vinhos mostram-se opulentos, ricos em fruta e com poder de guarda, sobretudo o 1990, com pelo menos mais dez anos de guarda. A safra 86 foi o ponto fraco do painel. Uma safra de difícil maturação das uvas, gerando vinhos com taninos um pouco agressivos, de difícil polimerização. Já as safras de 1998 e 2000 fecharam a degustação com chave de ouro para ambos os vinhos. Logicamente, pequenos infanticídios, mas os vinhos prometem um grande futuro. Ricos, com taninos bem delineados e muito bem equilibrados. Os aromas mais citados nesses grandes clássicos são os ligados à torrefação (café, chocolate), traços de tabaco, especiarias, grande pureza da fruta, e tal mineralidade (um toque terroso), sobretudo no Ausone.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VII

27 de Outubro de 2014

Após o primeiro dia em Bordeaux, hospedados no Chateau Cos d´Estournel, um super deuxième da comuna de Saint-Estèphe, fomos dia seguinte assistir parte da colheita da promissora safra de 2014. Após almoço informal com o pessoal da colheita e toda a parte técnica que dita as regras para a concepção do “Grand Vin”, fomos à Saint-Emilion visitar o prestigiadíssimo Chateau Ângelus, maravilhosamente recebidos pelo proprietário, Hubert de Boüard. Recentemente, o Chateau foi promovido em 2012 na classificação oficial de Saint-Emilion a Premier Grand Cru Classe “A”, ladeando os míticos Chateaux, Cheval Blanc e Ausone.

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2012: Safra da promoção à classe “A”

Nesta visita, tivemos a oportunidade de provar a safra 2009 com 99 pontos de Parker e comprovar seu enorme potencial. Um agradável infanticídio com o vinho mostrando uma cor profunda, aromas de frutas muito concentrados, algo balsâmico, defumado e um final longo e muito bem acabado.

No almoço no Chateau Cos d´Estournel, uma pequena amostra do que provamos, conforme fotos abaixo:

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Pequena vertical do Château

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Torta de maça e amêndoas com Tokajis

Na foto acima, as três safras do Chateau, 2000, 1986 e 1982, mostraram-se bem distintas. A safra de 2000, ainda a evoluir com ótimo potencial. A safra de 1986, já acessível, mas com muita estrutura para guarda e a excepcional 1982, um vinho de corpo, estrutura, aromas evoluídos e taninos sedosos, além de um final longo e sedutor. Para encerrar o almoço, uma bela torta de maças e amêndoas, acompanhada de maravilhosos Tokajis da vinícola Hétzölö, pertencente ao grupo vinícola do próprio Château.

À noite, jantar refinado nas dependências do Château com vinhos especialíssimos. Iniciamos com Champagne Michel Reybier Premier Cru, também pertencente ao grupo vinícola do Château, seguido de uma bateria de brancos Cos d´Estounel, conforme fotos abaixo:

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Elefante: Logo do Château

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Cos d´Estournel Blanc: Relativamente recente

Em seguida, começou o desfile de vinhos. Inicialmente, um dos maiores tintos do Rhône Sul, Chateau de Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 1990. Uma grande safra em todo seu esplendor. Rica em aromas balsâmicos, frutas em compota, especiarias e o característico toque animal deste domaine. Na sucessão, outro vinho de legenda, Tenuta San Guido Sassicaia 1985, o maior dos Sassicaias. Vinho ainda um pouco fechado, mas com taninos de rara textura. Corpo e equilíbrio de campeão. Talvez outras garrafas estejam mais abertas, mais aromáticas, e possam comprovar de fato a grande safra deste toscano. Para não baixar o nível, que tal um Chateau Cheval Blanc 1947?. Para muitos, o melhor Bordeaux já elaborado em toda a história. Contudo, nada é perfeito, esta garrafa não estava em bom estado. Não diria oxidado, mas extremamente cansado. É aquilo que falamos sempre: Em safras antigas, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma pena de quinze mil euros! As fotos seguem abaixo.

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Grande cuvée deste belo château

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1985: Safra mítica deste toscano

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Uma garrafa ingrata

Agora finalizando, uma seleção da estrela da casa, Château Cos d´Estournel 1964, 61, 75, 82 e 85, de tirar o fôlego. Evidentemente, o 64 é um vinho pronto com aromas de evolução e taninos completamente polimerizados. Pronto para beber. Já o 75, sempre polêmico. Parece que existem taninos que nunca vão se resolver. Contudo, apresenta um conjunto agradável, além de ser um vinho bastante gastronômico. Quanto ao 61, sempre uma grande safra. Seu poder de longevidade impressiona, embora esteja num ótimo momento para ser tomado. Por último, as grandes safras de 82 e 85. Vinhos de corpo, estrutura, um autêntico margem esquerda. Apesar de 85 ser extremamente prazeroso nos aromas e em boca, 82 costuma amplificar tudo isso numa espécie de zoom. Os dois maravilhosos, inteiros e com vida pela frente. Platô amplo de evolução. As fotos seguem abaixo.

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Nossa turma com o Capo do Château na cabeceira

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Bela evolução de um antigo margem esquerda

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1961: Safra mítica em Bordeaux. Vida longa

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Safra 1982 é o 1985 com zoom

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Safra 1975: Polêmica, mas de respeito

Terminado o “sacrifício” à mesa, vamos filosofar um pouco com puros e digestivos. Afinal, ninguém é de ferro. Para o start, um Porto Vintage Warre´s 1983, devidamente decantado e mostrando uma bela evolução. É lógico que trata-se de um adolescente, pois estes Vintages evoluem por décadas. Acompanhou muito bem as primeiras baforadas do Cohiba safrado 1966. Numa sala extremamente aconchegante, os Puros evoluíram escoltados por uma primorosa seleção de Cognac e Bas-Armagnac antes de sonhar com os anjos. As fotos seguem abaixo.

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Warre´s: Casa do Porto inglesa mais antiga

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Uma das nobres salas do Château: Convite a belos Puros

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Os grandes cubanos também têm safra

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Cognac e Bas-Armagnac ultraselecionados

A seleção de destilados foi espetacular. Um Bas-Armagnac de 1985 com seus quase trinta anos apresentou-se macio e de persistência armática admirável. Já o Cognac Grande Champagne é um terroir raríssimo, normalmente mistura-se ao terroir secundário de Petite Champagne, formando então o Fine Champagne. Já fizemos artigo específico neste mesmo blog. Tudo tem a ver com a proporção de calcário no solo que transmite finesse e elegância ao destilado. Bom, chega de conversa, pois a cama me espera após esta longa jornada. Au Revoir!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e á tarde, no Jornal em Três Tempos.

Saint-Emilion: Terroir e Classificação

3 de Junho de 2013

Dentre as várias classificações na famosa região vinícola de Bordeaux, uma das mais polêmicas e porque não dizer das mais confusas, é a dos vinhos de Saint-Emilion, sub-região importante da chamada margem direita. Esta classificação criada em 1954, prometia ser revisada de dez em dez anos, acompanhando a evolução dos principais châteaux. Tudo corria relativamente bem até que em 2006, houve confusão generalizada, acabando nos tribunais da região. Somente em 2012, foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés, conforme tabela abaixo. É só clicar.

http://www.vins-saint-emilion.com/sites/default/files/vins-de-saint-emilion-classement-2012.pdf

É bom salientar que esta nomenclatura vale só para os vinhos de Saint-Emilion. A famosa classificação de 1855, referentes ao vinhos do Médoc, tem outro tipo de nomenclatura. Por isso, muitas vezes a confusão de vários termos. O pomposo termo Grand Cru Classe em Saint-Emilion na prática, não quer dizer muita coisa. Portanto, dentre esses sessenta e quatro châteaux descritos, talvez uma dúzia faça jus ao título. Por exemplo, château Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Château Pavie: Polêmico, porém marcante

Já no grupo dos dezoito Premiers Grands Crus Classés, a confiabilidade é praticamente total. Vinhos de terroir, profundos, embora de estilos diversos. Evidentemente, Cheval Blanc e Ausone marcaram supremacia durante décadas com a designação A, diferenciando-se dos demais. Na classificação atual, ganharam a companhia dos châteaux Pavie (acima) e Angelus (abaixo) com a mesma designação. Se estão à altura, só o tempo dirá, mas os preços certamente subirão com o novo status.

Château Angélus: em ótima forma

 Angelus parece ser mais europeu, mais sóbrio, enquanto Pavie é mais direto, mais exuberante, mais invasivo. Talvez a grande proporção de Cabernet Franc no corte do Angelus, explique esta finesse, esta elegância, semelhante ao corte do grande Cheval Blanc. Do lado de Pavie, a grande proporção de Merlot, é responsável pela fruta exuberante, taninos dóceis, e textura macia, mesmo relativamente novo. Não nos esqueçamos que na famosa degustação às cegas, onde o plebeu Château Reignac balançou grandes nomes da margem direita e esquerda num artigo deste mesmo blog intulado: “Degustação às cegas: Existem Experts?”, o grande vencedor na média foi o Château Angelus, descrito como um vinho elegante e equilibrado. O equilíbrio entre argila, calcário e areia, nas várias partes da colina em seus vinhedos parece ser a chave do grande sucesso e ascensão.

Em tempo, a apelação rival de Pomerol continua sem classificação oficial. A única certeza é que Château Petrus segue seu reinado, seguido de perto pelo Château Le Pin, pelo menos em preços.

Bordeaux: Parte IV

19 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 Margem Direita

  

Mais uma expressão clássica: vinhos da margem direita. Pelo mapa acima, percebemos que a referência é a margem direita do rio Dordogne, sendo as apelações de Pomerol e Saint-Emilion seus grandes expoentes. As apelações satélites que rodeiam essas famosas regiões também fazem parte da margem direita. A rigor, até as apelações Côtes de Blaye e Côtes de Bourg que não aparecem no mapa  por estarem na margem direita do Gironde, devem também ser incluídas.

Tudo muda aqui em relação ao Médoc em termos de solo e composição de uvas. A argila predomina nesta área, notadamente em Pomerol, o que favorece o bom desempenho da Merlot. Em algumas áreas onde destaca-se também o cascalho, a Cabernet Franc entra em ação. Portanto, são essas duas uvas,  com a Cabernet Franc complementando a Merlot, que  norteiam o chamado corte bordalês, deixando muito pouco espaço para a Cabernet Sauvignon.

Pomerol

Berço espiritual da Merlot com o mítico Château Petrus reinando absoluto. Não há uma classificação oficial, mas todos sabem que o grande Petrus é hors concours, seguido por uma dezena de excelentes opções.

Se dinheiro não for problema, Petrus e Le Pin são as estrelas da região. Como viraram grifes, os preços vão às alturas, embora sejam vinhos diferenciados. Baseado na Merlot em solos argilosos, os rendimentos por parreira são baixíssimos, além de um belo estágio em barricas novas de carvalho. Os demais châteaux que são para mortais seguem descritos abaixo e podem surpreender os mais exigentes paladares.

Château Lafleur e Château Trotanoy são opções quase unânimes para as estrelas acima, com muito requinte e personalidade. La Conseillante, L´Evangile e Petit- Village são também pedidas encantadoras. Vieux-Château-Certan, do mesmo proprietário do Le Pin, apesar de suntuoso, segue um estilo mais medoquino, mais austero, com menor porporção de Merlot e presença de Cabernet Sauvignon.

Em resumo, os vinhos de Pomerol são adoráveis, macios e com frutas exuberantes, porém muito caros. A região é minúscula com menos de 800 hectares, ou seja, um quadrado de menos de 3 km de lado. Resultado: baixa produção para uma demanda enorme.

Saint-Emilon

Comparada a Pomerol, esta apelação é bem maior (cerca de 5400 hectares) com solos extremamente complexos e diferenciados. Para não complicar muito, podemos dizer que os solos mais arenosos e os solos dos vales, próximos ao Dordogne dão origem a vinhos pouco expressivos. Os grandes vinhos  estão em torno da cidade de St Emilion nas chamadas Côtes (encostas), bem como, nos solos de cascalho (graves) nas proximidades de Pomerol.

A classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion passa por um momento conturbado. Iniciada em 1955 foi prevista uma revisão de 10 em 10 anos, sendo a úlitma em 2006, extremamente polêmica, diga-se de passagem. Esta classificação apresenta três níveis de hierarquia:

  • Premiers Grands Crus Classés A: Châtau Ausone e Château Cheval Blanc
  • Premiers Grands Crus Classés B: com treze châteaux
  • Grands Crus Classés: com cinquenta e três  châteaux

Neste último nível, a expressão Grands Crus Classés não tem nem de longe o peso que tem para os Grands Crus da Borgonha. São vinhos relativamente simples com raríssimas exceções. 

Falar dos châteaux classe A é chover no molhado. Seu único defeito é o preço. Château Ausone é um vinhedo quase dentro da cidade de St Emilon num solo extremamente calcário. É um vinho difícil, principalmente quando jovem. Revela-se aos poucos e exige paciência e experiência de quem o possui.

Já Cheval Blanc é totalmente oposto. De solo pedregoso, próximo a Pomerol, origina vinhos elegantes e extremamente receptivos, mesmo quando jovens. A Cabernet Franc tem participação marcante, sendo muitas vezes majoritária. É um vinho de sonhos com a safra de 1947 transformada no maior mito entre os grandes de Bordeaux. Château Figeac, da mesma região, é muito interessante, mas evidentemente, sem o mesmo brilho e glamour.

Os châteaux do grupo B são as grandes pedidas sem gastar uma fortuna. Château Canon, Pavie, Angelus, Magdelaine  e La Gafferière são  grandes experiências para sentir o terroir de Saint Emilion.

Satélites de St Emilion e Pomerol

Lalande de Pomerol, Montagne-St-Emilion, St-Georges-St-Emilion, Lussac-St-Emilion, Puisseguin-St-Emilion, Fronsac e Canon-Fronsac São apelações que circundam os grandes astros (Pomerol e St Emilion). São vinhos não tão complexos, mas podem ser interessantes, a medida em que o produtor possa exprimir com fidelidade seu respectivo terroir. Infelizmente, a oferta destes vinhos no Brasil é escassa. Vieux Château Saint-André, Château Les Hauts Conseillants e Château Fontenil são boas opções.

Vins de Garage

Tradição e notoriedade têm seus efeitos colaterais em Bordeaux. A Rigidez e inflexibilidade das classificações não dão margem a novos châteaux. Foi desta revolta que surgiram os garagistas nas regiões de Pomerol e St Emilion. São vinhedos minúsculos com uvas vinificadas em espaço reduzido (num cômodo como uma garagem). Os vinhos são concentrados, bastante extraídos e com passagem obrigatória por barricas novas, às vezes 200% em carvalho. É quando você passa um vinho no primeiro ano em barrica nova e no segundo ano você troca novamente a barrica por outra nova. Em resumo, são vinhos parkerizados, extremamente concentrados e acarvalhados. Muitos consideram o Le Pin como precursor desta categoria, mas pessoalmente considero um exagero. Os châteaux Valandraud e Le Dôme resumem melhor este conceito. São vinhos caros, pontuados e de prestígio. Enfim, conseguiram seu objetivo, mas altamente polêmicos quanto ao terroir.

Em resumo, os vinhos de St Emilion não apresentam um estilo bem definido. Ora são mais frutados e abertos tendendo a Pomerol, ora são mais austeros e fechados tendendo ao Médoc, sem falar nos garagistas que costumam anabolizar seus vinhos, tornando-os verdadeiros blockbusters.