Salon, o caminho da singularidade

22 de Agosto de 2023

Em 2010, quando Aubert de Villaine ganhou o prêmio de homem do ano da revista inglesa decanter, ligou para Didier Dupond, presidente da maison de champagne Salon. Vilaine, então responsável pelos vinhos do Domaine Romanée Conti, é apreciador da champagne, que há 120 anos subverteu a ordem: criou uma champagne de uma uva, um terroir e uma safra (Krug faria isso com Clos de Mesnil 75 anos depois). Queria que fosse servida na recepção, que contou com um time de pesos pesados da Bourgogne, como Frédéric Mugnier, Michel Lafarge. Há uma piada interna entre Villaine e Dupond. O primeiro gosta de dizer que Dupond se daria bem na Borgonha fazendo vinhos como os que faz na Champagne.

Na cerimônia, em Londres, em maio de 2010, organizada pela tradicional importadora corney and barrow, uma das fornecedoras da Coroa inglesa, o pedido de Villaine foi atendido. A escolha? Salon 1997. Madame Lalou Bize Leroy também apareceu (ela foi protagonista de uma briga nos anos 80 em razão dos rumos do drc e se afastou, especula-se por questões comerciais ligadas à importação de vinhos do domaine no mercado japonês, o que levou o voto de Villaine por afastá-la do DRC).

Dupond se aproximou de Lalou Bize Leroy com a garrafa de salon.

“Madame, uma taça de champagne?”

“Nao bebo champagne– a rispidez no tom fez Dupond levantar as sobrancelhas, mas não o fez perder as palavras.

“Quer um suco ou água?”

“O senhor é Didier Dupond?”

“Sim”

“Me dê uma taça”

Ao beber uma taça de Salon 1997 em magnum, ela logo disse.

“Você produziu esse vinho?”

“Vinho e as uvas.”

Ela, ao perceber que suas palavras poderiam ter soado mal, logo se corrigiu.

“Não bebo nunca champagne, a efervescência faz mal ao meu estômago, mas aqui está um grande vinho.”

“Vindo da senhora é um elogio!”

Essa história foi contada por Didier em sua visita a São Paulo e é sempre recontada por ele, não é difícil de entender a razão. Dupond, que esteve recentemente no Brasil, está à frente de uma maison que produziu em 120 anos apenas 43 safras e introduziu Mesnil sur Oger no lugar mais alto da hierarquia das borbulhas. O terroir, no coração da Côte des Blancs, onde nascem algumas das melhores videiras de chardonnay do planeta, enseja vinhos que demandam tempo para serem apreciados, tamanha estrutura e acidez. São champagnes para se completar, diz Dupond, que diz que eles precisam de mais de dez anos para esbanjar a complexidade e profundidade. Parceiro ideal para pratos de trufas brancas de alba? “Ou talvez apenas para a contemplação”, responde sorrindo.

São cerca de 50 mil garrafas em uma safra, sendo o Japão e a Itália dois dos maiores mercados. “É uma forma de o público ter a França sobre a mesa”, diz. Há uma clientela fiel. Dias desses, Dupond foi ao Palácio dos Elísios, em Paris, sede do governo francês. Foi levar uma Salon 1948, ano de nascimento do rei Charles III, amante da marca. Será um presente do governo francês ao velho aliado.

Sobre o vinho? As palavras do Nelson: “Apesar de possuir um único estilo de champagne, Blanc de Blancs, seu rigor na elaboração é obsessivo. Se você fizer questão da mais pura mineralidade e  não se importar com preços, este é o caminho.”

Sobre o Salon 1997, que abriu o artigo, Nelson em dobro: “Salon 97 ainda uma criança. Cheio de tensão e mineralidade, suas borbulhas exibiam a delicadeza de um dos mais longevos champagnes.

Sobre uma Salon 2002, mais uma vez: “Para começar os trabalhos, nada melhor que um belo champagne. Se for um Blanc de Blancs, c´est parfait, com muito frescor e mineralidade. Toda vez que provo Salon, vem aquela dúvida cruel imediatamente: Salon ou Clos du Mesnil da Krug?. As duas são realmente a perfeição neste estilo tão elegante e delicado, onde a força do calcário no solo, imprime uma mineralidade sem igual. São champagnes que envelhecem muito bem, haja vista esta Salon da safra 2002. Ainda um bebê na garrafa com cores vibrantes, extremamente brilhante e reflexos verdeais. Seguramente pela qualidade da safra, tem pelo menos mais quinze anos de boa evolução. Salon costuma ficar dez anos sur lies, antes do dégorgement.

Emidio Pepe, de Nova York para o mundo

7 de Agosto de 2023

No começo da década de 1970, Emidio Pepe resolveu viajar aos Estados Unidos para mostrar a revolução iniciada em 1964 em sua vinícola em Abruzzo, região agrícola a leste de Roma, entre o Adriático e os Apeninos e que não despertava nem o interesse da crítica nem dos enófilos. Na sua mala, levou algumas garrafas de seu tinto, feito com a uva local Montelpulciano, considerada por muitos como ruim até para se usar nos molhos.

Uma garrafa foi parar na mesa de Lidia Bastianich, apresentadora premiada de televisão americana e autora de livros de culinária. Lidia gostou tanto que comprou o restante do que Emidio tinha trazido na mala para servir na abertura de seu restaurante, o Felidia, em Manhattan. Na inauguração do endereço, sentou-se à mesa e bebeu o Montepulciano, que ganhou centenas de pedidos quando os jornais americanos estamparam as fotografias do evento. Nunca mais a família parou de viajar. A vinícola se tornou tão reputada no exterior como a de Angelo Gaja ou de Biondi Santi. O Montelpuciano da safra 1964 foi vendido em leilão a mais de US$ 4 mil por uma loja em Nova York há poucos anos.

Chiara Pepe, que assumiu o comando da vinícola na safra 2020, conta com um sorriso essa história no almoço de uma terça-feira do fim de março em São Paulo, no Baru Marisqueria, quando questionada se gosta de viajar pelo mundo. “Faz parte da nossa história, assim como a biodinâmica”, diz ela, nascida em 1989. As 80 mil garrafas (45 mil do tinto, 5 mil de um disputado rosé – o Cerasuolo – e o restante de dois brancos – o Trebbiano e o Pecorino) são vendidas para 40 países, entre eles o Brasil, onde os vinhos são importados pela Uva Vinhos (www.uvavinhos.com.br), que recebe em breve uma nova remessa. Foi sua terceira viagem ao país, a primeira desde que começou a vinificar. Veio para um jantar no restaurante italiano Fame, zona oeste de São Paulo, para apresentar seus vinhos. “Os brasileiros têm um especial apelo pelo branco feito com a uva Pecorino, que enseja vinhos aromáticos e exóticos.”

Quando Chiara vinificou seus primeiros vinhos em 2020, o primeiro a bebê-los foi Emidio, que hoje assiste à distância aos passos da neta. “Ele ficou orgulhoso.” Não mudou a vinificação. Desde sua infância, Chiara viu seu avô trabalhar nas videiras e na cantina. Foi para a França estudar enologia e fez um estágio de um ano na Borgonha, no domaine Chandon de Briailles. Quando assumiu, não mudou nada. Desde 1964, não se usam defensivos para tratar os vinhedos. Primeiro, porque não existiam naquela época, segundo porque poderiam trazer algum impacto para os vinhos. Não se usa madeira. Os vinhos são envelhecidos em grandes toneis de cimento com leveduras naturais e vendidos quando a família julga estarem prontos para serem bebidos. As uvas são colhidas à mão e pisadas em um grande tonel de madeira. Eles começaram fazendo vinhos naturais décadas antes de o termo, em voga hoje, ter nascido.  

“Quando assumi, foi uma questão de manter a história do meu avô. Não fazemos nem faremos concessões para o mercado”, fala, abrindo seu branco feito de Trebbiano d´Abruzzo, safra 2015. As safras são vendidas quando a família acredita que os vinhos estejam prontos para serem bebidos. Emidio foi um dos primeiros a construir um espaço para envelhecer seus vinhos por longos períodos em garrafas antes do lançamento. A vinícola conta com uma adega com capacidade para envelhecer 350.000 garrafas. Há 50 anos, Montelpuciano era um vinho para ser bebido jovem, o governo encorajava cada vinícola a produzir centenas de milhares de garrafas para serem vendidas. “Meu avô ficou furioso e por isso decidiu apostar em outra direção e ir para os Estados Unidos ver se entendiam sua filosofia, que sempre foi natural”, diz ela servindo o Montelpuciano 1993, que com três décadas esbanja juventude.

O aquecimento global tem interferido nas datas de colheita (e nas férias), podendo a vindima ser antecipada ou prorrogada em duas a três semanas, o que pode fazer com que ocorra entre metade de agosto e início de setembro. Quando chega o momento a família de sete pessoas e outros 10 trabalhadores locais trabalham colhendo as uvas.

Além da preocupação com o clima, os preços dos vinhos nas regiões mais famosas do mundo têm feito surgirem dezenas de ofertas de compradores de terras do mundo todo. No Piemonte e na Toscana, dois dos mais famosos terroirs italianos, vinícolas foram compradas por americanos, ingleses, franceses, russos e até brasileiros (André Esteves e Galvão Bueno). Em Abruzzo, os preços da terra explodiram. Há 10 anos, um hectare valia 10 mil euros. Hoje pode custar 50 mil euros, um valor considerável, mas ainda muito abaixo dos 1 milhão de euros que podem ser alcançados em Barolo ou Barbaresco, terra onde nascem os melhores nebbiolos do planeta. “Há uma preocupação de que algumas vinícolas não sejam mais de famílias e percam essa essência artesanal.”

Mais informações https://www.emidiopepe.com/

Entre Chambolles

25 de Março de 2022

Clos Vougeot produz resultados bastante desiguais, mas esse terroir entre Vosne e Chambolle tem alguns segredos. Um deles é que que os proprietários da chamada parte alta do vinhedo, com vizinhanças ilustres como Grands-Echezeaux e Musigny, levam vantagem nos fatores solos e exposição do terreno (drenagem e insolação). Isso somado a mãos habilidosas fazem com que Leroy, Méo Camuzet e Mugneret Gibourg (Grivot faz um muito bem) tenham resultados dignos de grand cru. Outro segredo é o premier cru Petit Vougeots, que fica pertinho do cobiçado Les Amoureuses, o mais reputado premier cru de Chambolle Musigny.

Nas mãos certas, Petits Vougeot produz um tinto que lembra ótimos chambolles. John Gilman considera-o um substituto dos cada vez mais incompraveis Amoureuses. A parcela de 0,52 hectare de Charles van Canyet foi plantada em 1980 e tem resultado ano após ano em um dos melhores qualidade preço da Cote de Nuits. Esse 2016 ainda tem muito chão pela frente, mas se destaca pelas frutas vermelhas, especiarias (não tão asiáticas como as que marcam os Vosnes) e um leve floral. Taninos ainda a se resolver nos próximos cinco anos. Um ótimo início de degustação.

Les Amoureuses, localizado logo abaixo de Musigny, tem um solo bastante pedregoso com boa proporção de calcário ativo. Um vinho de grande finesse, delicado ao extremo. Podemos dizer que sua delicadeza é tal que fica próxima a uma linha comum por sua suposta fragilidade. Contudo, é preciso prestar atenção, pois é uma delicadeza de profundidade e bela estrutura para envelhecer. Aqui a acidez, muito mais que seus delicados taninos, fornecem bons anos de vida em adega. Como classificação é um Premier Cru, mas com Cros Parantoux de Vosne Romanée, e Clos St Jacques do grande Rousseau em Chambertin forma a trilogia dos “falsos” Grands Crus. Nas mãos de Frederic Mugnier, que o considera a epítome da borgonha, nasce um vinho floral, elegante, com uma longa persistência. A safra 2013 está num bom momento. A pergunta é: beber na juventude ou nos terciários? A mim agrada o floral da adolescência.

Combe d’orveau ou Orveaux é um dos crus mais próximos de um dos mais cobiçados tintos do planeta: Musigny. Uma parte do vinhedo, pertencente à família jacques prieur, foi elevada à condição de grand cru em 1929. Essa parcela de Perrot Minot não teve a mesma benção, está encostada ao terroir de Prieur, ou seja, a mais colada a Musigny. Esse 2001 ainda está jovem, mas num belo ponto de consumo, com uma miscelânea entre florais, terrosos, fruta, em um conjunto de rara elegância e profundidade. Um grand cruzinho, hein, para se pôr no radar.

Ao término, tivemos a chambolle alemã: o Mosel, onde nascem os mais delicados rieslings, na interpretação de um de seus mestres. Egon Muller em um kabinett de livro, com toques de manga, mel, botrytis em um mineral elegante, nada invasivo.

Um jantar inesquecível que ainda contou com show ao vivo. Muito obrigado a João Ferraz, anfitrião de mão cheia, e a Marco deluigi.

Retrospectiva 2021

17 de Dezembro de 2021

O ano de 2021 está chegando ao fim e 2022 vem aí, esperemos que não seja mais um ano da marmota. Muitas novidades chegaram ao mercado brasileiro e chegarão ainda mais a partir de janeiro, com destaque a estrelas piemontesas, como Burlotto e Roagna, assim como borgonhas raros, casos dos brancos de Coche Dury.

Chegou a hora de fazermos uma seleção daquilo que chamou a atenção das papilas gustativas. Vamos à lista sem nenhuma pretensão:

Restaurante: Lobozó. A pandemia foi cruel com muitos restaurantes e bares. Alguns fecharam as portas. Outros conseguiram se manter, mas na média geral as porções ficaram menores, ingredientes nobres perderam espaço e a conta ficou ainda mais salgada. No meio de muita areia em um amplo deserto, há alguns oásis, um deles é o Lobozó, na Vila Madalena, comida brasileira com gosto, preço e qualidade em um ambiente despojado. Dos arrozes ao frango recheado, passando pelo frango frito de entrada, tudo tem sabor.

Vinho do ano: Granbussia 2001. Poderi Aldo Conterno faz alguns dos melhores vinhos do planeta vitis, molda nebbiolos que mesclam longevidade, potência e elegância, uma rara combinação. Mescla de 70% de Romirasco, 15% de Cicala e 15% de Collonello, Granbussia é o topo da cadeia da vinícola, que, depois da morte do patriarca em 2012, é comandada pelos três filhos: Giacomo, Roberto e Franco. Os três não perderam o rumo, mantiveram a busca pela excelência, expressa em um número: a família poderia produzir mais de 200 mil garrafas, mas eles, num ano bom, produzem 80 mil garrafas. Esse Granbussia 2001 é um vinho que começa a deixar a adolescência, tem ainda fruta vibrante e um leve toque floral, com um fundo de sous bois que ainda ganhará com o envelhecimento toques nobres de trufas brancas.

Novidades:Novidade de borbulhas:

Uma das melhores novidades que chegaram ao Brasil nesse ano foram as champagnes Barrat Masson pela @uvavinhos. Essa aqui tem 70% de chardonnay e 30% de pinot noir, aromas de manteiga, maçã verde, mineralidade sempre presente. Gastronômico, profundo, delicioso. Na pré-venda são pechinchas.

A segunda novidade vem do terroir mais procurado pelos conhecedores. Vinhos brancos da Bourgogne estão cada vez mais caros. Nos próximos anos, se o bolso continuar o mesmo, será importante ficar de olho em regiões menos badaladas, como a Côte Chalonaise. Ali existem muitos ótimos terroirs, como Rully, que nas mãos de Dureuil Janthial faz grandes vinhos. Vêm pela @claretsbrasil

Qualidade preço

A Wines4U tem um dos mais caprichados portfólios do mercado brasileiro, com vinhos muito bem selecionados e com ótimo preço. Uma dica preciosa são os beaujolais do Domaine Chermette, três estrelas na revista de vinhos da França e um dos preferidos de John Gilman. O Trois Roches é uma beleza, duro é aguentar e separar uma garrafa para envelhecer, tamanho o prazer que ele proporciona hoje. Na mesma wines4U, palmas para os albarinos de Rias Baixas de Alberto Nanclares, ambos gastronômicos e instigantes.

Encontrar bourgognes tintos de bom preço é difícil. Maranges é um terroir pouco badalado, mas as mãos habilidosas dos irmãos Chevrot poderão torná-lo um domaine baladado como o de Sylvain Pataille em Marsannay. Maranges fica ao sul de Beaune. Seus tintos são muito mais reputados que os brancos. Nas palavras de Clive Coates, produzem-se ali vinhos “honestos, robustos e rústicos, no melhor sentido”. Pablo e Vincent Chevrot são o principal nome desse terroir. Sur le Chêne é um dos vinhedos que têm ganho atenção da crítica francesa e inglesa. Vêm pela Anima Vinum.

Vinhos italianos são uma bela opção quando o assunto é enogastronomia, eles crescem com comida. A Italy Import tem trazido algumas ótimas opções. Destaco duas delas. Uma é o Chianti Classico 2018 de Riecine, que mostra toda a versatilidade e elegância da sangiovese, parceiro perfeito de pastas al sugo. Na mesma Italy Import, destaque-se o barbera de principiano ferdinando, uma barbera festiva, com acidez intensa, que faz salivar e pensar no molho de macarrão que o acompanhará. O produtor faz ainda caprichados barolos.

Em foco: Château Cantemerle

29 de Março de 2021

Em 1855, Napoleão III resolveu mostrar ao mundo a pujança da França. Foi organizada uma feira mundial em Paris em que os franceses ostentariam seus principais trunfos. O mundo do vinho não foi esquecido. Surgiu daí a classificação de vinhos de Bordeaux, em foram avaliados os melhores vinhos do Médoc e os melhores doces da região de Sauternes. O ranqueamento foi baseado nas cotações de preços de décadas que os negociantes tinham dos vinhos. Terminaram o documento e enviaram para a Câmara de Comércio.

Em 18 de abril de 1855, um documento de três páginas foi afixado com a classificação dos vinhos, sendo o primeiro que encabeçava a lista o Château Lafite Rotchschild, no topo dos primeiros, enquanto o último, no quinto grupo, ou cinquièmes crus, era o Croizet Bages. Antes do término da página, há uma pequeno acréscimo feito de última hora à caneta tinteiro, com letra totalmente diferente da que tinha estabelecido os principais vinhos. Alguém tinha colocado a inclusão de mais um château com um asterisco: “Cantemerle, Mme Villeneuve-Durfort, Macau”. (Foi a primeira inclusão na polêmica classificação; a segunda foi o acréscimo de Mouton ao primeiro grupo em 1973).

Inclusão de última hora à caneta com letra diferente dos demais

O ingresso de última hora do Cantemerle não permitiu que a propriedade fizesse parte do mapa criado pelos organizadores da feira mundial para destacar os bordeaux mais prestigiados, muito menos foi o suficiente para o chateau aparecer no evento de maio de 1855.

De lá para cá, o Cantemerle assegurou um lugar entre os melhores vinhos da categoria qualidade preço entre os classificados em 1855 e nas últimas cinco décadas figuraria fácil como um vinho de terceiro grupo (3eme cru classé). Isso não são palavras minhas, mas de John Gilman, um dos melhores críticos de vinhos que o planeta tem. Gilman, que faz a newsletter trimestral View from the cellar – viewfromthecellar.com) tem elogios públicos sobre seu trabalho de alguns dos melhores viticultores do mundo: Frédéric Mugnier, Christophe Roumier, Egon Müller. Para Olivier Krug, Gilman é o nerd do mundo do vinho.

Há três meses, Gilman publicou um extenso e profundo artigo com mais de 50 páginas propondo sua reclassificação dos cinco grupos. Apesar de ter bebido grandiosos Moutons, como 1945, 1949, 1955, 1959,
1961, 1982 and 1985, que qualifica como alguns dos melhores Bordeaux que ele já bebeu, ele rebaixou chateau para o segundo grupo por achar que a regularidade de um premier grand cru classé não é atingida em todas as safras, mas muito mais presente nos grandes anos.

Fez rebaixamentos e adições e uma delas é particular a esse artigo: Cantemerle. “De 1955 até hoje, eles têm feito vinhos excepcionais e para meu paladar no nível dos vinhos de third growth”, escreveu. Isso fez com que fosse promovido ao terceiro grupo.

Abaixo, a classificação histórica e a de Gilman

Classificação de 1855

http://www.viewfromthecellar.com/

First Growths:
Château Haut-Brion
Château Lafite-Rothschild
Château Latour
Château Margaux
Château Mouton-Rothschild


Second Growths:
Château Brane-Cantenac
Château Cos d’Estournel
Château Ducru-Beaucaillou
Château Durfort-Vivens
Château Gruaud-Larose
Château Lascombes
Château Léoville-Barton
Château Léoville Las Cases
Château Léoville-Poyferré
Château Montrose
Château Pichon-Longueville-Baron
Château Pichon-Longueville Comtesse de Lalande
Château Rauzan-Gassies
Château Rauzan-Ségla

Third Growths:
Château Boyd-Cantenac
Château Calon-Ségur
Château Cantenac-Brown
Château Desmirail
Château Ferrière
Château Giscours
Château d’Issan
Château Kirwan
Château Lagrange
Château La Lagune
Château Langoa-Barton
Château Malescot-St. Exupéry
Château Marquis d’Alesme-Becker
Château Palmer

Fourth Growths:
Château Beychevelle
Château Branaire-Ducru
Château Duhart-Milon
Château Lafon-Rochet
Château Marquis-de-Terme
Château Pouget
Château Prieuré-Lichine
Château Saint-Pierre
Château Talbot
Château La Tour-Carnet

Fifth Growths:
Château d’Armailhac
Château Batailly
Château Belgrave
Château de Camensac
Château Cantemerle
Château Clerc-Milon
Château Cos-Labory
Château Croizet-Bages
Château Dauzac
Château Grand-Puy-Lacoste
Château Grand-Puy-Ducasse
Château Haut-Bages-Libéral
Château Haut-Batailly
Château Lynch-Bages
Château Lynch-Moussas
Château Pédesclaux
Château Pontet-Canet
Château du Tertre

Reclassificação proposta por John Gilman

First Growths:
Château Ducru-Beaucaillou
Château Haut-Brion
Château Lafite-Rothschild
Château Latour
Château Margaux
Château Pichon-Longueville Comtesse de Lalande

Second Growths:
Domaine de Chevalier
Château Gruaud-Larose 119
Château La Mission Haut-Brion
Château Montrose
Château Mouton-Rothschild
Château Palmer
Château Pichon-Longueville-Baron
Château Rauzan-Ségla

Third Growths:
Château Beychevelle
Château Calon-Ségur
Château Cantemerle
Château Cos d’Estournel
Château Haut-Bailly
Château Lagrange
Château La Lagune
Château Léoville-Barton
Château Léoville Las Cases
Château Léoville-Poyferré
Château Lynch-Bages
Château Pape-Clément

Fourth Growths:
Château Branaire-Ducru
Château Giscours
Château Grand-Puy-Lacoste
Château d’Issan
Château Prieuré-Lichine
Château Pontet-Canet
Château Rauzan-Gassies
Château Sociando-Mallet
Château Talbot

Fifth Growths:
Château d’Armailhac
Château Batailly
Château Brane-Cantenac
Château Chasse-Spleen
Château Clerc-Milon
Château Duhart-Milon
Château Haut-Bages-Libéral
Château Haut-Batailly
Château Haut-Marbuzet
Château Kirwan
Château Lafon-Rochet
Château Lascombes
Château La Louvière
Château Malescot-St. Exupéry
Château Marquis d’Alesme-Becker
Château Marquis-de-Terme
Château Poujeaux
Château Saint-Pierre
Château Smith Haut-Lafitte
Château La Tour-Martillac

De-Classified
Château Belgrave
Château Boyd-Cantenac
Château de Camensac
Château Cantenac-Brown
Château Croizet-Bages
Château Cos-Labory
Château Dauzac
Château Desmirail
Château Durfort-Vivens
Château Ferrière
Château Grand-Puy-Ducasse
Château Langoa-Barton
Château Lynch-Moussas
Château Pédesclaux
Château Pouget
Château du Tertre
Château La Tour-Carnet

A região de Macau, cujos solos têm algumas similaridades com o sul de Margaux, com algum cascalho e mais presença de areia, torna o vinho mais leve, com taninos mais suaves. A propriedade vinifica cerca de 600 mil garrafas em um ano, sendo que 70% se destina ao Cantemerle, com o restante para o segundo vinho “Les Allees de Cantemerle”.

O 2008, bebido recentemente, está em um ótimo ponto. Tem taninos finos, ótima persistência, já demonstra evolução nos aromas: um leve mineral se casa com tabaco e couro e um leve toque de café, com uma fruta negra ainda presente. Perfeito para um picadinho de carne. Esse foi um corte de 48% Cabernet Sauvignon 37% Merlot 8% Petit Verdot7% Cabernet Franc. Gilman deu 93 pontos para ele, Gilman não acha 2009 e 2010 safras tão boas quanto 2008, mais clássica para ele. O 2009 também está uma maravilha, prum dia de churrasco caprichado.

Um margem de esquerda de respeito e que não agride tanto o bolso em um tempo em que bordeaux de excelência abaixo de R$ 600 são cada vez mais difíceis de encontrar. Se um dia você vir um Cantemerle em promoção, não hesite. Se você o achar caro, a dica é o chateau magence (ele não está na lista de 1855, mas dá uma boa ideia do que é um elegante margem esquerda), na Delacroix, mas esse está esgotado.

Entrevista com Frédéric Lafarge

22 de Fevereiro de 2021

De vez em quando, Vinho sem Segredo trará uma entrevista com um produtor de vinho de referência em algum terroir do planeta vitis. Qual será o critério de escolha? Ter passado pelo crivo do mestre Nelson Luiz Pereira, ou seja, ter sido alvo de algum post em que ele teceu elogios à vinícola ou ao enólogo. Para estrear essa seção, o escolhido foi Frédéric Lafarge, hoje à frente do mítico domaine Michel Lafarge, que já foi tema de alguns posts escritos pelo Nelson, incluindo-se um “Lafarge, a essência de Volnay” e outro “os top tens da Borgonha”.

Falar que os vinhos de Lafarge estão entre os melhores da Côte de Beaune é como restringir o trabalho de Alfred Hitchcock ao suspense. “Um Corpo que Cai” é um filme de suspense ou um drama facilmente listado entre os melhores longas de todos os tempos? É perder o todo, o conjunto da obra em que cada nota faz sentido. Lafarge faz há décadas alguns dos melhores vinhos da Côte d´Or, com rótulos que esbanjam elegância, profundidade e longevidade. Nas safras excelentes, faz obras primas, nas ruins consegue fazer bons vinhos, bastante superiores à média. O Clos de Chênes 2004, bebido há dois anos, é um dos melhores premiers crus degustados dessa safra fraca e rivaliza com o Clos Saint Jacques de Éric Rousseau, dois produtores que conseguiram fazer vinhos muito acima da média.

O quintal dos Lafarges

Com 11,6 hectares de produção, boa parte voltada para Volnay, o domaine é uma referência entre os Bourgognes femininos e longevos. Aqui se usa muito pouca madeira, menos de 15%, porque a ideia é fazer o terroir transparecer. Numa comparação com Marquis d´Angerville, seu principal rival em Volnay, este faz vinhos mais viris, Lafarge elabora vinhos mais delicados.

Quem vai ao domaine (pisandoemuvas.com traz a visita feita em 2017) e ao quintal deles se depara com as 11 galinhas que passeiam por pouco mais de 0,5 hectare de vinhedos de Clos du Château des Ducs, monopólio quintal dos Lafarge. “Além de proteger de pragas, elas rendem ovos premier cru”, brinca Frédéric. Com uvas de mais de 40 anos, esse vinhedo é mais quente que outros da cidade e produz vinhos longevos que rivalizam com o Clos de Chênes, outro premier cru reputado em suas mãos.

Os Lafarges têm uma extensa produção de rótulos. Os brancos são bons, os tintos são excelentes. O Beaune Les Aigrots é o oposto do mais mineral Grèves, ambos para se comprar de caixa. O Pommard Pézérolles é um Pommard mais mineral, mais suave que os feitos por Courcel ou Épeneaux. O Volnay Village é um primor, elegante e feminino. Pode passar subestimado por muitos paladares, mas tem um refinamento difícil de se ver em comunais.

Antes de chegar à cave do século XIII, um passeio pelo monopólio

O Vendanges Selectionnés vem do centro da apelação, rodeado de premiers crus, é o grande segredo aqui, com uma capacidade grande também de envelhecimento, comprovado pelo excelente 2002 provado em 2017. O Mitans é um premier cru mais delicado que os outros três: o Caillerets (último vinhedo comprado pela família em 2000), com muita fruta, o Clos de Ducs tem um aroma floral delicado e taninos suaves; o Clos de Chênes é mais tânico, mineral, precisa de mais tempo.

A seguir, os principais trechos da entrevista com Frédéric Lafarge, que também tem investido em Beaujolais, com os rótulos Lafarge-Vial, sobrenome de Chantal, sua esposa. Os vinhos do domaine Lafarge chegarão ao Brasil pela primeira vez em junho pela Clarets.

Além de combater as pragas, as galinhas rendem ovos premiers crus, brinca Frédéric

Vinho sem segredo: Eu sempre me impressiono com a longevidade dos vinhos de vocês. Tomei um Clos de Chênes 2007 que eu jamais diria ter mais de cinco anos de vida. Bebi um Vendanges Selectionnés 2002 há 4 anos que ainda tinha longa vida. Vi no instagram que vocês abriram um Clos de Chênes 1949. Como ele estava?

Frédéric Lafarge: Os vinhos do domaine envelhecem muito bem. O Clos de Chênes 1949 estava excelente. Sua cor estava viva, com as bordas traduzindo o passar das décadas. O nariz estava harmônico com alguns aromas terciários. No palato, estava absolutamente redondo. A gente podia sentir as uvas bem maduras da safra colhida em um ano quente e seco. Ele tinha energia soberba e ia se revelando aos poucos à medida que o bebíamos.

Vinho sem segredo: Sua filha, Clothilde, está ao lado para a vinificação. Ela fez estágios fora da França e é uma jovem. Ela tem contribuído para mudanças na maneira que vocês vinificam os vinhos?

Frédéric Lafarge: A Clothilde é apaixonada. Ela reintroduziu o trabalho com cavalos em  Caillerets e Clos du Château des Ducs. Na cave, a gente tem experimentado barricas maiores, de 350 a 500 litros para afinar os vinhos.

Vinho sem segredo: O que você recomenda como harmonização de comida com o Clos de Chênes e o Clos Du Château des Ducs, os dois principais crus do domaine?

Frédéric Lafarge: Com o Clos de Chênes, eu recomendaria uma costela bovina ou um pernil de cervo, uma carne com sabor mais pronunciado. Com o Clos Du Château des Ducs, seria um pombo ou outro tipo de ave.

Vinho sem segredo: Cada viticultor tem um terroir de preferência. Pierre Ramonet amava seu Ruchottes, Jean Marc Roulot participou de uma peça de teatro com seu Luchets como protagonista, Alain Burguet se inclinava pelo Mes Favorites. Qual seu terroir preferido?

Frédéric Lafarge: Tenho dois. Um é o Clos du Châteaux des Ducs; tenho a sorte de ser nosso monopólio. O outro é o Beaune Grèves, cujas vinhas completam 100 anos em 2021.

Vinho sem segredo: A família decidiu investir em Beaujolais há poucos anos, com o Lafarge-Vial. Por quê?

Frédéric Lafarge: Os crus de Beaujolais são grandes terroirs com uma história relevante que não deixa nada a dever com a Côte de Beaune e a Côte de Nuits. Em 2014, tivemos uma ótima oportunidade de comprar um domaine com vinhedos antigos em ótimos terroirs graníticos. É uma bela aventura essa de criar uma domaine familiar em outro local. Nós estamos encantados. É muito apaixonante de trabalhar com a uva gamay nesse terroir granítico que tem muitas convergências com os vinhos da Côte de Beaune. Nós trabalhamos os vinhedos na biodinâmica. Voltamos às práticas tradicionais de Beaujolais. Usamos 25% de vendanges entières (desengaço parcial) e praticamos remontagens et pigeages (processo mecânico através de um bastão com placa na extremidade para extrair cor, aromas e taninos). Os vinhos são vinificados sem madeira nova. São engarrafados depois de 14 meses. Eles refletem seus terroirs com finesse, charme e uma estrutura para se apreciar jovens ou com mais tempo em garrafa.

Vinho sem segredo: O Clos de Tart foi vendido em 2017 por € 250 milhões. Há muitos investidores estrangeiros e franceses de olho em terras na Bourgogne. Isso é preocupante? 

Frédéric Lafarge: A alma da Bourgogne e dos seus vinhos é estruturada nos domaines familiares. É importante que tudo seja feito para que essa estrutura tenha futuro, ou seja, facilitando a transmissão de bens entre pessoas da família. (Primeiro: O governo francês taxa com vigor as heranças de vinhedos, a taxa é de 30% de um pai para o filho e mais alta se o parentesco é mais distante; Segundo: a França taxa as fortunas. Uma alta dos preços das vinhas infla o balanço dos proprietários e o imposto que eles têm de pagar. O produtor que explora e é dono está isento da cobrança, mas não os seus irmãos, irmãs e primos (também proprietários))

Vinho sem segredo: Em 2000, vocês adquiriram parcelas de Les Caillerets et em 2005 parcelas do Beaune premier cru Les Aigrots e do Volnay premier cru Les Mitans. Hoje seria impossível de fazer?

Frédéric Lafarge: Em 2000 e 2005 nós tivemos excelentes ofertas por isso compramos, mas hoje seria muito difícil. Mas nós temos esperança de continuar a trabalhar com outros grandes terroirs da Côte de Beaune em brancos e tintos.

O outro lado da RN 74

2 de Fevereiro de 2021

A Route Nationale 74, ou a D974, interliga alguns dos vinhedos mais míticos de pinot noir e chardonnay do planeta. O dólar alto e a disparada de preço na Bourgogne (um Bourgogne blanc sai da adega de Coche Dury por 40 euros e é vendido em NY por mais de US$ 200) têm deixado Chambolles, Vosnes, Volnays, Chassagnes e Pulignys cada vez mais caros no Brasil. Selecionar rótulos e produtores de regiões menos badaladas se tornou essencial para continuar a beber bem.

Maranges

Maranges fica ao sul de Beaune. Seus tintos são muito mais reputados que os brancos. Nas palavras de Clive Coates, produzem-se ali vinhos “honestos, robustos e rústicos, no melhor sentido”. Pablo e Vincent Chevrot são o principal nome desse terroir. Sur le Chêne é um dos vinhedos que têm ganho atenção da crítica francesa e inglesa. Por cerca de R$ 350 na Anima Vinum, esse é bom borgonha, com um toque animal, fruta bem moldada. Se os Chevrots seguirem nesse caminho, o primeiro pelotão da Bourgogne está logo ali. Quem disse não fui eu, mas William Kelley. Assino embaixo.

Auxey-Duresses

Auxey Duresses é mais conhecido por ter resultados estelares nas mãos de madame Lalou Bize Leroy. Há vida, muita aliás, fora de Auvenay. Esse rótulo branco é uma prova. Les Crais é um bom custo benefício de vinho branco da Bourgogne. Feito pelo Prunier-Bonheur, na @claretsbrasil, por cerca de R$ 350. Muita energia nesse 2017, ganhou muito depois de aberto. Boa opção para 2021. Não foi mal com a salada de salmão defumado.

Cote de Nuits-Villages

Côte_de_Nuits-Villages-Les_Chaillots

Os vinhos de Gachot Monot têm um avalista de peso: m. Aubert de Vilaine, que gerencia o Domaine Romanée Conti e é proprietário de ótimo domaine que produz excelentes vinhos na Côte Chalonaise. Foi Aubert quem chamou a atenção da importadora americana Kermit Lynch sobre Damien Gachot, que tem 12 hectares em Corgoloin, entre Nuits Saint Georges e Beaune. Esse Côte de Nuits ‘Les Chaillots’, que estava em promoção a R$ 315 na Govin, reforça a tese de que o estudo dos vinhos desse domaine deve ser aprofundado.

Bourgogne blanc 2015 Berlancourt

Se um dia visitar esse pequeno domaine em Meursault, que também hospeda, não se assuste se encontrar Jean Francois Coche degustando ali. O dono de um dos domaines míticos da Cote d’Or gosta bastante dos vinhos de Pierre e Adrien Berlancourt. Veio no fim do ano passado numa pequena quantidade pela @uvavinhos. Uma nova remessa deverá chegar em breve. Frutas brancas em profusão, leve toque de fruta seca, um vinho que tem tudo de Meursault e com um pouco mais de persistência e complexidade passaria por um bom premier cru da village.

Bourgogne Côte d´Or Cuvée Gravel 2018 – Claude et Catherine Maréchal

Ótima porta de entrada do domaine Catherine e Claude Marechal, criado em 1981 e cujo mentor foi a lenda Henri Jayer. Produz em 12 hectares.A cuvée Gravel é situada em Pommard et Bligny-les-Beaune. Por R$ 280 na Delacroix, um dos melhores bourgognes disponíveis no mercado brasileiro. Na Delacroix.

Bourgogne Roncevie

Quando se visita o domaine Arlaud (texto da visita no site pisandoemuvas.com) uma das primeiras histórias escutadas é a excelência desse terroir. Roncevie está Gevrey-Chambertin, mas do lado errado da RN 74, ou seja, distante dos grands crus. Até 1964 era considerado “Villages”, mas na disputa política ficou com parcelas fora da classificação. Pére Arlaud não se fez de rogado. Comprou bourgogne sabendo que tinha um Gevrey disfarçado. O domaine tem excelentes vinhos, a única pena é o preço, que tem subido muito nos últimos dois anos. Vêm pela Cellar. Por R$ 375.

Jacquesson, a arte dos irmãos Chiquet

30 de Janeiro de 2021

Quem acompanha o site e o instagram sabe que uma champagne sempre aparece aqui e ali em posts, harmonizações e recomendações. Fundada em 1798, em Châlons-sur-Marne, Jacquesson era uma das estrelas da Champagne no século XIX, mas em 1920, quando foi comprada por um negociante de vinhos que mudou a sede para Reims, passou décadas em declínio. A virada se deu em 1974, quando Laurent e Jean-Hervé Chiquet compraram a tradicional Maison e levaram sua sede para Dizy.

Laurent e Jean Hervé Chiquet

Os vinhedos estão todos em Grande Vallé e na Côte des Blancs com algumas compras adicionais nesses mesmos terroirs. Uma das marcas das champagnes feitas por aqui é que elas são vinificadas em grandes barris de madeira, o que rende complexidade e mais aromas. Uma das inovações da casa foi a criação da linha 700. Na Champagne, a tradição era que a casa safra as maisons buscassem imprimir mais seu estilo no que está sendo oferecido do que um espumante que retratasse o ano. Quem busca uma Bollinger NV sabe o que encontrará, ano sim, ano não. Os Chiquets foram por outro caminho. A pequena produção (cerca de 300 mil garrafas por ano) comparada às grandes marcas dificultava criar uma linha que imprimisse todos os anos o mesmo estilo. Havia ainda mais. “Nós começamos a perceber que estávamos fazendo um blend pior que poderíamos fazer. Não tinha sentido”, disse Jean-Hervé Chiquet a Peter Liem no excelente livro “Champagne”.

A DT, cujo dégorgement é bem tardio, tem um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal

Com a percepção de que o foco em ano resultava em vinhos inferiores ao que poderiam fazer sem essa amarra, os irmãos buscaram consistência. A partir da safra 2000, eles descartaram a cuvée Perfection e lançaram a 728. Por que o número? O ano de 2000 representou a safra 728 desde a fundação da Maison.

A linha, importada pela Delacroix, é consistente do início ao topo, com espumantes refinados, gastronômicos, intensos, complexos e que têm alto potencial de envelhecimento.

A linha 700, a mais recente disponível no Brasil é a 743, é originada de dois vinhedos Grands Crus e três vinhedos Premiers Crus. O vinho-base é elaborado em madeira, naturalmente inerte, para não passar aromas ao vinho. As uvas são: Chardonnay de Avize Grand Cru; Pinot Noir do Ay Grand Cru e Dizy Premier Cru; Pinot Meunier de Oiry Grand Cru e Hautvillers Premier Cru. A primeira fermentação é em grandes barricas de carvalho, envelhecendo sobre as borras por 36 meses, misturando com vinhos de reserva (33%) e a segunda fermentação em garrafa segundo o método Champenoise. A 743 talvez seja a melhor que eu bebi. Mais aberta que a 742. Para se achar no ano em que o rótulo é baseado, basta somar dois ao número da linha: 742 é de 2014, a 743 de 2015.

Manifesto dos Chiquets

A Jacquesson ainda produz uma DT, cujo dégorgement é bem tardio, prevendo um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal. Enseja um vinho complexo, profundo, com uma mineralidade digna de um champagne especial. Com muita vida pela frente.

Em linguagem bourguignone, o rosé é um Chambolle feito na Champagne. São menos de dez mil garrafas vindas de Dizy, um vinhedo Premier Cru situado no Vallée de la Marne, sendo Terres Rouges (lieu-dit) uma área de somente 1,35 hectares exclusivamente de Pinot Noir, plantada em alta densidade, 11500 pés por hectare. O solo é escuro e pedregoso misturando argila e calcário. O vinhedo fica junto à Montagne de Reims em seu setor sul. O vinho-base é vinificado em madeira inerte (foudres de chêne). Trata-se de um rosé de saignée e não de assemblage, este último, mais comum em Champagne. Na verdade, este saignée é muito delicado, quase um pressurage direct. O dégorgement leva normalmente cinco anos, mantendo um longo contato sur lies. Extremamente seco com apenas 3,5 gramas/litro de açúcar residual, dentro do padrão extra-brut. Apesar de 100% Pinot Noir, é um champagne delicado, elegante e muito vivaz tanto em fruta, como no próprio frescor. As notas de frutas vermelhas (groselhas, framboesas) e de alcaçuz estão bem presentes.

Na linha das especiais, há um rótulo absolutamente grandioso: Champ Caïn, cuja primeira safra se deu em 2002, com vinhedos plantados em 1962. A safra 2004 foi bebida em almoço no fim do ano passado. Colhida em 4 de outubro daquele ano, resultou em 9012 garrafas e 500 magnums. O degorgement foi feito em fevereiro de 2013 depois de oito anos sur lies. Chardonnay elegante, refinado, extremamente delicado, expansivo, medidativo, destacando o terroir excepcional de Avize.  Que champagne! Ou melhor, que champagnes!

Borbulhas sem comparação

19 de Dezembro de 2020

Duas champagnes artesanais que valem a pena conhecer

Certas coisas não se replicam. Trufas brancas de Alba, caviar do Cáspio, pata negra da Península Ibérica (para não tomar partido na disputa entre portugueses e espanhois), champagne. A região das melhores borbulhas do planeta vitis não apenas enseja os melhores espumantes como história: foi na catedral de Reims que Napoleão Bonaparte se fez imperador em 1804, rompendo uma tradição histórica e criando um novo paradigma político na Europa do século XIX.

Champagne é para se beber todo o dia, de preferência, seguindo a máxima de madame Lilly Bollinger, mas é nessa época que muitos buscam algumas garrafas especiais. Num ano difícil como 2020, celebrar a chegada de 2021 que se espera melhor, seguem algumas dicas de champagnes disponíveis no mercado brasileiro. Ah, sim, para os leitores habituais, não se falará aqui de Jacquesson, para não se chover no molhado.

Assim como em várias regiões da França, como a Bourgogne, uma geração de jovens viticultores deixou de vender uvas para terceiros e passou a vinificar eles próprios seus “quintais”, o que fez um punhado de excelentes vignerons ganhar destaque, seguindo a esteira de Selosse. Com Agrapart e Cédric Bouchar ainda em vias de chegar ao Brasil, via Clarets, há dois produtores que merecem atenção especial, ambos trazidos pela importadora Anima Vinum.

DHONDT-GRELLET DESSIN - square.jpg

Um é a estrela em ascensão Dhondt Grellet, que surgiu em 1986 quando Eric e Edith pararam de vender a terceiros e abriram as portas. Quando o filho do casal, Adrien,nascido em 1991, assumiu o comando nos últimos anos, em pouco tempo chamou a atenção da mídia especializada. William Kelley, o garoto em ascensão, crítico de Champagne e Bourgogne para o site que um dia foi de Robert Parker, falou recentemente que, se você tiver de investir em um novo produtor, aqui está ele. Kelley tem razão. Adrien tem parcelas em duas villages: Cramant (Grand Cru) e Cuis (Premier cru).

Terres Fines é uma assemblage de pequenas parcelas esparramadas por Cuis, um blanc de blancs delicado, mineral, profundo, gastronômico, substantivos que pedem que a garrafa não termine. Excelente pedida para início das refeições ou para brindar o novo ano, que não venha com vírus.

Se a ideia for abrir um champagne rosé, a dica aqui vem dos irmãos Raphael e Vincent Bérêche, cuja casa data de 1847, mas que ganhou espaço mais recentemente, com a revolução das champagnes artesanais há uma década. Em entrevista ao site Pisando em Uvas, Peter Liem, uma das maiores autoridades em borbulhas do planeta, disse que a casa era uma das suas preferidas, com um trabalho excelente nos últimos anos. O destaque aqui vai para a Campania Remensis, o nome romano da região ao redor de Reims. Dois terços do vinho é de pinot noir, incluindo uma porção de vinho seco para ajudar na cor rosé, com um toque de acidez dado pela chardonnay (20%) e o restante de Pinot Meunier. Gastronômico, refinado, complexo, ideal para pratos como um belo pernil, por que não?

Mas não apenas de champagnes artesanais se vive. James Bond sabia das coisas. Sua escolha variou, a depender das décadas dos filmes, entre Tatittinger, Dom Pérignon e Bollinger, mas o agente secreto com licença para matar nunca se deu mal. A safra 2008 da Dom Pérignon não foi experimentada ainda pelo site, mas vem muito bem recomendada por um paladar que esse autor aqui assina embaixo na maioria das vezes: John Gilman. Gilman, que faz a sua trimestral “The View from the cellar” disse que a 2008 é uma das melhores DPs que ele já bebeu jovem, com um futuro extremamente promissor, o que lhe fez dar 97+ . Kelley, na Robert Parker, deu 96 pontos e disse se tratar do melhor lançamento desde a mítica 1996.

Eu, que tive o prazer de beber a Dom Pérignon 1996 P1 e P2 com o Nelson, meu mestre, há uns cinco anos, penso em comprá-la para abri-la em um momento especial. Assim como o agente secreto, o monge sabia das coisas. Se 2008 for como a 1996, o ano passará muito melhor.


Borbulhas não apenas para o fim do ano

3 de Dezembro de 2020

O consumo de espumantes ainda está muito ligado às festas de fim de ano, mas cabe aqui sempre repetir a máxima de Lilly Bollinger sobre Champagne. “Bebo-a quando estou feliz e quando estou triste. Algumas vezes, também quando estou só. Quando tenho companhia a considero obrigatória. Brinco com ela quando estou sem apetite e a bebo quando estou com fome. Fora isso, nunca a toco, a menos que esteja com sede”.

Versatilidade ímpar, da entrada às sobremesas, apenas mudando a dosagem de açúcar, os espumantes vão muito bem com as entradas, das mais simples às mais complexas, como salgadinhos, canapés de salmão defumado, vieiras grelhadas. Nos pratos principais, dependendo de safras e qual a uva é a principal no corte (pinot noir vai muito bem com aves; chardonnay faz maravilhas com boa parte dos frutos do mar), eles também escoltam excepcionalmente bem.

Ferrari Perle 2006

Dito isso, quais são as opções existentes no mercado brasileiro? (As champagnes ganharão post específico na próxima semana)

Brasil

Você quer um espumante brasileiro versátil, bem feito, com bom preço? A preferência recai sobre Adolfo Lona, cujos rótulos são coringas à mesa,sendo boa parte abaixo de R$ 80. Argentino, Lona veio para o Brasil na década de 1970 trabalhar com as multinacionais que começavam a investir no terroir gaúcho. Ficou por lá. Produz bons espumantes, talvez os melhores do Brasil. Diego representa os vinhos em SP: 11.95133.4000 diego_graciano@hormail.com

Espanha

Se você estiver procurando uma opção estrangeira de boa relação qualidade preço, a Clarets traz as melhores borbulhas espanholas: Juvé Camps, situada em Sant Sadurní d´Anoia, a melhor região de Cavas, controla todo o processo de elaboração, desde vinhedos próprios, até todas as fases de vinificação. A Cinta Purpura sai por cerca de 100 reais.

Portugal

Na Bairrada, terra do famoso leitão, Luis Pato elabora com a casta local Maria Gomes um dos bons espumantes da terrinha. Na Mistral, por cerca de R$ 170.

Itália

Em Trento, a italiana Ferrari faz excelentes espumantes, em todas as gamas de preços. Às cegas,é duro dizer que não se trata de Champagne. Gosto é subjetivo, mas não troco um Ferrari por uma básica Moet nem por uma Veuve Clicquot. Na Decanter.

França

Alsace

Quem tem terroir tem tudo. Não se vive apenas de Champagne na França. Olho nos crémants. Os mais famosos estão na Alsace, terroir mais conhecido pela produção dos melhores rieslings franceses. São elaborados com as uvas Pinot Blanc, Pinot Gris, Pinot Noir, Riesling, Auxerrois e Chardonnay. Existe a versão rosé, elaborada com Pinot Noir. O vinho permanece pelo menos nove meses sur lies antes do dégorgement (expulsão dos sedimentos e colocação da rolha definitiva). Na ótima importadora franco-carioca Taste Vin, o bom espumante de René Muré para entradas e para abrir os trabalhos: https://www.tastevin.com.br/produto/cremant-d-alsace-brut/

Languedoc

Blanquette Antech Réserve Brut, 2017 - Espumante - Rótulo de garrafa de vinho da França da região Languedoc

Elaborado na região do Languedoc, perto de Carcassonne. As uvas para o Crémant são: Chardonnay e Chenin Blanc, as principais, complementadas por Mauzac e Pinot Noir. Permanece pelo menos quinze meses sur lies. A importadora Delacroix traz o Blanquette Antech Réserve Brut, 2017, um corte de 90% Mauzac, 5% Chenin e 5% Chardonnay. https://www.delacroixvinhos.com.br/products/blanquette-antech-reserve-brut-2017-1295-940-espumante

Bourgogne

A terra do pinot noir e do chardonnay, berço de Romanées e Montrachets, tem opções de borbulhas. São os crémants de Bourgogne, apelação da Borgonha com as uvas Pinot Noir e Chardonnay, podendo ter eventualmente as uvas Gamay e Aligoté. Permanece pelo menos nove meses sur lies.Uma opção na Cellar é o crémant do domaine Edouard. https://www.cellarvinhos.com/cremant-de-bourgogne-nature.

Em tempo: As champagnes ganharão post específico na próxima semana