Uma lista de uma parte dos vinhos que me chamaram a atenção nesse ano, buscando trazer nomes que estão sendo importados no Brasil, mesmo que estejam esgotados. Não há vinhos soberanos, aqueles que são de safras muito antigas ou de produtores sem representação no país. Maior ausência são os Estados Unidos, mas bebi apenas vinhos da Califórnia de produtores sem importação no Brasil, como os excelentes Rhys. Itália ganhará um ranking à parte em breve, do sul ao norte, França, idem.
Alemanha
Num mundo em que se normalizou borgonha de entrada acima de R$ 500, a Alemanha tem ganho destaque na minha mesa e adega, com opções muito além da rainha das uvas, a riesling. Chardonnays e pinot de alta qualidade com preço ainda muito atraente.
Espumantes: Moritz Kissinger Blanc de Blancs Brut Nature (Maison Sirino)
Chardonnay: Moritz Kissinger 2021 (Maison Sirino); Weingut Martin Wassmer, 2021 Dottinger Castellberg Chardonnay GC (Cave Léman); Weingut Martin Wassmer SW (Cave Léman); Astheimer Chardonnay Fürst (Cave Léman)
Riesling qualidade preço: Hermann Ludes Mosel Riesling 2023 (Cave Léman); Hermann Ludes Thörnicher Ritsch Kabinett 2022 (Cave Léman); The Green Hill 2023 (Wines4U)
Riesling: Wittmann Morstein 2020 (Weinkeller); Kiedrich Gräfenberg Riesling Grosse Lage Trocken GG 2022 (Mistral); Clemens Busch VDP. Grosse Lage Marienburg Fahrlay GG Riesling Trocken 2022 (Premium Wines)
Tintos qualidade preço Jurgen Von der Mark Merdinger 2022 (Cave Léman); Ergenstein Pinot Noir 2021 (Cave Léman)
Argentina Uma degustação às cegas de Noemias mostra que a Malbec na Patagônia cria grandes vinhos. Um Estiba Reservada às cegas aprontou para margem esquerda de Bordeaux, safras novas desse vinho não decepcionam.
Brancos: Catena Zapata Adrianna Ch. White Bones 2015 (Mistral)
Tintos: Noemia 2022 (Vinoterra); A Lisa 2024 (Vinoterra); Catena Zapata Estiba Reservada 1997
Austrália
Tem muita coisa boa tinta no mundo dos cangurus.
Brancos: (nenhum bebido)
Tintos: Mount Edelstone Henschke (Mistral)
Brasil
Espumantes abaixo de 150 reais? Tem, aliás, o Danio Braga, Fasano e o Claude Troisgros já descobriram há anos.
Espumantes: Trinta (Adolfo Lona); Brut Tradicional (Adolfo Lona)
Chile
Quebrada seca é o terroir em que se fazem os melhores brancos da América do Sul?
Brancos: Baettig Vino de Viñedo Los Parientes Chard 2022 (World Wine); Retamal Quebrada Seca 2021 (Decanter)
Tintos: Seña 2021
Espanha
Galicia desperta paixões, olhares e dinheiro, não à toa Vega Sicilia está com novo projeto para ser lançado em breve.E um tinto que merece atenção: uvas Garnacha de um vinhedo único, de mais de 100 anos de idade, plantado em altitudes muito elevadas. O tinto é vinificado em uma única barrica de carvalho de 4000 litros, produzindo quase 400 caixas de um vinho a se conhecer.
Muitas novidades e muitos vinhos bons na terrinha, que continua sendo um refúgio seguro diante da escalada de preços na Itália e na França.
Brancos: Dominío do Açor Cerceal 2022 (Clarets); Casa da Passarella O Oenólogo Encruzado 2020 (Premium Wines); Lobo de Vasconcellos LV Reserva Branco 2021 (Premium Wines); Fazendas da Areia Caracol dos Profetas (Emi Wines); Textura da Estrela (011)
Tintos: Quinta da Perdonda Dão DOC 1° Talhão (1948) 2018 (Premium Wines); Casa da Passarella O Fugitivo Vinhas Centenárias 2017 (Premium Wines); Quinta da Pellada 2016 (Mistral); Xisto Cru 2014 (Clarets)
Qualidade Preço: Susana Esteban em promoção na Adega Alentejana
No rarefeito universo dos vinhos, a Maison Krug ocupa uma posição diferenciada, seja nas borbulhas, seja entre vinhos tranquilos. É muito mais que quatro letras. Representa uma filosofia de tempo e individualidade que permanece inalterada desde sua fundação em 1843. Degustar uma sequência de safras como 1998, 2000, 2004 e 2006 de uma propriedade dessas é antes de tudo um privilégio e não é um exercício sensorial de comparação climática, mas uma imersão na visão de um homem que se recusou a aceitar a fatalidade das colheitas ruins. Para compreender o que está na taça durante essa degustação, com vinhos acima de 95 pontos, é preciso primeiro compreender a obsessão que forjou e se basear nos detalhes que John Gilman escreveu há alguns anos em uma visita à maison, em um artigo intitulado “A Bit More Detail on Champagne Krug”.
A história começa com Joseph Krug, um visionário nascido em Mainz que, após anos trabalhando na renomada casa Jacquesson, sentiu-se frustrado com a inconsistência da qualidade ditada pelos caprichos do clima em Champagne. Joseph dividiu sua produção em duas categorias distintas. A primeira, que ele chamou de Cuvée No. 1 (hoje a icônica Krug Grande Cuvée), seria a recriação anual da “Champagne perfeita”, uma orquestra sinfônica composta por mais de 120 vinhos de mais de 10 anos diferentes. A segunda, a Cuvée No. 2, seria o que hoje chamamos de Krug Vintage (ou Safrada).
Aqui reside a definição fundamental da filosofia Krug para suas safras: uma Krug Vintage não é criada apenas porque o ano foi “bom” ou tecnicamente perfeito. Um ano péssimo inviabiliza sua produção, mas é preciso mais. Ela é criada porque o ano tem uma história única a contar. Se a Grande Cuvée é a busca pela harmonia absoluta, a Krug Vintage é o momento do solista. É a interpretação de um ano específico através da lente intransigente da Krug.
Para compreender o peso de uma garrafa safrada da Krug, é preciso entender o rigor do momento de sua concepção. Segundo John Gilman, de View From the Cellar, a decisão de declarar um ano como “Vintage” não se baseia apenas na qualidade técnica. O Comitê avalia dois critérios supremos e inegociáveis:
A Narrativa Única: A safra é expressiva o suficiente para contar uma “história única” através das lentes do artesanato Krug?
A Integridade Estrutural (O Teste do Século): O vinho possui a estrutura necessária para evoluir graciosamente por uma janela de tempo extremamente longa? A Maison trabalha com a perspectiva de que uma Krug Vintage pode beber maravilhosamente bem por até um século. As decisões tomadas por Eric Lebel e Olivier Krug nas caves hoje serão julgadas pelos netos e bisnetos dos atuais clientes.
A filosofia da Krug dita que o vinho só é liberado quando está pronto para dar prazer, e não quando o mercado exige. Um exemplo clássico citado, que ilustra perfeitamente essa independência, foi o lançamento das safras de 1988 e 1989.Embora 1988 tenha vindo cronologicamente antes, o vinho apresentava-se “tenso, vivo e fechado” (tight and snappy) após seus dez anos regulamentares em cave. Em contrapartida, a safra de 1989, embora posterior, mostrava-se opulenta e generosa. A decisão da Maison? Inverter a ordem. A Krug lançou a 1989 primeiro e reteve a 1988 por vários anos adicionais nas caves de Reims, até que ela “desabrochasse”. Poucas casas no mundo teriam o capital financeiro e a disciplina para reter um estoque pronto em prol da perfeição sensorial.
Isso também explica a diferença da Krug 1989 para seus pares. Enquanto muitos Champagnes de 1989 de outros produtores eram maduros demais e já passaram do apogeu, a Krug 1989 mantém até hoje uma “espinha dorsal” de acidez e mineralidade que a preserva vibrante, provando que a seleção rigorosa de estrutura paga dividendos décadas depois.
Filosofia posta, o que une as safras de 1998, 2000, 2004 e 2006? O método. A Krug fermenta 100% de seus vinhos em pequenos barris de carvalho velho, boa parte deles com 20 anos de vida. O objetivo não é conferir sabor de madeira, longe disso, mas permitir uma micro-oxigenação que “imuniza” o vinho contra a oxidação futura, garantindo uma longevidade lendária.
A obsessão pelo detalhe é absoluta: cada parcela de vinhedo é vinificada separadamente. Um “Cru” não é tratado como um bloco monolítico; se uma parte do vinhedo tem uma exposição solar diferente, ela se torna um vinho separado. Essa abordagem “parcela por parcela” dá ao Chef de Cave e ao Comitê de Degustação, composto por seis pessoas, uma paleta de cores infinita para compor o retrato do ano. E, finalmente, há o tempo: uma Krug Vintage repousa nas caves de Reims por no mínimo dez anos antes de ver a luz do dia, desenvolvendo uma complexidade que poucos vinhos no mundo conseguem alcançar.
Ao analisar a sequência degustada, percebemos como a filosofia da casa se adapta para narrar quatro histórias climáticas radicalmente diferentes. A Krug atribui “apelidos” ou definições de personalidade para cada uma de suas safras, capturando a alma do vinho.
1998: Hommage au Chardonnay (Tributo ao Chardonnay) A safra de 1998 marca uma quebra de paradigma. Historicamente conhecida pelo domínio do Pinot Noir, a Krug viu-se diante de um ano de contrastes extremos: um agosto escaldante seguido de chuvas em setembro. Enquanto muitos produtores lutaram com a maturação, o Chardonnay da Krug, especialmente os vinhedos de Le Mesnil-sur-Oger, brilhou com uma pureza e frescor tão intensos que salvou o ano. O Comitê decidiu, em um gesto raro, dar ao Chardonnay o protagonismo absoluto (46% do corte). O resultado é um vinho de “classicismo e pureza”. Com quase três décadas de vida, está no seu platô. É a safra da precisão. Detalhe: apenas em 1981 o predomínio da Chardonnay foi tão expressivo no corte. Harmonização com codornas e morilles.
2000: Gourmandise Orageuse (Indulgência Tempestuosa) Se 1998 é a precisão clássica, 2000 é a generosidade caótica. O apelido “Tempestuosa” refere-se a uma temporada de cultivo imprevisível e difícil, que culminou em uma colheita que surpreendeu pela riqueza. A Krug 2000 é definida por sua opulência. É um vinho intenso e imediatamente gratificante e que, aos 25 anos, ainda esbanja juventude, eu a colocaria um degrauzinho acima da 1998. No nariz e na boca, explodem notas de caramelo, avelãs tostadas e frutas maduras. É uma safra que não pede licença; ela arrebata com acidez e um final longo. É o a maturidade com toque da juventude. É a prova de que o caos climático pode gerar um prazer profundo e hedonista. Harmonização com codornas e morilles.
2004: Lumière Fraîche (Luminosidade Fresca) Após o calor tórrido de 2003, o ano de 2004 trouxe um retorno ao equilíbrio e à frescura, mas com uma luminosidade fresca, cativante, pronta. A natureza foi generosa em quantidade e qualidade, permitindo que as uvas amadurecessem mantendo uma acidez elétrica. A Krug definiu esta safra como “Lumière Fraîche” para capturar sua tensão vibrante. A 2004 é estruturada e brilhante. O nariz é dominado por gengibre, frutas cítricas cristalizadas e um toque mentolado. Na boca, é vertical, direta e cristalina. Enquanto a 2000 é horizontal e ampla, a 2004 é um raio, prometendo uma evolução lenta e graciosa nas próximas décadas. Difícil resistir à sua juventude expansiva hoje. Ela tem um quê da 2002 (talvez a melhor da última década), mas em uma esfera inferior. Harmonização com vieiras e beurre blanc.
2006: Caprice Indulgent (Capricho Indulgente) Fechando a sequência, a safra de 2006 apresenta uma personalidade que flerta com o exagero, mas com a sofisticação da Krug. Foi um ano quente, com períodos secos e chuvosos intercalados, resultando em uvas de grande maturidade e concentração. Na definição da casa, “Caprice Indulgent” reflete um vinho que é redondo, generoso. Nesse caso, a garrafa não mostrou isso, um vinho ainda fechado, contido, como se fosse um Chevalier Montrachet de madame Leflaive ou o Bouchères de Jean Marc Roulot. Na sua infância Diferente da tensão elétrica da 2004 ou da elegância contida da 1998 ou do arrebatamento da 2000, a 2006, tímida, talvez esteja em sua transição. Harmonização com aves.
Degustar as quatro safras lado a lado é testemunhar a aplicação prática da filosofia de Joseph Krug. Não se trata de buscar um padrão imutável — para isso existe a Grande Cuvée — mas de permitir que o terroir e o clima ditem a narrativa. Da elegância focada no Chardonnay de 1998 à opulência tempestuosa de 2000, passando pela luminosidade vibrante de 2004 e chegando timidez de 2006, a Krug demonstra que uma “safrada” não é apenas um vinho datado; é a captura líquida da memória de um ano, imortalizada pela paciência e pela arte do assemblage.
Como dizia o Nelson, “me perdoem Selosse e os amantes das independentes, mas Krug é Krug”. Em tempos em que Montrachets de primeiro nível saem a mais de US$ 3 mil a garrafa, essas champagnes se tornam um refúgio seguro.
Como também dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug.”
O paladar global está caminhando para uma tendência nos vinhos brancos. Vejo muitas pessoas buscando vinhos mais tensos, com acidez mais evidente. Vemos essa tendência na Borgonha e em todo o mundo. Jean-Louis Chave diz que hoje em dia é difícil vender o Hermitage Blanc. Como você vê isso?
A mudança na preferência dos consumidores por vinhos brancos mais frescos e vivos é um ótimo sinal, e é maravilhoso ver que tantos produtores também estão seguindo essa direção, elaborando vinhos com tanta precisão, mineralidade e tensão estrutural.
Concordo que os apreciadores de vinho hoje estão em busca de vinhos brancos mais crocantes, vibrantes e leves no palato, que, simplesmente, funcionam melhor com uma gama mais ampla de alimentos. Às vezes olho para trás e me pergunto como conseguia beber todos aqueles vinhos brancos mais ricos, pesados e macios na juventude, pois realmente os amava nos meus primeiros anos bebendo vinho!
Mas, voltando à declaração de Jean-Louis sobre a dificuldade de vender o Hermitage Blanc hoje, sou velho o suficiente para lembrar o quão difícil era vendê-lo na década de 1980, quando os vinhos eram mais crocantes e frescos do que são hoje, já que o aquecimento global ainda não havia começado a se impor em Hermitage. Gérard Chave, pai de Jean-Louis, fazia Hermitage Blanc absolutamente deslumbrantes naquela época — e ainda assim era praticamente impossível vender seus brancos. Eu frequentemente tinha duas ou três safras de Chave Blanc encalhadas nas prateleiras da loja.
E os preços naquela época eram verdadeiras pechinchas: Hermitage Blanc e Rouge de Chave custavam sempre o mesmo valor, por volta de US$ 35 a garrafa. Mesmo com os preços subindo um pouco no final da década, eu comprei uma caixa de Hermitage Rouge de Chave para minha adega todos os anos entre 1989 e 1997, porque era um dos maiores valores entre os vinhos tintos do mundo. Suspeito que Jean-Louis conseguiria vender todas as garrafas de vinho branco que produz hoje — se fossem vendidas por aqueles preços antigos!
Dito isso, o aquecimento global mudou completamente o Hermitage Blanc desde meados dos anos 1990, e o vinho agora é tão encorpado, opulento e relativamente alcoólico que provavelmente sou uma das poucas pessoas que nem o compraria para minha adega, mesmo a US$ 35 por garrafa. Simplesmente não gosto deles tão pesados e intensos. Antigamente, o Hermitage Blanc de Gérard Chave era tão fechado e estruturado em sua juventude — embora ainda fosse um vinho grande — que precisava ser guardado por no mínimo dez a quinze anos antes que alguém realmente pudesse apreciá-lo. Era simplesmente monolítico e impenetrável antes disso.
Participei de uma degustação vertical de Hermitage da Chave aqui em Nova York alguns anos antes da pandemia, e foi impressionante como os estilos dos vinhos brancos de Jean-Louis e de seu pai eram dramaticamente diferentes. Claro que parte disso se deve ao aquecimento global. Mas também devemos reconhecer que Hermitage Blanc e Hermitage Rouge jamais deveriam ter sido vendidos pelo mesmo preço, pois, para o meu paladar, os tintos são simplesmente vinhos intrinsecamente superiores — e a distância entre a qualidade final do Blanc e do Rouge parece aumentar a cada ano de mudança climática.
Para mim, hoje é em Saint-Péray que se produzem os melhores vinhos brancos do norte do Rhône, pois o clima lá é mais fresco, o que facilita muito a obtenção do corte, da frescor e da tensão nos vinhos — exatamente o que você observou com sabedoria ser a preferência do mercado atual.
Há muitos bons produtores e vinhos bem precificados ao redor do mundo. Qual é o seu conselho? O que você diria aos novos apreciadores? Explorar novas regiões?
Com certeza. Ainda há muitos vinhos excelentes sendo produzidos hoje em dia a preços razoáveis. Então, um jovem apreciador pode construir uma adega brilhante para os próximos anos simplesmente focando nos melhores produtores de regiões que ainda não enlouqueceram nos preços.
Você mencionou a família Chermette em Beaujolais. Tenho muito Cru Beaujolais na minha adega atualmente e gostaria de ter comprado mais no início da minha jornada como colecionador. Comecei a vender os vinhos de Pierre-Marie Chermette na safra de 1988, então os conheço há muito tempo — e sempre foram excelentes, com grande capacidade de envelhecimento. Beber um exemplo plenamente maduro de Cru Beaujolais de um dos principais produtores é algo maravilhoso, e hoje existem muitos deles: a família Chermette, Clos de la Roilette, Jean-Paul Brun, Pauline Passot, Château Thivin, Domaine des Billards, Daniel Bouland, Domaine du Pavillon de Chavannes são apenas alguns dos vignerons e vigneronnes que estão fazendo vinhos absolutamente deslumbrantes, dignos de serem guardados por dez a trinta anos.
E agora também temos algumas das melhores vinícolas da Côte d’Or produzindo Beaujolais. Joseph Drouhin sempre fez um excelente Beaujolais, e ele envelhece muito bem. Ainda estou bebendo os Crus de 2009 e 2010 da Drouhin da minha adega. Louis Boillot, Chantal e Frédéric Lafarge também estão fazendo Cru Beaujolais de alto nível para envelhecer.
Na Espanha, fora dos nomes mais consagrados e antigos, ainda é possível encontrar vinhos com ótimo custo-benefício — especialmente em regiões emergentes como a Galícia e as montanhas da Serra de Gredos. Você mencionou os vinhos de Alberto Nanclares, cujos Albariños são verdadeiramente mágicos e envelhecem facilmente por dez a vinte anos. E há outros grandes produtores de Albariño além de Alberto e sua esposa Silvia Prieto. Adoro os vinhos da Adegas Zárate, Palacio de Fefiñanes, Adegas Gran Vinum, Bodegas La Val, Do Ferreiro e vários outros. Suas cuvées de topo envelhecem lindamente e são excelentes investimentos. E, ao meu ver, os melhores vinhos da Galícia hoje estão sendo feitos em Ribeira Sacra e Bierzo.
Eulogio Pomares, da Adegas Zárate, iniciou um novo projeto em Ribeira Sacra chamado Quinta do Estranxeiro — e os vinhos são impressionantes (tanto os brancos quanto os tintos), com preços bastante acessíveis. Produtores como Envínate e Guímaro já são relativamente bem conhecidos por seus ótimos tintos da Ribeira Sacra — um pouco mais caros, mas ainda assim verdadeiras barganhas se comparados a preços de regiões mais famosas. A Adegas Algueira também faz vinhos excepcionais, mais uma vez, tanto brancos quanto tintos. E gosto bastante dos vinhos de produtores como Adega Damm, Castro Candaz, Divina Clementia e Dominio do Bibei.
Já em Bierzo, há pelo menos tantos bons produtores quanto em Ribeira Sacra — liderados por Raúl Pérez, Ricardo Pérez da Descendientes de José Palacios, Luna Beberide e a Virgen del Galir, vinícola do grupo Cuné em Valdeorras, que também está produzindo vinhos excelentes com preços relativamente muito acessíveis.
Você também mencionou Éric Texier. Adoro os vinhos do Éric e tenho vários na minha adega. Ele sempre foi particularmente atento à relação qualidade-preço, e, em especial, seus vinhos de Brézème estão entre os maiores achados do Vale do Rhône.
E você também citou os vinhos da Schloss Lieser. A Alemanha tem inúmeros grandes produtores hoje em dia e, como mencionei antes, até agora eles têm se saído relativamente bem na corrida contra o aquecimento global. É possível comprar vinhos no estilo clássico meio seco com ótimo preço, de produtores como Weingut Willi Schaefer — ou Rieslings secos ou doces de uma longa lista de vinícolas que estão no auge: Schloss Lieser, Julian Haart, Dönnhoff, Weiser-Künstler, Schäfer-Fröhlich, a família Zilliken, Maximin Grünhauser, entre muitos outros. Com certeza estou esquecendo dezenas que mereciam estar nessa lista.
Os vinhos alemães ainda representam ótimos valores hoje em dia, fora alguns dos nomes mais badalados. Portanto, esses vinhos seriam a base da minha adega se eu estivesse começando agora, jovem. O Riesling envelhece tanto quanto a maioria dos tintos — e melhora drasticamente com o tempo em adega — então há muitos tesouros a serem descobertos no futuro por aqueles que tiverem a sabedoria de comprá-lo agora.
Um dos maiores impactos de Robert Parker no mundo do vinho foi que muitas vinícolas e consultores passaram a fazer vinhos encorpados e potentes para garantir boas notas. Isso acabou? Ou Parker foi substituído pela “ansiedade” — já que no Brasil, por exemplo, muitas pessoas não querem esperar 10, 15 ou 20 anos para beber um grand cru, um Bordeaux ou um Vega?
Essa foi uma fase triste da, de outro modo, muito respeitável carreira de Robert Parker — quando seu paladar se deteriorou a ponto de ele passar a adorar vinhos grandes, alcoólicos e sobremaduros. Tenho uma teoria de que o desenvolvimento da gota teve algo a ver com isso, pois minha intuição me diz que os medicamentos que ele tomava para controlar a gota afetaram negativamente seu paladar na última década de sua atividade como crítico. Não sei se isso é um fato. Mas parece que o início da gota e sua paixão por vinhos mais alcoólicos e maduros coincidem no tempo.
De qualquer forma, não há dúvida de que produtores em regiões onde a influência de Parker era crucial para o sucesso financeiro começaram a moldar seus vinhos unicamente para impressionar esse novo paladar dele. Pessoas como Michel Rolland foram rápidas em capitalizar essas mudanças — e fizeram fortunas atendendo ao gosto de Parker naquela época. Pode-se até argumentar que Bordeaux nunca se recuperou disso. Helen Turley fez algo semelhante na Califórnia, aproveitando-se do apreço de Parker por seu estilo de vinho — e muitos proprietários gananciosos de vinícolas foram rápidos em contratá-la para aproveitar esse favoritismo. Isso funcionou bem para Rolland, Helen, Parker e os donos de vinícolas — mas deixou muitos colecionadores com adegas cheias de vinhos medíocres, na minha opinião.
Indo para a outra parte da sua pergunta, a relutância atual dos consumidores em envelhecer vinhos é uma das grandes questões incertas do nosso tempo. Isso é bom para o mundo do vinho ou é ruim?
Compreendo totalmente o impulso de querer beber vinhos cedo — também abri muito mais vinhos da safra 1985 da Borgonha nos primeiros anos do que deveria. Se eu tivesse guardado esses vinhos até hoje, com certeza estaria em ótima situação! Vou usar como desculpa o fato de que a safra de 1985 foi um ponto de virada na minha carreira no comércio de vinhos. A loja para a qual eu comprava vinhos na época nunca havia oferecido vinhos de alto nível da Borgonha antes de me contratar. Aí veio a safra de 1985 e eu arrisquei: achei que, se comprássemos os vinhos, os amantes da Borgonha encontrariam a loja. E foi exatamente o que aconteceu — embora meus chefes quase me demitissem quando viram os preços!
Mas eles me deram a chance de vender antes — e vendemos rapidamente. Alguns desses novos clientes me convidaram para entrar em um grupo de degustação às cegas. Eram, em sua maioria, médicos vinte ou trinta anos mais velhos que eu (eu tinha 26 anos na época), com adegas profundas, repletas de grandes vinhos. Lembro de alguns dos voos de vinhos do primeiro encontro: uma rodada com BV Private Reserve 1970 ladeado por Mouton e Pétrus da mesma safra; outra com Bonnes-Mares 1969 de Roumier ao lado de Richebourg 1969 de Jean Gros. Aprendi muito com esse grupo.
Mas eu precisava ter algo à altura para servir quando era minha vez de organizar uma degustação. Por isso, muitos dos meus melhores vinhos de 1985 da Borgonha foram servidos a esses médicos, pois eram deliciosos ainda jovens — e me permitiam retribuir a generosidade deles com algo igualmente deslumbrante.
Talvez eu não tivesse desenvolvido a mesma paixão por vinhos plenamente maduros se não tivesse sido incluído nesse grupo de degustação. Muita gente no comércio de vinhos se contenta em beber vinhos jovens — provam vinhos o dia inteiro e sempre sobra alguma garrafa aberta para levar para casa. Mas acho isso uma pena, pois vinhos clássicos, feitos de forma tradicional, são infinitamente mais complexos e gratificantes após dez ou vinte anos de adega. Depois que você tem essa experiência, é difícil voltar e encontrar o mesmo prazer em vinhos jovens — pelo menos para mim.
Mas a equação hoje é mais complicada. Primeiro, o vinho está muito mais caro. É muito mais difícil montar uma adega se você não for rico. O custo de vida subiu drasticamente nas últimas três décadas, e cada vez menos pessoas têm renda disponível para guardar caixas de vinho por 20 anos. Eu cresci na classe média, mas consegui formar uma adega porque, na época, o vinho ainda era acessível. Uma garrafa de Lynch-Bages 1985 custava US$ 18, e o Pichon-Lalande da mesma safra, US$ 22. Mesmo com um salário modesto, eu conseguia guardar algumas garrafas para longo prazo. A primeira garrafa de Chambertin de Rousseau que comprei (e foi um grande esforço!) custou US$ 65. Mas eu economizava em outras coisas — quase não tirava férias e nunca tive um carro novo. Mesmo hoje, dirijo bons carros — mas sempre usados.
Se eu estivesse começando agora, com o mesmo tipo de sacrifícios e salário, provavelmente conseguiria comprar uma fração mínima do que comprei nos anos 1980 e 1990. A não ser que focasse em outras regiões, diferentes de Bordeaux, Borgonha, Rhône e Califórnia.
Por isso faz total sentido que tantos jovens queiram beber seus vinhos especiais logo. Se gastam uma fortuna em uma garrafa, não querem enterrá-la na adega por 15 anos. O problema é que, se o vinho for clássico em estilo, ele foi feito para envelhecer — e não estará nem perto de seu melhor se aberto cedo.
E é importante reconhecer que o número de vinhos clássicos está crescendo nos últimos tempos, pois cada vez mais jovens enólogos querem deixar para trás a era Parker e retornar a vinhos estruturados de maneira tradicional. É por isso que os grandes produtores tradicionais de Rioja prestam um grande serviço aos consumidores — ainda fazem boa parte do envelhecimento em garrafa antes de lançar seus vinhos. Os preços subiram, claro — alguns mais do que outros —, mas ao menos permitem que o consumidor beba vinhos já maduros e entenda do que se trata.
Se voltarmos à máxima de Henri Jayer — de que tudo o que é grandioso em um vinho nasce no vinhedo, e não na adega —, podemos traçar uma linha entre os dois grandes estilos de vinho atuais. Um deles é o vinho feito no vinhedo, geralmente por jovens inspirados que buscam resgatar a era de ouro dos vinhos tradicionais. Um ótimo exemplo é o casal Sean e Joanna Castorani, da Model Farm, na Califórnia — jovens produtores que compreendem o valor dos vinhos clássicos e seguem esse caminho.
O outro grupo são os modernistas, que fazem vinhos na adega, ajustando tudo para que estejam prontos para beber jovens. Penso neles como os “produtores de fast food do vinho” — moldam seus produtos com técnicas de adega da mesma forma que McDonald’s ou Nabisco. São filosofias completamente diferentes. E eu, pessoalmente, acho a abordagem tradicionalista muito mais atraente.
Mas ela exige consumidores que entendam, apreciem e estejam dispostos (e possam) dar tempo ao vinho — porque os vinhos tradicionais são sempre mais estruturados quando jovens. E, sinceramente, não sei quantos jovens consumidores hoje compreendem isso e estão dispostos a esperar que esses vinhos desabrochem. Lembre-se: a maioria dos adultos hoje tem uma atenção de apenas sete segundos… por causa dos celulares!
O jornalismo de vinhos passou por muitas mudanças. O Wine Advocate foi comprado pelo Michelin, o Vinous organiza muitos eventos no X e no Instagram há muitos “críticos de vinho”. Como você vê essa tendência e seu impacto, considerando também que escrever sobre vinhos exige viagens, degustações — ou seja, custa caro? Está se tornando mais difícil manter a imparcialidade?
Mais uma vez, provavelmente não sou a melhor pessoa para responder a essa pergunta agora, já que não leio nenhum outro crítico ou jornalista de vinhos atualmente. Mas eu lia absolutamente tudo que era publicado quando trabalhava como comerciante e sommelier. Então eu sei muito bem como era “naquela época”.
Na verdade, foi a escrita de Robert Parker, no início de sua carreira, que realmente me fez considerar o comércio de vinhos como uma possível profissão. Eu lia The Wine Advocate de capa a capa a cada edição e ficava imaginando como seria provar todos aqueles vinhos históricos e grandiosos que ele descrevia. Vinhos como o Hermitage “La Chapelle” 1961 de Jaboulet, ou o Château Pétrus 1961, sempre mexiam com a minha imaginação. Eu queria experimentá-los.
Mas, como você corretamente apontou, mesmo naquela época já custava caro beber esses vinhos lendários — e hoje está ainda pior. Agora, tudo que é famoso no mundo do vinho tem preço voltado exclusivamente para os oligarcas do Putin ou o LeBron James e seus amigos!
Então, se alguém quiser entrar para o jornalismo de vinhos hoje, ou já vem de uma família rica e não precisa se preocupar com dinheiro, ou precisa criar um modelo de negócios que gere bastante receita para bancar todas as viagens e vinhos caros que precisa provar. Provavelmente tive sorte de nascer na época certa, pois mesmo os vinhos mais famosos não eram tão caros quando comecei na profissão, nas décadas de 1980 e 1990. À medida que fui ganhando experiência e reconhecimento, mais oportunidades surgiram para provar alguns dos maiores vinhos da história.
Hoje em dia, é por isso que vemos mais críticos de vinho organizando “eventos” — é uma maneira de ganhar dinheiro sério. Mas, para isso, é preciso cobrar caro — e muitas vezes os críticos dependem de “doações” das vinícolas para fornecer os vinhos para os eventos. Isso cria um conflito de interesse inerente logo de saída.
Além disso, os preços elevados desses eventos acabam excluindo uma porcentagem significativa de possíveis clientes, de modo que, no fim, você acaba cuidando apenas da elite super rica, pois seu modelo de negócios exige isso. E essa elite endinheirada pode ser facilmente ofendida — especialmente se for dona de vinícolas. Assim, a autocensura acaba se tornando inevitável em certas circunstâncias, caso o crítico escolha seguir esse caminho. Tudo vai bem… até chegar uma safra catastrófica como 2003 em Bordeaux!
De certa forma, fui afortunado por ter me apaixonado pela Borgonha muito cedo na carreira. Na época, a Borgonha era sempre considerada uma região “complicada” — o que, para mim, era parte de sua grande atração. Sempre haveria mais para aprender. E, como havia pouquíssima literatura de qualidade sobre Borgonha nos anos 1980, eu sempre imaginei que havia muito abaixo da superfície que os críticos da época simplesmente não compreendiam o suficiente para captar. E, de fato, isso se confirmou.
Como comerciante, vendi muitos grandes Borgonhas antigos a preços relativamente baixos durante a década de 1990, simplesmente porque a maioria dos profissionais do ramo — e praticamente todos os críticos — não entendiam os vinhos da região ou suas safras. Safras como 1972 foram minas de ouro para mim em meados dos anos 1990, pois ainda havia vinhos circulando nas adegas, e ninguém sabia o quão bons tinham se tornado após mais de vinte anos. O mesmo com os tintos de 1980, e os de 1987 — que eram vinhos médios, belíssimos, completos, mas que o mercado nova-iorquino não conseguia vender. Os importadores então liquidavam esses estoques, esperando compensar com margens maiores nas safras de 1988, 1989 e 1990.
Lembro de ter vendido centenas de caixas combinadas de Rousseau Chambertin e Clos de Bèze 1987 e Drouhin Musigny 1987 por US$ 40 a garrafa por volta de 1992–1993. Imagine conseguir esse volume desses vinhos hoje! Mas os importadores simplesmente não sabiam o quão bons eles eram.
Vender muito Borgonha me abriu as portas para degustações de altíssimo nível naquela época, o que me ajudou a desenvolver um conhecimento profundo de vinhos muito além da minha faixa salarial. Hoje isso seria impossível, a menos que a pessoa já fosse muito rica.
Por isso, realmente não sei qual será o futuro para os jovens que aspiram escrever sobre vinhos. Falar sobre os vinhos mais famosos do mundo — Latour, Lafite, La Tâche, Musigny — será praticamente impossível, a menos que você ou sua família já sejam ricos. Esses vinhos estão simplesmente caros demais. Isso significa que uma parte importante da memória institucional do mundo do vinho está condenada a desaparecer para os novos escritores — e isso já está acontecendo até certo ponto.
Quando conheço jovens críticos em degustações, fica evidente que eles não conhecem muitos desses vinhos. Como poderiam, com os preços de hoje?
Veja os Premier Crus de Bordeaux. Nos anos 1980, custavam cerca de US$ 75 por garrafa nos EUA (menos na Europa). Então dava para se dar ao luxo de comprar uma garrafa jovem e entender por que esses vinhos eram tão famosos. Hoje, uma garrafa de Lafite 2019 custa no mínimo US$ 500 ou US$ 600. Isso está completamente fora do alcance da maioria dos jovens — e o resultado é que eles simplesmente ignoram os vinhos de Bordeaux por completo.
Essa é uma das verdades que percebi ao longo das décadas no comércio de vinhos: se os jovens não conseguem ao menos provar os grandes vinhos de uma região, eles param de prestar atenção em todos os vinhos daquela região. Eles não querem se sentir sentados “na mesa das crianças”, do lado de fora de um restaurante estrelado, sendo servidos com McDonald’s — enquanto veem os ricos saboreando alta gastronomia pelas janelas!
Além disso, devemos lembrar que os Premier Crus de Bordeaux viraram ativos de investimento. Um cara do mercado financeiro compra cem caixas de cada um dos Premier Crus de uma safra badalada como 2010 ou 2019 e simplesmente deixa em um armazém até que se valorizem o suficiente para ele revender com lucro. Ele nem se importa se o vinho é bom ou não!
Nos anos 1990, você estava tão acostumado a beber vinhos do Coche-Dury que chegou a brincar: “Perrières de novo?”. Aqueles eram os bons tempos. Se você pudesse escolher 5 grandes garrafas que bebeu na vida, quais seriam?
Por um lado, essa é uma pergunta muito difícil para mim, já que certamente fui abençoado por ter bebido muitos vinhos verdadeiramente mágicos ao longo da minha longa carreira. Mas, se tiver que escolher um grande vinho que ainda se destaca, seria, sem dúvida, o Musigny “Vieilles Vignes” 1945 do Domaine Comte de Vogüé.
É até uma história curiosa. Na época, eu trabalhava como comerciante em uma loja de vinhos em Manhattan, cujo dono era particularmente mesquinho e corrupto. Esse homem me ensinou muitas lições de vida — e nenhuma delas foi boa! Mas ele gostava de ganhar dinheiro, então me deixava fazer cerca de dois terços das compras da loja. A equipe costumava brincar que havia duas lojas dentro da loja: a loja dele, cheia de vinhos ruins, e a minha loja, repleta de tesouros do mundo do vinho.
Em certo momento, ele recebeu duas garrafas do Musigny 1945 de um fornecedor do mercado cinza em Londres, como compensação por um lote que havia chegado com menos garrafas do que o acordado. Quando as garrafas chegaram, estavam com nível baixo (cerca de 7 cm de ullage). Ele ligou para o fornecedor, recebeu um crédito pelas garrafas — e elas simplesmente ficaram paradas no estoque, sem serem vendidas.
Li a nota apaixonada de Michael Broadbent sobre esse vinho e fiquei curioso. Observei a cor das garrafas — já tinham cerca de 50 anos — e estavam perfeitas: vermelho cereja vibrante, cristalinas. Presumi que estavam em bom estado e ofereci comprá-las. Ele achou que estava me passando a perna e me vendeu as duas por US$ 125 cada.
Não queria abrir um vinho potencialmente grandioso sem amigos para compartilhar, então organizamos uma degustação em grupo com esse tema em Manhattan. Ainda me lembro de alguns dos vinhos que os amigos trouxeram para acompanhar o Musigny 1945: Clos Vougeot 1985 de Dr. Georges Mugneret, Musigny “Vieilles Vignes” 1972 do Comte de Vogüé, Bonnes-Mares 1966 do mesmo produtor, e um Richebourg 1980 da DRC. Nosso grupo sempre servia os vinhos do mais jovem ao mais antigo — então o 1945 foi o último a ser aberto.
O vinho estava perfeito! O perfume era tão doce e vibrante que encheu a sala assim que o vinho foi decantado. Continua sendo, até hoje, um dos maiores vinhos que já bebi. Acabei compartilhando a segunda garrafa com aquele grupo de médicos que me acolhera anos antes, num jantar de Natal alguns meses depois. Foi uma forma de agradecer pela generosidade deles ao longo dos anos — e essa segunda garrafa também estava perfeita.
Outra memória que certamente está entre as maiores foi o meu primeiro Henri Jayer da safra de 1985. O problema é que, nesse jantar, tivemos não apenas um, mas três vinhos de 1985 de Jayer, todos em um restaurante em Gevrey-Chambertin chamado Les Millésimes (hoje fechado). O restaurante tinha o Vosne-Romanée “Les Brûlées”, o Cros Parantoux e o Echézeaux de 1985 na carta — e organizamos um jantar com gente suficiente para provar os três juntos!
Naquele ponto da minha carreira, eu já havia provado vários vinhos de Jayer, mas principalmente de safras como 1987, 1982 e 1980 — que eram mais acessíveis. Todos brilhantes. Mas beber os três 1985 lado a lado foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como apreciador.
Também devo mencionar um jantar de aniversário de 50 anos de um amigo, que organizamos há uns vinte anos. Cada um foi convidado a levar uma garrafa especial para compartilhar. Eu levei um Cros Parantoux 1990 de Méo-Camuzet — então já dá para imaginar o nível das garrafas na mesa.
Mas um dos convidados levou um Cabernet Sauvignon 1974 da Mayacamas, e o vinho foi uma das estrelas da noite! Isso reacendeu minha paixão por esses clássicos cabernets de Napa, que havia ficado adormecida por mais de vinte anos, já que meu foco profissional era a Borgonha. Mas, nos meus primeiros anos, esses vinhos tradicionais de Napa foram minha primeira paixão — e aquele 1974 me lembrou de sua grandeza.
Depois disso, comecei a escrever sobre essa era dourada dos cabernets e passei a comprar muito Mayacamas. Conheci Bob Travers enquanto escrevia sobre seu trabalho, e contei a ele essa história. Ele ficou muito feliz — sempre tive a impressão de que o trabalho dele foi pouco reconhecido pela geração dele. Os holofotes estavam sobre gente como Robert Mondavi, mestre das relações públicas. Já Bob Travers ficou quieto no Mount Veeder, fazendo os maiores cabernets da história da Califórnia — e quase ninguém percebeu.
Outra grande memória foi um jantar em Manhattan só com vinhos antigos da margem direita de Bordeaux, realizado perto do meu aniversário. O jantar era absurdamente caro para mim na época, mas a lista de vinhos era inacreditável: Cheval Blanc 1947 e 1949, Latour à Pomerol 1949 e 1961, Lafleur 1950 e outra safra, e Pétrus 1950 e 1961 — todos servidos em magnum. Para bancar isso, vendi meu pequeno estoque de Musignys jovens do Comte de Vogüé (1990, 1991 e 1993). Foi um ótimo negócio! Foi a única vez que provei o Pétrus 1961.
Mais ou menos na mesma época, organizei um jantar com Christophe Roumier em sua casa, em Chambolle-Musigny. Cada convidado levou uma garrafa especial. Começamos com um Meursault “Perrières” 1990 da Coche-Dury, e eu levei um Chambolle-Musigny “Les Amoureuses” 1962 da Joseph Drouhin. Tivemos vários outros grandes vinhos — e então Christophe abriu suas contribuições: Bonnes-Mares 1945, 1934 e 1928!
E preciso incluir minha lembrança mais recente de um “grande vinho”: foi no final da minha viagem à Borgonha, interrompida em dezembro de 2023. Você talvez se lembre — precisei ser hospitalizado logo após chegar a Beaune, com uma embolia pulmonar. Quase perdi a vida naquele dia — e foram os excelentes médicos do hospital de Beaune que me salvaram.
Eles insistiram que, depois de sair do hospital, eu não fizesse nada além de descansar. Sem degustações, sem jantares sofisticados — só repouso para me recuperar e estar forte o bastante para o voo de volta. Robert Drouhin e sua esposa souberam da minha hospitalização e me convidaram para almoçar com eles no dia anterior ao meu retorno. O filho deles, Philippe, também se juntou.
Robert Drouhin é uma das figuras mais importantes de sua geração na Borgonha. Muito do sucesso atual da região está ligado ao trabalho que ele e seus contemporâneos fizeram para ajudar a Borgonha a se reerguer após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Eu já havia feito uma entrevista com ele no início daquele ano, o que me permitiu conhecê-lo melhor. Já tinha grande apreço pelos vinhos e pela importância da família Drouhin, mas a entrevista me ajudou a compreender como a região era diferente quando ele começou a comandar a maison e como os tempos eram difíceis no pós-guerra.
Foi com eles que almocei, com frango assado e queijos, acompanhados de um Musigny 1962 — um dos meus vinhos favoritos de todos os tempos. Foi um ótimo dia para estar vivo em Beaune.
12) Se você fosse sommelier hoje e fosse convidado a harmonizar vinhos com o menu servido no filme “A Festa de Babette”, quais seriam suas escolhas? (Clos Vougeot, com certeza — de quais produtores? Anne Gros, Mugneret-Gibourg, Hudelot-Noëllat — se li bem… Champagne Blanc de Blancs de quem? Jerez etc.)
Fico muito feliz por você ter feito essa pergunta — porque ela me lembrou que não assisto A Festa de Babette há uns 25 anos! Vou fazer questão de assistir de novo em breve. Sempre amei esse filme.
Considerando que Babette era uma grande chef francesa no filme, eu gostaria de manter a coerência cultural da narrativa e harmonizar os pratos com vinhos franceses, como ela mesma fez. Seria divertido escolher os vinhos mais espetaculares possíveis para acompanhar cada prato, mas isso iria contra tudo o que discutimos aqui sobre o quanto é triste que os vinhos mais famosos estejam hoje absurdamente caros.
Então aqui vai um cenário de harmonizações possível, com vinhos atuais que complementariam lindamente a cozinha da Babette — sem precisar esvaziar completamente a conta bancária:
Potage à la Tortue (sopa de tartaruga)
Champagne Corbon “Brut d’Autrefois” Blanc de Blancs NV
Sei que é servido um Amontillado no filme, mas eu começaria com um Champagne — e com características de envelhecimento. Essa cuvée de base solera feita por Agnès Corbon oferece exatamente isso.
Blinis com caviar e crème fraîche
Louis Roederer Brut Rosé Millésime 2008
Tendo começado com um Blanc de Blancs, agora eu gostaria de trazer mais presença de Pinot Noir para o Champagne. O Rosé Millésime da Roederer é tão elegante e vibrante que funcionaria perfeitamente aqui — e ainda antecipa o Clos Vougeot envelhecido que virá a seguir.
Codornas em massa folhada com foie gras e molho de trufas
Clos Vougeot 2000 – Domaine Georges Mugneret-Gibourg
Sei que esse vinho é caro hoje em dia, mas não queria quebrar o encanto do filme escolhendo um Clos Vougeot que não seja envelhecido. Pelo menos a safra 2000 não está entre as mais caras. E o Clos Vougeot tem que ser das irmãs Mugneret, porque elas fazem, hoje, o maior exemplo desse vinhedo em toda a Borgonha.
Salada de endívias
Sancerre “Monts Damnés” 2008 – Domaine François Cotat
A safra 2008 ainda está disponível no mercado, porque foi um ano menos maduro e, portanto, menos valorizado pelo mercado. Mas eu prefiro essas safras menos quentes para os vinhos do Cotat hoje em dia — e os tons herbáceos e botânicos do Monts Damnés, com a maturidade de 2008, seriam uma harmonização lindíssima com a endívia.
Bolo de rum com figos e cerejas cristalizadas
Château Climens 1988
Os Sauternes e Barsac envelhecidos ainda são relativamente fáceis de encontrar no mercado, então seria um desperdício servir um vinho mais jovem aqui. Adoro a elegância e leveza do Climens — cairia perfeitamente com a sobremesa.
Queijos curados (fromages affinés)
Domaine Huet “Clos de Bourg” Moelleux Première Trie 1989
Depois do Barsac com o bolo de rum, seria difícil voltar a um vinho seco. Então, mudaria de uva — e de região — e optaria por um Vouvray igualmente envelhecido. Os vinhos da Huet têm mais acidez, o que deixaria o paladar mais revigorado e equilibrado para o final do jantar.
Você já bebeu vinhos da América do Sul? Qual é a sua opinião?
É engraçado, porque eu conhecia e vendia razoavelmente bem os vinhos sul-americanos na época em que trabalhava como comerciante de vinhos, mas acabei perdendo o contato com o que vem acontecendo por lá depois que passei para a fase de escritor.
É uma pena, pois só cheguei a ver o início da renascença vinícola da região. Naquela época, eu vendia principalmente vinhos como Los Vascos, Santa Rita e Trapiche. Tive o bom senso de começar a oferecer os vinhos da Bodegas Weinert assim que ficaram disponíveis em Nova York — mas mesmo esses vinhos eram apenas a ponta do iceberg. Tenho certeza de que há muitos vinhos muito mais sérios sendo produzidos atualmente em toda a América do Sul, por parte dos melhores produtores.
Fui convidado para uma viagem ao Chile logo no início da minha carreira com a View From the Cellar, mas acabei pegando uma gripe e não pude ir. E, desde então, nunca mais tive a oportunidade de visitar a região. É uma grande lacuna no meu conhecimento de vinhos, e lamento não ter tido a chance de visitar antes de desenvolver Covid Longa, porque hoje é muito difícil para mim viajar — não consigo me imaginar fazendo uma viagem de degustação à América do Sul nas condições atuais.
Mas quem sabe, um dia, eles descubram um tratamento eficaz para todos nós que ainda sofremos com sintomas de Covid Longa ao redor do mundo — e eu finalmente terei a chance de visitar.
No início dos anos 2000, na primeira viagem à Borgonha, em visita a Frédéric Mugnier, em companhia de um grupo de franceses que tinha alocação anual do domaine, a conversa, ao término da degustação, recaiu sobre críticos de vinhos. Queriam saber do brasileiro que estava ali o que ele achava de críticos da Inglaterra, Estados Unidos e França. Citei minhas preferências — naquele momento Stephen Tanzer, Clive Coates e a idiossincrática LARVF. Um dos franceses disse que sentia falta de John Gilman na minha lista. Eu disse que não conhecia. Mugnier disse que Gilman escreveu um excelente artigo sobre seu Musigny.
Tudo na vida é subjetivo, do vinho que você escolhe beber, do prato que te emociona, dos autores da sua mesa de cabeceira e dos seus críticos de vinhos preferidos. Tenho muitas discordâncias de gosto com Gilman, mas seus textos e suas resenhas bimensais (http://www.viewfromthecellar.com/) são a minha leitura preferida do mundo do vinho. Anoto todos os produtores de que ele fala bem ou dedica artigos especiais. Dos albarinos de Alberto Nanclares aos beaujolais de Chermette, passando pelos borgonhas de Jobard, Cécille Tremblay (dadas décadas antes, quando os dois não tinham o status de hoje), a minha lista de débito com ele é infindável.
Levi Dalton, autor do extraordinário “I´ll drink to that” entrevistou há alguns anos Gilman, o episódio reconta a história de Gilman no mundo do vinho e ainda tem uma degustação de Vouvray do domaine Huët. Gilman é entrevistado pela primeira vez numa publicação brasileira e corro o risco de dizer que é mais longa entrevista que ele concedeu para um veículo de qualquer lugar do planeta. Gilman, aliás, tem um detalhe diferenciado e exposto publicamente em seu site: os quase vizinhos em Chambolle, Christophe Roumier e Frédéric Mugnier, são dois que recomendam suas resenhas, assim como Egon Müller, Véronique Drouhin e Kevin Harvey (Rhys Vineyards).
John Gilman em uma visita a Heitz Wine Cellars, com Kathleen Heitz, antes da venda da propriedade familiar
O senhor foi um dos que tiveram o privilégio de beber os vinhos de Henri Jayer logo no início e de conhecer um dos produtores lendários da região. O senhor conta em uma de suas publicações como foi um encontro com ele e uma degustação às cegas. O senhor poderia relembrá-la?
O encontro foi organizado pela Véronique Drouhin (família da maison Drouhin), ela se juntou a nós numa tarde, nos ajudando a traduzir para o Monsieur Jayer. A maioria das pessoas não sabe disso, mas antigamente a Maison Drouhin comprava seus Richebourg de Henri Jayer, antes de ele começar a engarrafá-los por conta própria. Eu havia bebido uma garrafa do Richebourg 1972 dos Drouhins em Nova York, mais ou menos um ano antes desta visita, e corretamente sugeri a Véronique que o vinho havia sido feito por Henri Jayer. De qualquer forma, três amigos e eu visitamos Véronique e Monsieur Jayer em uma tarde ensolarada de início de primavera em março de 2003. Nessa época, Henri já estava aposentado desde 1995 e parecia feliz em receber visitantes que conheciam seus vinhos, o que nós fizemos, já que era possível bebê-los regularmente nas cartas de vinhos da Borgonha naquela época e eles não eram tão caros. Então, bebíamos seus vinhos sempre que tínhamos oportunidade! Henri estava vestido com um suéter cinza-azulado que já tinha sido muito usado, e me lembro de apertar sua mão e ficar imediatamente impressionada com a força de seu aperto de mão – claramente as mãos de um homem que havia trabalhado suas próprias vinhas por mais de meio século! Tão diferente de conhecer Aubert de Villaine, por exemplo, que gerenciava aqueles que cuidavam de suas vinhas. Henri foi muito caloroso e generoso com seu tempo, e conversamos sobre sua carreira e suas opiniões sobre a posição da Borgonha enquanto a próxima geração começava a dar continuidade à história. Ele ficou muito satisfeito com a forma como pessoas como Véronique Drouhin, as irmãs Mugneret, Christophe Roumier e sua geração estavam salvaguardando o legado da Borgonha e sentia que o futuro da região estava em boas mãos.
Quando perguntamos a ele sobre uma safra antiga específica, ele abria seus cadernos e consultava diretamente as anotações que fizera sobre cada estação de cultivo e colheita ao longo de sua carreira. Ele era muito meticuloso com todos os aspectos de sua viticultura, o que provavelmente explicava a beleza estonteante de seus vinhos! Ele foi o primeiro viticultor que conheci que opinava que a vinificação não acrescenta nada à qualidade de um vinho; tudo o que vale a pena ter em um vinho é criado no vinhedo e o homem só pode atrapalhar, lá na adega, e subtrair de seu potencial. De qualquer forma, depois de conversarmos sobre sua carreira e filosofias por cerca de meia hora, ele perguntou: “Você gostaria de provar alguma coisa?”. Ele havia preparado três garrafas para nós e perguntou se gostaríamos de degustá-las às cegas. Éramos ávidos degustadores às cegas naquela época e todos nós achamos que seria divertido tentar adivinhar os vinhos. Se bem me lembro, o primeiro vinho que ele serviu foi seu Echézeaux de 1986, e eu consegui adivinhar este vinho. Não me lembro do segundo vinho, mas o terceiro foi o seu Cros Parantoux 2000, que um dos meus amigos também adivinhou rapidamente, visto que ele tinha uma adega muito profunda e tinha bebido uma garrafa deste vinho cerca de uma semana antes de partirmos para a Borgonha.
Assim, o Sr. Jayer ficou devidamente impressionado com a nossa experiência com os seus vinhos e generosamente continuou a encher-nos as taças até as três garrafas estarem completamente vazias e o sol começar a pôr-se no horizonte. Enquanto nos despedíamos dele à porta da sua casa, lembro-me de ter pensado que tinha acabado de passar duas horas e meia das horas mais memoráveis da minha vida! Tive a sorte de partilhar um jantar com Henri e muitos outros amigos na casa de Véronique naquele novembro também, que foi a última vez que o vi, pois a sua saúde começou a deteriorar-se um pouco no ano seguinte e ele preferiu não receber visitas nos seus últimos dois anos. Ele faleceu em setembro de 2006, aos oitenta e quatro anos. O vigésimo aniversário da morte de Henri será em setembro do ano que vem e espero que os borgonheses façam algo especial para comemorar sua inestimável contribuição à profunda herança histórica da Borgonha.
Hoje em dia, os vinhos estão ficando mais caros a cada safra; um exemplo é o Côte d’Or. O Bourgogne Rouge de alguns produtores custamais de US$ 300 a garrafa. Savigny-lès-Beaune, há 20 anos, era Bize e Pavelot, e não era disputado como hoje. Produtores novos com pequenas produções, como Les Horées, Petit Roy, Kei Shiogai ganham espaço. Como o senhor vê isso? O vinho vai ficar ainda mais caro? As mídias sociais estão contribuindo para esse aumento?
O aumento dos preços dos vinhos da Borgonha tem sido um dos aspectos mais dolorosos dos últimos quinze anos da minha longa vida de bebedor de vinho. A Borgonha foi uma das primeiras paixões verdadeiras que tive na minha carreira, pois tive muita sorte de estar começando a ter alguma responsabilidade na minha posição no ramo quando a safra de 1985 da Borgonha foi lançada. Degustar aqueles belos vinhos jovens realmente mudou minha vida e, ainda jovem, decidi que me tornaria um especialista em Borgonha. Mas, agora, com os preços exorbitantes dos vinhos mais famosos da Borgonha, sinto-me tão distante emocionalmente da região, e é muito estranho ter um interesse meramente acadêmico por esses vinhos. Sei que há muitas outras pessoas com uma renda disponível muito maior do que eu e que ainda podem comprar esses vinhos, e como a oferta é relativamente pequena, suponho que fosse inevitável que um dia as elites mais ricas do mundo “descobrissem” a Borgonha e nos tirassem do mercado. E, a menos que ocorra algum tipo de colapso econômico global, os preços dos vinhos mais famosos da Borgonha provavelmente nunca cairão significativamente.
Mas,há outra parte da sua pergunta, que é sobre o advento de exemplares de Bourgogne Rouge e similares a US$ 300 por garrafa, o que é uma questão completamente diferente do Chambertin da família Rousseau, vendido por US$ 2.000 a garrafa. Toda a hierarquia de classificação do terroir na Borgonha se baseia na suposição de que o Bourgogne Rouge nunca pode ser um grande vinho, nunca, porque simplesmente não é feito de um grande terroir. Como acredito profundamente em terroir, nunca consigo imaginar a lógica de comprar uma garrafa de Bourgogne Rouge por US$ 300, não importa quem tenha feito o vinho. Continua sendo apenas Bourgogne Rouge! Lembro-me de estar em meados da década de 1990 em San Francisco com meus pais para o casamento de um amigo e parar em uma loja de vinhos que tinha laços estreitos com Martine Saunier, que era uma das importadoras de Henri Jayer na época. A loja tinha o Bourgogne Rouge 1990 do Monsieur Jayer à venda e comprei três garrafas pela quantia principesca de US$ 30 cada! Acabei dividindo com os pais do noivo e os meus depois da recepção do casamento e, sabe de uma coisa, eles acharam tudo normal, porque nem Henri Jayer conseguiria fazer um vinho excelente com o terroir de vinhedos do nível da Bourgogne Rouge!
Mas temos que lembrar que existem ótimos vinhos produzidos na Borgonha que ainda não são particularmente caros; basta pesquisar um pouco mais a fundo e procurar fora dos limites dos nomes e denominações mais sofisticados. Um dos meus favoritos atuais nesse sentido são os vinhos do Domaine Michel Juillot, em Mercurey. A família Juillot produz vinhos verdadeiramente estelares atualmente, e Mercurey parece ser uma comuna que se beneficiou (até agora) do aquecimento global. Voltando àquela primeira safra para mim, em 1985, lembro-me de vender os engarrafamentos Mercurey de 1985 da Maison Faiveley, ou de tentar vender, já que esses vinhos eram compactos, magros e duros desde o início, em uma safra que primava pela generosidade aveludada e pelos belos tons frutados na maioria das denominações. Muito diferente do que se encontra hoje em Mercurey, Rully ou Montagny, já que essas denominações mais frias produzem vinhos muito melhores hoje do que há trinta ou quarenta anos. Então, eu jamais, jamais compraria uma garrafa do Bourgogne Rouge de algum charlatão por US$ 300, quando poderia comprar de seis a doze garrafas de um belo tinto da família Juillot por aproximadamente o mesmo preço! E este é apenas um exemplo, pois também procuro em lugares como Auxey-Duresses, Pernand-Vergelesses ou Marsannay Pinot Noirs de ótima qualidade, que desenvolverão complexidade com o envelhecimento na garrafa. Nenhum Bourgogne Rouge de ninguém desenvolverá nem perto da mesma complexidade que esses vinhos, não importa o quão descaradamente alto o vigneron estabeleça o preço do seu exemplar de Bourgogne Rouge.
E, se alguém procura um ótimo pinot noir que envelheça e desenvolva complexidade com o armazenamento em adega, também existem outras regiões que podem ser procuradas e evitar os problemas de preços contemporâneos da Borgonha. Na minha opinião, os melhores exemplares de pinot noir de estilo clássico do Oregon ou das regiões mais frias da Califórnia nunca foram tão bons quanto são hoje. Há tantos produtores realmente excelentes disponíveis na costa oeste dos EUA. Os vinhos serão diferentes, em seus picos de maturidade, dos tintos da Borgonha, pois vêm de terroirs diferentes, mas serão vinhos verdadeiramente belos por si só e não terão nada do que se desculpar em comparação com a Borgonha. Produtores como Kelley Fox, Jim Anderson, Rhys Vineyards, Jamie Kutch, Littorai Vineyards e muitosoutros estão produzindo vinhos que são, na minha opinião, tão únicos e atraentes quanto todos os Borgonhas, exceto os melhores. Esses produtores da costa oeste talvez nunca produzam um vinho que alcance o nível de um grande Musigny, Clos St. Denis ou Chambertin, mas certamente seus vinhos se igualarão à maioria dos outros vinhos da Borgonha por uma fração do preço.
Como o senhor analisa o trabalho do sommelier hoje em dia? O mundo das redes sociais mudou o trabalho? Os preços exorbitantes mudaram a relação de poder e fizeram desaparecer velhas safras?
Só posso falar de Nova York nesse aspecto. Não estou muito bem informado sobre como andam as coisas no mundo dos sommeliers fora da minha cidade. Mas, aqui, os sommeliers ainda são os responsáveis pela compra de vinhos e pela elaboração da carta de vinhos, então eles continuam sendo muito importantes. A maioria das pessoas não sabe disso, mas a maioria dos restaurantes nas cidades americanas lucra apenas com seus programas de bebidas, já que a comida tende a simplesmente atingir o ponto de equilíbrio entre receita e despesa. Portanto, ter um sommelier talentoso é fundamental para que um restaurante seja lucrativo e continue no mercado. E os melhores sommeliers conseguem encontrar safras mais antigas para preencher suas listas. Veja alguém como Pascaline Lepeltier, do restaurante Chambers, em Nova York; sua carta está sempre repleta de safras mais antigas e, muitas vezes, com preços bastante justos, o que é realmente o maior problema ao tentar beber vinhos envelhecidos em restaurantes. Como você mencionou, os preços exorbitantes dos vinhos mais sofisticados do mundo dos vinhos são exacerbados pelos preços nas cartas de vinhos dos restaurantes. Então, voltamos à mesma velha equação da realidade enófila atual, que geralmente só os clientes mais ricos podem beber safras mais antigas de vinhos famosos de cartas de vinhos. Quando eu ainda era comerciante de vinhos, tinha um cliente rico que me aterrorizava toda vez que saíamos para jantar juntos, como ele costumava dizer: “Eu nunca olho o preço de uma garrafa de vinho na carta, simplesmente procuro algo que eu queira beber com o jantar”. Geralmente éramos seis ou oito pessoas à mesa e dividíamos a conta, então os acréscimos que ele escolhia realmente abririam um rombo no meu orçamento para entretenimento.
Os melhores sommeliers do mundo são aqueles que também encontram vinhos prontos para o resto de seus clientes, não apenas para os mais ricos. Então, para responder à sua pergunta, pelo menos aqui em Nova York, os sommeliers continuarão sendo muito importantes para restaurantes que desejam permanecer lucrativos e não serem forçados a atender apenas às necessidades de seus clientes mais ricos. Mas, além de encontrar vinhos mais envelhecidos para os interessados, um sommelier é muito importante para estruturar sua carta de vinhos com vinhos que sejam bons para beber em qualquer idade e que combinem com a culinária de seu chef. Aqui nos EUA, há muitos restaurantes de grandes grupos corporativos e suas listas de vinhos são geralmente péssimas. Se o azar me faz comer em um desses restaurantes, muitas vezes acabo bebendo cerveja com o jantar, pois simplesmente não há uma única garrafa em suas cartas de vinhos que eu queira beber, a qualquer preço. O nível de relativa incompetência em vinhos no mundo da restauração americana é realmente espantoso – é o principal centro de lucro dos proprietários, e eles nem sequer tentam aprender nada sobre vinhos ou contratar alguém que entenda de vinhos para se esforçar. É como se tratassem os clientes como prisioneiros que terão de beber algo da carta, então que se dane, encha-os de cervejas caras de “marcas” como Caymus ou Mondavi.
A escassez de vinhos envelhecidos nas listas de restaurantes ao redor do mundo também é bastante evidente, e me sinto, pelo menos em parte, responsável por isso, pelo menos na Borgonha! Quando comecei a visitar a Borgonha todos os anos, na primavera de 1995, havia vários restaurantes que tinham vinhos envelhecidos disponíveis em suas listas e os preços eram muito justos. Então, meus clientes e eu pedíamos esses vinhos e contávamos aos nossos amigos. Infelizmente, com a alta dos preços na Borgonha, tornou-se economicamente inviável para os donos de restaurantes continuarem substituindo aqueles ótimos vinhos envelhecidos, pois os preços se tornaram impossíveis. E íamos com frequência a restaurantes que tinham Coche-Dury, Henri Jayer ou Michel Gaunoux envelhecidos em suas listas, pois achávamos que essa oportunidade não duraria para sempre e que poderíamos muito bem ser nós a beber aqueles vinhos! Infelizmente, estávamos certos e, eventualmente, essas adegas foram consumidas ou vendidas. Mas, até poucos anos atrás, eu ainda costumava ir à Rotisserie de Chambertin em Gevrey-Chambertin para jantar e degustar vinhos da região, pois eles ainda tinham uma boa seleção de vinhos antigos do Domaine Trapet em sua carta. Muitas vezes, eu jantava sozinho e bebia uma garrafa de “les Corbeaux” de Gevrey-Chambertin de 1969, 1971 ou 1972 com a refeição, já que não eram caros e os vinhos ainda estavam no auge. Aliás, jantei lá com tanta frequência nos últimos anos, antes da venda do restaurante, que no meu último almoço, o proprietário me deu uma garrafa de Corbeaux de 1978 para levar para casa como lembrança!
Mas, hoje em dia, geralmente nem olho com tanta atenção as cartas de vinhos quando saio para jantar em restaurantes, o que, admito, é muito menos comum agora que estou com sintomas de Covid longa. Minha estratégia quando estou em um restaurante agora é primeiro olhar atentamente para a carta de champanhe na maioria das vezes, já que o crescimento de produtores menores realmente talentosos e o renascimento de grandes casas tradicionais, como Louis Roederer tornam muito mais provável que eu encontre algo soberbo para beber com minha refeição na seção de champanhe. Se eu provavelmente terei um prato principal de carne vermelha, opto por um champanhe rosé, pois é extremamente flexível com todos os pratos da refeição. E geralmente estou apenas bebendo uma garrafa não vintage do produtor, já que há tantos realmente ótimos sendo feitos hoje em dia. É uma estratégia muito mais satisfatória do que tentar se arrastar por uma garrafa adocicada de Caymus Cabernet Sauvignon. Eu olho para champanhes sem safra da mesma forma que para vinhos regionais da Borgonha, que são os únicos que me interessam beber de cartas de vinhos hoje em dia quando estou jantando na região. Não só os premiers e grands crus são muito mais caros e fora da minha zona de conforto hoje em dia, como também são vinhos feitos para envelhecer por muito tempo e tudo o que se faz quando se bebe jovem é exibir o rótulo. Borgonha jovem e sofisticado realmente não tem um sabor tão bom, e eu preferiria beber um vinho comunal do mesmo produtor antes de pedir uma garrafa do Clos St. Jacques de dois ou três anos! Mas é preciso um sommelier talentoso para entender isso e encher sua carta com bons vinhos de aldeia, ou exemplos de topo de comunas onde os vinhos são geralmente mais bebíveis fora dos blocos, como Auxey-Duresses, Mercurey ou Marsannay.
Como o aquecimento global está transformando o mundo do vinho?
Não há nada que tenha afetado o mundo do vinho de forma mais profunda, e na maioria dos casos, negativa, do que o aquecimento global nos últimos trinta anos. Temos que entender que algumas regiões se beneficiaram de temperaturas mais altas e da mudança de estações em nosso planeta, com áreas como Alemanha, Champagne e Oregon provavelmente apresentando clima melhor e uvas mais maduras a cada ano. Quando comecei no comércio de vinhos, no início da década de 1980, a Alemanha podia ter duas ou talvez três grandes safras por década. No final da década de 1980, o aquecimento global já afetava as regiões vinícolas da Alemanha (e de outras partes do mundo) e, provavelmente a partir de 1989 ou 1990, vemos a tendência se acelerando. Hoje a Alemanha tem sete ou oito grandes safras a cada década. E as uma ou duas safras “malsucedidas” aqui tendem a ser porque estava muito quente ou muito seco, não muito frio, o que foi o caso durante os mil anos anteriores de cultivo de uvas para vinho na Alemanha! Portanto, fica claro que o aquecimento global teve um impacto profundo no mundo do vinho.
Mas, temos que lembrar que para cada região que se beneficiou do aquecimento acelerado do nosso planeta, provavelmente há três ou quatro que perderam drasticamente com as mudanças climáticas. Não consigo nem imaginar tentar ser um viticultor em regiões como Châteauneuf du Pape, Napa Valley ou Bordeaux hoje em dia! O clima mudou tão drasticamente nesses lugares que os viticultores realmente precisam criar novas estratégias para tentar superar o calor do nosso planeta e continuar a produzir bons vinhos. Muitos não conseguiram. De muitas maneiras, o problema aqui reside no “negócio” do vinho nessas regiões, já que os produtores buscaram “soluções comerciais” para combater o aquecimento global, em vez de refletir sobre suas práticas vitícolas e como estas poderiam ser melhor moldadas para compensar alguns dos efeitos mais debilitantes de um planeta cada vez mais em chamas. Muitas vezes, isso significa aumentar o orçamento de relações públicas ou contratar algum enólogo consultor da moda para tentar encobrir o fato de que seus vinhos agora têm um teor alcoólico muito mais alto e estão quase intragáveis devido às mudanças climáticas. Provavelmente, grande parte da culpa pode ser atribuída a Robert Parker nos últimos dez anos de sua carreira, quando seu paladar em constante mudança não reconheceu as falhas inerentes a muitos desses vinhos com alto teor alcoólico, aos quais ele os elogiou e permitiu que continuassem a ser vendidos no mercado a preços cada vez mais altos, adiando o dia do acerto de contas para muitos produtores.
No mundo dos vinhos pós-Parker, vemos alguns críticos de vinho dispostos a continuar elogiando cegamente essas monstruosidades absurdas de álcool e compota de frutas causadas pelo aquecimento global. Na minha opinião, há muitos críticos de vinho que se veem como torcedores das vinícolas mais ricas do mundo, em vez de avaliadores honestos da qualidade intrínseca de um determinado vinho. É um sistema aparentemente corrupto. Mas o mundo do vinho hoje é simplesmente emblemático dos problemas muito maiores da corrupção e do pântano ético em que nos encontramos, à medida que o século XXI se transforma em um pesadelo distópico. Lembro-me de perguntar a Terry Leighton, da Kalin Cellars, como seus impressionantes cabernet sauvignons conseguiam exibir uma maturação fisiológica perfeita e ainda assim atingir apenas 12% de álcool na década de 1980. Naquela época, quase todos os outros grandes cabernets da Califórnia tinham rotineiramente entre 13% e 14% de octanas. Ele riu e simplesmente disse: “pergunte a alguns desses outros produtores sobre o tamanho de seus rendimentos!” O argumento dele era que os produtores poderiam amadurecer seus taninos sem álcool mais alto se mantivessem a produção mais baixa, mas isso reduziria os lucros, e os lucros eram muito mais importantes para a maioria dos proprietários do que a qualidade do vinho. E isso foi na segunda metade da década de 1980, quando o aquecimento global estava apenas começando. Imagine como a situação é ainda mais grave hoje, trinta e cinco anos depois das mudanças climáticas!