Archive for the ‘Austrália’ Category

Grand Cru Tasting: Destaques II

8 de Maio de 2016

Continuando a maratona de vinhos, mais alguns exemplares interessantes entre tintos e vinhos doces (sobremesa) na bela Casa da Fazenda Morumbi, sob o comando da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

shiraz wallace

o clássico Shiraz australiano

Barossa Valley é a cara do autentico Shiraz australiano. Cheio de fruta, macio, envolvente, e muito bom para os dias mais frios onde aquela pitada de álcool acima é bem-vinda. O corte com a Grenache ajuda ainda mais no lado frutado e na maciez. O segredo é o vinho ter um bom balanço de frescor. Ben Glaetzer segue esta linha.

morande golden harvest

o Sauternes da América do Sul

A vinícola chilena Morandé além de moldar belos vinhos de mesa, elabora esta joia à base de Sauvginon Blanc com uvas botrytisadas. O cuidado no vinhedo, na colheita, e nas várias fases de elaboração em cantina, faz deste branco dourado um exemplo de equilíbrio notável entre seus componentes (açúcar, álcool, e uma bela acidez). Parceiro para queijos potentes, curados, além dos sempre lembrados queijos azuis.

gorgonzola dolce

la dolce vita!

Falando em queijos azuis, a foto acima mostra um autêntico gorgonzola dolce, um dos melhores queijos não só da Itália, mas do mundo. Cremoso e mais delicado que a versão normal, enriqueceu o farto buffet, além de acompanhar bem os vinhos, sobretudo os dois de sobremesa, acima e abaixo nas fotos.

delas beaumes de venise

o esquecido Beaumes de Venise

Um dos mais injustiçados vinhos do Rhône é o pouco lembrado Muscat Beaumes de Venise. Um vinho fortificado à base de Moscatel, de estilo bem delicado. Um contraponto ao notável Moscatel de Setubal de Portugal. Seus aromas florais e de pêssegos encantam ao primeiro contato. Experiência gastronômica única de contrastes de textura quando combinado com uma mousse de pêssego. Vale a pena prova-lo.

nero d´avola passivento

o Amarone da Sicilia

A típica uva siciliana Nero d´Avola molda tintos agradáveis na ilha. Contudo, este exemplar foge à regra. As uvas são colhidas  passificadas na planta, prolongando o período de colheita. Lembra de certo modo o grande tinto do Veneto, senhor Amarone, onde a passificaçao ocorre em caixas ou esteiras após a colheita. Neste sentido, o vinho ganha corpo, estrutura, e riqueza de frutas em compota. Boa concorrência para outro tinto sulino bem conhecido da Puglia com a uva Primitivo. Bela surpresa do produtor Barone Montalto.

fonterutoli

Mazzei reina em Castellina in Chianti

Há certos produtores que não podemos dissociar e nem deixar de mencionar nas regiões em que atuam. Um destes é a família Mazzei, ícone da sub-região histórica do Chianti Classico de Castellina in Chianti. Tipicidade, equilíbrio e consistência à toda prova. Pedida certa nesta denominação.

chinon serge e bruno

o lado delicado da Cabernet Franc

O vale do Loire é berço de grandes vinhos brancos nos seus mais variados estilos e uvas. Contudo, os tintos da região são conhecidos em apelações famosas como Chinon, elaborados com a casta Cabernet Franc. Vinhos de corpo médio, delicados, equilibrados, e muito gastronômicos. O rótulo acima é um bom exemplar.

pulenta cabernet franc

exemplar diferenciado num mar de Malbecs

Bem diferente do vinho acima, este tinto argentino também é elaborado com Cabernet Franc, uva pouco usual, sobretudo como varietal, na zona alta do rio Mendoza, Lújan de Cuyo, mais especificamente Agrelo, terroir de destaque.  Partindo de vinhedos antigos, perfeitamente adaptados ao solo e ao clima, as uvas são bem trabalhadas na cantina, gerando um vinho de grande personalidade. Mesclado de forma coesa à madeira, este tinto mostra equilíbrio e persistência. As barricas francesas novas respeitam a estrutura do vinho. Tinto para sair da rotina malbequiana.

morande black

sul da França no Maule

Mais um show da Morandé neste corte ousado mesclando uvas do Rhône com a Carignan. São vinhedos plantados nos anos 50 que garantem aquela concentração das chamadas vinhas velhas. Um toque de rusticidade neste tinto de personalidade muito bem integrado com a madeira a qual quase não se percebe. Exemplar fora da curva, fugindo da rotina.

Sommellerie: Um novo Campeão Mundial – Parte I

24 de Abril de 2016

Paolo Basso, brilhante sommelier, um verdadeiro bailarino no salão, entrega seu cedro agora ao jovem suéco Jon Arvid Rosengren. Não que não tenha sido justo, mas esta final de certo modo, lembrou o título de Enrico Bernardo na Grécia onde mais uma vez, Gérard Basset à época, ficava novamente na fila. O francês David Biraud, parece seguir o mesmo caminho. Embora sua atuação tenha tido momentos notáveis, talvez o cumprimento do tempo em algumas provas, possa ter lhe custado caro. De toda forma, é um sommelier diferenciado, podendo perfeitamente fazer parte da elite dos campeões mundiais. Dito isto, vamos às provas finais.

O campeão sueco ao centro

Embora o tempo de cada etapa fosse bem reduzido, exigindo grande preparo dos finalistas, as etapas foram muitas, totalizando mais de uma hora por candidato, e testando seus nervos ao limite. De início, um serviço à mesa com champagne e um coquetel clássico, Dry Martini. Até aqui nada de mais, se não fosse um pequeno detalhe no pedido da mesa para ser servido um champagne Extra-Brut que não havia em nenhum dos quatro baldes disponíveis no salão. Uma situação para irritar o sommelier logo de cara e fazê-lo perder a concentração no serviço. Todos perceberam o inconveniente e arrumaram uma solução de momento. Quanto ao Dry Martini, apesar de um clássico dos clássicos, todos mostraram conhecimento em sua execução com pequenos detalhes diferenciais em cada candidato. A única candidata mulher, a irlandesa Julie Dupouy,  diferenciou-se dos demais ao preparar o coquetel antes de servir o champagne, tendo o cuidado de servir todas as bebidas ao mesmo tempo aos convivas, evitanto constrangimentos no brinde inicial. É o mesmo cuidado que se tem à mesa ao servir pratos variados com tempos de execução diferentes, simultaneamente para todos iniciarem ou continuarem a refeição. Quanto à execução do coquetel, David Biraud mostrou sutileza ao pingar algumas gotas de vermute (Noilly Prat), lembrando que o Dry Martini deve ter apenas a sombra da garrafa. Detalhe de conhecedor …

Partindo agora para a segunda mesa com seis convivas e uma seleção de vinhos de tirar o fôlego. Aqui o sommelier tem a oportunidade de mostrar todo seu conhecimento e versatilidade nas combinações de vinhos diferentes em estilos, uvas, regiões e categorias. Os vinhos sugeridos foram:

  • Harlan Estate 1997

Um dos grandes tintos do Napa Valley de excelente corte bordalês e safra espetacular (100 pontos). Num ótimo momento para ser provado, embora seu platô vá até 2030.

  • Gaja Barbaresco Sori San Lorenzo 1997

Uma das três joias de Angelo Gaja (as outra duas são Sori Tildin e Costa Russi) de excelente safra. São Barbarescos de extrema elegância. Quaisquer safras, são esplendorosos.

  • Penfolds Grange 99

O grande Shiraz do hemisfério sul com degustações históricas que marcaram o Novo Mundo. Vinho de grande estrutura e longevidade.

  • Domaine Ponsot Clos Saint Denis Grand Cru Vieilles Vignes 1945

Domaine extraordinário em Morey Saint Denis com vinhos profundos e longevos. A safra da vitória é histórica e extremamente rara.

  • Egon Müller Riesling Auslese 2009

O grande Riesling alemão; mineral, duro como o aço. A graduação de açúcar de um Auslese quebra um pouco esta austeridade. Vinho de longuíssima guarda. Perdura por décadas.

  • Klein Constantia Vin de Constance 2000

O mais emblemático e histórico vinho doce sul-africano elaborado com a uva Muscat (Muscat de Frontignan). Maciez e equilíbrio notáveis. Comercializado em garrafas de estilo único de 500 ml.

garrafa exótica: um dos vinhos de Napoleão

Para não alongar o assunto, vou comentar as sugestões de David Biraud com ótimas dicas e classicismo. Para o Harlan Estate 97, corte bordalês, sua indicação foi carne vermelha crua com suculência, uma espécie de carpaccio com toques defumados e de ervas, equilibrando bem os taninos ainda presentes, além dos aromas do vinho. Em seguida, para o Barbaresco Sori San Lorenzo 97, Biraud propõe um pombo com foie gras em molho de cerejas escuras, realçando os aromas de evolução da Nebbiolo e dando um charme num toque sutil de amargor. Para o tinto australiano, Grange 99, sua sugestão recai para um cordeiro grelhado com alecrim e guarnecido com vegetais (tian). A ideia é provocar o lado rico em especiarias da Shiraz. Para o último tinto, o raríssimo Ponsot Clos St Denis 1945, um prato de caça (ave) com molho de vinho tinto, exacerbando os aromas terciários desta preciosidade. Entrando nos vinhos brancos, nada melhor que fechar uma excelente refeição com queijo. A sugestão de um velho Comté (o grande queijo do Jura) com o branco alemão, Egon Müller Riesling Auslese 2009, foi de grande originalidade. A força do queijo e seus ricos sabores  vão de encontro com a estrutura do vinho, mineralidade, além da acidez e doçura do mesmo, contrapondo a gordura e salinidade do queijo. Ponto alto da harmonização. Por fim, o doce e elegante Vin Constance 2000, casa perfeitamente com  o abacaxi caramelizado (Victoria Pineapple) acompanhado por pain perdu (pão amanhecido, no caso brioche, finamente tostado).

Para completar, Biraud sugeriu de entrada como aperitivo, um champagne Moët & Chandon Vintage 1988 com a mesma evolução e complexidade dos demais vinhos. Como não havia espumantes entre a seleção de vinhos, não deixa de ser um belo começo para ativar e agraciar as papilas. Quanto à decantação, os tintos poderiam ser decantados com exceção do velho Borgonha. Neste caso, pela eventual fragilidade do tinto, seria mais prudente servi-lo diretamente na taça.

Centurion: categoria máxima

Finalizando o serviço nesta mesa de alta complexidade, foi perguntado a Biraud sobre a harmonização de um café expresso Grand Cru acompanhado de chocolate escuro trufado, sugerindo um licor ou destilado. Biraud novamente mostrou originalidade e conhecimento ao recomendar o clássico vinho Commandaria. É um vinho fortificado da idade média, na época das Cruzadas, elaborado com as uvas locais Mavro (tinta) e Xynisteri (branca) da ilha de Chipre. Raro e pouco conhecido atualmente, seus sabores e estrutura combinam perfeitamente com o café sugerido, pois apresenta textura compatível, sabores empireumáticos e de frutas secas. O Commandaria sugerido é de categoria máxima, chamado Centurion com no mínimo 20 anos de envelhecimento (foto acima). É também um ótimo casamento com a clássica torta austríaca Sacher Torte. Biraud também especificou um café guatemalteco na harmonização.

Próximo artigo, mais mesas e provas. Está só começando!

Cores do vinho: As aparências enganam

31 de Março de 2016

Qual a cor correta de um vinho branco? A princípio, todas. Depende de vários fatores, entre os quais, tipo de uva, vinificação, região, amadurecimento em madeira, idade, estilo do produtor, tipo de vinho, e vai por aí afora. Para ilustrar o assunto, a foto abaixo fala por si.

semillon e laranja

Vinho à esquerda, oito anos mais velho

Evidentemente, temos um exemplo extremo, mas vale a pena elucidar o caso. O vinho à esquerda trata-se de um Sémillon australiano do Hunter Valley, estilo particular e único deste varietal 100% Sémillon. Neste terroir, a chuva chega cedo no período de maturação das uvas. Portanto, as mesmas são colhidas precocemente com acidez bastante elevada, gerando vinhos de baixa alcoolicidade. Para enfatizar esta acidez, a vinificação é feita em aço inox, evitando a fermentação malolática. Porém, o mais interessante, é que este branco fica muito mais atrativo quando envelhece e aí, estou dizendo 10, 15, 20 anos. Neste estágio, seus aromas lembram frutas secas e um tostado sugerindo madeira. Como disse, é um estilo único de Sémillon.

semillon hunter valley

ILR Reserve: Top da vinícola

O vinho acima é um dos ícones da vinícola australiana Brokenwood, o ILR Reserva Sémillon. Por incrível que pareça, com seus treze anos, estava novo, com muito pouca evolução. Prevejo pelo menos, mais dez anos em adega. Ainda tinha muito cítrico no aroma (limão), notas herbáceas, e um exótico e típico aroma de lanolina, algo parecido com shampoo, coisa rara em vinhos. Pela acidez, acompanhou bem o prato de bacalhau. Importadora KMM (www.kmmvinhos.com.br).

vinho laranja

Jakot (Friulano)

A foto acima refere-se ao vinho à direita na foto inicial. Trata-se de um vinho laranja da região do Friuli, nordeste da Itália. Como a influência eslovena é bastante grande, temos o nome Jakot (esloveno) para a uva Friulano (italiana). Esta uva é a antiga Tocai Friulano, onde o nome Tocai não pode ser mais mencionado em razão do grande vinho Tokaji húngaro, mais antigo e detentor deste nome.

Outra explicação, é sobre os vinhos laranjas, tão em moda atualmente. Na verdade, de novidade não tem nada. Esses vinhos são na realidade a origem da vinificação em brancos. Antigamente na Georgia, berço da vitivinicultura mundial, as uvas brancas eram fermentadas junto com as cascas, gerando vinhos rústicos e de certa tanicidade. Modernamente, sabemos que os brancos são vinificados sem o contato das cascas, gerando vinhos mais finos e delicados. Como a moda é cíclica em todos os sentidos, resolveram reinventar esses vinhos antigos com o nome “laranja” devido à sua cor no processo final de vinificação. Evidentemente, são vinhos exóticos para nossa geração, tendo seus méritos e suas indicações enogastronômicas.

bacalhau semana santa

bacalhoada: o prato dos dois brancos

Dadas as explicações, vamos ao exótico Dario Princic Jakot 2011. São vinhas antigas de sessenta anos com um hectare de extensão, gerando apenas duas mil garrafas. A fermentação com as cascas leva 22 dias em toneis de castanheiras. Posteriormente, o vinho estagio em velhos toneis de madeira de dimensões variadas. O resultado é um vinho multifacetado com aromas de frutas secas, damasco, gengibre, notas de chá, cítricos, e vários outros aromas. Evidentemente, tem estrutura de sobra para acompanhar pratos de bacalhau, como foi o caso, e tantos outros pratos onde a maioria dos brancos não tem força suficiente. Importadora Piovino (www.piovino.com.br).

Em suma, um contraste de cores, aromas e sabores, de dois vinhos antagônicos com origem, filosofia e métodos de vinificação totalmente diferentes, mostrando a diversidade no mundo dos vinhos.

semana santa

entrada para o champagne

jacquesson 738

Um champagne a ser batido

O champagne acima foi nosso amuse-bouche que precedeu os dois vinhos brancos comentados. Este champagne é sensacional!. Equilibrado, marcante, cremoso, persistente, e nos atuais dias, com preço bem honesto diante de seus concorrentes. Realmente, um champagne a ser batido.

A cuvée 738 é baseada na safra 2010, complementada com 33% de vinhos de reserva. Um corte com predomínio da Chardonnay (61%), acrescido com Pinot Noir (18%) e Pinot Meunier (21%). Champagne marcado pela elegância da Chardonnay e com longo poder de longevidade. Esta cuvée passa cerca de quatro anos sur-lies e o vinho-base é fermentado em madeira inerte. Existem algumas cuvées D.T. (dégorgement tardive), onde o tempo sur-lies é de nove anos. Vale cada centavo seu preço. Importado pela Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br).

Austrália: Parte VII

21 de Fevereiro de 2013

Apesar da Austrália Ocidental ser um grande estado, a produção vinícola fica próxima de cinco porcento do total de vinhos australianos concentrada numa pequena região mais ao sul e próxima ao litoral da cidade de Perth. Não há dúvida que Margaret River é a região mais famosa, chamada também de “bordeaux australiana” com as devidas considerações. Estudos nos anos 60 revelaram semelhanças de clima e solo com os padrões bordaleses. Portanto, o cultivo de cepas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Sauvignon Blanc e Sémillon foi natural e bastanta convincente. Vinícolas como Vasse Félix e Cape Mentelle (pertencente ao grupo  francês LVMH) estão entre as mais destacadas. Vale destacar o cultivo da Sémillon na elaboração de varietais ou o tradicional corte bordalês com a Sauvignon Blanc. Como varietal, tem um sabor mais tropical e arredondado que o Hunter Valley. Já nas misturas, temos vinhos elegantes e equilibrados. Outras regiões, veja o mapa abaixo:

Margaret River: o modelo bordalês

Outras regiões como Swan a norte de Perth, é berço da viticultura deste estado, produzindo vinhos fortificados desde o final do século dezenove. No atual momento, em regiões mais altas e frias são cultivadas cepas como Verdelho e Chenin Blanc. Outra área encostada à Margaret River é Geographe. De solo mais arenoso, não tem o mesmo terroir de Margaret River. Há bons vinhos baseados em Chardonnay, Shiraz e Merlot. Vinhos relativamente encorpados.

Caminhando mais ao sul, saindo do oceano índico e entrando no oceano do sul, temos as áreas de Pemberton, Manjimup e Great Southern. Mamjimup, mais quente do que Pemberton, demonstra potencial para as uvas Chardonnay, Pinot Noir e Shiraz. Já Pemberton, pende mais para vinhos à base de Chardonnay e Pinot Noir, embora sem muita consistência ainda.

Na maior região da Austrália Ocidental, Great Southern é dividida em cinco regiões, cada qual com suas cepas características. Região ainda incipiente cultivando Riesling, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Shiraz. Os tintos são cheios e o Chardonnay generosos.

Terminando nosso ciclo sobre Austrália, vão aí alguns números expressivos deste país. Em 2011, foram pouco mais de 10,7 milhões de hectolitros produzidos com leve predominância de tintos (53%). As exportações neste mesmo ano são expressivas com sete milhões de hectolitros exportados. A Austrália é o quarto maior exportador mundial e o primeiro dentre os países do chamado Novo Mundo.

Austrália: Parte VI

18 de Fevereiro de 2013

Prosseguindo nas principais regiões vinícolas deste país continental, veremos agora a famosa região de Victoria. É a mais meridional do continente com clima relativamente frio, conforme mapa abaixo. Dentre as várias sub-regiões, Yarra Valley é a mais importante e famosa. O estado de Victoria sofreu grande atraso no início do século passado devido a infestação da filoxera. Até hoje, são tomados cuidados extremos para controlar a praga e assim, o progresso de sua viticultura está garantido. Normalmente, as regiões mais ao norte costumam ser mais quentes, enquanto as regiões ao sul devido a presença do oceano frio próximo à Tasmânia, são mais frias. Veremos a seguir, algumas destas regiões, conforme mapa abaixo.

Victoria: fontes de bons vinhos Pinot Noir

Começando pelo nordeste de Victoria em torno de dos vales King e Alpinos, esta região é fonte de vinhos em massa, de grande produção, graças à irrigação do rio Murray. Já nos vales acima citados, a altitude faz a diferença (em torno de oitocentos metros). King Valley fornece Chardonnay e Pinot Noir agradáveis e equilibrados, enquando nos Vales Alpinos temos um Shiraz mais apimentado ou condimentado.

A região dos Pirineus (Pyrenees) também apresenta este estilo de Shiraz mais apimentado, além do cultivo de Cabernet Sauvignon. As regiões de Bendigo e Heathcote fornecem vinhos vigorosos à base de Cabernet Sauvignon, Shiraz e Chardonnay. A região de Goulburn Valley prestigia as castas do Rhône com cultivo da Shiraz, Viognier, Marsanne, Roussanne e Mourvèdre. Principalmente os tintos, apresentam forte caráter mineral com traços terrosos.

Passemos agora à produtiva região do noroeste de Victoria com vinhos intensos entre brancos e tintos. Novamente, a irrigação do rio Murray está por trás deste cenário. Shiraz, Cabernet Sauvignon e a exótica Durif (a Petite Shiraz californiana) moldam vinhos densos e encorpados. Outra especialidade local são os vinhos intensamente doces elaborados com Muscat Blanc à Petits Grains e Tokay (a Muscadelle bordalesa). São vinhos fortificados que podem envelhecer bem e muitas vezes elaborados pelo método solera (típico de Jerez). Definitivamente, são um dos ícones australianos em tipicidade e autenticidade.

Caminhando agora para a porção mais ao sul de Victoria, encontramos Gippsland. Aqui encontramos boa fonte de Pinot Noir e Chardonnay de clima frio, além de Cabernet Sauvignon e Shiraz em torno de Moe com clima mais quente e seco. Geelong, a oeste de Gippsland, será sempre lembrada como porta de entrada da filoxera no estado. Em áreas mais quentes cultiva-se Shiraz, enquanto nas mais frias predominam Chardonnay e Pinot Noir.

Finalmente, chegamos às regiões de Yarra Valley e Península de Mornington. Mornington recebe toda a influência fria do litoral através do estreito de Bass, separando o continente da Tasmânia. Nesta fria região temos Pinot Noir e Chardonnay de classe internacional sendo um dos melhores de toda a Austrália. Regiões mais ao norte de Yarra Valley tendem a ser mais quente com bom cultivo de Cabernet Sauvignon e Shiraz elegante. Já nas área mais frias, Pinot Noir e Chardonnay roubam o cenário. A região também é referência em espumantes de qualidade.

Embora a Tasmânia esteja fora do continente, costuma ser englobada com o estado de Victoria. É desafiador cultivar vinhas nesta gélida região. O risco de geadas e ventos fortes é constante. Daí o cultivo de cepas brancas como Chardonnay, Riesling e Pinot Gris. A Pinot Noir é a única exceção tinta. A fama de brancos aromáticos e belos espumantes é crescente.

Após Victoria, nossa próxima parada é Austrália Ocidental com Margaret River.

Australia: Parte V

13 de Fevereiro de 2013

New South Wales ou Nova Gales do Sul é o berço da viticultura australiana. Localizada no extremo sudeste do território australiano, compete em produção com o estado de South Australia. Das diversas regiões vinícolas em Nova Gales do Sul, Hunter Valley é a mais famosa e de maior prestígio. Seu Shiraz de estilo inconfundível, seu Sémillon singular e seus belos Chardonnays mostram vinhos de personalidade atrelados a um  terroir diferenciado.

Hunter Valley a norte de Sydney

Hunter Valley não tem nenhum problema em amadurecer seus frutos. O grande inconveniente é o perigo das chuvas na colheita. Seu Shiraz bem diferente do habitual padrão australiano, apresenta-se menos encorpado, mais equilibrado e com um traço mineral terroso característico, muito provavelmente, de seu solo de basalto (origem vulcânica). O Sémillon colhido precocemente, apresenta baixa alcoolicidade e alta acidez. Quando novo, mostra-se pouco atrativo. Contudo, após alguns anos em garrafa, revela-se com aromas encantadores, lembrando algo tostado, apesar de ser vinificado longe da madeira. É um estilo praticamente único no mundo. Os Chardonnays, estes sim, geralmente amadurecidos em barricas, são aromáticos, cheios e podem envelhecer muito bem. As grandes referências dos estilos acima mencionados são McWilliam´s Sémillon Elisabeth e Tyrrel´s Chardonnay Vat 47, respectivamente. O rótulo abaixo é importado pela KMM, especialista em vinhos australianos no Brasil (www.kmmvinhos.com.br).

Semillon do Hunter: Estilo único

Um desmembramento do Hunter ocorrido na década de setenta é o chamado Alto Hunter ou Upper Hunter. Na verdade, foi um acréscimo da região, buscando terras mais ao norte, livre das chuvas, mas com necessidade de irrigação. A vinícola Rosemount, uma das pioneiras, elabora um dos mais emblemáticos Chardonnays denominado Show Reserve, além do topo de gama chamado Roxburgh. Ambos trazidos pela importadora Vinci (www.vinci.com.br).

Outras regiões de Nova Gales do Sul a oeste e a sul de Hunter Valley como Mudgee, Orange, Cowra, Hilltops, Canberra District, Shoalhaven Coast, Southern Highlands, Gundagai e Tumbarumba, ainda não ganharam vida própria. Muitas delas, quer pela altitude, quer pela proximidade do úmido litoral do mar da Tasmânia, são regiões relativamente frias com cultivo da Chardonnay, Pinot Noir e Sémillon, principalmente.

Por outro lado, regiões como Riverina, parte de Murray Darling e Swan Hill, fornecem vinhos em grande volume, fomentadas por uma irrigação eficiente do rio Murray, a exemplo de Riverland em South Australia, comentada em artigos anteriores. São vinhos relativamente simples, francos, frutados, macios, bem ao gosto do mercado internacional. Em particular, a região de Riverina irrigada pelo rio Murrumbidgee, fornece vinhos densos com as uvas Durif (a mesma Petite Syrah da Califórnia) e Sémillon. Aliás, o grande Sémillon de Riverina não é de estilo seco, e sim um intenso vinho dourado à base de Botrytis, muito comum em áreas específicas da região todos os anos. A vinícola Elderton tem um belo exemplar.

Australia: Parte IV

8 de Fevereiro de 2013

Dando prosseguimento à região de South Australia, vamos sair um pouco da vizinhança de Adelaide já comentada em artigos anteriores e prosseguir na direção sul a caminho do estado de Victoria. Conforme mapa abaixo, observamos uma extensa região acompanhando o frio litoral australiano denominada Limestone Coast. Como sugere o nome, é uma região com importante presença de calcário onde algumas regiões destacam-se como Padthaway e principalmente Coonawarra.

Região relativamente fria para padrões australianos

Coonawarra distante cerca de quatrocentos quilômetros a sul de Adelaide é uma pequena região com solo muito particular denominado “terra rossa”. Elabora um dos melhores Cabernets australianos num terroir diferenciado. Favor ver artigo especial neste mesmo blog denominado “Terroir Coonawarra”.

Padthaway, embora não tão famosa, elabora tintos e brancos bem equilibrados, fugindo um pouco da exuberância e maciez dos vinhos australianos. Seu Chardonnay destaca-se como varietal, apesar do cultivo da Riesling, Cabernet e Shiraz. Seus vinhos frequentemente são misturados com os de outras regiões, fato comum na concepção australiana.

Wrattonbully, Mount Benson e Robe são regiões ainda em desenvolvimento onde dificilmente há menção de seus nomes em rótulos. Normalmente, quando são engarrafados sem mistura, a menção Limestone Coast é mais apropriada, sobretudo em termos comerciais.

Terminando South Australia, observamos no mapa acima a produtiva região de Riverland. Aliás, uma das mais produtivas de toda a Austrália. Dependendo fundamentalmente de irrigação através do rio Murray, seus vinhos destacam-se muito mais pelo volume do que propriamente pela qualidade. A região é extremamente quente e seca. Tem papel estratégico na produção de vinhos relativamente simples, com grande apelo, e preços altamente competitivos no mercado internacional, fazendo jus ao grande poder de fogo dos vinhos australianos no comércio de exportação. É bom lembrar que South Australia é o estado mais produtivo, elaborando quase metade de todo vinho australiano.

Próxima região, New South Wales.

Australia: Parte III

1 de Fevereiro de 2013

O mapa abaixo mostra a região de Adelaide em detalhes, cercada de áreas vinícolas famosas como Barossa Valley e Eden Valley vistas em post anterior, além de McLaren Vale e Adelaide Hills, as quais veremos a seguir.

Região de Adelaide: a marca do Shiraz australiano

Adelaide Hills

Região de altitude fazendo a transição entre McLaren Vale e Barossa Valley. É relativamente fresca com tradição de belos brancos calcados em Sauvignon Blanc, além de Chardonnays. Vinhas de Shiraz antigas também são muito afamadas. O vinhedo Magill Estate da Penfolds nas cercanias de Adelaide já foi base para o mítico Grange, comentado em artigo anterior.

McLaren Vale

Se Barossa Valley é quente e árida, e Adelaide Hills com clima bem mais fresco, McLaren Vale fica no meio do caminho com boa influência do litoral. Suas vinhas são refrescadas com boas brisas, mas nem por isso a região deixa de ser quente o suficiente para promover cativantes tintos à base de Shiraz com muita fruta e corpo. Merlot e Cabernet são cultivadas na região, mas as vinhas antigas de Shiraz e também Grenache são o grande diferencial. A vinícola Clarendon Hills exemplifica bem este conceito com vinhos muito bem  elaborados com estas duas cepas. O baixo rendimentos das videiras em vinhas relativamente jovens, ou a essência das velhas vinhas, mostram vinhos de muita personalidade, equilibrados e profundos. Seu Shiraz topo de gama Astralis com vinhas plantadas em 1920 está num seleto grupo entre os melhores de toda a Austrália, fazendo companhia para o mítico Grange, Hill of Grace e o poderoso Armagh de Clare Valley, região que veremos a seguir.

Clare Valley

Pouco mais de cem quilômetros a norte de Adelaide, encontra-se ClareValley (fora do mapa acima), região de altitude entre 400 e 500 metros. Seu riesling, introduzido por imigrantes alemães, é o mais clássico estilo australiano com um toque cítrico característico lembrando lima. A latitude a norte aliada à uma região mais interiorana é compensada pela altitude dos vinhedos, promovendo dias quentes e noites frias. Com isso, o amadurecimento das uvas é pleno, preservando ótimos níveis de acidez. Seu Shiraz e também seu Cabernet são famosos, com muita fruta e bela sensação de frescor. O produtor Jim Barry trazido para o Brasil pela importadora KMM (especializadas em vinhos australianos – www.kmmvinhos.com.br), apresenta vinhos diferenciados tendo com ápice o grande Armagh, citado em parágrafo anterior.

Austrália: Parte II

29 de Janeiro de 2013

Se há um estado que personifica o exuberante estilo shiraz australiano, este estado é South Australia. Regiões como Barossa Valley, Adelaide Hills, Mclaren Vale e Clare Valley, demonstram esta marca com algumas variações e características próprias de cada região. O mapa abaixo ilustra estas regiões.

South Australia: concentração de grandes vinícolas

Barossa Valley

Além de grandes vinhos e grandes vinícolas, Barossa Valley entrou definitivamente no mapa-mundi dos vinhos com o mítico Grange Hermitage, hoje denominado apenas Grange, e considerado por muitos o maior tinto do hemisfério sul. Sonho que começou nos anos 50 com Max Schubert da vinícola Penfolds, um visionário que ousou fazer um grande bordeaux na região. Fã desta região e voltando de um estágio em vinícolas bordalesas, confiava no clima propício de Barossa, com muito sol e pouquíssima chuva. Um de seus pilares para elaboração de seu mítico vinho era partir de uvas perfeitamente maduras e de grande concentração. Observando antigas vinhas de Shiraz em vinhedos escolhidos a dedo, encontrou a matéria-prima ideal. Na vinificação cuidadosa a lição das barricas bordalesas entrou em ação. O vinho então amadureceu em barricas novas de carvalho americano, apostando na riqueza exuberante dos grandes shiraz da região. Seu vinho da safra de 1955 entrou para história, fazendo parte de um seleto grupo dos melhores do mundo de todos os tempos.

Vinhedo histórico em Eden Valley

Outro vinho de Barossa, mais especificamente de Eden Valley, região mais alta pertencente à Barossa Valley, é o famos Hill of Grace da vinícola Henschke. Este é um Shiraz elaborado exclusivamente de um vinhedo pré-filoxera plantado em 1860. É bom esclarecer que este conceito de vinhedo único, bastante ortodoxo no Velho Mundo, é exceção na Austrália. O próprio Grange mencionado acima, parte de vinhedos não só em Barossa Valley, mas também Mclaren Vale e Adelaide Hills. Para finalizar os grandes tintos de Barossa Valley, não poderíamos deixar de mencionar o grande Command Shiraz da vinícola Elderton. Um blockbuster com toda a riqueza, autenticidade e exuberância de um belo shiraz australiano.

De um modo geral, Barossa Valley é uma região bastante quente e árida, necessitando de irrigação. Eden Valley, mencionado acima, é um pouco mais fresco, inclusive com cultivo de uva riesling em locais propícios. Seus vinhos são o ápice da exuberância, notadamente seu típico Shiraz. Misturas com Cabernet Sauvignon são comuns, algo bem particular de South Australia.

Do lado dos brancos, a Chardonnay reina absoluta, quer como varietal, quer em misturas com a Sémillon. A Sémillon como varietal não é comum. Este estilo é mais presente em Hunter Valley, que veremos mais adiante, sendo praticamente um clássico desta região. Um pouco de Sauvignon Blanc é cultivada e geralmente participando de cortes com a Sémillon. Os vinhos costumam ser bem aromáticos, cativantes, porém carecendo geralmente de certo frescor.

Austrália: Parte I

25 de Janeiro de 2013

Austrália, um dos maiores países exportadores de vinho, mais precisamente, o quarto no ranking mundial, com pouco mais de sete milhões de hectolitros exportados e aproximadamente cento e setenta mil hectares de vinhas cultivadas. Símbolo de vinho moderno, macio, aromas exuberantes, pronto para beber, direto e sem delongas.

A partir deste artigo, mostraremos as principais regiões vinícolas australianas, baseadas nos sites: www.wineaustralia.com e www.winecompanion.com.au. A uva Shiraz, grafia australiana, é a grande estrela entre as tintas com exemplares notáveis nas regiões de Barossa Valley, Mclaren Vale e Clare Valley, principalmente. Os brancos baseados na Chardonnay e também na pouco explorada Sémillon, sobretudo como varietal, são os grandes destaques.

Vinhas concentradas na porção sul do país

Conforme mapa acima, as três regiões meridionais, South Australia, Victoria e New South Wales, concentram a grande maioria das vinhas deste país de dimensões continentais. Western Australia, Queensland e a ilha da Tasmania, completam o cenário. O fator fundamental desta concentração é o clima extremamente seco e bastanta quente fora das regiões mencionadas. Aliás, boa parte do vinhedo australiano precisa obrigatoriamente de irrigação, sem a qual, as vinhas não sobrevivem satisfatoriamente. Outra característica singular, é a ausência da filoxera em boa parte das vinhas australianas. A região de Victoria que será abordada oportunamente, é a que mais sofre com a presença desta praga. Só para esclarecer, filoxera é um pulgão que infectou e devastou grande parte do vinhedo europeu no final do século XIX, propagando-se para outras partes do mundo. Como sua ação nociva era a destruição das raízes da videira, a solução foi plantar videiras americanas nos vinhedos infectados (contato com o solo), enxertando as videiras européias sobre as americanas, ou seja, sem o contato direto com o solo.

A implantação da cultura da vinha na Austrália dá-se coincidentemente pouco antes desta época com importante participação de imigrantes alemães. Deste fato, resulta a grande tradição da uva Riesling em Barossa Valley, notadamente Eden Valley, região contígua à Barossa, e principalmente em Clare Valley, região de altitude a norte de Barossa.

A vitivinicultura australiana contemporânea está calcada em poderosos grupos vinícolas capazes de vinificar com qualidade e eficiência grandes massas de mostos provenientes de várias regiões, muitas vezes, distantes entre si, modificando drasticamente o tradicional conceito de terroir. A tecnologia e conceitos de vinificação são avançados, respeitados e muitas vezes adotados mundo afora. Um dos trunfos da agradabilidade dos vinhos australianos, sobretudo os tintos, está no fato de vinificarem os mostos sem grandes macerações a temperaturas um pouco mais baixas que as habituais. Eles preferem os taninos mais dóceis das barricas de carvalho, de mais fácil polimerização, aos taninos propriamente das uvas que normalmente necessitam mais tempo para serem amaciados. Além disso, os aromas e temperos (baunilha, especiarias, toques empireumáticos, …) da madeira potencializam o apelo e apreciação dos vinhos, mesmo em tenra idade.

Outros detalhes, veremos a seguir no próximo post, focando cada uma das principais regiões mostrada no mapa acima.