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Lado B das uvas

18 de Maio de 2026

A última erupção vulcânica em Santorini data do início de 1950. Vislumbrar o vulcão é um dos passeios turísticos feitos pelos mais de três milhões de turistas que visitam a ilha grega. Eles também podem desfrutar das fontes de águas termais às sombras do vulcão. O solo tem outro trunfo: pouco mais de 20 vinícolas produzem vinhos ali, principalmente brancos, com destaque para a uva assyrtiko, cujos melhores rótulos são comparados por especialistas a grandes rótulos de Chablis.

Um dos mais reputados da região, o produtor Gaía, importado Brasil pela Mistral, trabalha um punhado de uvas de nomes quase desconhecidos no Brasil, além da Assyrtiko. Por exemplo, vinifica um branco com a uva Moschofilero em vinhedos situados em altitudes elevadas no Peloponeso. Foi ali que se deflagrou na Antiguidade uma guerra entre as cidades-estado gregas, opondo Esparta e Atenas, que disputavam a hegemonia na Grécia. Resultou na vitória espartana, mas representou o fim século de ouro ateniense e abriu espaço para o império macedônio e depois a todos os caminhos chegarem a Roma.

Os preços dos vinhedos estão em alta na Grécia. Em Santorini, a disputa das vinhas é com o turismo. Um hectare pode sair mais de 500 mil euros, baixo para outros países, como a França, mas elevado para vinhos que começaram a ganhar atenção internacional há menos de três décadas.

No norte da Itália, o Piemonte é terra do vinho dos reis (Barolo). Uma de suas uvas brancas mais relevantes quase desapareceu entre os vinhedos desprestigiada em meio à fama dos tintos. No início dos anos 1980, a produção da Timorasso estava relegada a poucos hectares, até que um grupo de produtores locais buscou resgatar a tradição.  

A Timorasso é uma uva caprichosa: pele fina, propensa a doenças e de baixo rendimento. Por décadas, foi substituída por variedades consideradas mais fáceis pelos produtores e pela demanda do mercado por barberas, barbarescos e barolos. Foi o esforço de produtores como Ferdinando Principiano (importado pela Italy Import) que devolveu a esta casta o seu lugar de direito: um lugar à mesa. Hoje são mais de 60 vínicolas engarrafando a cepa.

Timorasso é uma uva de aromas e sabores particulares. Diferente de muitos brancos italianos feitos para o consumo imediato, possui mais estrutura e uma textura rica, quase oleosa, equilibrada por acidez. Notas de maçã, ervas e uma salinidade profunda definem exemplares como o Langhe Bianco de Principiano.

Na Borgonha, a Aligoté sempre viveu à sombra da onipresente Chardonnay. Relegada aos piores terrenos e frequentemente destinada a ser misturada ao licor de cassis para compor o coquetel Kir, era a uva sem pretensões. No entanto, o cenário mudou drasticamente, com um punhado de novos produtores que buscaram apostar na cepa.

O renascimento da Aligoté deve-se, em parte, às mudanças climáticas — sua casca grossa mantém o frescor em verões mais quentes — e ao trabalho de produtores de elite. No portfólio da importadora Anima Vinum, um dos destaques é Sylvain Pataille, que produz uma série de Aligotés em diversos solos diferentes, buscando mostrar que a uva a depender de onde é plantada muda suas características, como a Chardonnay. Com preço mais em conta, na mesma importadora, o produtor Arnoux produz um Aligoté que combina com pratos de frutos do mar. São vinhos tensos, cítricos e profundamente gastronômicos.

No noroeste da Espanha, a região de Bierzo, um importante ponto de passagem na rota de peregrinação para Santiago de Compostela, tem ganho destaque com a Mencía. Por muito tempo relacionada erroneamente à Cabernet Franc, a uva produz tintos elegantes, focados em fruta vermelha e com uma distinta mineralidade. Um produtor tem se destacado: Raúl Pérez, disponível na importadora World Wine.

Por fim, uma das histórias mais fascinantes de resgate vem de Portugal, mais precisamente na pequena ilha de Porto Santo, vizinha à ilha da Madeira. O projeto de António Maçanita e Nuno Farias se chama Companhia de Vinhos dos Profetas e Villões. Na Ilha da Madeira chamam “Profetas” os habitantes de Porto Santo, que respondem aos vizinhos com a alcunha de “Villões”. Importados no Brasil pela Emi Wines, os vinhos são feitos com uvas com nomes pouco conhecidos.

 A casta Listrão é uma variedade de uva que é cultivada no Porto Santo, como também nas Canárias, em Jerez, e em Portugal continental. Acredita-se que tenha sido introduzida na ilha por volta do século XV, pelos navegadores portugueses que retornavam de suas viagens ao continente africano. Já a Tinta Negra é conhecida na Ilha da Madeira, mas fora dela é rara. Encontra-se apenas em regiões marítimas está por perto, sendo batizada de Molar em Colares, onde está praticamente extinta, e de Saborinho, nos Açores, que está em processo de recuperação.

Heterônimos de um viticultor

4 de Julho de 2025

Quando criança, Paulo Nunes adorava passar horas jogando futebol com seus amigos de rua. Detestava quando seu pai e seu avó paravam a brincadeira e o puxavam para que os acompanhasse nas vinhas da família no Douro, norte de Portugal e região reputada pelos tintos e pelo vinho do porto. Jurou que, quando crescesse, faria de tudo na vida, menos trabalhar com vinhos. Fez Engenharia Alimentar. Ingressou um ano no teatro universitário, mas voltou aos caminhos da infância.

“Fracassei redondamente na minha jura”, diz sorrindo. Hoje ele é enólogo há 20 anos da Casa da Passarella, está à frente também no Dão de Quinta da Perdonda e já foi premiado algumas vezes por publicações portuguesas como o melhor produtor de vinhos de Portugal.  “O viticultor tem heterônimos, buscamos produzir em várias regiões e explorar as nuances e nossa vida tem muitos sacrifícios porque estamos a viajar para produzir ou para mostrar o que fazemos”, afirma Nunes, que perdeu os três primeiros aniversários da filha, em razão de viagens. “Tem de pôr a alma no que fazemos.”

Nos últimos anos, essa nova geração tem revolucionado o vinho português. “Antes se colocava carne em um moedor e saía um croquete, hoje um pedaço vira um presunto, outro vai à panela e outro é usado em um molho”, resume Nunes, cujos vinhos no Brasil são importados pela Premium Wines.

Manuel Lobo de Vasconcellos, à frente da Lobo de Vasconcellos Wines no Dão (vinhos também importados no Brasil pela Premium Wines), é de uma família há oito gerações no mundo do vinho, mas representa a primeira que ingressou em Enologia. Cursar a universidade fez com que buscasse uma novidade: escavou a vinícola familiar no Dão para mapear o subsolo, estudar a mineralidade e as variedades mais adaptadas. Nunca na história de 200 anos da propriedade tinha sido feito isso.

“Saber o que se passa vários palmos abaixo do chão e conhecer bem os solos consegue colocar cada casta no lugar certo, sem ter necessidade de fazer determinadas correções à superfície. É bom para o produtor, bom para a vida do solo e, claro, bom para a saúde do consumidor”, diz.

O aquecimento global tem trazido desafios. “As férias de verão estão mais difíceis de serem marcadas, tenho saído com a família em julho, em vez de agosto ou setembro”, afirma Lobo de Vasconcellos. As situações extremas – como chuvas, granizo ou temperaturas acima de 35 graus – têm sido mais frequentes. Isso faz com que se busquem solos que tenham mais capacidade de reter chuva em áreas em que a estiagem é mais prolongada. “Outra opção é plantar uvas em altitudes mais elevadas.”

A receita da nova geração inclui ainda recuperar antigas maneiras de fazer vinhos e trabalhar com uvas menos badaladas.  Depois de rodar 80 mil quilômetros por ano como consultores de vinícolas em diferentes terroirs, Jorge Rosa Santos e Rui Lopes criaram em 2016 a Lés-a-Lés, um projeto com o desejo de recuperar castas antigas, regiões e estilos de vinhos esquecidos do país. Para estampar os rótulos, a escolha foi o desenho de um bilhete de trem, uma homenagem aos deslocamentos da dupla. Com cerca de 20 mil garrafas, a dupla faz brancos e tintos que exploram uvas e terroirs menos badalados.

Um exemplo é o branco Quinta das Marés com as castas Jampal e Vital de vinhedos ao sopé de Montejunto, uma serra calcária na Extremadura. Outro é o Medieval de Ourém, que carrega uma história singular. Séculos atrás, monges da ordem cisterciense transmitiram aos portugueses o método de vinificação aprendido na Borgonha: uvas brancas e tintas eram cofermentadas e depois passavam por barricas. Jorge e Rui resolveram fazer o mesmo dos antepassados. Esses vinhos chegam em breve ao Brasil pela primeira vez por meio da importadora @emiwine, de Emiliana Medauer.

As novidades também chegam do outro lado do Atlântico. O casal carioca Rafael e Juliana Kelman está se aventurando com uma vinícola no Dão desde 2013. Juliana trocou a publicidade pelo mundo do vinho, Rafael ainda concilia o universo da eletricidade no Brasil com algumas idas para Portugal.  A escolha do país não foi aleatória.

Juliana foi em busca de seus laços familiares. Viram uma quinta à venda no Dão. Assinaram o cheque. São seis hectares, com vinhas plantadas em 2000 com castas tradicionais, incluindo Touriga Nacional e nesse caso também a touriga brasileira. Os vinhos dos Kelman, cujo enólogo é Antonio Narciso, não chegam ainda ao Brasil, estão em busca de importadora.