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França: Geologia

9 de Março de 2020

Estudar os vinhedos franceses também é entender o que está há milhões de anos embaixo do solo. Não que explique tudo, mas é mais fácil compreender noções de terroir quando o solo aflora o que está por debaixo. Veja o seguinte mapa:

France geologie

como embaixo pode afetar em cima

Veja no mapa acima que a região do Loire, muito extensa, passa perto do oceano atlântico, tendo como base o maciço armoricano de granito e xisto. Isso é refletido no solo até a região de Anjou, aproximadamente. Dali para dentro do continente, a bacia parisiense começa a dominar, e temos um solo mais calcário, sobretudo em Vouvray.

champagne solo calcáriosubsolo calcário em Champagne

A mesma formação se encontra no Loire, perto de Vouvray, casas e compartimentos instalados na própria rocha (Maison troglodyte).

Continuando na bacia parisiense, temos a região de Champagne totalmente envolvida neste contexto com um solo extremamente calcário. Seguindo a leste de Champagne, temos a montanha de Vosges, uma série de transformações geológicas de natureza granítica, ricas em minerais, acrescida da depressão renana (fossé rhenan). Tudo isso fazendo parte de uma falha gigantesca de norte a sul no extremo leste françês. É por isso que a Alsace é tão diferente de Champagne em termos de clima e solo, pois a mesma é extremamente ensolarada no verão e barra todo frio e umidade oceânica vindo de oeste para a montanha de Vosges.

borgonha solos

No esquema acima, temos na inclinação da colina os melhores solos da Côte d´Or. A mistura abençoada de marga (argila e calcário) e calcário rico em fósseis, são ideiais para as uvas Chardonnay e Pinot Noir.

A Borgonha ocorre de um milagre espremida entre a grande falha onde o maciço central e os Alpes se deslocam, formando uma série de colinas, entre elas, a famosa Côte d´Or, um dos mais perfeitos terroirs em termos de solo, drenagem e exposição solar.

Continuando a falha mais a sul, temos a região do Rhône onde o granito predomina no norte, e a influência alpina refletida na Provence dá um solo mais erodido no sul do Rhône, com baixo relevo e muitas pedras e areia. Dali pra frente a falha se prolonga, separando definitivamente a região do Languedoc com a Provence.

cognac e chene

cognac e madeira:casamento perfeito

Por estar mais ao norte de Bordeaux e ter maior influência da bacia parisiense, a falta de proteção a oeste do oceano atlântico e a presença maior de calcário, faz desta região de Charentes, Cognac, um paraíso da uvas brancas ácidas, ideais para a produção da aguardente mais famosa da França. As exportações em valores de Cognac desta região supera todas as bebidas produzidas no território francês, inclusive Champagne e os vinhos de Bordeaux.

Finalmente sobra a oeste a grande e antiga bacia da Aquitânia, diferente morfogicamente da grande bacia parisiense. Nesta, o calcário ainda está muito presente na superfície, enquanto em eras geológicas mais antigas, a bacia da Aquitânia é rica em hidrocarbonetos, dando origem ao Petróleo e gás. Não se esqueçam que em Pauillac, há uma destacada refinaria de Petróleo na divisa de St-Estèphe e Pauillac. Por ser rica em cascalho, areia e argila, a região de Bordeaux pende mais para grandes tintos, enquanto na bacia parisiense, a produção destacada é de brancos, sobretudo Champagne e os vinhos do Loire.

maciço central carvalhoMaciço Central, a maior floresta de carvalhos na Europa

No maciço Central, o subsolo granítico com natureza mais metarmórfica superficialmente, é o lar ideal para os bosques de carvalho na Europa. Não só em quantidade, mas também qualidade, o carvalho francês está entre os mais valorizados do mundo.

mapa sul da frança

Sul da França com o mar mediterrâneo em solos complexos entre Languedoc e Provence, separados em Nîmes no delta do Rhône.

 

No sudoeste, abaixo da Aquitânia, houve uma forte pressão dos Pirineus, Maciço Central e Alpes,  formando outra bacia sedimentar do Sudoeste, o que conhecemos por Languedoc a oeste, e Provence a leste. Os solos são muito variados com areia, xisto, argila, calcário, arenito e pedras. Em linhas gerais, temos mais argila e xisto no Languedoc, enquanto no Provence temos solos variados com a presença do calcário. No que diz repeito a Roussillon, mais encostado nos Pirineus, sofre influência do mesmo com um releve mais montanhoso e xistoso.

Quanto ao Jura, uma cadeia de montanhas importante, de natureza argilo-calcária, surge da pressão do maciço central com a influência da fronteira franco suíça, outra cadeia de montanhas.

calvados et cidre

Calvados et Cidre (destilado e fermentado de maçãs)

A parte norte da França, composta basicamente por Normandia e Bretanha, fica numa latitude muito extrema para as vinhas. Em linhas gerais, temos mais granito e xisto na Bretanha, influência do maciço armoricano. Já na parte leste, o calcário predomina na Normandia com outras culturas fora a vinha. Região de maças, centeio, legumes e produção de leite.

Um panorama geral de toda a França, onde vinhos e destilados se superam, além de fornecer o melhor carvalho do mundo. A pauta de exportação da França no que se refere a bebidas (vinhos e espirituosos), muito importante para o governo francês,  perde entre outras coisas para os setores de exportação da Aeronáutica e Cosméticos.

 

A Sina dos Crus Bourgeois

4 de Março de 2020

Desde que foi criada em 1932 a famosa classificação dos Crus Bourgeois tudo parecia tranquilo, até que em 2003 resolveram mexer no vespeiro. A classificação que era hierarquicamente inferior, ficou completamente desmoralizada após vários chateaux famosos entrarem na justiça, exigindo seu direito de menção na classificação.

Após longas discussões e processos, resolveram fazer a atual classificação de 2020, onde 249 chateaux têm direito à sua respectiva classificação. Segundo os critérios, foram computados os valores médios de notas durante os últimos dez anos. A classificação admite 14 Chateaux com a menção “Crus bourgeois Exceptionnel”, 56 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois Supérieur”, e 179 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois”. Se vai pegar, não sei, mas é o que temos para o momento.

cru bourgeois 2020

mapa do Médoc

A parte superior do mapa chamada de Médoc é a mais carente em classificação, e portanto, a que mais necessita de números absolutos. São 115 chateaux onde devemos separar o joio do trigo.

Já na região abaixo, onde circunda as principais comunas, temos o Haut-Médoc, sub-região de terroir supostamente melhorado pela presença do cascalho. Aqui temos 88 chateaux para escolher, onde os critérios são mais restritos.

Por fim, nas comunas mais restritas a esquerda como Listrac, Moulin, e à direita como St Estèphe, Pauiilac e Margaux, temos poucos exemplares a escolher. Normalmente, o vinho é mais caro devido à força de seu terroir.

O médoc trabalha com cerca de 28 milhões de garrafas para esta categoria de vinho, representando 31% da produção de todo o Médoc. Números significativos para uma produção que trabalha com a elite de vinhos finos tintos da região.

Não nos esqueçamos que fora desta classificação fica chateaux confiáveis como Gloria, Sociando-Mallet e Chasse Spleen, Tour de By, Maucaillou, Potensac, e alguns ótimos de St Emilion,  sempre altamente reputados.

A categoria Cru Bourgeois sempre teve sua importância histórica em termos de qualidade, imediatamente abaixo dos Grands Crus Classés da região, vinhos de alta reputação e preços nas alturas. Após essas categorias temos os Crus Artisans, Caves Coopératives, e outros Crus, totalizando 16 mil hectares de vinhas e 100 mil garrafas de vinhos em todo o Médoc.

Three_Cru_Bourgeois

cru bourgeois confiáveis

Os Crus Bourgeois sempre foram motivo de curiosidade e bons preços frente aos figurões “Grand Cru Classé”. Nomes consagrados como Chasse-Spleen (Moulis), Poujeaux (Moulis), Haut-Marbuzet (St. Estèphe), Le Ormes-de-Pez (St. Estéphe).

Alguns dos chateaux listados atualmente merecem certo destaque. Evidentemente, não vou falar de todos, apenas o que julgo ser importante, naturalmente com devidas falhas e esquecimentos. Chateau Castéra, Noiallac, Clément Pichon, Larose Trintaudon, Plantey, d´Agassac, Belle-Vue, d´Arsac, le Boscq.

Chateau Castéra

É um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc,  região norte a Saint-Estéphe, segundo classificação atual de 2020. É um forte concorrente ao Chateau Potensac, também do Médoc. É composto basicamente de Merlot, complementado por Cabernet Sauvignon e umas pitadas de Cabernet Franc e Petit Verdot. Já estava classficado em 1932 e suas vinhas concorriam com os Cru Clássés da região em 1855.

Chateau Noiallac

É também um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc, próximo a Castéra, segundo classificação atual de 2020. É um corte mais puxado para o Cabernet Sauvignon, embora a Merlot ainda seja majoritária. Tem 5% Petit Verdot. Não é um chateau com a tradição de Castéra, mas tem um vinificação moderna e consistente.

Chateau Clement-Pichon

É um Cru Bougeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a atual classificação de 2020. Fica na parte bem ao sul de Margaux, abaixo do Chateau La Lagune. Tem muita tradição pois estão ligados aos Pichons (Baron e Lalande, duas estrelas de Pauillac). Seu blend é baseado na Merlot (dois terços) e um terço de Cabernets, sobretudo o Cabernet Sauvignon. Um vinho consistente.

chateau larose-trintaudon cru bourgeoispodemos dizer: um clássico de St-Julien

Chateau Larose Trintaudon

É um chateau clássico muito bem localizado, próximo as vinhedos de Latour e próximo também à comuna de St-Julien. Atualmente, é um Cru Bourgeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a classificação de 2020. Seu blend privilegia a Cabernet Sauvignon, sem esquecer a maciez da Merlot. Chateau consistente que envelhece muito bem.

chateau plantey pauillac

um rótulo clássico em Pauillac (raridade)

Chateau Plantey

O único chateau Cru Bourgeois da classificação atual de 2020 com o nome de Pauillac no rótulo. Seus vinhedos são antigos e ficam muito próximos ao do Chateau Pontet-Canet, uma das sensações de Pauillac. Vem marcado pelo excelente Cabernet Sauvignon de Pauillac, sem esquecer a suavidade da Merlot. Um rótulo clássico com a distinção de Pauillac.

Chateau d´Agassac

Este é o primeiro Cru Bourgeois Exceptionnel do Haut-Médoc, segundo a classificação atual de 2020. Bem ao sul de Margaux, na comuna de Ludon-Médoc, situa-se o chateau d´Agassac com terroir pedregoso e arenoso. Calcado no Cabernet Sauvignon nas boas safras, sem esquecer o charme da Merlot. Vamos falar em seguida do chateau d´arsac, de nome parecido e muito próximo  a este excelente chateau.

Chateau d´Arsac

É um Cru Bourgeois Excptionnel pertencente à comuna de Margaux, pois Arsac é um dos cinco vilarejos que fazem uma das comunas mais famosas do Médoc. Mesmo corte do chateau acima, mas num terroir ligeiramente diferente. Os dois chateaux têm história e tradição.

Belle Vue

É considerado um Cru Bourgeois Exceptionnel, segundo a classificação atual de 2020. Fica na comuna de Labarde (Margaux), mas é considerado um Haut-Médoc. É um vinho com mais Cabernet Sauvignon e Petit Verdot (pode chegar a 20%, dependendo da safra), deixando a Merlot como coadjuvante. É um vinho austero que envelhece bem.

chateau le boscq st estephe

um autêntico St-Estèphe

Chateau Le Boscq

Por fim, o Chateau Le Boscq, atualmente um Cru Bourgeois Exceptionnel de Saint-Estèphe. Ele é um dos Tops da lista e bem o merece. Faz parte do grupo Durthe Bordeaux. Não confundir com Le Petit Boscq, um Cru Borgeois Supérieur atualmente, e também um belo vinho, de Petit não tem nada. Voltando ao Le Boscq, ele está classificado desde 1932, tem muita tradição e é um autêntico St-Estèphe. Mescla muito bem as Cabernets com o Merlot num balanço muito equilibrado. Fica bem ao norte de St-Estéphe, perto do rio onde há um solo de cascalho.

 Procurei dar uma ideia atual da situação dos Cru Bourgeois, sempre muito difícil ao longo da história. Espero sinceramente que esta classificação atual ponha um ponto final na conturbada trajetória desta importante apelação.

Hermitage Branco

27 de Fevereiro de 2020

Muito se fala do hermitage tinto, deixando desapercebido o grande branco do Rhône. A grafia Ermitage ou Hermitage tem muito mais haver com a dificuldade inglesa em pronunciar o nome. No entanto, Ermitage sem h parece ser a original. A apelação Hermitage trata-se de uma colina granítica muito bem posicionada de 136 hectares de vinhas, sendo os tintos Hermitages 70% da produção e 30% para os Hermitages brancos.

Esse é um branco diferente, pois as uvas são diferentes, uma dupla Marsanne e Roussanne, sendo a primeira geralmente majoritária. O Hermitage branco tem a fama de não possuir muita acidez, assim como seu parceiro do Rhône Norte, Condrieu, feito com a uva Viognier de baixa acidez. De fato, a discussão é longa, alguns achando que o vinho deva envelhecer, outros não, aproveitando o frescor da juventude. O Chateau Grillet, um monopólio da apelação Condrieu com a uva Viognier, de 3,5 hectares tem apelação própria para deixar a discussão mais acirrada.

Voltando ao Hermitage branco, este sim,  é um vinho que deve envelhecer e sobretudo decantando por horas antes do serviço, pois seus aromas são muito redutivos. Geralmente, tem uma fase pouco expressiva na juventude e só vai desenvolver bem a partir dos dez anos em garrafa. Funciona um pouco como o Sémillon australiano de Hunter Valley, mais especificamente de Mount Pleasant. Um branco exótico que desenvolve seus aromas e sabores aos poucos.

Marsanne

Uva do Rhône gostando de vinhedos de encosta, solo pedregoso, e dias ensolarados no amadurecimento. Sua acidez é média e seus aromas são discretos, sobretudo em seu lento desenvolvimento. Seus aromas são de ervas, toques florais, mel, e amêndoas com o passar do tempo em garrafa.

Roussanne

Tem características semelhante à Marsanne, mais é menos vigorosa e mais delicada. Partilha do mesmo terroir. Seus aromas delicados e florais são mais evidentes. Participa geralmente com baixa porcentagem no corte.

Solos e Climats

hermitage lieux ditsos vários terroirs da montanha

De uma maneira geral no mapa acima, percebemos que os setores esquerdos da montanha são famosos pelo grandes tintos Hermitage como Les Bessardes, Le Méal, Les Greuffieux. 

Os setores no meio da colina começam mesclar uvas tintas e brancas. Vale lembrar que um bom Hermitage tinto pode conter até 15% de uvas brancas (Marsanne e Roussanne). O lieu-dit Maison Blanche é muito reputado pelo plantio de uvas brancas. O subsolo é sempre granítico, mas os solos da superfície variam entre a argila, quartzo, e solos aluviais.

Os setores leste e de borda como Les Murets, por exemplo, é famoso por suas uvas brancas. O Ex-Voto, Ermitage Blanc do Guigal, tem a maioiria de vinhas em Les Murets, de solo aluvial e pedregoso.

No caso do Hermitage Blanc de Jean-Louis Chave, os vinhedos de borda são Les Recoules, Maison Blanc, Peléat e L´Ermite, entre outros. Um vinho elegante que se desenvolve muito bem ao longo do tempo. A mescla de vários terroirs da montanha é um dos segredos dos grandes vinhos de Chave.

dois grandes brancos de Chave

Os exemplos acima falam por si deste excelente produtor. O da esquerda é um grande Hermitage branco de guarda que custa caro perto da concorrência, mas o da direita é o Blanche com uvas de segunda linha para um vinho mais informal, continua muito estruturado e longevo, mostrando a seriedade deste produtor. Um custa dez vezes o preço do outro, mas vale a pena.

exemplo de seleção parcelar de Chapoutier

Os exemplos acima são da formidável seleção parcelar de Chapoutier, um dos maiores nomes do Rhône. No da direita, um exemplo de Ermitage branco de grande corpo e estrutura do terroir L´Ermite. Seleção de velhas parcelas de Marsanne num dos terroirs mais antigos da colina, L´Ermite.

O da esquerda é do terroir L´Orée, pertencente à parcela Les Murets de vinhas Marsanne antigas. É um solo antigo, aluvial, mas de não tanta profundidade como L´Ermite. Um vinho com um pouco mais de frescor e um pouco mais leveza.

dois belos brancos do Rhône

Falando um pouco do Chateauneuf-du-Pape Blanc, tem um produção pouco expressiva no Rhône-Sul. Em seu assemblage participa ativamente as uvas Clairette e Bourbolenc. A Grenache Blanc tem pouco participação, assim como Marsanne e Roussanne, já comentadas. Mesmo para bons produtores, é um vinho que não deve envelhecer devido à sua oxidação prematura, exceto em cuvées especiais. É o caso do Clos de Papes branco, bem longe das pretensões de seu ótimo tinto.

Já o exemplo da esquerda é uma exceção. Um branco excepcional do Chateau de Beaucastel, elaborado exclusivamente com Roussanne, uva de difícil cultivo. São apenas três hectares de vinhas plantadas em 1901. Portanto, sua vinificação é especial e moldada para longa guarda. Um vinho diferenciado e elegante para padrões da apelação.

Enfim, é um assunto vasto e específico para vinhos brancos pouco convencionais. Assim como o Hemitage tinto que demanda paciência, os Hermitages brancos são de uvas diferentes que exigem tempo em garrafa. Vale decanta-los com antecedência e são muito gastronômicos como comidas exóticas, sobretudo as asiáticas e alguns pratos da nossa cozinha brasileira do nordeste como baião de dois e outros pratos consistentes. Substituem perfeitamente os tintos em termos de corpo e estrutura. Vale para pratos de inverno.

Margaux: Terroir e Vinhos

22 de Fevereiro de 2020

Das quatro comunas famosas do Médoc, margem esquerda de Bordeaux, saem os quatro Premier Grand Cru Classé, além de outros vinhos de grande estirpe. A comuna de Margaux tem certas particularidades que não são comuns às outras três: Saint-Estèphe, Pauillac, e Saint-Julien, todas elas praticamente coladas entre si.

No caso de Margaux, os chateaux ficam espalhados em torno das aldeias, ou seja, eles ficam mais pulverizados em relação às outras comunas. Além desta característica, a mão e o estilo do produtor pesam nas condições de terroir.

medoc comunas

Margaux, um pouco isolada

Os setores mais longe rio nós chamamos de Haut-Medoc que circundam as outras comunas mais famosas. O cascalho pode aparecer, mas ele é mais escasso e aparece em talhões isolados neste território. Vejam pelo mapa acima que o cascalho presente nas três comunas tem uma parte descontinuada e volta aflorar em Margaux.

Podemos dizer que os vinhos de Saint-Estèphe tem taninos mais firmes, acidez mais destacada e um certa rusticidade em relação às outras comunas. Isso se deve à maior proporção de argila no terreno. Pauillac por vez, tem alta proporção de cascalho e excelente drenagem. Vinhos que aliam potência e elegância, fornecendo três tintos Premier Grand Cru Classe (Latour, Mouton e Lafite). Por fim, Saint-Julien, comuna que não tem o mesmo brilho de Pauillac, mas uma destacada regularidade.

medoc margaux

as comunas de Margaux

Das cinco comunas que aparecem no mapa de Margaux, a comuna homônima é a mais importante, dando o mesmo nome ao único Premier Grand Cru Classé da região, Chateau Margaux.

É interessante notar que os tintos de Margaux são marcados pela elegância e finesse, falando-se muito da Merlot no corte. Contudo é prudente notar que os grandes vinhos de Margaux tem alta porcentagem de Cabernet Sauvignon na mistura, a começar pelo grande Margaux. Acontece que o cascalho da comuna de Margaux é diferente. São calhais brancos de grande profundidade num solo acinzentado com alguma proporção de calcário, o que confere extrema finesse ao vinho. Isso é tão relevante que o Cabernet Sauvignon de Margaux parece ser mais leve e fino que o próprio Merlot elaborado num sítio comum.

Notem que as comunas de Margaux, Cantenac e Labarde são as que mais refletem este terroir. Elas têm proximidade do rio e um teor de cascalho maior. Na parte norte em Soussans, o cascalho quase desaparece, aumentando a proporção de argila. Neste cenário os vinhos são mais robustos e pesados, ficando a finesse em segundo plano. Por fim, a comuna de Arsac fica mais no interior da apelação, semelhante às comunas de Listrac e Moulin, no que diz respeito à distância do rio. Os solos contêm algum cascalho, mas há mais presença de areia, o que torna o vinho mais leve. Essa condição a sul de Margaux é uma característica de Macau e Ludon-Médoc. Os exemplos típicos deste tipo de vinho são Chateau Cantemerle e Chateau La Lagune, os quais são considerados Haut-Médoc de destaques.

margaux comunaconcentração nas comunas principais

Chateau d´Issan  x  Chateau Margaux

Se a comparação não vale pela fama e prestígio, em preço e condições de terroir podemos conversar. Notem que a distância do rio em relação aos dois chateaux são idênticas, separada por pouco mais de um quilômetro entre eles.

No Chateau d´Issan, tradicional desde a idade média, temos uma área menor de 44 hectares de vinhas com solo pedregoso, argila e algum calcário. Essas condições de terreno faz a proporção de Merlot aumentar, embora  a Cabernet Sauvignon seja ainda majoritária.

img_7328sempre em caixas de madeira

No Chateau Margaux temos outra situação. O vinhedo é praticamente o dobro com 80 hectares de vinhas. O solo é mais pedregoso, embora com argila e calcário. Este fato faz com que a Cabernet Sauvigon seja amplamente majoritária com mais de 70% no corte. Portanto temos um vinho muito mais longevo e estruturado. Embora com estas características, Margaux  é um vinho de extrema finesse dada pelos calhais de seu terreno,  aliada à uma estrutura monumental. A parte mais calcária do terreno temos um fato singular no Médoc. A expressão de um autêntico Sauvignon Blanc de larga tradição.  O branco mais prestigiado do Médoc.

Esses vinhos podem ser adquiridos na importadora Clarets com preços competitivos. Os dois chateaux, Margaux e d´Issan, apresentam várias linhas de produção e preços, de acordo com seu bolso. A vantagem do d´Issan além do preço, é sua prontidão mais adiantada neste momento. http://www.clarets.com.br

img_7337briga de titãs

Na bela safra 1983 para Margaux, os chateaux acima travam uma batalha acirrada ao longo do tempo. Por enquanto, Palmer está na frente com 98 pontos.

Chateau Palmer

O segundo vinho na hierarquia de Margaux, após a Grand Vin Chateau Margaux. Em algumas safras se rivalizam em alto nível como 1961 e 1983, numa difícil disputa. Os solos de Palmer ficam entre os calhais pedregosos, argila e areia. Aqui o aporte da Merlot é significativo, podendo em alguns anos superar o Cabernet Sauvignon. No entanto, apresenta classe e uma estrutura monumental para envelhecimento em garrafa. É um estilo intermediário, não tem a força do Chateau Margaux, mas tem mais um lado mais feminino desta comuna. 

Em linhas gerais, a comuna de Margaux sofre nas safras não tão boas. O solo mais frio de calhais e o próprio calcário não contribuem para o perfeita amadurecimento das uvas em alguns anos. No entanto, nas grandes safras, Margaux costuma fazer os vinhos mais finos de todo o Médoc.