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O inesquecível verão de 42

25 de Novembro de 2017

Quem não lembra do filme Summer of ´42 onde a bela atriz Jennifer O´Neill casada na história, encanta um adolescente em suas férias de verão. Pois bem, neste ano estava nascendo um dos maiores La Tâche da história com as últimas parreiras pré-filoxera. A descrição dos vinhos deste ano no livro do Romanée-Conti é a seguinte: “um peu plus foncé”, ou seja, uma cor um pouco mais escura. É exatamente na cor que o mito começou a se revelar. Num dos últimos encontros dos ano, porque o último só Deus sabe, os confrades estavam eufóricos por trazerem e beberem preciosidades. Não podia ser só um belo vinho, tinha que ser algo marcante. Cada qual se vangloriando de sua garrafa, quando nosso super Mário num golpe de mestre, saca duas garrafas e coloca na mesa: La Tâche 1942 e Romanée-Conti 1977. Em seguida, “despretensiosamente” sugere: vamos começar por essas duas para fazer um treino. Quando os vinhos foram servidos, imediatamente lembrei do primeiro tempo na Copa de 2014. Com 25 minutos, Alemanha 5, Brasil 0. Acabou o almoço!. Para não falar de coisas tristes onde em 1942 aconteceram ataques terríveis na Segunda Guerra Mundial,  essas duas garrafas caíram como mísseis teleguiados, não deixando pedra sobre pedra. Lembrou também aquelas lutas do pugilista Mike Tyson, onde o pessoal ainda procurando se acomodar no ginásio, e a luta já acabou. Foi impressionante!

taça de esquerda, 35 anos mais jovem. Inacreditável!

Vamos então falar do La Tache 1942. Felizmente, já tive a sorte de provar alguns vinhos imortais como Margaux 1900, por exemplo. Neste La Tâche temos a mesma sensação. Como pode um delicado Borgonha de 75 anos estar íntegro deste jeito?. Só mesmo a imortalidade explica. A cor é maravilhosa, sem indícios de envelhecimento. O nariz de adega úmida, sous-bois, carne, e incrível mineralidade. Boca perfeita, maravilhosamente frutado, acidez e álcool perfeitos, e taninos de seda. No fundo, todo o La Tâche deseja chegar neste estágio. Mais uma vez, a recorrente frase de Hugh Johnson: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

gero romanee conti 77 e st vivant 93

1977 – 1993, o tempo revela segredos …

Com tudo isso, não pensem que o Romanée-Conti 1977 ficou para trás. Ao contrário, deu um show de aromas e delicadeza. Sua cor, muito mais evoluída que seu companheiro La Tâche, embora 35 anos mais jovem. Sabe aquela mãe que parece que é irmã da filha, pois é, o exemplo traduz bem a cena. Quem por inúmeras razões, não pode esperar um Romanée-Conti evoluir pelo menos 30 anos, não tem ideia do que este vinho é capaz. Mesmo numa safra delicada como 77, o bouquet de rosas que emana desta garrafa é algo divino. Sua delicadeza em boca tem outra dimensão. Mas repito, é preciso esperar. Pois quando novo, se esconde no casulo, e não vira borboleta de jeito nenhum.

Graças a Deus que neste início fulminante, ainda não tinha comida na mesa. E nem precisava, esses vinhos bastam por si só. Bom, agora vamos virar a chave e descer ao mundo terreno com um desfile de vinhos geniais.

gero montrachet 85 e 2011

o berço espiritual da Chadonnay, Montrachet.

De início, dois Montrachets DRC. Uma magnum 1985 divinamente oxidada com notas de cogumelos e Jerez. Possivelmente com histórico duvidoso, deve ter sido muito judiado em sua conservação. Já o DRC 2011, um bebê ninando no berço. Precisa ser decantando por pelo menos uma hora neste estágio de vida. Um vinho duro, fechado, não querendo acordar. Após um bom tempo de aeração em taça, aromas divinos de pâtisserie.    

Voltando aos tintos DRC, temos o Romanée-St-Vivant 1993 em foto acima. 93 não foi um grande RSV para o Domaine, embora Madame Leroy tenha foi um St Vivant quase perfeito. É um vinho ainda um pouco fechado, num momento de transição onde os aromas terciários estão se formando. Devidamente decantado, já é um vinho prazeroso com a vibração de um autêntico St Vivant.

gero clos vougeot 02 e la romanee 00   

diferenças marcantes!

Aqui existe claramente uma superioridade de safra e produtor. 2002 é uma das grandes safras para tintos de guarda e Domaine Leroy dispensa comentários. Numa apelação tão polêmica e tão heterogênea em termos de qualidade, Clos de Vougeot Domaine Leroy seria escolhido com louvor para o filme Festa de Babette. Neste ano, alcançou 96 pontos e é realmente deslumbrante. Com muita vida pela frente, seus taninos são ultra polidos, uma delicadeza de aromas e sabores num equilíbrio perfeito.  Longe de seu auge, será um dos grandes na história do Domaine. Já o La Romanée 2000, um vinhedo de pouco menos de um hectare, cumpriu seu papel sem grandes emoções. Evidentemente, a comparação é sempre cruel, mas faltou um pouco de meio de boca, e a devida persistência aromática que se espera para um Grand Cru da Borgonha.

gero clos vougeot 02 leroy

isso é exclusividade!

Nem só de Romanée-Conti vive o homem, Madame Leroy também tem seus segredos. O contrarrótulo acima, mostra a exclusividade e todo o esmero de uma cultura biodinâmica e uma vinificação impecável.    

gero la tache 42 e 99

a realidade e a promessa

Recentemente, comentei sobre o estupendo La Tâche 1999, um dos maiores da história. Ainda é uma promessa, pois tem muito para evoluir ao longo dos anos, mas já é delicioso. Tudo o que ele quer, é chegar aos 75 anos com o esplendor do 1942. Tarefa difícil e para poucos, que só os realmente grandes conseguem. A previsão de seu auge é para 2060. Tem tudo para isso, se formou em Harvard, fala cinco línguas, tem espírito de liderança, e tudo mais. Contudo, treino é treino, jogo é jogo. O tempo dirá …

gero ravioli de cordeiro

ravioli de cordeiro

Um dos pratos do almoço, foto acima, do excelente Gero do grupo Fasano, sob a batuta do insuperável maître Ismael. Prato de sabores e textura perfeitos para os vinhos acima apresentados. 

Temos ainda um desfile de bordaleses: Mouton, Petrus, Montrose, entre outros. Vamos fazer uma pausa para troca de cenário. Próximo artigo, em breve!

 

Brancos Franceses Geniais

16 de Novembro de 2017

No artigo anterior sobre tintos bordaleses, tivemos uma série de brancos notáveis que iniciaram o almoço, merecendo um artigo à parte não só pela diversidade, como também pela raridade dos mesmos. São produções diminutas, apelações muito específicas, fugindo do lugar comum.

Peço licença a meus confrades de mesa e copo para discorrer sobre o tema, pois são brancos muito especiais, a despeito do foco do almoço serem Bordeaux envelhecidos. Foi um preâmbulo magnifico! 

mani corton charlemagne leroy

alta costura em vinhos

Logo de cara, Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009, um vinho que temos acompanhado sua evolução em várias oportunidades. Sempre com muita fruta, muito frescor, encorpado, envolvente e de notável persistência aromática. Nesta garrafa especificamente, notei toques de evolução um tanto acentuados em relação a outras provas. Mantem sua riqueza aromática e equilíbrio, mas temo por um envelhecimento mais prolongado. Pode ser um problema de garrafa, embora as características da safra 2009 não sejam de longa guarda para os brancos. É uma safra precoce e exuberante em aromas. Só para se ter uma ideia da exclusividade, a produção nesta safra perfaz cerca de 1800 garrafas.    

mani ermitage ex voto 2010

um dos tesouros de Guigal  

Junto com este Corton-Charlemagne foi servido um dos brancos de elite de Etienne Guigal, o Ermitage Ex-Voto 2010 com 100 pontos Parker. Este da mesma forma, já foi provado em outras oportunidades e continua exuberante. É um vinho de sabores e aromas exóticos que vai se abrindo pouco a pouco na taça. Os Hermitages costumam envelhecer bem, ganhando complexidade aromática com anos em garrafa. Belo corpo, muito bem equilibrado, e um final de muita harmonia. Mostra-se um belo vinho de guarda.

Vale a pena citarmos alguns dados deste grande vinho, pois muitas vezes ele pode passar desapercebido nas mesas por ser tão exótico e sutil. Senão vejamos, temos 1,8 hectares de vinhas, ou seja, o tamanho do vinhedo Romanée-Conti. Os vinhedos são penhascos escarpados e pedregosos com as uvas Marsanne e Roussanne com idades entre 50 e 90 anos. Consequentemente, rendimentos baixíssimos. O vinho além de ser fermentados em barricas novas, é posteriormente amadurecido nas mesmas por 30 meses. Essa é uma das magias nos vinhos de Guigal. Cadê a barrica no aroma e no sabor? Sensacional!    

mani montrachet bouchard 2009

produção de destaque na apelação

Em seguida, foi servida às cegas uma garrafa Magnum de Montrachet 2009 da família Bouchard Père & Fils. Proporcionalmente, não se trata de uma produção pequena, cerca de 0,89 hectares de vinhas. Embora seja uma apelação de elite, não está entre os mais reputados em termos de prestígio. Nomes como DRC, Ramonet, Lafon e Leflaive, estão no time de cima. Primeiramente, foi questionado se ele seria francês. Em seguida, sabendo que se tratava de um Borgonha, foi cogitada a apelação Chablis. Enfim, para um típico Montrachet faltou um pouco de personalidade. Além disso, seu corpo e persistência aromática estavam abaixo das expectativas para tanto. De todo modo, era um vinho muito equilibrado, delicado, e com um acentuado toque cítrico. O ponto positivo é que a garrafa estava muito bem conservada, mostrando cor pouco evoluída e muito frescor nos sabores. Os indícios permitem apostar em mais alguns anos de guarda.

o paradoxo em champagne    

Ainda teve espaço para um champagne. Nada mais, nada menos, que Jacques Selosse Substance, o mais polêmico de seus champagnes. Baseado no método Solera de Jerez, o vinho-base para sua elaboração parte de uma mistura de safras onde o que é sacado para uma determinada partida, é reposto nas barricas com vinho novo. No fundo, não tem tanta novidade assim, já que as melhores cuvées das casas de champagne têm grande proporção de vinhos de reserva, que nada mais são do que safras antigas de grandes anos.

mani crocante de palmito e pequi

crocante de lâminas de palmito assado com creme de pequi

As particularidades em sua concepção consiste em misturar cerca de 22% do vinho da safra ao vinho da Solera (mistura de safras). Como a Solera sofre uma micro-oxigenação nas barricas, o vinho adquire um certo sabor oxidado, semelhante ao Jerez Amontillado. Para ser mais preciso, puxa mais para o gosto de uma Manzanilla Pasada, o mais delicado dos Jerezes Finos com sutis toques oxidativos. A elegância deste champagne provem de dois terroirs em Avize, uma das comunas da Côte des Blancs. Portanto, estamos falando de um autêntico Blanc de Blancs, exclusivamente Chardonnay. Após a espumatização, o vinho permanece por volta de seis anos sur lies. É feito então o dégorgement e engarrafado com baixa dosagem de açúcar.

Para um champagne tão exótico, somente uma harmonização ousada como da foto acima do excelente restaurante Mani. Pequi não é algo fácil de se harmonizar, tem um gosto meio acre. Este gostinho com o sabor do champagne, casou perfeitamente. Além disso, a textura crocante do prato se juntou de forma muito agradável à delicadeza e borbulhas da taça. Uma harmonização de sutileza e sabores marcantes. Neste Substance percebemos ainda um champagne cheio vida, frescor, embora seus toques refinadamente oxidativos lhe confiram extrema personalidade. Sua secura final ressalta ainda mais sua altivez. Inesquecível harmonização!

mani ardbeg port charlotte

Islay em alto nível

A foto acima, já fora da mesa, é um momento de relaxamento com Puros e Malts de Islay. Um de nossos confrades, profundo conhecedor desse Malt cheio de personalidade, proporcionou um embate muito interessante e prazeroso envolvendo o clássico Ardbeg Ten Years Old e o delicioso Port Charlotte Heavily Peated. A escolha é difícil e muito pessoal. De todo modo, digamos que Port Charlotte tem um lado mais feminino, mais gracioso, onde os aromas de caramelo, baunilha e chocolate, se misturam magnificamente à turfa, proporcionando uma maciez notável. Este Malt é envelhecido por oito anos em barricas velhas de Cognac, o mais refinado destilado francês.

Ardbeg é mais vertical, mais austero, mantendo a força e personalidade de Islay com notas defumadas, toques cítricos e de frutas secas. Os barris ex-bourbon mantêm esse tom de rusticidade elegante.

mani ardbeg corryvreckan

puro prazer

Esta caixa de Cohiba Robusto é da loja Gérard Père et Fils na Suíça com uma seleção e conservação impecáveis. O Malt ao lado, é um dos mais diferenciados da magnifica destilaria Ardbeg, conseguindo ainda ser mais complexo, elegante, sem perder a firmeza de caráter de um dos melhores Malts de toda a Escócia.  O envelhecimento em barricas francesas é um dos segredos deste belo Malt, dando-lhe um toque de sofisticação.  

Agora sim, o encontro está totalmente documentado. Agradecendo uma vez mais a companhia e generosidade de todos os confrades. Saúde a todos!

Quando o céu é o limite!

26 de Agosto de 2017

Felizmente, já participei de inúmeros almoços e jantares de impacto, mas tem alguns que são pontos fora da curva, geralmente fruto de um dos confrades mais generosos e que não tem limites em suas propostas e desafios. Vamos com certeza, descrever flights que para muitas pessoas estão em seu imaginário. Para coroar este encontro, a presença do americano John Kapon, um dos grandes degustadores da atualidade, surpreendendo-se com nosso grupo, mesmo sendo personagem importante no mundo do vinho internacional, acostumado às melhores recepções, vinhos, e eventos raros. Cheers Mr. Kapon!

marcos flight john kapon

a joia do almoço com John Kapon

Chegamos à mesa zerados de álcool. Nada de champagne e outros mimos que pudessem perturbar nossa análise critica do que vinha pela frente, e não era pouco. Estratégia muito bem pensada. Ponto para o anfitrião!

marcos flight krug

Pense em Champagne. What Else?

Em compensação, logo de cara, três champagnes “básicos” da Maison Krug. Aqui preciso puxar a orelha dos confrades quando se referiram à Krug Vintage 1990 como Krug comum para diferencia-la dos outras duas Clos du Mesnil 1988 e 1990. Mas ela se vingou à altura. Ninguém acertou às cegas e a “comum” atropelou as outras duas. Comum o caralho!. Nunca escrevi um palavrão no blog, mas falo por ela que não tem como se defender deste insulto. Brincadeiras à parte, foi sensacional. Esta Krug 1990 era uma garrafa perfeita, com frescor incrível e muita vida pela frente. A Clos du Mesnil 1990, talvez um pouco evoluída, faltando-lhe aquela acidez marcante de um Blanc de Blancs, mas deliciosa. A última, Clos du Mesnil 1988, soberba, viva, vibrante, com um toque de gengibre, típico destes grandes Blanc de Blancs Krug. O início não podia ser mais arrasador.

marcos flight montrachet

aqui não tem jeito de não gostar de Montrachet

Após esse trio magnifico, fica difícil manter o nível. Nesse momento, abram alas, pois esta chegando a turma do Montrachet e as Krugs passam o bastão. Pela ordem, Montrachet DRC, Montrachet Ramonet, e Montrachet Comte Lafon, todos da safra 1999. A primeira e única baixa do dia infelizmente foi o Lafon, já um tanto evoluído e sem aquele encanto costumeiro. Em compensação, o DRC estava maravilhoso, pronto para ser abatido, complexo e macio em boca. Foi o preferido da maioria. Contudo, tem um camarada que rima com Montrachet de nome Ramonet, e estava fantástico. Aquele Montrachet vibrante, fresco, mineral, de grande complexidade. Ainda tivemos mais um DRC na mesa para compensar a baixa sofrida, da tenra safra 2013. Um bebe lindo, ainda engatinhando, mas com um futuro promissor para ser um dos grandes de seu ano.

marcos flight richebourg

estilos opostos, mas igualmente divinos

Vamos começar com os tintos agora? Que tal uma dupla de Richebourgs!. Digamos um DRC e um Domaine Leroy lado a lado da safra 1988, quase trinta aninhos. O preferido da turma foi o DRC, praticamente unânime. Talvez eu tenha sido o único cavalheiro a defender Madame Leroy. A delicadeza de seus vinhos bem de acordo com terroir de Vosne-Romanée é impressionante. Henri Jayer pode descansar em paz, pois tem alguém que ainda pode representa-lo à altura, embora já em idade avançada. Voltando ao DRC Richebourg, vigoroso, musculoso, ainda com bons anos de adega pela frente, tal sua portentosa estrutura tânica. 

marcos flight romanee conti

Romanée-Conti sem rodeios

Para não perder o gancho, vamos comparar esse DRC Richebourg com seu vizinho de mesmo ano 1988, o majestoso Romanée-Conti. Não foi essa a sequencia, mas o contexto exige esta análise imediata. Aqui é que nos deparamos com os mistérios da Terra Santa, o terroir de Vosne-Romanée. Como é possível tanta diferença entre os vinhos, se apenas alguns passos separam o limite de seus respectivos vinhedos?. Realmente, inexplicável, basta admira-los. Numa sintonia fina, o Richebourg parece ser rústico diante da altivez e elegância de seu irmão mais ilustre. Um Romanée-Conti como este, já desabrochando, mostra toda a grandiosidade deste vinho e ratifica sua enorme fama e devoção. Quem tem paciência e pode espera-lo, está diante de um vinho que alia com maestria delicadeza e profundidade, sem ser feminino. É impressionante! Pontos e mais pontos ao anfitrião!

marcos flight chateauneuf du pape

Gênios da Grenache

Calma pessoal!. Temos um longo caminho pela frente. Está chegando agora a turma do Rhône. Melhor dizendo, duas turmas, uma do sul, outra do norte. Pensem naquele Chateauneuf-du-Pape 1990 de sonhos, de livro. Pois bem, lado a lado, Chateau Rayas e Henri Bonneau Cuvée des Celestins. A escolha tem que ser no par ou ímpar. Fantástico flight com vinhos perfeitos. Henri Bonneau, um pouco mais evoluído, com todos os aromas terciários desenvolvidos e lampejos de Haut-Brion. Já o Rayas, um tinto monumental, sublimando tudo o que se espera de um puro Grenache. Ainda com pernas para caminhar, taninos presentes e ultra finos, e um toque de cacau, chocolate amargo, maravilhoso.

marcos flight hermitage

só o tempo para chegar neste esplendor

Vamos ver a turma do Norte?. É inacreditável, mas os vinhos desse almoço não param de aumentar o nível. Onde vamos parar?. Por enquanto, em dois monumentais Hermitages da grandíssima safra 1978. Hermitage é assim, você quer saber porque estes vinhos são tão soberbos?. Tem que esperar mais de trinta anos. Aqui, tivemos uma briga de titãs. Embora o Hermitage Jean Louis Chave estivesse maravilhoso, taninos amaciados pelo tempo, O La Chapelle de Paul Jaboulet, baleado só no rótulo, mostrou porque foi um dos vinhos da caixa do século XX da revista Wine Spectator, no caso o lendário 1961. Este provado, um monstro de vinho, a quantidade e delicadeza de seus taninos é algo indescritível. Ganhou no folego, no vigor, aquela arrancada final para vencer a prova. E convenhamos, para bater um Chave 1978, não é tarefa para amadores. Lindo flight!

marcos flight bordeaux

a essência de Pauillac

Bem, nessa altura, a festa não é completa sem Bordeaux. Graças a Deus, nasci em 1959, e comemorei esta data comme il faut!. Nada mais, nada menos, que Latour e Mouton lado a lado, encerrando o almoço. Normalmente, num embate destes na maioria das safras, Latour leva vantagem. Costuma ter uma regularidade incrível e é sem dúvida o senhor do Médoc. O problema é que este Mouton 59 é um osso duro de roer. Segundo Parker, ele só está atrás do 1945 e 1986, dois monumentos na história deste Chateau. Nesta disputa, Mouton na taça mostrou mais estrutura, mais profundidade, do que o todo poderoso Latour. Notas Parker: 100 para o Mouton com louvor, e 96 para o Latour. Esse Parker é foda! Desculpe, mais um palavrão!.

marcos flight yquem

bebendo história

Parece que terminou, né. Que nada, agora começa a sessão Belle Époque. Lembra aqueles menus da Paris no comecinho do século XX onde tínhamos os grandes vinhos como Yquem, Portos e Madeiras, pois bem, vivemos um pouco do clássico “meia-noite em Paris”. Para começar, o mítico Yquem 1921, este sim na caixa do século, reverenciado por Michael Broadbent, Master of Wine, e um dos maiores críticos de vinhos da história, colocando este Yquem como o melhor do século XX. É até petulância de minha parte, tentar descreve-lo. Um Yquem delicado, educado lentamente pelas várias décadas em repouso absoluto. Ainda totalmente integro, cor amarronzada, mas de brilho, de vida, mostrando sua imortalidade. Sua persistência aromática é emocionante.

marcos flight porto colheita

 vinhos imortais

Mas 1921 não é tão velho assim. Vamos então para 1900 e 1863 saborear alguns Colheitas famosos. Já tinha tomado um Krohn Colheita 1983 maravilhoso em outra oportunidade, mas esse Colheita 1900, engarrafado em 1996, é de ajoelhar. Que concentração! que aromas! que expansão em boca!.

Sem comparações, Taylor´s Single Harvest Port 1863 é outro super Colheita com mais de 150 anos de envelhecimento em casco. Uma concentração ainda maior que seu parceiro centenário. Talvez por isso, não tenha sido a preferência de muitos, por estar menos pronto que seu oponente, extremamente sedutor e prazeroso. Este Colheita foi a última grande safra do século XIX com vinhas ainda pré-filoxera. Seus dados técnicos são impressionantes com 224 g/l de açúcar residual, perfeitamente balanceados pela acidez incrível de pH 3,53. No mesmo nível do Scion, outro tesouro super exclusivo da Casa Taylors. Tirando a comparação, neste caso odiosa, é um Porto monumental, digno de ser listado como um dos melhores vinhos do mundo, na galeria dos imortais. 

a delicadeza dos pratos de Alberto Landgraf

Um parêntese ao Chef Alberto Landgraf que comandou o ótimo almoço, tanto a sequência de pratos, como o tempo certo de chegada dos mesmos. Evidentemente, técnicas precisas e pratos ultra delicados, não arranhando os tesouros degustados. As fotos acima falam por si. À esquerda, Pargo Marinado com Ovas de Salmão. À direita, Lagostins com Creme de Açafrão e Cogumelos Crus Laminados. Parabéns Chef!. Sucesso sempre!.

Para o texto não ficar muito longo, deixo para o próximo artigo a sessão de charutos e destilados com coisas de arrepiar o mais insensível mortal. Aguardem!

Bom, hora de ir para casa antes que a carruagem vire abóbora. Agradecimentos a todos os confrades para mais esses momentos inesquecíveis, e em especial ao anfitrião, se superando a cada encontro. Sem palavras, abraço a todos!

 

 

Domaine D´Auvenay

14 de Janeiro de 2017

O que é exclusividade na Borgonha?: Romanée-Conti?, La Tâche?, Montrachet?, Chambertin?. De fato, são nomes mágicos, para poucos privilegiados, e de preços nas alturas!

Contudo, exclusividade pode ser algo relativo e quase imensurável dentro de certos parâmetros. Voltando ao mito Romanée-Conti, estamos falando de aproximadamente seis mil garrafas por ano, dependendo da safra. Que tal falarmos agora em números com menos de mil garrafas, ou seja, algumas centenas?. Pois bem, isso é Domaine D´Auvenay, o lote mais exclusivo dos já exclusivíssimos vinhos com a marca Leroy.

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uma barrica de vinho

O contra rótulo acima é o cúmulo da exclusividade. Criots-Bâtard-Montrachet é por si só o Grand Cru de brancos mais diminuto da Borgonha, pouco mais de um hectare e meio. O vinhedo deste Domaine é tão pequeno e aliado aos baixos rendimentos, que só é possível fazer uma barrica de vinho, ou seja, em torno de 300 garrafas por ano.

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Madame Leroy e Paul Bocuse em outros tempos

Domaine d´Auvenay localiza-se em Saint-Romain, residência de Madame Leroy (nome de registro: Marcelle). A propriedade foi palco de inúmeras degustações desde Henri Leroy, pai de Lalou Bize-Leroy  falecido em 1980, onde no pós-guerra já fazia degustações memoráveis com seus vinhos, tendo como personalidades da enogastronomia, Paul Bocuse, por exemplo.

Domaine d´Auvenay trabalha com vinhedos exclusivos que somam algo perto de quatro hectares entre brancos e tintos, totalizando aproximadamente oito mil garrafas. Os rótulos estão distribuídos em apelações de prestígio nas categorias Grand Cru, Premier Cru e alguns comunais.

Na distribuição das uvas, temos: 13% Pinot Noir, 77% Chardonnay, e 10% Aligoté.

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um tinto para poucos

Os vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica com todo rigor que Madame exige. Os rendimentos são baixíssimos, em torno de 20 hl/ha. A vinificação pouco intervencionista, trabalha com leveduras naturais, sem desengaçe,  pigeages programadas e posteriormente, amadurecimento em barricas novas. Os vinhos são engarrafados sem filtração.

O domaine foi criado em 1988 após algumas aquisições de pequenas parcelas de vinhedos nos mais famosos climats. Recentemente, só para ter ideia de algumas cifras, foi adquirido 0,3 hectare em Bãtard-Montrachet, Grand Cru de enorme prestígio, por 25 milhões de euros o hectare. Negócio de gente grande.

Os vinhos do Domaine tem forte penetração no mercado japonês com alguns rótulos de parcelas exclusivas só para este país. O grupo de luxo Takashimaya é acionista dos vinhos Leroy, contando evidentemente com alguns privilégios.

Se fosse possível encomendar uma caixa de doze garrafas sortidas (assortment), a tabela abaixo pode ser uma sugestão com alguns dados técnicos de cada vinhedo.

vinhedos Área (ha) rendimento  vinhas Nº gf Preço/gf
Mazis-chambertin Grand Cru 0,26 18 hl/ha 78 anos 550 3500 €
Bonnes Mares Grand Cru 0,26 23 hl/ha 50 anos 780 3500 €
Chevalier montrachet Grand Cru 0,15 25 hl/ha 40 anos 500 3500 €
Criots Batard Montrachet Grand Cru 0,11 20 hl/ha 67 anos 300 ( ?) 4000 €
Puligny Montrachet Premier Cru Folatieres 0,26 23 hl/ha 62 anos 800 900 €
Puligny Montrachet en La Richarde 0,21 23 hl/ha 62 anos 650 900 €
Meursault Premier Cru Les Gouttes 0.19 27 hl/ha 47 anos 700 1000 €
Meursault Les Narvaux 0,67 20 hl/ha 72 anos 1800 800 €
Auxey Duresses Les Clous 0,29 29 hl/ha 24 anos 1100 520 €
Auxey Duresses Les Boutonniers 0,25 21 hl/ha 82 anos 700 490 €
Auxey Duresses La Macabrée 0,62 20 hl/ha 62 anos 1650 400 €
Bourgogne Aligoté 0,30 27 hl/ha

50 anos

1100

210 €

Os preços podem variar substancialmente, de acordo com a safra, o local de venda, as ofertas lançadas em cada leilão, e assim por diante. Além dos vinhos desta tabela, existem outras pequenas parcelas sendo algumas delas, lançadas só em determinados anos e outros rótulos para mercados exclusivos.

domaine-auvenay

Domaine d´Auvenay

Residência escondida em Saint-Romain, vilarejo próximo a Auxey-Duresses, palco do 60º aniversário da Maison Leroy onde foram provados vários rótulos da safra 1955, ano em que Lalou Bize-Leroy tomou frente do negócio. Entre outras preciosidades, estavam Musigny, Clos de Vougeot, Chambertin, Grands-Échezeaux.

 

Vinhos Antigos: Entre o Céu e o Inferno

14 de Junho de 2016

A velha máxima diz: em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Vez por outra, surpresas e decepções convivem lado a lado degustando garrafas antigas. O principal motivo é o chamado histórico da garrafa, ou seja, por onde ela passou todo este tempo até chegar na sua taça. Lugares diferentes, adegas diferentes, temperaturas diferentes, fora os eventuais maus tratos até por desconhecimento. O fato é que diante de uma grande safra, o vinho pode estar aquém, sobretudo quando as expectativas são enormes. Por outro lado, safras relativamente discretas, podem ser boas surpresas ligadas à ótima conservação e muitas vezes, tamanhos maiores de garrafas. Lembro-me bem de uma Magnum de Le Pin 1981, longe de ser uma grande safra, o vinho apresentou-se sedoso, complexo e até hoje com boas lembranças. É isso, a vida tem suas surpresas!

degustação loi

as estrelas do almoço

O almoço transcorreu no belo restaurante Loi com pratos muito bem pensados nesta degustação de tintos antigos, sobretudo com a delicadeza peculiar dos borgonhas. É importante os sabores de  molhos e ingredientes não agredirem a sutileza esperada nessas grandes ampolas, como o pessoal do grupo costuma se referir às garrafas. As fotos de algumas das iguarias falam por si.

Tudo isso para falar de algumas garrafas relativamente antigas de borgonhas tintos e brancos. De início, dois Montrachets com a marca Leroy. É bom frisar que existem dois Leroy: a Maison Leroy (Négociants) e o Domaine Leroy (mis en bouteille au domaine). O primeiro, embora seja caro também, nunca me emocionou. São vinhos bem elaborados, mas altamente discutíveis quanto à profundidade e consequente longevidade. Já os vinhos do Domaine Leroy são monstros sagrados, tanto brancos ou tintos. Exclusivíssimos, com menos de um hectare de vinhas cada um.

montrachet leroy 76 e 78

os brancos do encontro

Os Montrachets degustados eram da Maison Leroy. O de safra 1978 saiu-se melhor, como era de se esperar pela qualidade da mesma. Já evoluído, um pouco cansado, mas mesmo assim, com boa complexidade aromática e muito bem equilibrado. Já o 1976, menos possante, mais delicado, faltando um pouco de extrato, e por consequência, menos persistente. Evoluiu bem na taça com um delicioso toque de caramelo no aroma. Possivelmente, os Montrachets de oficio como DRC, Leflaive, Ramonet, entre outros, teriam mais punch neste mesmo estágio de evolução.

Passando agora aos tintos, é bom termos em mente características das safras recentes terminadas em oito. Fora 1978, que é uma safra esplendorosa, as safras 1988, 1998 e 2008, tendem a ser safras duras, sobretudo quanto aos taninos. Ao mesmo tempo que apresentam poder de longevidade, seus taninos parecem não resolverem-se nunca, ficando sempre uma certa aspereza, um tanto desagradável. Feitas essas considerações, vamos os vinhos degustados às cegas.

charmes-chambertin

surpresa na degustação

Primeiro vinho, um Charmes-Chambertin Vieilles Vignes Grand Cru 1998 do até então desconhecido produtor Domaine Bachelet, trazido pelo expert Manoel Beato. O vinho surpreendeu a todos não só pela boa complexidade, mas também pelo vigor e poder de longevidade apresentados. Os taninos estão presentes, mas agradáveis.

musigny comte vogue

a decepção da degustação

lasagna de pato loi

lasanha de pato surpreendente

Segundo vinho, Domaine Georges de Vogüé Musigny Vieilles Vignes Grand Cru 1988. A grande decepção do painel. Vinho duro, aromas e sabores um tanto rústicos, final áspero, deixando a boca seca. Não tinha a delicadeza esperada de um Grand Cru da Borgonha. Seu estilo parecia mais um Barolo pela virilidade. Enfim, não encantou.

la tache 83

infelicidade da garrafa

Terceiro vinho, Domaine de la Romanée-Conti La Tâche 1983. Só não foi pior que o vinho anterior, mas certamente o mais decepcionante La tâche que provei. Aqui sim, houve um problema de garrafa. Além de 83 ser uma boa safra, a elegância e sofisticação de um La Tâche são notáveis e marcantes. Estava claramente cansado e portanto, sem o brilho que este terroir costuma mostrar. Uma pena!

richebourg 88

a força de um DRC

risoto com lingua loi

belo risoto guarnecido por laminas de lingua e foie gras

Quarto vinho, Domaine de la Romanée-Conti Richebourg 1988. Aqui os motores começaram a esquentar. Um DRC de raça, bela safra, austera, potente, taninos firmes. Muita classe no nariz, boca equilibrada e final longo, como deve ser um Richebourg.

romanee st vivant 85

a elegância e equilíbrio de um Vosne

Quinto vinho, Domaine de la Romanée-Conti St-Vivant 1985. Dos DRCs, Romanée Saint-Vivant é meu preferido. Aromas terrosos, de adega úmida, sous-bois, e tudo que um Vosne é capaz de entregar. Taninos num nível superior, boca ampla e longa. Um grande 85.

romanee st vivant 78

tudo que se espera de um DRC

cabrito assado loi

cabrito assado com batata cremosa

Sexto vinho, Domaine de la Romanée-Conti St-Vivant 1978. Falei tudo isso do 85, mas a comparação é cruel. Este 78 é coisa séria. É tudo que eu disse do 85, dando um zoom no volume. Está na elite dos DRCs, embora só superado por outra garrafa degustada de mesma safra em ocasião passada.

grands echezeaux 83

longevidade à toda prova

Sétimo vinho, Domaine de la Romanée-Conti Grands-Échézeaux 1983. Este Grands-Échézeaux é um grand cru de austeridade. Esta safra traduz bem este lado viril, masculino. Belos aromas, abertos na medida do possível, mas com vida pela frente. Terroir de grande personalidade. Fechou bem a degustação, fazendo bonito depois do imbatível 78.

tokaji eszencia 2000

a imortalidade é palpável

Oremus Tokaji Eszencia 2000. Este é o suprassumo dos vinhos Tokaji, quase um licor. Com uvas 100% botrytisadas, é produto da espremedura natural das uvas por peso próprio numa espécie de gotejamento. Um mosto que pode atingir perto de 800 gramas de açúcar por litro com acidez tartárica de 15 gramas por litro, acima dos níveis de  vinho-base para champagne. Sua fermentação é bastante lenta, podendo demorar anos. Atinge poucos graus de álcool. Neste caso da safra 2000, apenas três (3º graus de álcool). Cor escura, muito denso em boca, equilíbrio fantástico, praticamente apenas entre açúcar e acidez. Longo, muito longo em boca. A textura é de um Pedro Ximenez, mas o frescor é algo notável. Uma maravilha! quase uma oração …

tiramisu loi

tiramisù repaginado

Enfim, painel extremamente interessante, didático, sempre nos ensinando a degustar. Some-se a isso, a companhia agradável, bom papo e boas risadas. A vida é isso, feita de momentos agradáveis entre amigos. Abraço a todos!


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