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Vinhos da Arca de Noé: Parte III

14 de Março de 2016

Chegando ao fim do diluvio, temos o último flight da sobremesa, totalizando doze (quatro brancos, sete tintos e os vinhos doces). Fora da mesa, a festa continuou com Portos, Cognacs e Puros.

climens e yquem

Os ícones de Sauternes-Barsac

As apelações Barsac e Sauternes são separadas pelo rio Ciron e formam terroirs distintos. Os vinhos de Barsac primam pela elegância com os châteaux Coutet, Doisy-Daëne e o astro maior Climens. Já do outro lado do rio, temos Suduiraut, Rieussec, por exemplo, e o incontestável Yquem reinando absoluto.

A comparação foi muito interessante, tratando-se de safras antigas e muito bem avaliadas para os respectivos châteaux. A prática confirmou a teoria. Climens, complexo, delicado e muito equilibrado em todos os seus componentes (açúcar, acidez e álcool). Contudo, quando chega o Yquem, não podemos voltar atrás. Ele é denso, profundo, enibriante, e bem marcado no seu lado potente. A escolha é realmente uma questão de estilo e gosto pessoal.

mil folhas e goiabada

mil-folhas com sorvete e goiabada

Sobremesa do último flight fechando um almoço magnifico. Na sequência, nos esperando no terraço, um Taylor´s Vintage 1945 devidamente decantado. Casa de Vintages lendários, nesta safra mostra um ano histórico.

 taylor´s 1945

O ano da Vitória

Trata-se de uma colheita clássica, abundante e de grande qualidade. Encontra-se num momento extremamente prazeroso, onde os aromas terciários se fazem mais presentes. Tabaco, defumado, especiarias, mas um núcleo frutado ainda brilhante. Platô amplo de estabilização, podendo ser guardado por décadas. Só mesmo uma seleção de Puros abaixo para fazer frente a um Porto de estirpe.

umidores

Seleção de Puros Ímpar

Nosso Noé além dos vinhos, é um aficionado por Puros. A foto acima ilustra bem seu requinte e paladar apurado. Na foto abaixo, um torpedo H. Upmann devidamente maturado, foi uma das estrelas num cenário enevoado. Bitolas e marcas para todos os gostos.

h. upmann rr

Torpedo H. Upmann Reserva Especial

Já com os Puros entre o segundo e terceiro terço, chega a hora dos destilados. A potência vai aumentando e chega o momento dos rums ou cognacs. Diante do cenário abaixo, fica difícil escolher outro destilado. Simplesmente, lado a lado, o topo de gama da Maison Hennessy (Richard, à direita), e o astro maior da Rémy-Martin (Louis XIII, à esquerda). A disputa já começa pela sofisticação das garrafas em cristal Baccarat. O grau de envelhecimento destas bebidas é amplo, repousando nas melhores caves da região. Os aromas e sabores são extremamente complexos, deixando um final de boca interminável. Notas de chá, frutas secas, caramelo, entre outras, estão harmoniosamente distribuídas e bem integradas.

richard e louis XIII

Tudo o que você espera de um Cognac

Os cognacs acima partem de blends minuciosamente balanceados com eaux-de-vie de grande envelhecimento em tonéis (as idades variam entre 40 e 200 anos). O maître de chai (cellar master) precisa ser suficientemente experiente e altamente qualificado para compor uma equação complexa de inúmeras partidas envelhecidas nas proporções exatas. Estas séries são lançadas em garrafas numeradas e de absoluta exclusividade.

polenta calabresa

polenta artesanal de um grande confrade

Para os mais insistentes, a noite chegou e mais vinhos rolaram. Entre eles, o excepcional Hermitage La Chapelle de Paul Jaboulet safra 1978. Como ninguém é de ferro, o confrade Moreira executou uma de suas especialidades, polenta artesanal com calabresa. Feita na hora, o sabor estava sensacional. Talvez, o melhor prato do dia. Grande Moreira!

la chapelle 78

uma das safras míticas desta cuvée

Para tomarmos um Hermitage como se deve, precisamos de tempo, muito tempo em adega. A foto acima, mostra um Hermitage maduro, pleno de sabores, e com taninos completamente polimerizados, momento raro para este tour de force. Além de ser um La Chapelle, a safra de 1978 é sensacional para este vinho. Realmente, um dia e uma noite para ficar na memória.

Confraria: Espanha em Alto Nível

11 de Dezembro de 2014

Jantar à francesa regado a vinhos espanhóis. Evidentemente, Ribera del Duero e Rioja brilharam à mesa. O desfile  foi extenso, sendo paulatinamente servidos dois a dois. O único branco foi o estupendo Tondônia Gran Reserva 1964. Ainda bem fresco em boca com total harmonia entre madeira e fruta. Bem estruturado, é grande parceiro para os pratos de bacalhau, por exemplo.

Outro ponto interessante foi a comparação das famosas taças Riedel com as taças Zalto´s de origem austríaca não encontradas no Brasil ainda. Seu diferencial, além do belo design, é o peso extremamente leve. Pessoalmente, achei o desempenho da Zalto´s surpreendente. Os aromas eram mais intensos e em boca, o vinho tornava-se mais macio. Entretanto, as opiniões foram diversas sem esquecer que as taças Riedel mantêm um padrão muito alto. Em resumo, valeu a experiência.

L´Ermita: Ícone do Priorato

O encontro começou com o vinho acima, uma double Magnum devidamente decantada. Apesar de seus quinze anos, o vinho ainda está em tenra idade. Contudo, seus aromas são envolventes, extremamente macio em boca e agradavelmente quente, mantendo as características de seu terroir. Foi um dos vinhos que acompanhou o maravilhoso Jamon Joselito, o melhor de todos os Pata Negra, ou seja, uma iguaria soberba da charcuterie. Segue foto abaixo:

O ácio oleico encontrado neste presunto dá origem a uma das gorduras mais saudáveis que são presentes também nos melhores azeites extra-virgens.

A arte da manipulação

Os tintos do jantar privilegiaram a safra de 2004, uma das maiores dos últimos tempos na Espanha. Todos de ótimo nível com destaque para o Pingus e o El Pison. O primeiro, um Ribera del Duero de preços estratosféricos, mostrou potência, concentração e um longo final de boca. El Pison da bodega riojana Artadi, pende mais para elegância, mas com muita profundidade. Características próprias do terroir de Rioja Alavesa. Enfim, duas grandes promessas para vinhos de guarda com notas 100 de Robert Parker.

2004: Talvez o melhor da dinastia

Dois notas 100 lado a lado

Aproveitando a foto acima, os Vegas foram um caso à parte. Primeiramente, um 1965 degustado em Magnum. Brilhante, super elegante e habitualmente inteiro, como se espera de um Vega mesmo com idade. Já o mesmo exemplar em garrafa standard (750 ml), um pouco cansado, com o acetato de etila, próprio desta bodega, confirmando a melhor conservação em magnum e por conseguinte, a longevidade dos grandes vinhos. Já o 1962, um dos nota 100 de Parker, cresceu durante a degustação. Embora já delicioso desde a abertura, após três horas decorridas, portanto, no final do jantar, estava ainda mais exuberante, com aromas exóticos e delicados lembrando um bom Lafite. Realmente, um grande exemplar.

Toda a turma junta

No final da noite, a adega do anfitrião foi invadida e saqueada com duas preciosidades: Château Montrose 1990 e Château Haut-Brion 1989. Dois notas 100 de Parker de primeiríssima grandeza. O Haut-Brion com aquela elegância de sempre, um dos melhores de toda sua série. O Montrose, esse é pessoalmente o melhor do château já degustado. Ainda inteiro, vigoroso, com muita vida pela frente. A maciez e a concentração deste exemplar são notáveis.

Só a garrafa já vale a experiência

Puros incluindo o insuperável Behike (Cohiba)

Terminando a noite, vieram os Puros. Aliás, muito bem conservados e climatizados pelo anfitrião. Foram devidamente acompanhados por belos Cognacs. Paradis, um dos tops da Hennessy e Richard, uma escultura da apelação Grande Champagne, a começar pela linda garrafa. A combinação foi inenarrável. Santé pour tous!

Cognac: Richard ou Louis XIII?

26 de Novembro de 2014

Este artigo foi inspirado na divertida discussão de dois grandes amigos comparando duas obras de arte. Sabemos que Cognac, é uma denominação de origem exclusivamente francesa e pessoalmente, o melhor destilado do mundo. Neste mesmo blog, o tema foi dissecado em vários artigos. Esses pomposos nomes são ícones de produção baixíssima de maisons renomadas da região, ou seja, Hennessy para Richard e Rémy Martin para Louis XIII. Como sabemos, obras de arte não se comparam, apreciam-se.

Continente deslumbrante

De todo modo, vamos tentar repassar uma pequena ideia destas maravilhas. Começando pela Maison Hennessy do LVMH, o maior grupo de luxo no mundo. Dos vários Cognacs exclusivos, Richard Hennessy merece uma atenção especial. Em sua composição, o assemblage reúne eaux-de-vie extremamente raras e selecionadas onde o idade da mais jovem supera quarenta anos, ou seja, padrão altíssimo de envelhecimento. Cada garrafa é numerada e sua confecção soprada em cristal de Baccarat. No assemblage existem partidas dos anos 1830 a 1860. Para se ter uma ideia desta exclusividade, a categoria X.O. (Extra-Old) prevê  na legislação eaux-de-vie  com idades a partir de seis anos de envelhecimento. Os detalhes da concepção não são revelados, mas o terroir parte da porção mais nobre de Cognac conhecida como Grande Champagne, onde o solo é mais calcário, condição Sine Qua Non para aguardentes de grande categoria. A correção de água destilada para normalizar o nível de álcool compatível com  a legislação é praticamente nula.

Grande Champagne: O coração da apelação

Uma raridade na família Louis XIII

Na coleção de Cognacs da Maison Rémy Martin, Louis XIII ocupa uma categoria especial com várias preciosidades, dentre as quais, Luis XIII Classic, Louis XIII Black Pearl, Louis XIII Rare Cask 43,8, Louis XIII Rare Cask 42,6 e Louis XIII Black Pearl Anniversary Edition. A diferenciação é sutil, mas em ordem crescente. A versão Classic é confeccionada também em Jeroboam com capacidade quadruplicada pela Cristallerie de Sèvres. São eaux-de-vie exclusivas com longo envelhecimento em barris de Limousin ( a melhor floresta francesa de carvalho para destilados). Evidentemente, todas as partidas são da nobre sub-região de Grande Champagne.

Já o Cognac Louis XIII Black Pearl (Pérola Negra) dá o tom da garrafa confeccionada em cristal de Baccarat com eaux-de-vie centenárias da adega particular da família Grollet. O engarrafamento prevê um terço desta reserva. Em seguida, temos Louis XIII Rare Cask 43,8. Trata-se de uma partida exclusiva de um tonel especial, mostrando sensorialmente de uma eau-de-vie exclusiva com aromas e sabores particularmente diferenciados. Outro tonel raro apresentou-se na Maison, intitulado Louis XIII Rare Cask 42,6. Da mesma forma, é confeccionado em cristal de Baccarat com partidas limitadíssimas, Os números 43,8 e 42,6 referem-se ao teores alcoólicos naturais que normalmente partem de eaux-de-vie com 70º de álcool saídas do alambique.

Finalmente, a maior exclusividade, se é que se pode ter algo mais perfeito, Louis XIII Black Pearl Anniversary Edition. Em comemoração dos 140 anos da marca Louis XIII, são confeccionadas 775 garrafas numeradas correspondentes a um terço de uma rara e exclusiva partida da reserva de família do Domaine de Merpins. Todas as garrafas Black Pearl são confeccionadas no tom Pérola Negra.

Enfim, no desafio destes dois amigos, certamente não haverá vencedores. Apenas o deleite de apreciarem a fina flor do melhor destilado entre todos, o excepcional Cognac com C maiúsculo. Santé pour tous!