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Magnânimos à Mesa

24 de Março de 2018

As grandes pessoas que se tornam grandes profissionais, grandes amigos, grandes chefes de família no sentido mais nobre do termo, são talhadas pelo tempo, tempo esse que envelhece, mas sobretudo enobrece, superando todas as expectativas, por mais otimistas e tendenciosas que elas sejam. O berço, a origem, a formação, as boas diretrizes sugeridas, o exemplo daqueles que as orientam nos primeiros passos da vida, formam o esteio desta magnânima caminhada.

Eu sei que o assunto é vinho, mas este preâmbulo tem muito a ver com a pessoa homenageada neste almoço, um grande amigo de todos os confrades e um profissional da Saúde exemplar. Os vinhos do encontro que serão descritos têm na sua concepção os pré-requisitos desta pessoa fundamentados na origem da nobreza e na longa viagem do tempo para eterniza-los.

Toda vez que falamos da ação do tempo sobre o vinho, é sempre um fato cercado de mistérios e dúvidas. Quanto tempo para atingir a plenitude? Essa plenitude tem platô amplo? qual o melhor momento para apreciar um grande vinho?

Neste almoço, tivemos a oportunidade de rever esses conceitos de longevidade, de nobreza, e da ação do tempo moldando e permitindo a magia da vida. Isso posto, dois grandes terroirs incontestáveis à mesa, o branco Grand Cru Chevalier-Montrachet Domaine Leflaive, o melhor dos Chevaliers,  e Chateau Latour, Premier Grand Cru Classé de margem esquerda, o senhor do Médoc.

IMG_4416.jpgreferência absoluta da apelação

Na foto acima, temos duas excelentes safras de Madame Leflaive, 1996 e 2005, quase uma década de evolução. Servidos nas taças, lado a lado, percebemos claramente a ação do tempo em duas safras distintas, mas que têm o mesmo potencial e esplendor para se agigantarem no tempo. Estamos falando de avaliações em torno de 95 pontos.

O Chevalier-Montrachet 96 encontra-se esplendoroso, aromas complexos e multifacetados. Boca harmoniosa, acidez presente apenas para manter a vivacidade do conjunto, dando campo para a maciez, e reverberando sabores e aromas de grande expansão. Pode ser que ainda evolua, mas certamente já está delicioso e com amplo platô de estabilização, sem nenhum sinal de fragilidade. Já o 2005, tem uma acidez vibrante, própria dos grandes vinhos jovens. Percebe-se claramente seu extrato, seu imenso potencial, mas falta-lhe ainda integração, amadurecimento, encaixe de peças, que  só o tempo é capaz de molda-lo à perfeição. É bom enfatizar, que o 96 trata-se de uma garrafa magnum, sabidamente um formato que privilegia os bons anos em adega. Aliás, está garrafa estava impecável. 

IMG_4417.jpgnobreza da margem esquerda

Passando agora aos tintos, a ação do tempo fica mais emocionante ainda. Provar um Chateau Margaux 1959, felizmente minha safra, é sempre algo emocionante, independente de análises técnicas, geralmente muito frias. O ano de 1959 foi  grande em Bordeaux com muitos chateaux ratificando a bela safra. Particularmente para o Chateau Margaux, não foi uma safra histórica. Contudo, o vinho estava magnânimo e sobretudo íntegro, uma grande garrafa. Uma poesia liquida, aromas etéreos recordando tabaco, torrefação, notas de sous-bois, e uma fruta delicada mostrando sua vivacidade. Boca macia, de médio corpo, mas muito bem resolvida com taninos absolutamente polimerizados. Certamente, o melhor Margaux 1959 já provado. Nas palavras do filósofo Friedrich Engels, um momento de felicidade!

Por fim, um duplamente magnânimo, Chateau Latour 1982 em double magnum. Pensa num vinho perfeito, que ainda assim não está pronto, mas é delicioso. Evidentemente, o formato da garrafa tem seu peso na integridade e pouca evolução deste monstro do Médoc chamado Latour. É incrível como um vinho com 36 anos de vida encontra-se jovem, vibrante, com uma estrutura de taninos portentosa, e um equilíbrio sem igual. As cores abaixo falam por si.

a lenta ação do tempo

A foto à esquerda, trata-se do Margaux 59, um vinho apaixonante, pronto e pleno. A foto à direita, é o incrível Latour 82, quase sem sinais de evolução. Escolher o melhor do todos os Latours ao longo de sua rica história é uma tarefa insana, tal a regularidade deste chateau e os vários anos em que foi sempre esplendoroso. Deixando esta missão para Parker, o mais rigoroso crítico de Bordeaux, na sua lista de prioridade, aparece o 1982 no topo da relação, superando inclusive o majestoso Latour 1961. Na última previsão de Parker, o Latour 82 atingirá o apogeu em 2059. Sem querer contradize-lo, pelo que foi provado neste double magnum, a data sugerida tem toda a coerência.

O vinho tem a força de um trapezista com a delicadeza de um bailarino. Potência e elegância se integram numa forma sublime, onde todos os componentes estão perfeitamente integrados. O que realmente garante esta incrível longevidade são seus taninos absolutamente perfeitos, numerosos, de uma textura ímpar. Seus aromas terciários são divinos com as notas de cassis, couro do mais fino acabamento, uma torrefação maravilhosa, e outros mistérios a serem revelados. Para ser apreciado no momento, este Latour 82 deve ser decantado por três horas antes do serviço. Um vinho para heróis!

IMG_4413.jpgBela Sintra: o clássico arroz de pato

Encerrando as considerações, o clássico arroz de pato do restaurante Bela Sintra, acompanhou bem os tintos bordaleses. Numa harmonização mais regional, os tintos durienses fazem boa parceria. Barca Velha ou Reserva Ferreirinha devidamente envelhecidos são pedidas excelentes.

Vida longa aos confrades, especialmente ao homenageado, que certamente terá seu apogeu na mesma previsão do Latour 82. Afinal, nobreza e longevidade são para poucos. Abraço a todos!

Bordeaux em Segundos

25 de Fevereiro de 2018

Os Chateaux bordaleses na chamada margem esquerda além de aristocráticos, são de dimensões muito maiores que as propriedades de margem direita, notamente Pomerol e Saint-Emilion. Estamos falando de uma relação de um para dez em termos de áreas, onde a noção de micro parcelas fica pulverizada. É neste contexto, que surge a ideia do chamado segundo vinho do Chateau, e em alguns casos, até o terceiro.

Recordando o processo, no Chateau Margaux por exemplo, temos quase 100 hectares de vinhas plantadas com Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot. Para cada um destes varietais, temos várias micro parcelas espalhadas na propriedade. Esses parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Em seguida vem o estágio crucial para a montagem do Grand Vin. A equipe enológica do Chateau se reúne exaustivamente compondo o blend das várias parcelas de cada um dos varietais. Isso era comandado com maestria até  pouco tempo atrás pelo saudoso Paul Pontallier, que nos deixou recentemente. Desta seleção rigorosa, nasce o Grand Vin. As amostras que foram rejeitadas para este fim, comporá o chamado segundo vinho. No caso de Margaux, existe agora um terceiro vinho.

Este foi exatamente o propósito da degustação que será descrita abaixo, num agradável almoço no restaurante Gero. Já de pronto, devo dizer que as conclusões tiradas neste evento não devem ser generalizadas para todos os Chateaux bordaleses, pois os quatro vinhos provados nesta ocasião eram de grandes safras e de Chateaux excepcionais. Afinal, quase 400 pontos estavam na mesa!

6eba4821-dd75-427c-bced-711188e508da.jpgtexturas compatíveis

Antes porém, uma pausa para abertura dos trabalhos. Talvez o branco mais austero de toda a Alsácia, Clos Sainte-Hune da Maison Trimbach, um Riesling seco de extrema mineralidade. Este provado da safra 2004, estava surpreendentemente pronto, já que trata-se de um branco de grande guarda. Seus aromas cítricos e destacadamente defumados foram muito bem com um atum marinado. As texturas de ambos (prato e vinho) casaram-se perfeitamente. O vinho apresentou ótimo equilíbrio e um final de boca extremamente persistente.

b4597437-e2c9-46ab-b950-588b4e4ea5ff.jpgdistância considerável neste embate

Único embate de margem direita, Cheval Blanc tem uma propriedade considerável em termos de área, 41 hectares, para padrões em Saint-Emilion. Nesta safra, apenas 55% do vinho elaborado passou pelo crivo de Grand Vin. O rigor deste julgamento se traduz na taça com ampla superioridade deste Cheval com 99 pontos. Gostaria de uma explicação de Mr. Parker pela não perfeição do vinho. Embora com décadas pela frente, este Cheval mostra uma elegância impar, própria dos grandes vinhos. Seus taninos, seu equilíbrio, e sua expansiva persistência, faz dele um dos grandes Chevais da história. Já o Petit Cheval, mostrou-se muito prazeroso para o momento, uma das vantagens dos chamados segundos vinhos. Nota-se sutis aromas de pirazinas (pimentão), advindo sobretudo dos Cabernets, fruto de uma maturação imperfeita de alguns setores das vinhas. Isso claro, numa sintonia fina, comparado a seu astro maior. De todo modo, um belo vinho para ser apreciado sem comparações. Nota 87 de Parker, um pouco rigorosa.

gero latour 2000

Latour: vinhos consistentes

Aqui uma disputa acirrada, pois Les Forts de Latour é o melhor segundo vinho de todo o Médoc, opinião quase unânime da crítica. De fato, é uma maravilha. Bem mais acessível que o todo poderoso Latour, seus aromas de cassis, couro e notas minerais permeiam a taça. Pode ainda evoluir por bons anos em adega. Voltando à maxima onde a comparação é cruel, o Latour 2000 é uma muralha de taninos em multicamadas de extrema finesse. Seus aromas de pelica, frutas escuras, e grafite, são marcas registradas do senhor do Médoc. Seu platô de evolução está estimado para 2060. Um monumento!

risoto e cordeiro para os Bordeaux

Acima, alguns dos pratos que valorizaram o desfile de belos Bordeaux. O risoto de funghi porcini casou muito bem com a textura delicada e os aromas terciários do Margaux 90, por exemplo. Já o carré de cordeiro tinha a fibrosidade e suculência exatas para um La Mission 2000 ou o Latour de mesmo ano com seus taninos presentes.

gero margaux e pavillon 90

padrão elevado de segundo vinho

Neste embate, mais um vinho perfeito, Margaux 1990 com 100 pontos consistentes. Aí é difícil peitar. Mesmo para este Pavillon Rouge 90, vindo diretamente do Chateau de uma coleção privada, faltou fôlego para chegar ao Grand Vin. O Margaux 90 é deslumbrante com seus aromas de couro e sous-bois, fruta delicada, e rico em toques balsâmicos. Em elegância se equipara ao Cheval Blanc 2000 acima descrito. O Pavillon Rouge até que tentou, mas se deparou com um dos grandes Margaux da história. Novamente, tomado sozinho, sem comparações, é um belíssimo vinho cheio de elegância e muito prazeroso aromaticamente.

gero la mission 2000

disputa muito acirrada

Neste último flight, mais um vinho de 100 pontos, o fabuloso La Mission Haut-Brion 2000. Em termos de estilo, potência, bem semelhante ao Latour 2000, mostrando toda a sua força. Um verdadeiro infanticídio, já que seu platô está estimado para 2050. Um vinho musculoso, cheio de frutas negras, toques minerais terrosos e defumados. Uma montanha de taninos a ser domada pelo tempo. Amplo em boca com um equilíbrio notável. Seu par La Chapelle 2000, segue o mesmo estilo, um pouco menos imponente. Foi a disputa mais acirrada entre as duplas, na distância entre o Grand Vin e seu respectivo segundo vinho.

Enfim, belos vinhos de grandes safras e de Chateaux irrepreensíveis. Fica a lição que os chamados Grand Vin são realmente espetaculares, mas que tem no preço e na paciência em espera-los na adega, seus maiores empecilhos. Por outro lado, os segundos vinhos são bem prazerosos para abate-los mais jovens, apesar de seu bom potencial de guarda.

96 pontos com louvor!

Passando a régua, um Chateau d´Yquem 1976, uma das grandes safras desta maravilha. Com seus 42 anos de idade, entra numa fase de bouquet sublime com notas de café, marron-glacê, e toques de cítricos confitados. Um equilíbrio e uma expansão notáveis, acompanhando de forma impecável um creme de mascarpone e chocolate. Lembrando que 1976 é grande ano na Alemanha para vinhos botrytisados.

gero tokaji szamorodni

estilo meio seco

O vinho acima vale a pena um comentário. Trata-se de um Tokaji Szamorodni que não faz parte da família Aszú, onde o índice de uvas botrytisadas é relativamente alta em vários níveis (3, 4, 5, 6 Puttonyos). Neste caso, Szamorodni significa uvas colhidas naturalmente com algum índice de botrytisação, ou seja, menor porcentagem de uvas botrytisadas vai para um estilo mais seco, dry, ou Száraz em húngaro. Portanto, tem um sabor meio seco semelhante a um Jerez Amontillado. Muito bom para patês de caça, aperitivos e queijos de personalidade. Um vinho que apesar da idade, mais de 20 anos, tem estrutura e vigor para bons anos em adega.

gero behike 52

 o melhor Robusto da atualidade

Finalizando a tarde, alguns Behike 52 para esfumaçar as conversas em meio a Cognacs e Grappas. Behike é a linha super luxo da Cohiba elaborada em três bitolas. Esse 52, ring do charuto, é considerado o melhor Robusto atualmente, já tendo ganhado como melhor Puro do ano em 2010 pela Cigar Aficionado.

Agradecimentos aos amigos e confrades em mais uma experiência fantástica com caldos bordaleses. Vida longa aos companheiros de copo e mesa num ano que promete fortes emoções. Aos ausentes o alerta, o campeonato é de pontos corridos. No final do ano vai fazer falta. Abraço a todos!

O vinho e o tempo

12 de Novembro de 2017

Quanto mais velho, melhor. Esta é uma das inúmeras frases sobre vinhos e uma das mais equivocadas também. A grande maioria dos vinhos deve ser tomada com poucos anos de garrafa, onde seu apogeu é relativamente curto. Mesmo numa região como Bordeaux, somente menos de cinco por cento de toda a produção anual, faria jus à frase citada.   

As condições de terroir para vinhos de grande longevidade são extremamente precisas e singulares. Voltando a Bordeaux, percebemos que os melhores terrenos nos chamados vinhos de margem esquerda apresentam camadas de cascalho profundas e espessas, garantindo assim uma drenagem eficiente e o perfeito amadurecimento da Cabernet Sauvignon, uva principal do chamado corte bordalês nestas paragens. Seu ciclo de amadurecimento nestas condições de solo e de clima ameno fica alongado, proporcionando uma estrutura de taninos única, não encontrada em outras partes do mundo. Esses taninos sobretudo, é que garantirão um grande Chateau  envelhecer seus vinhos durante 20, 30, 40 anos, ou mais, dependendo de condições específicas de safra.

Nada como constatar na prática o exposto acima num excelente almoço entre amigos. Ficou extremamente didático como os grandes Bordeaux se comportam ao longo do tempo com aromas e sabores fascinantes, cada qual com suas peculiaridades e fidelidade a seus respectivos terroirs.

mani latour 90

a vida começa aos 27 anos …

O que são 27 anos para um Latour? Sabe aquele jovem bem preparado que está começando a vida, cheio de vitalidade e sonhos?. É exatamente a sensação de provar um vinho deste naipe. Devidamente decantada, esta garrafa double magnum estava deliciosa. Toda a força e imponência do Latour numa grande safra. Reparem no rótulo, apenas 12,5 graus de álcool, para que mais?. Corpo perfeito, taninos ultra polidos, absurdamente equilibrado, e extremamente bem conservado. Sua marca registrada estava ali, um toque elegante de couro de pelica, além do intenso cassis, grafite, e notas de chocolate. Vai romper décadas para ser um daqueles grandes Latours que faz a fama do tinto mais respeitado de todo o Médoc.

mani pichon 82

o apogeu de um Bordeaux

Vamos descer um pouco mais no tempo e chegar aos gloriosos 82. São vários os que marcaram história: Latour, Mouton, Lafite, e tantos outros. Contudo, Pichon Lalande se superou como Deuxième. Um vinho às cegas que é capaz de fazer grande barulho na turma de primeiro escalão. Apesar de estar em seu esplendor, seu platô é amplo com uma capacidade de envelhecimento imensa. Mescla com maestria a exuberância da fruta com divinos toques terciários. Sem medo de errar, é o melhor Pichon de toda história deste grande Chateau.

mani margaux 59

outra safra gloriosa

Aqui temos a exata ideia de um grande Bordeaux envelhecido. É um dos grandes Margaux da história, mostrando toda a elegância deste senhor da comuna homônima. Um licor de cassis misturado com floral e um tabaco de Havana sensacional. Taninos totalmente polimerizados, equilíbrio perfeito, e um final muito bem delineado. Vai um pouco de gosto pessoal, mas a suavidade e elegância destes tintos envelhecidos são experiências únicas. 

mani lafite 69

as marcas do tempo no rótulo   

O Brasil ainda se preparava para ser tricampeão mundial de futebol com Pelé em plena maturidade futebolística. Por falar em maturidade, eis um Bordeaux com quase 50 anos. Não é tecnicamente uma grande safra, mas é um Lafite. Só pelos aromas, já vale a pena prova-lo. Etéreo ao extremo com seus toques de cedro, madeira fina, balsâmicos, e notas de chá. A boca já um pouco cansada, mantem o equilíbrio e altivez de um autentico Premier Grand Cru Classé. Lafite é a Borgonha de Pauillac, vinho de extrema elegância e sutilezas. 

Aqui podemos ter a clara noção de delicadeza com profundidade. Numa brincadeira com um dos convivas, aliás nascido nesta safra e grande conhecedor de Bordeaux de elite, foi lhe dado uma taça para provar sem nenhuma pista, e imediatamente sentenciou: isso aqui é uma mistura de Lafite com Latour. De fato, era o que estava na taça. Analisando o fato, veja como um Lafite aparentemente frágil peitou de frente o todo poderoso Latour numa safra vigorosa, pois os aromas do Lafite predominaram na taça. Mistério dos vinhos …

carnes do restaurante Mani

Carnes de diferentes texturas como bochecha de boi e bife de chorizo acompanharam com competência o time de bordaleses descritos acima. Outros pratos do menu harmonizaram melhor com uma série de brancos maravilhosos que descreverei no próximo artigo, exceto o Yquem 1990 abaixo, por sua origem bordalesa.

mani yquem 90mani mochi de bacuri

safra histórica deste grande ícone

Começamos e encerramos muito bem o almoço com dois maravilhosos Bordeaux de 1990, Latour e Yquem. Parece que essa garrafa adivinhou que iria encerrar um almoço de bordaleses envelhecidos. Ao contrário de outras garrafas de mesma safra, a própria cor estava mais evoluída, acompanhando os aromas de mel, caramelo escuro, e notas adamascadas. Amplo em boca, deixa um final harmonioso e bastante expansivo. Ainda na foto acima, sobremesa de frutas exóticas e a cor evoluída do maior dos Sauternes.

Encerrando as considerações sobre o tempo, os grandes vinhos nos ensinam que paciência e sabedoria são virtudes trabalhadas ano após ano com muita serenidade. Num dado momento, percebemos que a espera valeu a pena.    

Abraços a todos os confrades, companheiros de mesa e copo!

Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!