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Wine Spectator e mais Top Ten

20 de Novembro de 2018

Os cem melhores vinhos do ano de 2018, segundo a revista Wine Spectator. Relação sempre polêmica envolvendo a qualidade do vinho em si (nota), disponibilidade no mercado (número de caixas) e preço por garrafa, ou seja, o difícil é ter nota alta, grande produção e preço baixo. Poucos conseguem esta proeza. (www.winespectator.com).

De toda a relação, temos 30 americanos (a revista é americana), 20 italianos, 18 franceses, 8 espanhóis, 3 portugueses, 5 australianos, 4 neozelandeses, e o restante entre chilenos, argentinos, alemães, austríacos, sul-africanos, um de Israel, e um grego.

Dos americanos, sempre vinhos caros e praticamente indisponíveis no Brasil, a relação ratifica que as regiões da Califórnia (Napa, Sonoma, e Costa Sul), Oregon e Washington, sempre fornecem grandes vinhos que devem ser provados e comprados no exterior.

Dos italianos, a região da Toscana sobretudo, foi grande destaque com Chianti Classico e Brunello, embora um siciliano dentre os Top Ten.

Dos franceses, grande destaque para os bordaleses da safra 2015, uma das melhores dos últimos anos na Europa, e para os tintos do Rhône, especialmente Chateauneuf-du-Pape.

Da península ibérica, Espanha sempre com tintos instigantes e do lado português, destaque para a ótima safra 2016 no Douro com Vintages clássicos e de grande longevidade. Temos dois grandes Portos na lista.

De resto, a Oceania (Australia e Nova Zelândia) garfou nove exemplares, além dos outros países citados acima com participações pontuais.

Diante da lista completa, Vinho Sem Segredo seleciona seus Top Ten sem maiores pretensões, e de maneira nenhuma, subestimando a lista oficial. São também grandes vinhos, envolvendo além das notas, gosto pessoal.

1. Warre Vintage Port 2016

14° colocado na lista oficial com 98 pontos, Warre é a casa inglesa mais antiga em Vinho de Porto desde 1760. É logico que abri-lo agora é um imperdoável sacrilégio. Um vinho cheio de energia com taninos massivos e muita coisa a se desenvolver. Para os que estarão aqui em 2050, será um dos grandes Portos a atingirem o apogeu. Importadora Decanter.

wine spectator san felice chianti classico

2. San Felice Chianti Classico 2016

19° colocado na lista oficial com 94 pontos, este Chianti Classico custa somente 17 dólares no exterior. San Felice é um dos mais tradicionais produtores de Chianti Classico localizado em Castelnuovo Berardenga, próximo a Siena. Foi o pioneiro dos supertoscanos com o tinto Vigorello, lançado no mesmo ano do Sassicaia em 1968. Seus toques minerais e de tabaco são clássicos neste distinto terroir. Importadora Via Vini.

3. Roederer Estate Brut Anderson Valley

27° colocado na lista oficial com 93 pontos, este espumante é dos melhores da América com a chancela da Maison Louis Roederer. Com vinhedos localizados em Anderson Valley, próximo a Mendocino, região costeira bem ao norte da Califórnia, o vale absorve a tradicional neblina do Pacifico, provocando grande amplitude térmica. Neste blend clássico, temos Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%) com pelo menos dois anos sur lies (contato com as leveduras) antes do dégorgement.

wine spectator chateau-branaire-ducru 2015

4. Chateau Branaire-Ducru St Julien 2015

33° colocado na lista oficial com 94 pontos, este é um dos belos Grand Cru Classe da safra 2015. Nada a ver com o Chateau Ducru-Beaucaillou, outro ótimo Saint-Julien, Branaire-Ducru é um quatrième classificado de 1855. Blend composto por Cabernet Sauvignon (dois terços), Merlot (praticamente um terço), e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot. O vinho estagia entre 16 e 20 meses em barricas francesas (65% novas). Uma boa compra no exterior frente a outros chateaux mais famosos.

5. Descendientes de J. Palacios Bierzo Pétalos 2016

35° colocado na lista oficial com 92 pontos, este é um clássico da notável região de Bierzo, a noroeste da Espanha. Com seu relevo montanhoso e solo de pizarras (espécie de ardósia fragmentada), Bierzo molda tintos instigantes com a casta Mencia, cheio de pureza e mineralidade. Um dos grandes terroirs da Espanha. Importadora Mistral a bons preços.

wine spectator henri bourgeois les baronnes

6. Henri Bourgeois Sancerre Les Baronnes 2017

46° colocado na lista oficial com 92 pontos. Um dos melhores produtores da apelação Sancerre, Henri Bourgeois molda Sauvignon Blanc  típicos do Vale do Loire. Les Baronnes é um de seus vinhedos, gerando brancos de ótimo frescor para nosso verão. Sem passagem por madeira. Importadora Grand Cru.

7. Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2015

52° colocado na lista oficial com 98 pontos, este é um clássico botrytisado do Vale do Loire. Para quem está cansado de Sauternes, Quarts de Chaume é uma apelação clássica de Anjou com a casta Chenin Blanc. Vinho de grande delicadeza, complexidade, e longevidade. Importadora Mistral.

wine spectator hamilton russell chardonnay

8. Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2017

57° colocado na lista oficial com 93 pontos, Hamilton Russell é sinônimo de Borgonha na África do Sul. Com vinhedos situados na fria região litorânea de Walker Bay, banhada pela corrente de Benguela, seus Chardonnays fermentados e amadurecidos em barricas francesas, são complexos, equilibrados e expansivos. Importadora Mistral. 

wine spectator auguste clape cornas

9. Auguste Clape Cornas 2015

77° colocado na lista oficial com 98 pontos, Auguste Clape é referência absoluta na apelação Cornas, maldosamente mencionada como “Hermitage dos pobres”. Tinto de grande força, personalidade, e longevidade. Seus vinhedos ficam num anfiteatro localizados a sul da apelação Hermitage com uma exposição solar fora de série para o perfeito amadurecimento das uvas Syrah. Para quem tem muita paciência em adegar. Importadora Mistral.

10. Henri Gouges Nuits-St-Georges Clos des Porrets 2015

79° colocado na lista oficial com 95 pontos, Henri Gouges personifica o lado mais masculino de Nuits-St-Georges, vasta comuna com muitas expressões de terroir. Clos des Porrets é um monopólio de pouco mais de três hectares. Tinto musculoso, tânico, e de grande longevidade. O lado mais viril da Pinot Noir. Importadora Zahil.

Enfim, uma lista com cinco franceses de diferentes procedências. A outra metade com vinhos pouco conhecidos do grande público, de preços variados, e muitos deles encontrados no Brasil, embora a preços nem sempre convidativos. Para aqueles que têm a oportunidade  de irem ao exterior, uma bela chance de prova-los a preços honestos.

 

 

 

Vinhos que curam …

5 de Setembro de 2018

Pelo segundo ano consecutivo, o Hospital Albert Einstein através do AMIGOH, grupo de pessoas ligado ao Hospital sensibilizado pelo combate ao câncer e doenças hematológicas, promoveu um interessante e sofisticado Leilão de Vinhos com a colaboração e presença de Paul Hart e Allan Frishman, principais executivos da Hart Davis Hart, uma das mais prestigiadas Casas de Leilões no cenário internacional.

Não podemos deixar de mencionar o apoio da Américas Amigas, Organização não governamental promotora dos Direitos Humanos. Menção especial também ao casal Ana e João Camargo por todo o envolvimento na capitação e logística de alguns dos mais importantes vinhos presentes nos lotes ofertados.

Além da causa nobre, o evento proporcionou aos participantes a oportunidade da aquisição de vinhos altamente pontuados por lances  de valores competitivos no mercado internacional. Mesmo dentro deste princípio ético, os participantes foram muito generosos na dinâmica do leilão, contribuindo de forma decisiva para os objetivos do evento.

Feitas as devidas considerações, vamos falar de vinhos oferecidos para acompanhar o jantar, além de alguns lotes interessantes que foram arrematados. Nas duas fotos abaixo, alguns caldos que regaram o jantar.

grandes safras em Bordeaux

Embora os dois vinhos da foto acima estejam em tenra idade, vale a experiência para sentir a potência e qualidade das safras 2010 e 2015, super valorizadas no mercado. O Chateau Brane-Cantenac  2010 segue a elegância de Margaux já com alguma evolução, mesmo que timidamente. Com belo potencial de guarda, seus taninos são finos além de um equilíbrio notável. Já o Chateau Pontet-Canet 2015 foi o infanticídio da noite. Um tinto de potência extraordinária no melhor estilo Pauillac. Muita fruta escura lembrando cassis e uma estrutura tânica capaz de vencer longos anos em adega. Apesar de  não estar no pelotão de frente dos grandes Pauillac, é sem dúvida um dos destaques desta bela safra.

destaques em 2014

A safra 2014 não tem o glamour de 2015, mas é bastante equilibrada e de preços menos impactantes. O Chateau Figeac á esquerda, um dos mais destacados na comuna de St Emilion, vizinho do nobre Cheval Blanc, mostra-se já muito agradável, sobretudo após uma boa decantação. Com 94 pontos Parker, tem longevidade prevista pelo menos até 2035, confirmando a boa qualidade da safra.

Quanto ao Montrose 2014, as previsões são ainda mais pretensiosas. Algo como 2050 a 2060 com nota 96 Parker. Um vinho difícil para o momento, tal sua acidez, tanicidade, e austeridade, lembrando um grande Barolo. Dentro do esperado, os grandes da comuna de Saint-Estèphe costumam envelhecer com brilhantismo, revelando sua nobreza com o devido tempo.

img_5065tropa de elite

Falando em Bordeaux, o lote acima foi um dos destaques dos numerosos lotes bordaleses. Um time de respeito unindo várias comunas do Médoc com Chateaux sempre valorizados e muito bem pontuados em suas respectivas comunas. Um lance bem atraente para acirrar a disputa.

safras bem didáticas

O foto acima mostra mais uma dupla bordalesa servida no jantar. Aqui sim, vinhos teoricamente envelhecidos e num bom momento de evolução. Começando pelo Cos d´Estournel 1985, um vinho pronto, plenamente evoluído, com todos os aromas terciários de um grande Bordeaux, couro, tabaco, especiarias, chocolate, entre outros. Já o Léoville Las Cases 1986, apenas um ano mais jovem, completamente diferente. Enquanto a safra 85 mostra vinhos acessíveis, bem resolvidos e sedutores, o ano de 1986 marca vinhos de grande estrutura tânica e lenta evolução em adega. É o caso deste Leoville, uma referência da comuna de Saint-Julien. Um vinho quase perfeito com 98 pontos Parker. Denso, ainda um pouco fechado, mas muito equilibrado e com longa persistência aromática. Até por ser vizinho na divisa de comuna com Pauillac, lembra um mini Latour. Previsão de auge em 2050.

img_5067um raro exemplar

O lote acima mostra uma das garrafas mais raras do Leilão, uma Double Magnum Harlan Estate 2013. Seguramente, Harlan Estate e Screaming Eagle disputam entre os Cult Wines mais caros de Napa Valley. De fato, Harlan Estate molda vinhos de alto padrão, aliando a potência californiana com toda a elegância bordalesa. Um tinto de corte bordalês muito bem delineado safra após safra com muito poder de longevidade. Essa safra 2013 é um dos anos perfeitos com 100 pontos Parker.

Bourgogne em alto nível

Mais alguns mimos servidos no jantar da foto acima. Começando pelo grande branco da Borgonha, Le Montrachet personifica a perfeição em Chardonnay. Nesta garrafa em questão, além da bela safra 2015, estamos diante de uma produção diminuta do Domaine Blain-Gagnard, um dos mais exclusivos deste famoso vinhedo dividido em muitas parcelas. O vinho tem um riqueza extraordinária de frutas, especiarias, flores, tudo bem emoldurado por toques elegantes  de barricas francesas. Delicioso no momento, embora possa ser guardado por anos em adega.

Seu par tinto é da comuna de Chambertin, Côte de Nuits. Domaine Ponsot é um dos produtores  mais sérios e artesanais, atuando sobretudo na comuna de Morey-St-Denis. Neste exemplar de 2014, Chapelle-Chambertin, um dos Grands Crus da comuna homônima, o vinho ainda se mostra em tenra idade. Com toques de cerejas e violetas, os aromas ainda são tímidos. Contudo, sua acidez e estrutura tânica permitem uma longa trajetória de evolução. Mostra-se muito equilibrado e fino. Tinto de alta costura.

img_5069Saint-Emilion Classe “A”

Mais um lote muito interessante (foto acima), retratando a elite de Saint-Emilion, a chamada margem direita de Bordeaux. Com vinhos altamente pontuadas em safras diversas e de grande destaque, três exemplares distintos, porém complexos e de boa guarda em adega. Chateau Valandraud é um dos pioneiros e mais exclusivos “vins de garage”.

Enfim, foram pouco mais de 50 lotes de primeira linha com preços e estilos de vinho variados, contemplando paladares e preferências dos mais diversos. O mais importante foi o sucesso do Leilão como evento raro em nosso país. Os recursos arrecadados certamente terão destinos bem definidos no combate permanente e progressivo contra o câncer.

Mais uma vez, agradecimentos a todos os envolvidos pela causa e a todos os presentes no evento, contribuindo cada qual a ser modo para um bem comum, a cura contra o câncer. Aguardamos ansiosos pelos próximos leilões!

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

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Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Léoville Las Cases em parcelas

17 de Maio de 2018

Vizinho ao grande Latour, Chateau Léoville Las Cases é o mais prestigiado e consistente entre os Léovilles (Barton e Poyferré). Na época da revolução francesa, a propriedade foi dividida formando os três Léovilles, sendo a maior parte, 3/5 da área, destinada ao Las Cases. O mapa abaixo, mostra o perfil geológico do vinhedo num terroir complexo, entre pedras (graves), areia, argila, e limo. Até 2007, Clos du Marquis era considerado seu segundo vinho, embora já fosse um vinhedo separado. Atualmente, seu segundo vinho é chamado de Petit Lion. Pela ótima consistência, ano após ano, Clos de Marquis merece um status independente, fazendo parte desta nobre propriedade.

leoville las cases mapa

colado ao Chateau Latour

No vídeo abaixo, num determinado momento, aparece a distribuição das vinhas do Chateau. A maioria das parcelas de Cabernet Sauvignon ficam na parte mais alta onde a camada de cascalho é mais espessa. Já as vinhas de Merlot ficam mais próximas ao rio num solo um pouco mais frio com boa presença de argila. No caso das pequenas porções de Cabernet Franc, o solo arenoso com pedras é o mais indicado.

A separação da propriedade com o Chateau Latour se dá através de uma das valas de drenagem do Médoc, Ruisseau de Juillac, onde há um modificação na espessura do cascalho. Léoville Las Cases juntamente com Ducru-Beucaillou são os dois mais reputados vinhos da comuna de Saint-Julien, embora de estilos diferentes.

distribuição das vinhas no terreno

Após esta introdução, vamos ao objetivo do artigo, baseado numa degustação sui generis da ótima safra de 1986. Numa caixa exclusiva do Chateau nesta safra, foram dispostas além do Grand Vin, garrafas separadas de todas as uvas que compõem o blend. São elas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, e uma pitada de Petit Verdot.

d99aa670-51dd-4118-ae07-92ea3a18827f.jpgKit completo com proveta graduada

Começando pelo Grand Vin, Léoville Las Cases 1986, é uma safra de 100 pontos Robert Parker com apogeu previsto entre 2030 e 2035. Pela potência de taninos desta safra tão dura, haja vista, o grande Mouton com 100 pontos que parece  não  abrir nunca, este Léoville está bem abordável. Tem um estrutura densa de taninos, mas de ótima textura. Os aromas começam a se abrir pouco a pouco, denotando as notas de tabaco, chocolate, e cassis. Muito equilibrado e uma expansão de boca notável.

varietais e duas garrafas do Grand Vin

Quanto aos varietais degustados separadamente, percebemos claramente que o Cabernet Sauvignon é a espinha dorsal do Grand Vin, fato previsto, já que se trata de vinhos de margem esquerda. A Merlot tem aquele lado macio, afável, que complementa muito bem as arestas masculinas do Cabernet Sauvignon. Já o Cabernet Franc, é um vinho muito mais de aroma que textura e peso em boca. Ele participa sobretudo no blend, dando um toque de elegância. Por fim, a Petit Verdot fornece o tempero do blend. É uma uva tão potente como a Cabernet Sauvignon, porém falta-lhe classe, denotando uma certa rusticidade. Ela funciona mais ou menos como a pimenta em termos de tempero. Na medida certa, levanta o sabor. Contudo, no exagero, pode estragar o prato.

Feitas essas considerações, o blend do Grand Vin fica assim: 66% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 11% Cabernet Franc, e 4% Petit Verdot. Após a degustação em separado dos varietais, começou a brincadeira de composição de blends individuais em proporções variadas. Teve gente que excluiu uma ou outra uva do blend, outros optaram por proporções altas de Cabernet Sauvignon. Enfim, uma experiência divertida.

Dentre as experiências, a mais didática foi compor o blend do Grand Vin na proveta nas proporções indicadas acima, e comparar com o vinho original elaborado no Chateau. Embora a proporção de uvas seja a mesma, ficou claro que faltava uma integração melhor dos componentes do vinho quando mesclamos as uvas na proveta. A explicação é mais que óbvia. Na composição do Grand Vin, os blends são formados logo após a fermentação  que é realizada separadamente das uvas. Passado um período de descanso nos tanques, é realizado o blend e o vinho vai para as barricas. Neste período, há uma integração total do vinho, aparando arestas, enriquecendo texturas e aromas.

No caso de misturar os varietais na proveta que envelheceram separadamente nas barricas e na garrafa, esta integração não fica perfeita. Melhora-se o conjunto, mas a perfeição, a amalgamação total, não acontece.

Notas Robert Parker para os varietais

  • Cabernet Sauvignon – RP 93 pontos (o rei da margem esquerda)
  • Merlot – RP 87 pontos (útil no blend, fraco no individual)
  • Cabernet Franc – RP 90 pontos (a elegância do blend)
  • Petit Verdot – RP 91 pontos (a pitada de tempero para realçar o blend)

Enfim, uma experiência inesquecível, e extremamente didática. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro por mais esta prova de generosidade entre amigos. Saúde a todos!