Archive for Agosto, 2012

Harmonização: Peras em Calda

30 de Agosto de 2012

Frutas em calda é um clássico dentre as sobremesas de vários países. Cada um tem sua fruta preferida e também uma técnica peculiar na elaboração. O fato é que frutas de um modo geral combinam muito bem com vinhos calcados na uva moscatel, a começar com a salada de frutas que vai muito bem com Moscato d´Asti ou Asti Spumante. Uma das frutas mais delicadas e ao mesmo tempo ingrediente principal de um ícone no gênero é a pera em calda, ilustrada na foto abaixo.

O visual já transmite muito frescor, geralmente acompanhado de sorvete. No caso da receita acima, as peras foram elaboradas numa calda de frambroesas ou amoras, dando um tom avermelhado. Existe sempre um contraste entre a doçura marcante da calda com o frescor da fruta. Vinhos de colheita tardia ou mesmo botrytisados, apesar de compensarem o açúcar necessário para a harmonização, apresentam textura dominadora, comprometendo a sensação de frescor e um certo equilíbrio dado pela fruta. O ideal é partir para vinhos fortificados, pois fornecem doçura suficiente e textura mais adequada ao prato, além de enfrentar o sorvete com boa alcoolicidade.

Dos vários moscatéis fortificados, um dos melhores para este tipo de sobremesa é o Muscat de Rivesaltes, também classificado como VDN (vin doux naturel), da região de Languedoc-Roussillon, sul da França. Além de Rivesaltes, temos uma vasta gama de apelações Muscat no Languedoc tais como: Muscat de Frontignan, Muscat de Lunel, Muscat de Mireval, todos eles fortificados, mas sempre com o lado frutado bastante fresco. Como sugestão, seguem dois produtores de destaque na região:

Ainda na França, um vinho que pode harmonizar bem é o Vouvray Moelleux, dependendo da textura e do açúcar residual  que podem variar muito. Como sabemos, é uma das mais reputadas apelações do Loire, utilizando a nobre casta Chenin Blanc. Favor pesquisar neste mesmo blog, artigos sobre Vale do Loire em seis partes. Voltando à harmonização, a versão Moelleux não extremamente doce e um tanto untuosa, pode calibrar bem a doçura e textura que o prato exige, mantendo um belo frescor.

Degustação Vertical: Critérios

27 de Agosto de 2012

Degustar vinhos é a principal atividade de um enófilo de carteirinha. Sendo assim, as degustações espalham-se ao longo de todo o ano, através de importadoras, lojas especializadas, restaurantes, eventos dirigidos, associações e confrarias. Uma das mais badaladas  é a chamada Degustação Vertical,  que nada mais é do que provar um mesmo vinho em várias safras diferentes. O glamour de uma vertical está associada ao calibre do vinho. Ninguém faz uma vertical séria com vinhos comuns, pois os mesmos não apresentam condições estruturais para um bom envelhecimento.

Safras enfileiradas de um mesmo vinho

Neste sentido, a responsabilidade da ordem dos vinhos aumenta  de acordo com a importância do vinho degustado. A idéia é sempre não ofuscar o vinho seguinte da sequência, respeitando as características intrínsecas às safras. O comodismo de degustar em ordem cronológica crescente ou decrescente e mesmo até às cegas, formando uma sequência aleatória, pode comprometer seriamente a degustação, penalizando vinhos elegantes e delicados, sobretudo.

Para evitar estas situações, é necessário um conhecimento prévio e histórico do vinho em questão e as características principais e particularidades de cada safra. Nos grandes vinhos é comum termos safras mais potentes, diferenciadas, apesar da idade dos mesmos. A precocidade de algumas safras é um fator extremamente importante na ordem dos vinhos. A estrutura tânica, bem como a característica de latência de determinadas safras, apontam para uma decantação mais prolongada afim de avaliarmos melhor o vinho, mesmo ainda não atingindo seu platô ideal.

Como exemplo, vamos pensar numa degustação vertical de um grande Château de Bordeaux entre as safras de 1976 e 1985. São vinhos antigos, evoluídos, com mais de 30 anos. Salvo alguma particularidade de alguns châteaux específicos, vamos tentar montar uma sequência lógica entre as safras. Sabemos que 76, 77, 79, 80 e 84 não foram grandes safras. Portanto, estes vinhos devem estar decadentes, ou extremamente evoluídos e frágeis. As safras de 78, 81 e 83 foram relativamente boas, mas sem o brilho dos anos míticos. Já as safras de 85 e principalmente 82 foram acima da média, com alguns vinhos espetaculares. Portanto, para que possamos usufruir e valorizar todos os detalhes e nuances de cada safra, respeitando suas peculiaridades, poderíamos começar com o primeiro grupo de vinhos bem delicados, seguido pelas safras de 78, 81 e 83, com um pouco mais de extrato e riqueza aromática, culminado com as safras de 85 e 82 nesta sequência. Apesar de 82 ser uma safra mais antiga, sua riqueza e singularidade sobrepujam até mesmo o belo ano de 85.

Em resumo, o importante é proporcionarmos condições ideais de uma degustação em conjunto, sem que qualquer uma das safras seja prejudicada sensorialmente, em detrimento de uma sequência mal elaborada. É como se você pudesse degustar cada safra isoladamente, tendo as mesmas sensações ou impressões de degustá-la numa sequência, ou seja, sem interferências dos vinhos antecedentes.

Harmonização: Banana Tatin

23 de Agosto de 2012

Se acharem muito chique o título, pode ser torta de banana. É deliciosa do mesmo jeito, e o sorvete de creme, complementa muito bem. A receita leva açúcar, manteiga, canela e massa folhada.

Toda a vez que uma sobremesa tiver como ingrediente principal ou mesmo relevante a banana, os belos vinhos da ilha da Madeira cairão muito bem. Evidentemente, aqueles com maior teor de açúcar residual, ou seja, Boal e preferencialmente, Malmsey. Há uma sinergia de sabores muito interessante. O mesmo se passa com sobremesas onde o abacaxi é componente importante. Ver artigos sobre o vinho Madeira em cinco partes neste mesmo blog.

Requinte e simplicidade ao mesmo tempo

Os Madeiras do tipo Malmsey (Malvasia), os mais doces, geralmente adéquam-se melhor, pois as sobremesas com bananas tendem a ter açúcar mais acentuado. Além disso, os toques empireumáticos deste tipo de vinho ganham eco no lado caramelado desta torta, em particular. O sorvete de creme, sempre bem enfrentado por vinhos fortificados, refresca a harmonização, permitindo a percepção de sabores sutis, além dos já citados e que evidentemente, são dominantes.

Outros fortificados como Porto, Moscatel de Setúbal, e alguns Jerezes doces, podem chegar a bom termo, mas o algo mais, a cereja do bolo, são os belos Madeiras. Pedro Ximenez, o mais doce fortificado de Jerez e também muito famoso em Málaga, tem afinidade com as bananas. Contudo, torna-se muito dominante na harmonização. Como curiosidade, um fortificado praticamente extinto em Portugal, chamado Carcavelos, é o substituto imediato para esta harmonização. Este vinho, ainda elaborado nos arredores de Lisboa, enfrenta a feroz expansão imobiliária, perdendo terreno literalmente a passos largos.

Alguns Madeiras disponíveis no mercado:

Produção Italiana: DOC/DOCG

20 de Agosto de 2012

Voltando aos números da Itália, neste artigo vamos separar a produção das principais denominações italianas por grupos num interessante painel de tabelas. Inicialmente, vamos apresentar as dez principais denominações em números absolutos, mesclando tintos, brancos e espumantes.

Duas denominações chamam a atenção: Prosecco e Montepulciano d´Abruzzo. Prosecco computada a partir de 2009, data em que houve a modificação da lei, transformando um mar de vinhos na DOC Prosecco interregional (Veneto principalmente, e parte do Friuli), e separando a famosa sub-região Conegliano- Valdobbiadene em DOCG. Neste blog, temos artigos mais detalhados sobre esta modificação da denominação Prosecco. Já o emblemático Chianti não é o número um em termos de produção. A surpreendente uva Montepulciano em Abruzzo mostra sua força numa vasta produção.

Isolando apenas os tintos, percebemos bem a diferença de produção da genérica denominação Chianti para a restrita denominação Chianti Classico, conforme tabela abaixo. Valpolicella e Barbera d´Asti mostram sua força, enquanto Lambrusco não tem tanta presença assim como muitos imaginam. Evidentemente, estamos falando de denominações mais restritas e respeitadas como Sorbara, Salamino e Grasparossa.

No que tange aos brancos, a denominação Soave lidera com folga na região do Valpolicella. O agradável branco Verdicchio da região de Marche mostra sua força, enquanto as insípidas denominações Trebbiano e Frascati insistem em grandes produções. Orvieto, uma denominação que já foi moda no Brasil, também mantém boa produção. Veja tabela abaixo.

Com relação aos espumantes, a denominação Prosecco agregada a Conegliano-Valdobbiadene dispara na liderança. Asti no Piemonte, continua com grande força e carisma. Franciacorta, ¨o champagne italiano¨, não poderia ser diferente. Privilegia a qualidade e terroir, e não a expansão e quantidade.

A nova DOC/DOCG Prosecco transforma-se na mais produtiva denominação italiana e torna-se uma das grandes forças no mundo das borbulhas com mais de duzentos milhões de garrafas por ano, número bastante expressivo frente à denominações internacionais famosas como Champagne (França), Sekt (Alemanha) e Cava (Espanha). Verificar neste mesmo blog, artigo intitulado “o mundo das borbulhas”.