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A Hierarquia em Pomerol

31 de Janeiro de 2020

Embora tenhamos os tintos mais caros entre a elite de toda região bordalesa, Pomerol não dispõe de uma classificação oficial até hoje. Em 1855, época da primeira grande classificação dos vinhos bordaleses, Pomerol gozava de pouco prestígio e o grande rei Petrus não havia nascido. 

Com cerca de 800 hectares de vinhas, Pomerol é menor que qualquer comuna famosa do aristocrático Médoc. As propriedades são muito pequenas, sendo a maioria com menos de dez hectares. A uva praticamente é uma só, a sensual Merlot, complementada por pequenas proporções de Cabernet Franc e eventualmente, uma pitada de Cabernet Sauvignon. Nessas condições Pomerol tem um ar borgonhês dentro de Bordeaux.

Embora a Merlot assuma um papel de maciez, aparando as arestas no corte bordalês, aqui em Pomerol ela assume uma postura diferente, mais estruturada, criando um poder de longevidade aos vinhos, sobretudo quando falamos do rei Petrus. Aliás, Parker define três grupos de Pomerol bastante distintos em estilos. O primeiro, do time de cima, fica com Petrus, Lafleur e Trotanoy. São vinhos extremamente estruturados, longevos e com grande carga tânica. Lafleur por exemplo, é o único que consegue ombrear-se em estilo ao astro maior. Já Trotanoy, é o mais acessível dos três, embora com ampla capacidade de envelhecimento. 

96384eba-7f42-4730-9cf1-238a0925fb4e-1uma das grandes safras de Trotanoy!

Um segundo grupo de vinhos mais macios e abordáveis, estão como exemplo os chateaux L´Evangile e La Conseillante, mais próximos do que conhecemos como Merlot propriamente dito. Finalmente, um terceiro grupo de Pomerol que se parece mais com os vinhos do Médoc. Aqui a proporção de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon é mais acentuada, embora a Merlot continue sendo majoritária. O famoso Vieux Chateau Certan (VCC) é o exemplo mais emblemático.

Em termos de classificação, nada oficial até o momento, mas assim como na região de Sauternes, o todo poderoso Yquem é considerado soberano na região, o rei Petrus tem o mesmo prestígio entre os principais Pomerol. Assim como Yquem, Petrus deu fama à região, sobretudo a partir da segunda metade do século passado. 

Existem muitas tentativas de classificação onde escritores famosos deram seus palpites e justificativas. Falando de Parker, um dos maiores conhecedores da matéria, vamos a um estudo recente baseado em notas dos principais chateaux.

pomerol 1995 a 2008

classificação técnica entre 2016 e 1995

pomerol 2

La Violette e Hosanna são grandes destaques

Sem nenhuma surpresa, o primeiro lugar ficou com Petrus, um tinto muito estruturado, mas que demanda tempo para seu total desenvolvimento. Outro fator impeditivo é seu preço, sempre muito alto.

Com média de notas praticamente encostada no astro maior, L´Eglise Clinet surpreende outros potenciais candidatos ao segundo posto com um vinho baseado em Merlot e com enorme potencial de envelhecimento.

img_6906Lafleur, o grande rival de Petrus!

Em terceiro lugar sem nenhuma surpresa, o grande Lafleur. Talvez o único da turma a bater de frente com o Petrus, sobretudo por sua austeridade e longevidade. Tem alta porporção de Cabernet Franc no corte num vinho enigmático.

Com as vinhas reavivadas recentemente, La Violette voltou a brilhar com notas altíssimas. Um vinho 100% Merlot de rendimentos muito baixos e alta concentração. É necessária a decantação para safras jovens, bem como para as mais antigas com muito sedimentos. São apenas 1,68 hectare de um vinho impactante, assumindo o quarto lugar.

Do mesmo produtor de Vieux-Chateau-Certan, Le Pin é um vinho de boutique com produções baixíssimas, entre 600 e 700 caixas por safra. Um vinho 100% Merlot de alta classe e concentração. As safras 82, 89 e 90, são históricas. Em termos de preços, até mais caro em algumas safras do que seu grande rival Petrus. Fica em quinto lugar.

Com vinhedos muito próximos a Petrus, Hosanna assume o sexto lugar. Suas vinhas foram usadas para outros chateaux na região num passado recente. Em 1999 parte do vinhedo foi para a família Moueix e desde então, o chateau assume incrível regularidade e precisão. O blend  é composto por 70% Merlot  de vinhas velhas e 30% Cabernet Franc plantadas na década de setenta. Um vinho elegante e sedutor.

Em sétimo lugar, Chateau Trotanoy é classicamente um dos rivais de Petrus, juntamente com Lafleur. Sua posição nesta tabela deve-se a uma certa irregularidade nas safras. No entanto em algumas, consegue superar o astro maior. Pertence a família Moueix. Importado pela Clarets (www.clarets.com.br). 

img_7072uma das safras mais perfeitas do astro-rei

Em oitavo lugar, Vieux-Chateau-Certan é classicamente um dos grandes da região, na elite de Pomerol. Com participação das Cabernets no corte, este chateau tem um viés de margem esquerda, lembrando algo do Médoc. Algumas safras perfeitas e com preços bem convidativos, dada a fama da região. A safra de 90 é extremamente prazerosa e um dos destaques deste grande ano.

Um dos mais antigos chateaux em Pomerol, L´Evangile assume o nono lugar. No começo do século passado era considerado um vinho de elite juntamente com Petrus e Vieux-Chateau-Certan. Tem um corte clássico com 80% de Merlot e 20% Cabernet Franc. Suas vinhas estão localizadas próximas a Saint-Emilion, bem perto de Cheval Blanc. Apesar de certa irregularidade nas safras, é um vinho sedutor e que envelhece bem.

Em décimo lugar, Chateau Clinet é um dos mais antigos da região. Muito bem localizado, tem uma das vinhas de Merlot mais antigas, plantadas em 1934, conhecida como ¨La Grand Vigne”. Tem uma porcentagem importante de Cabernet Sauvignon para padrões da região. A partir de 2004, mudanças importantes nas vinhas e na cantina, elevaram seu padrão de qualidade.

Comentado em detalhes os dez primeiros tintos deste estudo recente de Parker, os outros dez chateaux incluem nomes de peso como La Conseillante, La Fleur-Petrus e Latour à Pomerol. Enfim, um estudo recente, técnico, e que mostra a elite desta região modesta em tamanho, mas com alto grau de qualidade.

Outras tentativas de classificação foram sugeridas por dois famosos Master of Wine, Clive Coates e Mary Ewing-Mulligan´s. O primeiro um inglês famoso por sua especialidade na Borgonha. Já a segunda é uma autora americana ligada a vários órgãos internacionais, entre eles, Wine & Spirit Education Trust.


Clive Coates

First Growth: somente Petrus.

Outstanding Growth: L´Evangile, La Fleur-Petrus, Lafleur, Latour à Pomerol, Trotanoy e Vieux Chateau Certan.

Exceptional Growth: Le Pin, Certan de May, Clinet, La Conseillante, Clos L´Eglise, La Fleur de Gay e Gazin.

Very Fine Growth: Hosanna, Bon-Pasteur, Le Gay, Nenin, entre outros.


Mary Ewing-Mulligan´s

Class One: Petrus e Lafleur.

Class Two: Trotanoy, L´Evangile, Vieux Chateau Certan, L´Eglise Clinet, Clinet, La Fleur-Petrus, Clos l´Eglise, La Conseillante, Certan de May, Latour à Pomerol, Nenin e La Fleur de Gay.

Class Three: Petit-Village, Feytit-Clinet, Rouget, Bon-Pasteur, La Croix du Casse, Gazin, Grave à Pomerol, Hosanna, Le Gay e La Croix de Gay.


Percebe-se que estas classificações não são tão técnicas quanto a de Parker. Entre outros fatores, entra em conta a história e tradição do chateau. Hosanna tem classificação discreta nos dois casos por ser um fenômeno recente na história. O mesmo podemos dizer de La Violette, um chateau extremamente jovem. O próprio Latour à Pomerol bem classificado, foi grande em outras épocas de safras mais antigas. Certan de May acompanha este raciocínio. Le Pin por ter surgido como “vinho de garagem”, tem pouco impacto numa classificação tradicional.

Enfim, tentamos dar uma ideia dos principais chateaux da região, enfatizando não só a tradição, mas o progresso na região em fazer vinhos modernos e impactantes. Numa coisa todos concordam, Petrus continua sendo o Rei!

Bordeaux Nota 100 numa das mãos

17 de Julho de 2019

Um vinho dito perfeito ou mais realisticamente que flerta com a perfeição, é por contraponto um vinho sem ressalvas. Se é difícil e subjetivo apontar suas qualidades, aromas e nuances, fica mais fácil não conseguir apontar algo que desagrade ou que deixe a desejar. Portanto, se não conseguimos tirar um único ponto de um determinado vinho, ele é um nota 100, símbolo da perfeição, tornando-se com o tempo uma lenda.

Quando comecei a provar grandes vinhos, após um breve espaço de tempo, fiz uma pequena lista de grandes nomes, achando que seriam os melhores para todo o sempre. Ledo engano, quanto mais provo, quanto mais repito aqueles mesmos vinhos que um dia endeusei de maneira absoluta, quanto mais sinto a evolução deles ao longo do tempo, mais dúvidas, mais dilemas, mais senões, turbilhonam a mente, sem uma conclusão definitiva. Além da emoção do momento, nunca devemos nos esquecer que obras de arte não se comparam, apenas estão a nosso alcance para serem apreciadas.

Neste sentido, faço uma nova lista, desta vez sem ilusões e conclusões definitivas, sabendo que além destes, tanto outros poderiam estar incluídos, e quem sabe com o tempo, esses mesmos vinhos seriam substituídos por outros. Enfim, vou me resumir a Bordeaux, um terroir de muitos notas 100, e neste caso apenas cinco, que cabem numa das mãos.

Deixei de lado mitos que com o tempo foram desaparecendo, ficando quase inacessíveis, e altamente sujeitos a falsificações. Vinhos que quem os provaram, ficou a lembrança inesquecível na pátina do tempo, como Margaux 1900, Cheval Blanc 1921, Mouton 1945, Petrus 1929. Todos eles imortais.

A lista abaixo é de ordem aleatória, cabendo a cada um com suas preferências pessoais, ordena-los a seu modo. São vinhos caros, difíceis de serem encontrados, mas ainda assim acessíveis para os entusiastas persistentes e tenazes. 

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Chateau Haut Brion 1989

Primeiramente, uma homenagem a este único Premier Grand Cru Classé de Graves na classificação de 1855. Um chateau altamente consistente na maioria das safras por suas elegância e empatia, mesmo em tenra idade. Nesta safra em particular, potencializa todas suas virtudes num vinho de muita força e presença. Um final muito bem acabado e radiante quase querendo dizer: a minha idade não é a que eu tenho, mas a que pareço.

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Chateau Mouton Rothschild 1986

Outro grande vinho da ótima década de 80. Mouton costuma ser um tinto muito inconstante, dependendo da safra, mas quando acerta, é excepcional. Este Mouton 86 é totalmente diferente em estilo do Haut Brion acima. Um vinho cheio de cerimônias e segredos, necessitando de algumas horas de decantação, obrigatoriamente. Um vinho que se mostra muito pouco ainda, mas dá uma aula de taninos e potência. Tem uma força e energia impressionantes, testando nossas paciência e curiosidade. Será certamente um daqueles vinhos imortais, atravessando décadas.

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Le Pin 1982

Falar dos melhores da mítica safra 82 é arrumar confusão e polêmica. Afinal, deslumbrantes chateaux desfilaram nesta safra com galhardia. Minha escolha foi para homenagear Pomerol e lembrar para alguns que o rei Petrus tem seus concorrentes. Le Pin tem uma produção diminuta, menor ainda que Petrus, e também trabalha com 100% Merlot. Sua história é mais recente, sendo um dos precursores dos chamados “vins de garage”. Nesta safra, ele se supera, mostrando toda a sensualidade e presença de um grande Pomerol. Lembrar que Petrus nesta safra foi abaixo das expectativas.

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Chateau Latour 1961

Numa relação de cinco grandes Bordeaux, não poderia deixar de estar presente o grande Latour, o senhor do Médoc. Outro vinho de consistência e longevidade impressionantes, safra após safra. Dentre muitos maravilhosos Latour, este impressiona pela rica estrutura e enorme longevidade, sem demonstrar as marcas do tempo. Taninos poderosos e ultrafinos permeiam a taça. Na mesma linha do Mouton 86, necessita de algumas horas de decantação. Um verdadeiro monumento a Bordeaux.

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Chateau Lafite Rothschild 1953

Este é outro Chateau que não poderia ficar de fora. O mais delicado, o mais sutil, o mais borgonhês de Pauillac. Escolhi esta safra porque é o melhor 53 para Parker. Uma safra não tão badalada, mas de belos vinhos. Poderia ter sido um 59, mas acho 53 um dedinho superior. Lafite é um vinho que envelhece magnificamente, mostrando todas suas sutilezas e segredos com um aporte de acidez que lhe conferem uma tensão no equilíbrio gustativo quase única. Seus toques orientais e de cedro no aroma são marcas registradas que denotam classe e distinção. 

Enfim, um preâmbulo para uma bela degustação que terremos em breve com esses tema. Evidentemente, não necessariamente esses vinhos, mas com certeza, preciosidades deste mesmo nível, marcando momentos inesquecíveis. Aguardem!

Mission quase Impossível!

19 de Dezembro de 2018

Muito se fala da reclassificação dos Chateaux em Bordeaux. Afinal, muita coisa mudou do fim do século XIX para cá. Um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé é o Chateau La Mission Haut Brion. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Nesta degustação que iremos comentar a seguir, fica mais uma vez provado, sua extrema qualidade, tradição, e consistência, safra após safra. As semelhanças de solos e da própria composição do corte bordalês, o deixa em pé de igualdade com o grande Haut Brion, embora a diferença de estilo entre os dois seja marcante. Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo.

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parte do La Mission colada em Haut Brion

Esclarecendo o mapa acima, Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. E assim, até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho do La Mission.

Chateau La Mission Haut Brion

Área de vinhas tintas: 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação.

Área de vinhas brancas: 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc). 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Feitas as devidas considerações, vamos aos flights degustados, mostrando características de safra e sua evolução em garrafa, principalmente em anos mais antigos. De modo geral, os vinhos surpreenderam muito em termos de conservação e longevidade. A década de 70 por exemplo, apresentou vários anos abaixo da média com notas desanimadores para a maioria dos chateaux. Com exceção da safra 69 com problemas de rolha afundada e entrada de ar na garrafa, além da oxidação do grande 75, os demais apresentaram um desempenho bastante satisfatório.

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La Mission 68, plenamente evoluído, mas sem sinais de oxidação. As safras 72 e 80 apresentaram um pouco mais de extrato e meio de boca, embora também já plenamente evoluídas. O 69 apresentou problemas nesta garrafa, conforme descrito acima. Começo animador!

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Um flight que poderia ser catastrófico, mostrou-se com muita consistência, embora com vinhos plenamente evoluídos. O La Mission 73 abaixo da média, mas o 74 surpreendeu pela elegância. O 77 e 84 se portaram muito bem, de acordo com as expectativas das safras. O 74 não aparece na foto.

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No flight acima, muito equilíbrio. Embora sem nenhum grande vinho, eles estavam corretos e plenamente evoluídos. 67 e 70, um pouco abaixo em termos de concentração. O 76 surpreendeu positivamente numa safra crítica. Por fim, o 81 um pouco acima dos outros, mais estruturado e vigoroso.

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É lógico que neste flight, a superioridade da dupla 78 e 85 foi marcante. La Mission 66 ainda com aromas deliciosos, embora bastante frágil nesta altura da vida. La Mission 78 tem uma estrutura impressionante. Parece não sentir o peso da idade com taninos poderosos. Já o 85, mais prazeroso, com menos arestas e aromas de grande finesse com toques terrosos e de estrabaria. Um salto considerável na degustação.

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Este flight só não se equiparou com o anterior porque o La Mission 75 estava oxidado, uma pena. A safra 79 bastante agradável, mas a dupla 82 e 83 se destacaram para encerrar a degustação. O La Mission 82 foi o mais próximo do monstruoso 78 com muita estrutura e vigor. Seus taninos são de uma textura incrível. O La Mission 83 embora delicioso e muito bem equilibrado, foi eclipsado pelo 82 bem a seu lado. De todo modo, um belo vinho.

IMG_5434o rival chegou para o almoço

Para enfrentar 20 safras de La Mission, o rival Haut Brion precisou apresentar-se no formato Imperial com a safra inquestionável de 1998. Apesar de mais jovem do que a média degustada dos La Mission, o vinho estava esplendoroso com 99 pontos Parker. No momento, tem muita fruta, muitos taninos finíssimos, e todo o perfil aromático dos grandes Haut Brion. Mesmo com 20 anos de idade, tem vigor de sobra para mais 20 anos em adega. Sem dúvida, será um dos grandes Haut Brion da história deste belíssimo Chateau.

recordando Babette …

No preâmbulo do almoço, foi servido um autêntico Caviar Beluga, impecavelmente fresco, fazendo par e à altura do champagne Cristal 2009, nota 95+ Parker. Aromas e texturas se fundiram perfeitamente, num final limpo e de grande frescor. Não sei o caviar, mas o champagne melhorou muito em relação ao filme …

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Acima e abaixo, fotos da turma. Muito interessante esta experiência de uma vertical longa, passando pelas décadas de 60 ,70, e 85. Os vinhos foram decantados perto do momento da degustação, exceto safras como 75, 78, 82 e 85, abertas com mais antecedência, devido ao vigor das mesmas.

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Fechamos o ano em alto estilo, confirmando o viés francófilo desta turma. Safras garimpadas com muita dedicação e conhecimento, procurando garrafas de ótimo estado e procedência segura. O nível de vinho nas garrafas surpreendeu positivamente e não tivemos nenhum bouchonné. 

um fantasma apareceu!

No apagar das luzes, eis que surge um Madeira 1880. Que elegância, que equilíbrio, que profundidade. Um Terrantez, uva praticamente extinta na ilha, provando que esses vinhos são realmente imortais. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem …

Agradecimentos sinceros pela presença e generosidade de todos ao longo do ano, e em especial ao anfitrião, que nos recebeu com muito carinho, cuidando de todos os detalhes. Que venha 2019 com muita força, capaz de superar um ano tão intenso como 2018. Boas Festas a todos!

Léoville Las Cases em parcelas

17 de Maio de 2018

Vizinho ao grande Latour, Chateau Léoville Las Cases é o mais prestigiado e consistente entre os Léovilles (Barton e Poyferré). Na época da revolução francesa, a propriedade foi dividida formando os três Léovilles, sendo a maior parte, 3/5 da área, destinada ao Las Cases. O mapa abaixo, mostra o perfil geológico do vinhedo num terroir complexo, entre pedras (graves), areia, argila, e limo. Até 2007, Clos du Marquis era considerado seu segundo vinho, embora já fosse um vinhedo separado. Atualmente, seu segundo vinho é chamado de Petit Lion. Pela ótima consistência, ano após ano, Clos de Marquis merece um status independente, fazendo parte desta nobre propriedade.

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colado ao Chateau Latour

No vídeo abaixo, num determinado momento, aparece a distribuição das vinhas do Chateau. A maioria das parcelas de Cabernet Sauvignon ficam na parte mais alta onde a camada de cascalho é mais espessa. Já as vinhas de Merlot ficam mais próximas ao rio num solo um pouco mais frio com boa presença de argila. No caso das pequenas porções de Cabernet Franc, o solo arenoso com pedras é o mais indicado.

A separação da propriedade com o Chateau Latour se dá através de uma das valas de drenagem do Médoc, Ruisseau de Juillac, onde há um modificação na espessura do cascalho. Léoville Las Cases juntamente com Ducru-Beucaillou são os dois mais reputados vinhos da comuna de Saint-Julien, embora de estilos diferentes.

distribuição das vinhas no terreno

Após esta introdução, vamos ao objetivo do artigo, baseado numa degustação sui generis da ótima safra de 1986. Numa caixa exclusiva do Chateau nesta safra, foram dispostas além do Grand Vin, garrafas separadas de todas as uvas que compõem o blend. São elas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, e uma pitada de Petit Verdot.

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Começando pelo Grand Vin, Léoville Las Cases 1986, é uma safra de 100 pontos Robert Parker com apogeu previsto entre 2030 e 2035. Pela potência de taninos desta safra tão dura, haja vista, o grande Mouton com 100 pontos que parece  não  abrir nunca, este Léoville está bem abordável. Tem um estrutura densa de taninos, mas de ótima textura. Os aromas começam a se abrir pouco a pouco, denotando as notas de tabaco, chocolate, e cassis. Muito equilibrado e uma expansão de boca notável.

varietais e duas garrafas do Grand Vin

Quanto aos varietais degustados separadamente, percebemos claramente que o Cabernet Sauvignon é a espinha dorsal do Grand Vin, fato previsto, já que se trata de vinhos de margem esquerda. A Merlot tem aquele lado macio, afável, que complementa muito bem as arestas masculinas do Cabernet Sauvignon. Já o Cabernet Franc, é um vinho muito mais de aroma que textura e peso em boca. Ele participa sobretudo no blend, dando um toque de elegância. Por fim, a Petit Verdot fornece o tempero do blend. É uma uva tão potente como a Cabernet Sauvignon, porém falta-lhe classe, denotando uma certa rusticidade. Ela funciona mais ou menos como a pimenta em termos de tempero. Na medida certa, levanta o sabor. Contudo, no exagero, pode estragar o prato.

Feitas essas considerações, o blend do Grand Vin fica assim: 66% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 11% Cabernet Franc, e 4% Petit Verdot. Após a degustação em separado dos varietais, começou a brincadeira de composição de blends individuais em proporções variadas. Teve gente que excluiu uma ou outra uva do blend, outros optaram por proporções altas de Cabernet Sauvignon. Enfim, uma experiência divertida.

Dentre as experiências, a mais didática foi compor o blend do Grand Vin na proveta nas proporções indicadas acima, e comparar com o vinho original elaborado no Chateau. Embora a proporção de uvas seja a mesma, ficou claro que faltava uma integração melhor dos componentes do vinho quando mesclamos as uvas na proveta. A explicação é mais que óbvia. Na composição do Grand Vin, os blends são formados logo após a fermentação  que é realizada separadamente das uvas. Passado um período de descanso nos tanques, é realizado o blend e o vinho vai para as barricas. Neste período, há uma integração total do vinho, aparando arestas, enriquecendo texturas e aromas.

No caso de misturar os varietais na proveta que envelheceram separadamente nas barricas e na garrafa, esta integração não fica perfeita. Melhora-se o conjunto, mas a perfeição, a amalgamação total, não acontece.

Notas Robert Parker para os varietais

  • Cabernet Sauvignon – RP 93 pontos (o rei da margem esquerda)
  • Merlot – RP 87 pontos (útil no blend, fraco no individual)
  • Cabernet Franc – RP 90 pontos (a elegância do blend)
  • Petit Verdot – RP 91 pontos (a pitada de tempero para realçar o blend)

Enfim, uma experiência inesquecível, e extremamente didática. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro por mais esta prova de generosidade entre amigos. Saúde a todos!