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Garnacha, Grenache e seus caminhos

7 de Agosto de 2014

Em mais uma degustação na ABS-SP, as várias facetas da Garnacha ou Grenache foram abordadas num painel bem representativo. Esta uva ganhou grande impulso depois que Robert Parker resolveu promove-la em uma notória degustação na Espanha. Normalmente, ela é utilizada para cortes, sendo um dos mais famosos, na região francesa do Rhône, sob as apelações Châteauneuf-du-Pape, Côtes-du-Rhône, Gigondas, Vacqueyras, entre outras. Países como Espanha, França, Itália e Austrália, participaram da degustação, conforme quadro abaixo:

Espanha em destaque

O vinho mais simples da noite mostrou-se em boa forma. Apesar de seus sete anos (safra 2007), apresentava em sua cor reflexos violáceos. Aromaticamente simples, com boa fruta madura, toques tostados e de especiarias. A madeira não incomodava, levemente alcoólico e o ponto negativo; persistência aromática relativamente curta. Este foi o primeiro espanhol, da Bodegas Pablo, com discreta passagem  por madeira.

O segundo exemplar, pessoalmente me decepcionou. Muito evoluído em cor (atijolado). Aromas discretos e claramente terciários. A boca confirma esta evolução, provocando uma secura final. Sinal evidente de fase decadente onde a fruta já se esvaiu. Este era o italiano da Sardegna da vinícola Tuderi. A Garnacha nesta região é conhecida como Cannonau.

O representante francês ficou por conta da famosa apelação Châteauneuf-du-Pape com o Clos d´Oratoire des Papes 2012. Vinho muito jovem, mas extremamente agradável e promissor. Seus aromas sedutores remetem à fruta em geleia, toques florais, de especiarias e ervas aromáticas. Macio em boca, porém com taninos presentes. Deve evoluir favoravelmente por pelos menos oito anos. Este vinho não é um varietal, mas com grande porcentagem de Grenache.

Vinho de grande concentração

Agora começam os destaques com o exemplar acima. Oriundo da região espanhola de Campo de Borja, a sul de Navarra, trata-se de um vinho musculoso. A bodega Alto Moncayo trabalha com vinhas antigas e rendimentos baixíssimos. Foi o que observamos na taça com cores bastante intensas. Aroma potente denotando frutas escuras em compota, toques defumados lembrando fumo de cachimbo, especiarias, cacau e uma nuance de coco. Vinho de corpo, muita estrutura e taninos maciços. Muito persistente e um final agradavelmente quente (16% de álcool). Vinho de estilo moderno e marcante.

Elegância rara

A vinícola australiana Clarendon Hills na região de McLaren Vale elabora grandes Shiraz, como é de se esperar neste país, mas curiosamente também grandes Grenaches de vinhas muito antigas. A destacada amplitude térmica na região é muito bem-vinda para este tipo de uva que costuma gerar vinhos alcoólicos. No exemplar acima, pudemos perceber todas essas influências. Sua cor demonstrava certa evolução confirmada no nariz. Fruta bem madura, toque defumados , achocolatados e de menta, numa paleta muito elegante. Em boca, seu equilíbrio era notável com taninos polimerizados, grande frescor e a característica maciez. Expansivo em boca, não prevalecendo de nenhuma maneira seus 14,5º de álcool. Belo vinho!

Excelente relação qualidade/preço

Neste último espanhol de Rioja da competente bodega Tobelos, tivemos um exemplar raro de Garnacha na região. O grande segredo deste vinho está na idade das parreiras (60 anos) e na localização do vinhedo (Rioja Alta). Normalmente, a Garnacha é cultivada na Rioja Baja, gerando vinhos muito alcoólicos e sem frescor. Na taça, mostrou-se extremamente agradável e marcante. Sua cor intensa e concentrada, além de aromas destacados com frutas bem maduras, toques florais e de especiarias, formam um conjunto harmonioso. Em boca, embora apresente-se agradavelmente quente, sua persistência aromática e sua estrutura tânica, vislumbram um bom potencial de guarda. Já pode ser tomado com uma leve decantação prévia.

Por fim, tivemos o famoso Vin Doux Naturel Banyuls, notabilizado pela perfeita harmonização com chocolates, confirmada in loco. Essas Grenaches são cultivadas no sudoeste francês, região fronteiriça da Espanha, em solos xistosos e de verões abrasadores. O vinho é fortificado a exemplo dos Portos e neste caso, preservado da oxidação. Mostrou-se com uma cor intensa, aromas de frutas passas como ameixas e figos, toques defumados e de cacau (chocolate), além de especiarias. A doçura do vinho estava na medida certa para o chocolate escuro (70% de cacau) e a textura de ambos complementaram-se. Um belo final de noite!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Que Marravilha! Frango com Ameixas e Batata Baroa

24 de Outubro de 2013

Voltando aos episódios do programa Que Marravilha! do chef Claude Troisgros na GNT, vamos apresentar uma receita de frango pouco comum no Brasil e suas possibilidades de harmonização, conforme vídeo abaixo:

Que Marravilha!

A receita passo a passo está no site http://gnt.globo.com/quemarravilha/

Como vimos, a receita envolve vários ingredientes: vinho tinto, açúcar, canela, cravo, anis estrelado, ameixas, frango, bacon, cream cheese, vinagre de framboesa, cognac, cenoura, aipo (salsão), bouquet garni, pimenta, cebola e alho. Uma receita com muito tempero e sabor. Embora no próprio site seja sugerido um Catena Alta Chardonnay (belo branco argentino), não me agrada misturar vinho tinto na receita com vinho branco no acompanhamento. De todo modo, a sugestão não deixar de ser um branco estruturado e rico em sabores.

A minha primeira escolha seria um belo tinto francês do Rhône Sul nas apelações Côtes-du-Rhône Villages, Châteauneuf-du-Pape, Gigondas ou Vacqueyras. Todos baseados principalmente na Grenache, uva de muito sabor e fruta em compota. No entanto, precisamos de vinhos novos, com potência de fruta e um bom suporte de acidez para o prato. As uvas Syrah e Mourvèdre que fazem parte no corte para estas apelações citadas, o famoso corte GSM, com raras exceções, dão estrutura e taninos ao conjunto. Château Montirius da Decanter é um bela pedida (www.decanter.com.br). Tintos do sul da França, Languedoc ou Provence, por exemplo, podem ter vinhos com o perfil acima comentado.

Montirius: produtor biodinâmico em ascensão

Outras versões da Grenache encontradas na Espanha, sobretudo com a menção “Viñas Viejas”, podem ter sucesso com o prato. Na versão italiana na ilha da Sardegna, temos o famoso Cannonau di Sardegna, tinto robusto e frutado. Outros tintos sulinos italianos como Primitivo di Manduria ou  com a uva Aglianico, também demonstram este perfil. Do lado português, um alentejano de boa estrutura e muita fruta costuma ser interessante.

Do Novo Mundo, esta explosão de frutas em muitos tintos é bem-vinda. Contudo, poucos deles apresentam acidez suficiente para o prato. Um Shiraz australiano de Coonawarra (região australiano mais fresca, comentada de modo mais detalhado neste mesmo blog), um Zinfandel da Califórnia mais concentrado da denominação (AVA – área viticultural americana) Dry Creek Valley, ou um Malbec da região mais fresca do Valle de Uco, são opções a serem testadas.

Em resumo, a carne de frango ou aves de um modo geral são bem acompanhadas por Borgonha (tinto ou branco, dependendo da receita). Entretanto, neste caso, os temperos e a riqueza do molho acabam sobrepondo-se à carne, ditando a escolha do vinho.

Para os amantes de cervejas artesanais, as escuras mais encorpadas e com um toque de caramelo, são bem-vindas. Inglesas e belgas têm minha preferência.

Que Marravilha!: Kabsa de Cordeiro

19 de Setembro de 2013

Em mais um episódio do programa Que Marravilha! da GNT, apresentado pelo chef Claude Troisgros, temos uma receita de origem árabe conhecida como Kabsa, ou arroz de carninha. Evidentemente, o chef dá seu toque pessoal com a intrigante carne seca, bem brasileira. A receita e o modo de preparo você acompanha no endereço abaixo:

http://gnt.globo.com/receitas/Kabsa-de-cordeiro–versao-de-Claude-Troisgros-para-o–arroz-de-carninha-.shtml

O prato é envolto em finas fatias de berinjelas levemente tostadas. O recheio é feito com paleta de cordeiro desossada e moída com alguns temperos, inclusive uma infusão de cravos, além do arroz misturado à carne e aromatizado com o caldo da carne seca fervida em água. Para finalizar, a carne seca cozida, resfriada e desfiada é imersa em óleo bem quente, formando uma camada crocante e disposta sobre o prato. Pistaches grosseiramente picados também fazem parte do prato e da decoração.

Kabsa: versão Claude Troisgros

Em termos de harmonização, a carne seca crocante, os temperos da carne e do arroz no recheio, fornecem aromas e sabores marcantes. A berinjela suaviza o conjunto com um leve tostado. Embora possamos pensar numa combinação com vinhos brancos, minha preferência é pelos tintos. Os vinhos mais representativos no Brasil da comunidade árabe são os libaneses. Château Musar (importadora Mistral – http://www.mistral.com.br) e Château Kefraya (importadora Zahil – http://www.vinhoszahil.com.br) são os mais indicados. Dentre os dois, a opção pelo Kefraya é mais indicada, pois neste caso o lado mais frutado casa melhor com os sabores do prato. O château Musar pende para aromas mais evoluídos, com toques animais e defumados marcantes. Voltando ao Kefraya, além do toque frutado, o vinho é rico em ervas, especiarias e um elegante tostado de madeira (amadurecimento em barricas de carvalho).

Saindo do Líbano, as opções do sul do Rhône são as mais indicadas. O famoso corte GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre) são perfeitos para o prato sob as denominações Côtes-du-Rhône, Châteauneuf-du-Pape, Gigondas e Vacqueyras. Tintos da Provence com a predominância da casta Mourvèdre são boas indicações, também. Uma boa indicação italiana é o famoso tinto da Sardenha com a casta Garnacha ou Grenache, conhecido localmente como Cannonau di Sardegna, preferencialmente jovem e com pouca madeira. Da Parte espanhola, Rioja de estilo Joven ou no máximo Crianza podem se dar bem.

Para os vinhos do Novo Mundo, o corte GSM praticado com frequência na Austrália pode funcionar. O grande problema que a maioria destes vinhos possuem caráter dominante em relação ao prato. Um Pinotage sul-africano é um bom teste desde que seja jovem e pouco amadeirado. 

Grupo AdVini: Menu Harmonizado

15 de Outubro de 2012

É sempre bom quando podemos testar vinhos com a refeição. Afinal, eles foram feitos para isto mesmo, acompanhar pratos. Foi o que aconteceu no evento promovido pela Bodega Franca, através do competente e incansável sommelier Ariel Perez, mostando vinhos franceses de várias regiões ligados ao grupo AdVini, grupo este preocupado em promover vinícolas dentro do nobre conceito de terroir. Após breve e interessante explanação, seguimos para as mesas com um menu devidamente harmonizado, conforme descrição abaixo:

  • Ostras Frescas com Molho de Gengibre
    Harmonização: Domaine Laroche Chablis Grand Cru Les Blanchots Réserve de l´Obédience 2007

Ostras com Chablis é uma harmonização clássica. Neste caso, o Chablis estava muito macio e intenso, pois trata-se de um Grand Cru com certo envelhecimento. Talvez o mesmo Chablis da safra 2009 servido como aperitivo, tivesse mais vivacidade e acidez para enfrentar os sabores marinhos da ostra.

Provence: Rosés delicados e de personalidade

  • Tartare de Atum com Foie Gras Grelhado
    Harmonização: Château Gassier – Côtes de Provence – Sainte Victoire 946 – Selection Parcellaire 2011

Uma bela harmonização. Tartare delicado com toques de ervas casou perfeitamente com a textura e elegância deste rosé provençal. O corpo do vinho adequou-se ao prato, promovendo uma sensação de frescor, mantendo o paladar aguçado para a sequência da refeição. Embora o foie gras agregue certa sofisticação ao prato, sua participação na harmonização sobrepujou o vinho com seus sabores intensos e complexos.

  • Rabada com Polenta Cremosa e Mini-Agrião
    Harmonização: Châteauneuf-du-Pape Ogier Clos de L´Oratoire Les Choregies 2010

A intensidade aromática do vinho encontrou eco nos sabores da rabada. Seus aromas de ervas e especiarias enriqueceram o prato e seus taninos dóceis casaram-se perfeitamente com a textura do mesmo. Belo vinho para cozidos intensos como este.

  • Cordeiro com Crosta de Ervas acompanhado com Batata Gratin com Berinjela e Queijo de Cabra
    Harmonização: Château Capet Guiller Saint-Emilion Grand Cru Antoine Moueix 2010

Cordeiro e Bordeaux é outra harmonização clássica. Os taninos do vinho acomodaram-se bem com a textura e suculência da carne. A crosta de ervas reverberou os sabores do vinho e o gratin de batata embora tivesse queijo de cabra, não comprometeu a harmonização. Estava delicado e bem dosado.

  • Noix de Kobe com Batata Rústica, Molho de Shitake e Alho Negro
    Harmonização: Rigal Le Vin  Noir  Cahors 2009

Numa escala crescente de estrutura tânica, este tinto apresentou-se fechado, sugerindo uma boa decantação para sua devida apreciação. Seus taninos potentes foram bem amortecidos pela suculência e marmorização da carne Kobe. O shitake ressaltou o lado mineral do vinho, enquanto o alho negro embora bem mais delicado que o habitual, partilhou de certa rusticidade do vinho no melhor sentido da palavra. Só para lembrar, Cahors é a terra-natal da uva Malbec e normalmente produz  vinhos de agradável rusticidade, bem fiel a seu terroir.

Cahors: as origens do Malbec

  • Cookies de Café com Sorvete de Mascarpone e Creme Brûlée de Especiarias
    Harmonização: Domaine Cazes Cuvée Aimé Cazes Rivesaltes Ambré 1978

Aqui na verdade temos duas sobremesas. O Cookie de Café seria mais interessante com um Rivesaltes novo à base de Grenache Noir denominado Rivesaltes Grenat. Este em questão, um Rivesaltes Ambré, é um vinho fortificado do sul da França denominado Vin Doux Naturel, que sofreu um processo de oxidação intenso no seu amadurecimento, gerando aromas empireumáticos, de frutas secas e mel. Sua combinação com o Creme Brûlée foi bem mais interessante, sobretudo pelo toque de especiarias da sobremesa. Faltou um pouco de untuosidade para o vinho, característica marcante nos belos Sauternes que são parceiros naturais para esta clássica sobremesa.

A refeição foi comentada etapa por etapa com as explicações objetivas e concisas do expert Roberto Petronio, um dos membros do grupo de degustadores do guia La Revue du Vin de France. Embora nem sempre as harmonizações teóricas se realizem na prática, é extremamente prazeroso e didático fazer parte destes eventos. E aqui não vai nenhuma crítica destrutiva ou desanimadora. Pelo contrário, o incentivo e frequência deste tipo de evento é que fazem profissionais, imprensa e clientes se familiarizarem cada vez mais com a enogastronomia, procurando sempre a harmonização mais adequada. Afinal, o mais importante não é acertar ou errar a harmonização. O grande aprendizado é saber o porquê do erro ou acerto.