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Bordeaux 1961: Primeiros Movimentos

16 de Agosto de 2015

Em mais uma reunião de amigos, uma degustação histórica: Grandes Bordeaux da safra 1961. Os desavisados pensarão, cinquenta e quatro anos de vinhos em decadência. Ledo engano, muitos estão no seu apogeu com um longo platô de estabilização. O Château Latour 61 é um mito que está revelando seus segredos agora. Cem pontos consistente de Parker com previsão de chegar bem até 2040.

A safra 1961 foi o grande ano do pós-guerra, só sendo ombreada por outra não menos espetacular de 1982. Foi uma colheita muito pequena por conta de geadas, mas amadureceu com uma concentração e níveis de taninos impressionantes. As sub-regiões de maior destaque foram: Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe e Graves, todas de margem esquerda. Na margem direita, apesar de belos vinhos, não teve o mesmo esplendor que sua rival. Contudo, há exceções como alguns grandes de Pomerol: Petrus, Latour à Pomerol, Lafleur, Trotanoy, todos com cem pontos ou muito próximos.

O Podium da degustação: Latour à Pomerol em Magnum

Antes de chegarmos ao supra-sumo da foto acima, tivemos um longo caminho a percorrer. Como a tarde era de tintos, precisaríamos de um único branco para dar início aos trabalhos. E este branco teria que ser fora da curva. Afinal, só no podium acima temos 300 pontos de Robert Parker consistentes em várias provas documentadas. Para não errar, que tal um Magnum Dom Pérignon 1973 Plenitude três (P3)?. Com mais de trinta anos sur-lies (contato com as leveduras), esbanjou frescor, corpo, complexidade e um equilíbrio fantástico. Persistência notável com notas de mel, brioche, frutas secas e delicadas especiarias. Só para deixar claro mais uma vez, o contato prolongado com as leveduras confere uma proteção ao champagne muito mais estável do que as melhores adegas poderiam fornecer, ou seja, a evolução em contato com as leveduras vai proporcionar uma complexidade aromática ímpar que dificilmente seria alcançada com tempo similar em adega. Só que para esse contato prolongado atingir tal êxito, os vinhos-bases que compõem estas cuvées especiais precisam ser excepcionais.

Dom Pérignon P3: Dégorgement tardio

Momentos tensos na abertura das garrafas. Rolhas extremamente fragilizadas pela idade, embora todas de excelente procedência. Neste caso, o abridor de lâminas paralelas é obrigatório. Mesmo assim, nem tudo é perfeito, conforme foto abaixo. Felizmente, pedaços que se desprenderam das rolhas foram devidamente retirados sem macular os preciosos líquidos. Além disso, as decantações acusaram sensíveis depósitos nas garrafas. Enfim, valeu a tensão.

Muita paciência e sensibilidade a cada rolha

Latour à Pomerol: abertura da estrela da tarde

Olha a cor deste cinquentão

Coube a mim o prazer e a responsabilidade de abrir o Magnum Latour à Pomerol 1961 (um dos sonhos de Robert Parker). Devidamente decantado, numa sucessão de vários 61 de grande categoria. Na foto acima, cor profunda e o depósito separado no fundo da garrafa.

Uma parte da brincadeira

Antes de analisarmos vinho a vinho sempre apresentados e degustados dois a dois, vale a pena comentar a qualidade e ao mesmo tempo a inconstância desta safra para cada château. Como foi dito, os vinhos de margem esquerda levam vantagem de um modo geral, mas há disparidades mesmo entre grandes châteaux de uma mesma comuna, como veremos nos próximos artigos. Em linhas gerais, a safra de 1982 é mais regular e igualmente esplendorosa. Contudo, 1961 produziu alguns vinhos quase inimitáveis como o grande Latour, Petrus, Latour à Pomerol, Haut-Brion, La Mission Haut-Brion, entre outros. Portanto, a escolha do château é de fundamental importância nesta mítica safra de 1961.

Próximos artigos: embate de gigantes dois a dois.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Retrospectiva 2014

2 de Janeiro de 2015

É meus amigos, o tempo passa. São cinco anos de Vinho Sem Segredo! Quase quinhentos artigos! E todos inteiramente dedicados a vocês que leem, aprovam, prestigiam e divulgam. E podem ter certeza que cada frase, cada pensamento, escrito nesses artigos é em primeiro lugar, respeito à sua inteligência, a seu precioso tempo dedicado à leitura, e a todos aqueles que neste mundo do vinho e gastronomia são bombardeados com ideias, pensamentos e afirmações, que promovem um desserviço à arte do bem beber e do bem comer. Como se diz: o Google aceita tudo. E é nesta avalanche das eno-notícias que existem inúmeros artigos insípidos, inodoros e incolores. Pesquisar, elaborar e tentar ser conciso, sem enrolações, não é tarefa fácil. Paciência, consistência, busca pela perfeição, é alguma das coisas que um grande vinho nos ensina, como o da foto abaixo, um dos melhores degustados em 2014.

Um dos maiores Bordeaux da história

Portanto, deixo aqui meus sinceros agradecimentos a vocês na promessa de sempre melhorar, pesquisar, estudar e contribuir para a divulgação e esclarecimentos da enogastronomia. Este blog é e sempre será, isento de patrocínios ou qualquer outro apoio comercial, a fim de garantir de maneira absoluta e tranquila sua total independência na liberdade de expressão e textos. Feliz 2015, repleto de realizações!

Here’s an excerpt:

The Louvre Museum has 8.5 million visitors per year. This blog was viewed about 94,000 times in 2014. If it were an exhibit at the Louvre Museum, it would take about 4 days for that many people to see it. Segue abaixo, um pequeno resumo do blog em 2014.

Click here to see the complete report.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VIII

2 de Novembro de 2014

Neste último capítulo da série, nos despedimos de Bordeaux rumo à Paris. Uma passagem rápida e a volta degustando mais alguns Bordeaux. Antes porém, preparamos o terreno com algumas iguarias, conforme fotos abaixo.

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Caviar e Champagne: Eterno desafio

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King Crab: Sabor diferenciado.

Precedendo a bateria de Bordeaux, que tal Champagne Salon Blanc de Blancs 1999 com caviar e uma carne doce do rei dos caranguejos, King Crab? Confesso que a safra 99 não foi das melhores para a Maison Salon. Falta um toque mais incisivo como a bela safra de 1996, mas sempre divino. O King Crab foi melhor na harmonização.

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Margem Esquerda de raça

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O sempre misterioso Lafite

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Mouton 82: Um dos melhores da história

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Mouton 86: Estrutura de um Latour 61

Pelo quarteto acima, não precisa dizer muita coisa. Um desfile de Premier Grand Cru Classé de safras históricas. 1982 é um ano lendário, o ano que consagrou Robert Parker como um dos maiores conhecedores de Bordeaux na história. Já 1986 é a safra da paciência, sem pressa. Os vinhos podem abrir e fechar várias vezes, mas quem souber esperar, poderá reviver no futuro toda a magia da safra de 1961. Começando pelo Chateau Latour 1982, um tinto de estrutura fenomenal, taninos em abundância e persistência longa. Já o Chateau Lafite 1982, sempre misterioso, feminino, aromas sutis e marcantes. Um tinto admirável. Continuando a luta, Chateau Mouton-Rothschild 1982. Sou suspeito para falar deste vinho. Alia potência e elegância como poucos. Um vinho de legenda. Por fim, outro impressionante tinto, Chateau Mouton-Rothschild 1986. Um mamute, sua estrutura em boca impressiona. Aromas e sabores densos. Difícil prever seu apogeu, mas certamente será um dos grandes Moutons de toda a história. Um grande final de prova nesta bela viagem. Saúde a todos que me proporcionaram estes momentos inesquecíveis, e também aos seguidores deste blog!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VI

29 de Outubro de 2014

Dando prosseguimento à estada em Bordeaux, após o belo almoço em Saint-Emilion, fomos à noite jantar no badalado restaurante de Pauillac, Chateau Cordeillan-Bages, mesmo proprietário do Grand Cru Classe Chateau Lynch-Bages, Jean-Michel Cazes. Como de rotina, muitos pratos e muitos grandes vinhos.

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Safra 1989 bastante acessível

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Páreo duríssimo para seu rival Haut Brion

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Difícil decidir entre os dois rivais

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Safra 1961 esbanjando aromas

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Safra mítica do grande Latour

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Um nota 100 notável

Nesta noite foi a vez dos velhinhos. E que velhinhos! Safras antigas de 55, 59  e 61. Todas altamente pontuadas, mostrando a incrível longevidade dos grandes Bordeaux. A exceção foi o vinho de entrada, Chateau Lynch-Bages 1989. Apesar de seus vinte e cinco anos, não foi páreo para os demais, embora seja um belo vinho. Macio, inteiro, com a força que caracteriza os grandes Pauillacs. Nos aromas lembra o Mouton com toques de torrefação (notadamente o café). O grande problema neste confronto é que está muito novo num painel deste porte. Contudo, tomado sozinho, um tinto que beira a perfeição. Muita vida pela frente. Iniciando agora os “velhinhos”, fica difícil qualquer comparação e descrição dos mesmos. Essas safras beiram a perfeição ou melhor, são absolutamente perfeitas com 100 pontos do rigoroso Parker. Como comparar Chateau Latour 1961, Chateau La Mission Haut Brion 59 e 61, Chateau Haut Brion 61 e o estupendo Chateau La Mission 1955? São vinhos de legenda, de sonhos. Contudo, dentro deste Olimpo, uma menção especial para o La Mission 55. O melhor Bordeaux desta safra com uma vitalidade, aromas impressionantes de rosas, lembrando um Borgonha e uma textura em boca indescritível. Sensacional! O melhor e mais surpreendente vinho da viagem. Já o Latour 61 é um mamute, um vinho indestrutível, uma estrutura tânica fantástica, quase indescritível em palavras. Os La Mission 59 e 61 tem que serem julgados no par ou ímpar. Absolutamente sedutores. No photochart, O Haut Brion 59 ganha por uma cabeça. Enfim, só provando-os para entender o esplendor dos mesmos.

Próximo e último artigo desta série, a viagem de volta com o embate dos grandes Bordeaux da mítica safra de 1982.

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte I

9 de Outubro de 2014

Depois de um hiato na rotina de nossas publicações, começa aqui o relato de algumas degustações de alto nível com amigos na França. O nome desta série tenta reproduzir as sensações e o glamour de alguns mitos da enologia, sobretudo francesa. A primeira degustação começa já no avião com toda a energia e expectativa do grupo, conforme relato abaixo.

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Neste primeiro grupo de vinhos degustados, podemos começar pelo Vieux Chateau Certan 1990, um dos tintos entre os melhores do seleto grupo de Pomerol, embora não haja ainda uma classificação oficial para esta apelação. Um vinho muito bem pontuado, mas que não estava em sua melhor forma. De qualquer modo, muito agradável, apesar de haver garrafas melhores. Aliás, um ditado que vai ser recorrente neste artigo é: ¨Em vinhos antigos, não existem grandes safras. Existem grandes garrafas¨.

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Em seguida, fomos para Pauillac com o belo Chateau Latour 1982. Um dos grandes desta safra e muita estrutura em boca. Nariz ainda um pouco fechado e taninos abundantes. Vai evoluir por algumas décadas e mesmo em seu apogeu, permanecerá por longo tempo.

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Os dois tintos foram precedidos pelo Champagne Cristal 2002 e pelo trio de ferro dos brancos de Beaune: Corton Charlemagne Coche-Dury, Ramonet Bienvenue Batart Montrachet e DomaineMichel Niellon Chevalier Montrachet, todos Grand Crus.

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Produtor excepcional

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Vinho raro do Ramonet

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Muita vida pela frente

O champagne Cristal dispensa comentários, sobretudo numa safra relevante como 2002. Bienvenue do Ramonet é um vinho raro e neste exemplar mostrou um toque cítrico sensacional. Já o Corton Coche Dury estava aberto e extremamente cativante enquanto o Chevalier de Michel Niellon mostrava-se introspectivo. Só após algum tempo, seus aromas e sabores desabrocharam.

Enfim, para um início de viagem, nada mal. No próximo artigo, chegada à Borgonha, Dijon, Côte de Nuits.

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Château-Grillet: A apoteose da Viognier

10 de Junho de 2013

No artigo comentado sobre o estupendo vinhedo francês, Coulée de Serrant, foram mencionados outros grandes brancos da França. Dentre eles, o Château-Grillet, ainda não devidamente comentado “comme il faut”. Assim como Coulée de Serrant, este grande branco calcado na exótica cepa Viognier, goza de apelação própria num vinhedo de apenas 3,8 hectares. Portanto, Château-Grillet está para a apelação Condrieu no Rhône Norte, assim como Coulée de Serrant está para a apelação Savennières no Loire, ou seja, um enclave dentro da apelação mais genérica.

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Garrafa discreta, no atípico estilo alsaciano

Só para nos situarmos, seguem abaixo as principais apelações do chamado Rhône Norte, onde os tintos predominam. Outra apelação famosa por grandes brancos, é Hermitage, baseado nas uvas Marsanne e Roussanne. Normalmente, os vinhos elaborados com a casta Viognier são para ser tomados relativamente jovens, sobretudo pela baixa acidez natural. É o que acontece com a grande maioria dos vinhos sob a apelação Condrieu. Contudo, Château-Grillet parece ser uma exceção. Além do mais, sua elaboração engloba passagem por barricas, proporcionando maior estrutura ao vinho.

Principais apelações do Rhône Norte

A foto abaixo, mostra um vinhedo escarpado, lembrando um pouco a região do  Douro, onde as vinhas são plantadas em socalcos (muros de pedra para a contenção do terreno). As declividades podem ultrapassar os cinquenta por cento, lembrando também os vinhedos do Mosel na Alemanha.

Vinhedo imponente plantado em socalcos

Quanto ao solo (esquema abaixo), temos um subsolo rochoso à base de granito. O solo propriamente dito baseia-se em mica, areia grossa misturada com quartzo e granito decomposto em forma de pedras. Segundo os terroiristas, esta incrível mineralidade é a grande responsável pela longevidade deste vinho, muito mais que componentes como acidez, por exemplo. As vinhas apresentam densidade de pelo menos oito mil pés por hectares, gerando um rendimento em torno de 37 hectolitros por hectare.

Subsolo de base granítica

O vinhedo foi adquirido recentemente (2011) por François Pinault, proprietário do grandioso bordalês Château Latour (Pauillac), até então nas mãos da família Neyret-Gachet. Além do vinho, são produzidos no château duas eau-de-vie: Fine du Château-Grillet e Marc du Château-Grillet. Como já vimos em artigos anteriores, Fine refere-se ao destilado produzido a partir do vinho descartado para o Grand Vin, e Marc é o destilado a partir do bagaço das uvas na elaboração do Grand Vin, semelhante à grappa (italiana). Favor verificar artigo intitulado “Destilados: Marc e Fine Bourgogne.

Vinho e Gastronomia

O vinho, evidentemente, mostra as principais características da Viognier: aromas florais, pêssegos, damascos, mel, e alguns toques cítricos suaves. No envelhecimento, amêndoas e trufas se fazem presentes. Em boca, é um vinho sedoso, macio, acidez moderada, bela mineralidade, e expansivo, necessitando de decantação. Na juventude, faz boa parceria com peixes e carnes brancas acompanhadas de molho agridoce. Já com bons anos em adega, é companheiros de pratos requintados á base de trufas.

O vinho no Brasil pode ser encontrado na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) da ótima safra de 2009. Para aqueles que podem adquiri-lo no exterior, os preços são bem mais atraentes, além de safras já envelhecidas, dificilmente encontradas em nosso país.