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Dal Forno Romano: o que é Valpolicella?

11 de Outubro de 2012

Quando falamos em terroir, abordamos tanto fatores naturais, como fatores humanos. Esses últimos podem ter importância capital, permitindo a frase: “o homem faz o terroir ou o desfaz”. Dal Forno Romano é a grande vinícola na região de Valpolicella que colocou em xeque este conceito. Inconformado com os indiferentes Valpolicellas da região, resolveu mudar esta história quando jovem, moldando vinhos dentro desta denominação com caráter e personalidade. Partindo das mesmas uvas utilizadas (Corvina e Rondinella, principalmente) no grande vinho da região, o venerado Amarone, Romano Dal Forno acreditou que um Valpolicella poderia chegar mais longe, com mais caráter, com mais concentração, com mais alma.

Valpolicella: um Mini-Amarone

O caminho não foi fácil. Pelo contrário, foi bastante desafiador. Era preciso fazer um novo trabalho de campo e posteriormente de cantina para atingir seus objetivos. O mais trabalhoso, que exigiu paciência e principalmente coragem foi promover um forte adensamento em suas vinhas, ou seja, replantar tudo de novo. Sabemos que adensamento em vinhas significa um número técnico de tantos pés por hectare. Um forte adensamento, promove uma competição muito mais acirrada entre as vinhas, aprofundando raízes e buscando sustento em camadas mais profundas do solo. Com isso, obtemos uvas mais concentradas e de melhor qualidade. No caso de Romano Dal Forno, significava partir de adensamentos entre três, quatro ou cinco mil pés por hectare, para números como onze, doze, treze mil pés por hectare. Um dos primeiros impactos sobre o trabalho de campo é a extinção de qualquer tipo de máquina no trabalho dos vinhas, ou seja, tudo deve ser manual. O resultado final na colheita das uvas são rendimentos baixíssimos, em torno de meio quilo de uvas por planta. É bom que se diga, que estes vinhedos estão localizados na região de Illasi, a leste da região de Valpolicella Classico, teoricamente um terroir menos apropriado.

Com esse resultado de campo, Romano dal Forno ainda não estava satisfeito com a concentração da uvas. Respeitando a legislação da denominação Valpolicella, resolveu fazer um breve appassimento nas uvas nos mesmos moldes de um Amarone. Contudo, o vinho deve ser elaborado até o final de novembro. Já para o Amarone, este appassimento dura três, quatro ou cinco meses. De todo modo, obtém-se um mosto ainda mais concentrado. Para se ter uma idéia, de cada 100 kg de uvas, temos de 30 a 34 litros de Valpolicella ou 15 a 17 litros de Amarone. Começa então o trabalho na cantina.

Sala de Barricas

Diante desta matéria-prima de tamanha riqueza, começa o processo de fermentação com macerações intensas e frequentes através de sucessivas remontagens do mosto, extraindo cor, taninos e polifenóis. O resultado é um vinho intenso, estruturado, mas ainda por ser lapidado. Vem aí mais uma inovação, a utilização de barricas de carvalho novas. Alguém advertiu Romano Dal Forno sobre o cuidado com barricas novas por serem um tanto invasivas, sobrepondo  de certa maneira a riqueza aromática do vinho. Romano Dal Forno não deixou por menos e disse: se a barrica invade o vinho é porque o vinho não está à altura da barrica. Portanto, seus Valpolicellas passam três anos em barricas novas de carvalho americano confeccionadas na França.

Quem quiser provar seus vinhos, estão disponíveis na Mistral (www.mistral.com.br), inclusive seu soberbo Amarone. São vinhos realmente impressionantes, cheios de concentração, intensos e extremamente longevos. Quem provar pela primeira vez, certamente dirá: “Isso é Valpolicella?”

Harmonização: Queijo Gorgonzola

21 de Junho de 2012

Continuando nossa série de queijos, vamos falar hoje sobre Gorgonzola, um dos mais reputados queijos azuis, elaborado nas regiões de Lombardia e Piemonte, exclusivamente com leite de vaca. É o terceiro queijo em produção na Itália na categoria D.O.P (Denominazione di Origine Protetta), fazendo concorrência a outros dois grandes queijos azuis: Roquefort (França) e Stilton (Inglaterra).

Gorgonzola: Dolce à frente, Piccante ao fundo

A combinação de queijos azuis com vinhos da região de Sauternes ou vinhos fortificados como Porto por exemplo, é clássica. A força aromática entre vinho e queijo, a combinação de textura entre ambos e os contrapontos entre açúcar e sal, e entre gordura do queijo e acidez do vinho, abrem caminho para uma completa harmonia.

No caso do Gorgonzola, temos basicamente dois tipos distintos de queijo, conforme foto acima. A versão mais picante e visualmente com mais atuação do fungo, e a versão dolce, mais cremoso e menos salgado. Evidentemente, a primeira versão é mais conhecida e comercializada em nosso mercado, inclusive nas réplicas tipo Gorgonzola de vários países. Nestes casos, vinhos doces e com força aromática costumam harmonizar melhor, ou seja, vinhos fortificados (Porto, Madeira Moscatéis, …) ou vinhos de colheita tardia com as uvas Sémillon, Moscatel ou Gewurztraminer. Não vale a pena arriscar tintos, mesmo que potentes, pois os taninos chocariam-se com o sal do queijo, provocando amargor acentuado.

No caso do Gorgonzola Dolce, por ser menos salgado e de aromas menos acentuados, a chance de tintos potentes pode surpreender. Vinhos como Amarone ou Shiraz australiano mais concentrado, apresentam força aromática suficiente e taninos bastante dóceis. Normalmente, são vinhos com alto teor alcoólico que ajuda na harmonização. Como alternativa ao Amarone, podemos partir para uma escolha mais original como Sforzato di Valtellina, tinto lombardo elaborado com a uva Chiavennasca (nome local da Nebbiolo) pelo mesmo processo de passificação do Amarone (vide artigo sobre Amarone neste blog). A importadora Tahaa (www.tahaavinhos.com.br) traz o belo produtor Conti Sertoli-Salis. A boa alternativa australiana vem da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) com a vinícola Glaetzer. Potente Shiraz de Barossa Valley com o nome Bishop, apresenta fruta concentrada entremeada com toques de baunilha e especiarias.

Se a preferência continuar pelos vinhos doces, vários Passiti italianos podem harmonizar bem. Aliás, vinhos elaborados com uvas passificadas são uma especialidade italiana. Do norte, temos o ótimo Recioto di Soave (Anselmi e Pieropan são produtores superlativos). Do sul, só para citar um exemplo, temos o Passito di Pantelleria, já abordado em artigos anteriores. A ilha de Pantelleria pertencente à Sicilia, localiza-se bem próxima à costa africana. De Bartoli e Donnafugata são produtores de referência trazidos pelas importadoras Decanter (www.decanter.com.br) e World Wine (www.worldwine.com.br), respectivamente.

Harmonização: Queijo Grana Padano

7 de Junho de 2012

Elaborado nas regiões italianas do Veneto, Lombardia, Emilia-Romagna e Piemonte, Grana Padano é o queijo de maior produção italiana na categoria D.O.P. (Denominazione d´Origine Protetta – Denominação de Origem Protegida), seguido de perto por seu quase irmão, o belo Parmigiano Reggiano. Ver relação completa dos principais queijos italianos, conforme endereço abaixo:

http://www.clal.it/index.php?section=formaggi_dop

Sua composição admite somente leite de vaca, enquanto sua maturação, segundo o consórcio oficial, é dividida em três categorias (www.granapadano.com):

  • Maturação entre 9 e 16 meses
  • Maturação entre 16 e 20 meses
  • Maturação acima de 20 meses (Grana Padano Riserva)

Textura granulada

Conforme o grau de maturação, o queijo vai adquirindo aparência, odores, sabores e texturas diferentes. Na primeira etapa de maturação, o queijo apresenta cor palha mais esbranquiçada, granulosidade comedida, doçura mais acentuada, aroma intenso, mas delicado; textura menos quebradiça e gordura perceptível. Aqui um Chardonnay com corpo e fruta mais intensa pode equilibrar bem o queijo. Um tinto bem frutado e intenso como um Zinfandel, tinto do Alentejo ou Shiraz australiano, também são boas opções. Os taninos no caso de tintos devem ser bem dóceis. Os tintos, inclusive caem melhor no grau de maturação intermediário, onde os aromas são mais intensos e a textura do queijo mais rija.

No caso oposto, um queijo de grande maturação, a cor é mais acentuada, assim como a granulosidade. Nos aromas, predominam a manteiga, caldo de carne e frutas secas, bastante acentuados. No sabor, a doçura é amenizada e a sapidez aumentada, evidenciando a suculência. Um belo Amarone della Valpolicella é uma parceria clássica, onde seus aromas intensos fazem frente ao queijo, e principalmente o àlcool equilibra a sapidez. Em queijos mais duros como neste caso, os taninos costumam funcionar bem, equilibrando a suculência. Um Nebbiolo (Barolo, Barbaresco, Gattinara, Ghemme, Langhe, …) por exemplo, costuma apresentar esta tanicidade acentuada. É uma outra forma de raciocínio. Enquanto o álcool com seu poder desidradante equilibra a suculência no caso do Amarone, os taninos também cumprem o papel, precipitando a mucina, proteína da saliva responsável pela lubrificação, no caso do Nebbiolo. Neste caso, certifique-se sobre a qualidade dos taninos para não provocar amargor devido ao choque taninos x sal.

Área de produção abrangente no norte da Itália

Como a denominação Grana Padano abrange diversas regiões importantes da Itália, praticamente todo o norte, existem inúmeros vinhos locais que podem harmonizar muito bem, levando em conta o grau de maturação do queijo. Na denominação lombarda Valtellina, temos o Sforzati di Valtellina, o qual em última análise, pode ser considerado o Amarone da região elaborado com a uva Nebbiolo, localmente conhecida como Chiavennasca.

Grandes vinhos da denominação Soave podem eventualmente acompanhar o queijo em sua tenra idade, desde que o produtor seja diferenciado como Anselmi ou Pieropan. Na fase de maturação mais avançada, podemos ter perfeitamente o Recioto di Soave, elaborado com a mesma uva Garganega, sofrendo o característico processo de passificação.

Em resumo, um grande queijo, selando com chave de ouro as melhores refeições italianas.

Vinho em destaque: Allegrini Amarone 2006

24 de Março de 2011

Com o final do verão, os vinhos tintos tendem a ganhar mais força ainda, e para aqueles que gostam de Amarone, o grande tinto do Veneto, a safra de 2006 foi excepcional. Prova disso, é o Amarone do produtor Allegrini, um dos mais reputados em Valpolicella. Seu estilo está entre o moderno e tradicional.

Concentrado e Equilibrado

A safra de 2006 apresentou chuvas na medida e hora certas, ótima maturação fenólica e destacada amplitude térmica (diferença de temperatura entre dia e noite) no período de maturação das uvas, proporcionando um bom desenvolvimento de aromas e preservação da acidez.

Em artigo passado (ver post: Amarone: a DOCG mais esperada), falamos da elaboração do Amarone que envolve o processo de appassimento (período de três a quatro meses em que as uvas ficam secando em galpões arejados). A elevada porcentagem de Corvina (uva local) fornece corpo e estrutura ao vinho. Neste exemplar, temos 80% de Corvina, complementada pelas uvas autóctones, Rondinella e Oseleta.

Este Amarone apresente um cor rubi intensa, sem halo de evolução. Seus aromas ainda um pouco fechados, mostram frutas em geléia, chocolate, alcaçuz e notas de especiarias. Encorpado, intenso, macio e persistente. Apesar de um pouco quente (teor alcoólico de 15,9º), característica bem típica deste tipo de vinho, sua acidez se faz presente com boa presença de taninos bem trabalhados, proporcionando um conjunto harmônico. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. Sua estrutura permite uma guarda de pelo menos dez anos.

Robert Parker confere a este vinho 94 pontos, comparados somente à mítica safra de 1990. Embora Parker goste de vinhos potentes, concordo plenamente com sua nota, podendo eventualmente ter uma margem de erro de dois pontos. Grande exemplar desta denominação. Importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).